Notas iniciais
Duas semanas certinho. Estou em dia... Meninas, já estou bem. Obrigada pelo carinho de vocês!

Edward

— Graças a Deus!

Exclamei aliviado ao avistar o carro de Alice vindo em direção a minha casa.

A lentidão dela ameaçou me irritar, porém ignorei esse sentimento. Minha irmã odiava dirigir, aliás, ela é morria de medo de dirigir. Tanto que só o fazia em raríssimas ocasiões e nunca, nunca mesmo em tráfego movimentado.

Ela não falava do assunto, mas, eu sabia, que aquele trauma era resquício do acidente de tio Charlie e Bella.

— Se demorar eu espero.

Provoquei assim que desceu do carro. Ela somente me lançou “aquele olhar” que até daqui, do andar de cima, seria capaz de derreter uma geleira.

— Idiota!

Eu teria replicado, afinal era isso que irmãos faziam, porém não tinha concentração para o caso.

Assim que ela sumiu de minha visão, já adentrando a casa, voltei a olhar para longe, para a única estrada que ligava a Paraíso à Sonho Azul.

— Já estou aqui, Edward. O que você... Ah, que droga! Você não tomou banho?

Passou pela sala de televisão e chegou à varanda. Seu olhar de indignação para mim era evidente.

— Não, não tomei! Por isso, te liguei tão cedo. Quero que sente-se aqui e não tire a atenção de lá.

Apontei para poltrona e logo em seguida para a estrada.

— Preciso tomar esse banho antes de irmos para a casa da vovó. Então, qualquer carro que passar de volta ou talvez um barulho de avião, me chame imediatamente.

— Você não dormiu.

Afirmou, não dando a mínima para o que eu terminara de falar.

— Grande coisa, nem você.

Apontei para seu rosto cheio de olheiras mal disfarçadas pela maquiagem cara.

— É verdade, e minha cama é testemunha disso. Não a sacada de nossa casa. Você passou a noite toda aqui olhando para a estrada?

Sem paciência e tempo para interrogatórios, apontei para ela.

— E o que você queria, Alice? Que eu dormisse enquanto Bella e meu filho somem outra vez? Não! Não vou dar a chance ao azar de novo.

— Você precisa parar e pensar nos seus atos, Edward. Está agindo como um maníaco psicopata. É assim que quer se mostrar para seu filho? É assim que quer que Bella pense que mudou? Por Deus! O que está fazendo, irmão? Eles não vão embora. O padre falou. Vieram pela vovó e permanecerão aqui até que ela precise.

— Quem me garante? Vovó precisava deles naquela época e não pensaram duas vezes. Por favor, irmã. Você não! Não me tomes por um louco. Não é possível que não tenha sentido nada quando viu Jasper e Bella?

Esfreguei com força os cabelos, deixando que lágrimas de desespero escorressem por meu rosto.

— Eu tive meu filho nos braços, Alice. O meu filho! A coisa mais preciosa que fiz na vida, mesmo sem saber. Tive a mulher que amo e desejo a um metro de mim. Você não tem noção do que o cheiro dela fez comigo. Não tem noção do esforço Hercúleo que fiz para não pegá-lo, a força, e trazê-los para cá.

Eu quis. Deus, como eu quis! Então, não me diga que não estou pensando, porque estou muito consciente dos meus atos. Não vou fazer besteira, eu cresci, Alice. Mas, não pense que vou pedê-los de vista. Isso está fora de cogitação.

Terminei o discurso aos gritos. As lágrimas continuavam a descer. Ela permanecia estática me encarando atordoada.

— Quer saber? Perdão! Eu não devia ter pedido sua ajuda. Vá para casa! Às vezes me esqueço que também sou culpado pela sua infelicidade. Vá, irmã! Eu me viro aqui.

Dei-lhe as costas e caminhei para dentro de quarto de casal, eu me recusava a chamá-lo de meu. Era o nosso quarto. De Bella e meu.

— Ed...

O baque do corpo diminuto se chocando a minhas costas me fez parar.

Ela me rodeou com os braços e descansou a cabeça bem abaixo de meus ombros.

A voz embargada me garantia que chorava.

— Desculpa, desculpa, irmão. Estamos à flor da pele. Não sei o que fazer também. Jasper não me olhou, Bella muito menos. Esperamos tanto por esse momento e agora... Não sei o que fazer. Estou com medo. Não me deixe sozinha, não me expulse. Não se feche para mim também, irmão. Somos um pelo outro, lembra? Só nós dois.

Exausto, respirei profundamente, me virei e a abracei. Os olhos voltaram para a estrada.

Eu me recusava a lembrar tudo que passamos nos anos de abandono antes de Esme e Carlisle Cullen transformar nossas vidas.

— Tudo bem, irmã. Vamos dar um passo de cada vez. Eles terão que falar conosco em algum momento. Duvido que consigam segurar o furacão Antony.

Um sorriso despontou de mim ao pensar no garotinho tagarela que já ganhara meu coração.

— Ele é perfeito, não é? Tão bonito! Parece tanto com você.

Ela também sorriu. A discussão d’agora a pouco completamente esquecida.

— A aparência é minha, a inteligência é de Bella e o humor é de Emmett. Estamos perdidos, irmã. Ele será o terror das garotas quando crescer.

— Não, irmão. Não vá por esse caminho. Se Bella imaginar que você já está pensado nas namoradas do filho dela, as coisas ficarão mais complicadas ainda.

— Nem pensei nisso.

Fiz sinal de zíper lacrando a boca.

Agora sente-se ali, aproveite essa vista, que é o encontro da Paraíso com a Sonho Azul. Vou me arrumar e em três minutos estarei de volta. E Alice?

— Eu sei, irmão, eu sei. Carro ou barulho de avião, te chamo imediatamente. Tome seu banho tranquilo, Ed. Gaste mais do que três minutos porque não precisamos que seu mau cheiro chegue primeiro que você.

— Te amo, Lice. Nós vamos conseguir. Só precisamos começar por algum lugar, pelo começo.

Beijei sua testa, ignorando que ela tapava o nariz e se abanava com a mão por causa da minha aproximação, e encarei aqueles olhos verdes tão iguais aos de meu filhote.

— Também te amo, Ed. Nós vamos conseguir sim. Seremos felizes, irmão. Posso sentir isso.

E que os Anjos digam Amém. Pensei...

Bella

— Tá bom, mamãe, você já me “explolou” bastante hoje. Agora “selá” que já podemos “palar”? Tô com um “muitão” assim de fome. E vovô disse que vai ter carne assada lá no “amoço” da bis-vovó.

Não acreditando no que ouvia, terminei de passar a escova no pêlo do cavalo de Jasper, coloquei o corpo de lado e observei “a pequena cria atrevida” que eu colocara no mundo, abrindo os bracinhos e sinalizando algo muito grande.

Prestei atenção também que ele estava trocando mais ainda os “Rs” por “Ls”. Eu precisava, urgentemente, encontrar uma nova psicóloga e fonoaudióloga para ele.

— Ok, seu trabalhador. Vá para dentro e peça a tia Leah que te ajude. Depois pode ir com eles. Vou me atrasar já que meu ajudante está preguiçoso e fazendo corpo mole.

— Hunf, não “tô pleguiçoso”. Só cansado. Pulei “muitão” ontem. E não “quelo” ir com o tio Memmett. “Quelo” ir com você, mamãe.

O “tio Memmett” veio acompanhado de um cruzar de braços e um biquinho de emburro. Estava ali, alto e claro, o ciúme. Explicava também o porquê dele estar trocando mais as letras. Estava regredindo, como a psicóloga antiga disse que faria.

Quanto mais a gestação de Leah avançava, mais Antony demonstrava sua insegurança e medo de perder seu lugar. O “tio” em vez de “papai” era prova disso. Ainda mais quando minha cunhada estava por perto.

— Tudo bem, filhote. Vá andando. Já deu por hoje, você me convenceu. Só vou guardar essas coisas e te alcanço.

Ele me olhou inclinando a cabeça para a esquerda e não se convenceu.

— Vou te ajudar, mamãe. Ainda tenho um pouquinho de “folça” para isso.

Sorri segurando o balde enquanto ele pegava, na bancada, os inúmeros matérias que usamos para lavar os cavalos premiados.

— Sabe, mamãe, quando eu “quecer e ficá” rico, igual o vovô Charlie, “plometo” que vou “contlatá” uma gente, só “pala juntá” nossas bagunças.

— Ah, mesmo? Fico feliz em saber que me inclui em seus planos. Mas, agora fiquei muito curiosa: o que vai ser quando crescer? Qual a profissão que te deixará tão ou mais endinheirado que o vovô?

Fazendo aquela expressão de sapeca e manha, estendeu os braços pedindo colo, assim que deixamos as coisas no depósito.

O Trajeto das baias até a casa grande era pequeno, mas ele, quase nunca, o fazia andando. Sempre pedia colo.

O peguei, sem pestanejar. Antony estava pesado, mas eu aproveitaria enquanto podia, sabia que logo, logo perderia essa alegria. Ele estava crescendo rápido demais.

— Hum, ainda estou pensando, mamãe bonita. Mas...

Segurou meu rosto com as duas mãozinhas e beijou entre minhas sobrancelhas, exatamente como eu sempre fazia com ele.

— ...Acho que vou ser um “advogato” ou então peão de rodeio.

Sem me conter e segurando-o com mais cuidado, enquanto caminhávamos, gargalhei alto.

— Então quer dizer que acordo as cinco da manhã e durmo a meia noite, todos os dias, para garantir o futuro de um peão de rodeio?

— Acho que não, mamãe. Vovô diz que você “acolda essa hola polque é temosa”. Titio Memmett fala que é “polque gosta de sofler”.

Tampou a boca com as duas mãozinhas, assim que percebeu o que tinha dito, repetindo o gesto que encantara Edward ontem.

— Ah, seu papagaio danado. Essa sofredora aqui vai te ensinar boas maneiras esquentando esse seu bumbum com umas boas palmadas.

— Não, mamãe. “Pala”! Eu “tavo blincando”.

Correu para dentro quando o coloquei no chão. Segui atrás.

Suas risadas ecoavam quando entramos em casa e ele parou de súbito, quase me fazendo cair por cima dele.

Emmett estava sentado no sofá pequeno, com Leah em seu colo. Ele alisava a barriga dela com cuidado e carinho.

Era lindo de se ver! Até eu, me senti um pouquinho enciumada. Não tive aquilo.

— Do que estão brincando? O que é tão engraçado? Quero participar.

Antony logo desviou o olhar deles e caminhou para o seu quarto.

— Não “távamos blincando”. Te “espelo no banheilo”, mãe.

— Ei, vou te ajudar. Me espere!

— Você não! A mamãe me ajuda.

Bateu os pezinhos e nem olhou para trás quando Emmett se prontificou.

Imediatamente meu irmão me olhou chateado.

Dei de ombros.

— Vai passar, Emm. Ele só precisa se acostumar.

— Talvez devêssemos evitar maior contato quando estiver por perto ou...

Revirei os olhos para a ideia de Leah.

— Talvez devessem parar de se preocupar com ele. È uma criança. Precisa se acostumar e aprender a dividir.

— Não gosto disso, Bella. Precisamos procurar ajuda.

— Vou fazer isso, irmão. Deixa só passar essa loucura de inauguração da loja.

— Mamãe! “Tô” mofando aqui.

Gritou, abusado, do quarto.

— Vou lá.

Beijei o rosto de Leah e alisei sua barriga.

— Quer que esperemos?

— Não precisa. Só vou nos livrar do cheiro dos cavalos e já vou. Peça à vovó que guarde uma carninha para Tony.

— Como se ela fosse deixar que comêssemos sem você. Talvez e só talvez dê uma provinha a Leah.

— Verdade. Ela ama mais a mim do que a você.

Soprei um beijinho para eles e saí à procura de Antony.

Um frio na barriga se instalava em meu ser. Sabia que iria encontra algum Cullen na casa de vovó Marie. Eles também almoçavam lá aos domingos.

E mesmo que tivesse feito um esforço grande para fingir que o encontro de ontem não me abalara, agora seria mais complicado...

Era tudo mais íntimo, só família. E não daria para fugir de um reencontro.

Porém, não me deixei intimidar. Estava me preparando para isso há muito tempo. Me sairia bem.

Tinha que estar firme para Jasper, porque ele estava firme para mim.

Mas, por Deus! Ver Antony nos braços de Edward me causou algo.

Em meus doces sonhos quis demais que fôssemos uma família. Desde criança idealizava Edward como pai dos meus futuros filhos. E ver aquilo ali... Bem ao alcance de meus dedos.

Mãe de Deus!

Foi doído. Sofrido. Era como se a vida esfregasse em meu rosto o meu sonho bem longe da minha realidade.

— Mamãe, pode passar o “xapu” no pé?

Voltou a gritar, meu pequeno. Trazendo-me para a realidade. A amarga realidade de uma mãe-solteira que fora sempre humilhada pelo ex- namorado.

— Claro que não, seu desperdiçador. No pé usa-se sabonete, xampu é só para esse cabelo rebelde. Já lavou as orelhas?

Passei pelo quarto e segui para meu banheiro que era onde ele se encontrava, sentado no chão e com espuma por todo lado. O chuveirinho jorrava para as paredes.

— “Clalo” que não, mamãe! Titio Jas diz que vai nascer pezinho de feijão nas minhas “olelhas” e eu amo feijão, mamãe. Tenho que ajudar na “plodução”.

Ai Deus! Eu o mataria de tanto apertar e dar muito beijinhos. Antony fora a melhor escolha que já fiz.

Eu não queria Edward? Pois é, eu tinha um só para mim.

— Ah, seu porquinho. Vamos tomar esse banho para a bis-vovó te achar mais lindão ainda.

— Impossível. Eu já sou lindão demais.

— Ahhh, seu sapeca!

Fiz cosquinha o distraindo, enquanto enxaguava seu cabelo e evitava uma enxurrada de lágrimas.

A quem eu queria enganar? Queria que ele estivesse arrumadinho era para que os Cullen olhassem, de longe, e admirassem. Só assim teriam certeza de que não precisávamos deles.

Edward

— Se preparem. Dona Marie não nos receberá com flores.

Disse Esme quando paramos na porta da casa de vovó.

Esme e Carlisle haviam se juntado a nós assim que Alice e eu saímos de minha casa. Eles passariam por aquilo conosco.

Graças a Deus, Rosálie não havia vindo.

— Eu quero é novidade, querida. Há anos ela já vem nos culpando pela partida de seu irmão.

Carlisle levantou a mão e bateu na porta grossa de madeira, para logo depois voltar para trás de Esme e segura-la pela cintura.

— Eu sei, mas não queremos agravar a situação. Por isso, se comportem. Mamãe fará tudo o que Charlie quiser. E no momento em que a situação ficar fora de controle, nós nos retiraremos. Não viemos para causar transtornos. Viemos em busca de paz e reconciliação. Lembrem-se disso.

Disse a ultima frase aos sussurros já que a chave rodava na porta, pronta para ser aberta.

— A porta estava destrancada, querido. Vocês poderiam tem entrado e...

Vovó parou de falar ao perceber que não era quem ela esperava na porta.

— O que querem?

Perguntou brava sem arredar um milímetro para que entrássemos.

— Bom dia, mamãe. Viemos almoçar com a senhora, como fazemos todo domingo.

— Não, não vieram. Vão embora!

Ameaçou fechar a porta, porém Esme a segurou e forçou um pouquinho sua entrada.

— Mãe, meu marido, minha filha e eu estamos com a senhora todos os domingos. Nunca a abandonamos, mesmo quando está em seus piores dias de rabugices. E hoje não será diferente.

Ela não se deixou abater, continuou com a expressão fechada e me encarou de cima abaixo.

— Ele raramente vem. E deixe de hipocrisia, filha do seu pai. Vocês não vêm por minha causa. Vêem em busca de notícias. E eu nunca as dou. E hoje não poderia ser diferente. Já sabem que Charlie e a família estão de volta, não é? Veio a procura deles. A quem pensa que engana? Conheço vocês muito bem.

— Vovó, por favor. Nós queremos mesmo nossa família de volta. Estamos aqui, em um território neutro. Só queremos conversar.

Alice tentou. Sabia o poder que tinha sobre vovó Marie. A velha senhora amava minha irmã como amava Isabella.

— Aqui não é território neutro, Alice. Nunca foi. Vocês cometeram erros terríveis e não pensem que serei conivente com isso. Querem ficar? Fiquem! Mas, saibam que Emmett e Charlie estão prontos para o ataque e que Isabella não é a mesma que conheceram. Querem ver com seus próprios olhos? Fiquem a vontade.

Desencostou da porta e saiu caminhando para dentro da casa. A seguimos.

— Eu cometi erros, vovó. Não condene meus pais e minha irmã. Prometo à senhora que pagarei qualquer preço para consertar isso. Só me dê à chance. A senhora pode. Conheço seu coração, nos acolheu quando precisávamos disso. Por favor, vovó? Se não venho mais, é porque sou fraco e não consigo olhar para aquela mesa sem ver Bella ali... Perdoe-me, vovó?

Não sei se foram minhas palavras ou a aproximação com a cozinha, que a essa hora devia ter funcionárias correndo com os preparativos do almoço, só sei que ela parou e me olhou, agora com expressão mais contida.

— Não sou eu a quem deve pedir perdão...

Passou a mão pelos cabelos grisalhos, alisando-os. Como se tivesse algum fio fora do lugar. Porém estava tudo impecável ali. O coque firme e forte como ela adorava fazer em ocasiões especiais.

— E quanto a meu coração, ele sempre foi defeituoso, não é confiável. E nunca diga que os aceitamos ou os acolhemos. A gente não escolhe amar, Edward. Acontece! Para alguns acontece assim, do nada...

Estalou os dedos.

— Para outros, é preciso apanhar para se entender. Infelizmente conheço os dois casos.

Instintivamente olhou para as fotos em cima do aparador e uma se destacava: Alice e Jasper, Bella e eu, num dia entre tantos que passamos na varanda dos Swan’s.

— Mãe? Chegamos! Já sinto um cheiro bom. O que está escondendo de nós aí? De quem são os carros estacionados aqui de frente?

A voz alta de tio Charlie se fez ouvir da sala.

— Droga! Agora é tarde demais. Pelo amor de Deus, se comportem. Vou tentar segurar e amenizar onde puder. O resto é com vocês. Vão lá para fora. O almoço será servido na mesa da varanda da churrasqueira.

Olhou para Alice com ar de piedade e compreensão.

Imediatamente fizemos o que nos mandou respirando aliviados por não ter nos enxotado a vassouradas.

— Vamos.

Seguimos Esme pelo corredor lateral, evitando a cozinha e o comprimento com os funcionários, o que nos delataria antes do tempo.

— Sentem-se e ajam com naturalidade. Deixe que eles dêem o primeiro passo, seja ele qual for.

Carlisle nos orientou.

Alice e eu sentamos lado a lado, um sustentando o outro. Esme e Carlisle nos ladearam. Como escudos protetores.

Até ontem eu não entendia essa situação, esse perdão mudo, essa proteção excessiva.

Porém, foi só colocar os olhos em Antony, tê-lo nos braços para entender exatamente o que faziam.

Não há nada no mundo que não faria por ele.

— Allie, onde compro um pula-pula daqueles bem grandes, quase que profissional?

Cochichei esfregando uma mão na outra e desviando o olhar dela da porta de vidro que ligava a casa a varanda.

— O quê?

Virou-se para mim não acreditando no que acabara de ouvir.

— Antony ontem, queria pular naquela coisa. Quero comprar um lá para casa. Quero dar tudo o que ele não tem. Se é que existe alguma coisa.

— Deixe só Bella ouvir você dizer essas coisas. Vai te matar por mimar o filho dela.

— Nosso filho. Eles podem o chamar de filho dela, não os condeno. Agora você não. É minha Irmã. Seja solidária a mim.

Continuamos sussurrando.

— Eu sou. Desculpa. Mas, sinceramente? Não sei onde se compra essa coisa. Preciso investigar. Ele não quer mais o de criancinha?

— Está tão grande. É tão inteligente. Você precisa ver como se encaixa nos meus braços.

O pensamento me fez sorrir. Era a minha melhor lembrança em anos.

— Eu vi. Ele...

— E quem são essas companhias, mamãe? Presumo que seja algum amigo antigo agora que Forks inteira sabe que estamos de volta e...

Tio Charlie nem bem tinha entrado no lugar onde estávamos, quando abruptamente parou se dando conta de que éramos nós.

Tia Renée, que estava a seu lado, não pareceu tão surpresa.

Já Emmett e Jasper eram uma incógnita.

— Ahhh, dona Marie! Eu esperava uma traição de qualquer pessoa, menos de você. Se os queria aqui era só ter nos dito. Não teríamos nos dado ao trabalho de sair de casa. Vamos! Ainda dá tempo de pegar Bella na estrada. Evitará o constrangimento para ela.

Virou-se pronto para sair. Porém, vovó barrava a saída. Estava parada bem no meio da porta.

— Olha lá como fala comigo, rapaz. Se acha que não sou capaz de te dar educação só porque está grande e com sua família, lamento te desapontar. Faço os peões te segurarem e esquento esse seu “lombo”. Não os traí. Esses aí aparecem para almoçar aos domingos. E que mãe e avó eu seria se lhes negasse um prato de comida?

Vovó Marie era pequena, e com a idade a coluna a fez se encurvar uns bons centímetros para frente. Contudo, em nada, nem com seu coração fraco, parecia frágil. Sua palavra era ordem, sempre fora. Ou melhor, desde que eu a conhecera.

— Não nos peça isso, mãe. Bella não precisa passar por isso.

— Não precisa passar pelo quê? Conviver com os tios e a prima? Ou suportar o pai do filho dela?

Bateu o pé no chão de forma irritada e esperando que alguém a enfrentasse.

Todos os outros seres, com juízo naquela sala, ficaram em silêncio. Era uma briga de temperamentos grandes.

— Não estou vendo o pai do filho dela aqui. Aliás, Antony já tem os pais que precisa. Te amo, mãe. Estamos aqui pela senhora. Mas, não vou forçar minha filha a passar por isso. Ela já sofreu o bastante.

— Charlie...

Esme o chamou trazendo de volta toda atenção para nós.

— Por favor, irmão. Não estamos aqui para brigar. Só queremos ter a oportunidade de reconstruir nossa família. Sonhamos com isso. Eu sonho com isso. Tenha piedade, Char...

Devagar, tio Charlie se virou para minha mãe. E por segundos pude ver todo sentimento que os unia. Os olhos dele passaram por ela, por meu pai, por Alice e finalmente... Por mim. Onde foi que todo sentimento bom voltou a ser tomado pela escuridão. O problema era eu.

— Nós já temos uma família. Somos completos. Não precisamos de vocês. Se querem ficar aqui curtindo esse teatrinho, que fiquem. Eu vou para casa impedir Bella de passar por isso.

— Emmett está certo! Lamento minha sogra. Em outra oportunidade voltaremos.

Renée seguiu Emmett e a esposa. Charlie continuava encarando minha mãe.

Jasper olhava Alice. Porém, não havia um pingo de sentimento ali. Era como se dois estranhos se encarassem.

— Emmett, mamãe, parem! Antony está empolgadíssimo com esse almoço. Não podemos o decepcionar mais uma vez. Ele está sendo tão forte. Mudamos sua rotina, tiramos seus amigos, seu lugar e sua zona de conforto e ele se comportou como um adulto. Vamos fazer isso com ele de novo?

Jasper encarou o irmão. E foi palpável que se falavam somente pelo olhar.

— Você está certo, irmão. Mas, o recompensaremos de outra maneira. O que não podemos é forçá-lo a conviver com eles. Ele não precisa de um pai “de merda”.

— E não terá!

Pronunciei-me pela primeira vez. Emmett me olhou com deboche.

— Olha! O projeto de médico ainda fala.

— Mas, continua sendo o mesmo, quando fala sai besteiras. O que estou fazendo? Vamos para casa. Ele acaba de dizer que não quer o “pequeno destruidor”.

— Não, Jas! Espere! Não foi isso que eu quis dizer. Lamento ter me interpretado mal.

O som de minha voz e o suspiro de Alice o fizeram parar e se voltar para mim, que agora já estava de pé também.

— Eu quis dizer, que sei o que fiz, e realmente lamento cada segundo por isso. Sei que não sou digno de confiança, nem de um pouco de dúvida boa. Porém, eu prometo, ou melhor, eu juro, que aceitarei qualquer coisa que Bella quiser. Sei que está fora de cogitação para ela, me aceitar como pai de Antony e aceito isso...

— Quê? Edward o que está falando?

— Não, mãe. Cale-se!

Estendi a mãe em direção a ela. Era hora de começar a brigar minhas próprias lutas e aceitar os castigos que a vida estivesse pronta para me dar.

— Não vou impor nada. Bella fará somente o que sentir confortável. Ela sabe. Criou Antony até hoje sem mim, sei que não precisa que eu esteja presente agora. Eu só peço que não nos prive de pelo menos vê-lo. Só quero ter o direito de poder olhar para ele, conversar... Prometo não impormos nada.

E se algum dia, algum dia, perceberem que somos dignos e que podem contar a ele quem somos. Será o dia mais feliz de nossas vidas. Só por favor, não nos prive disso. Não privem minha mãe, meu pai e Alice se serem avós e tia. Eu cometi os erros, me punam, eles não...

— Hummm, essa “palavla” é nova, mamãe. O que é “puni”? E “pol que” o homem “estlanho tá cholando”? Ele conhece a bis-vovó? Veio “comê carninha tabém”?

Notas finais
Faça parte da campanha: Um Antony para chamar de seu. Kkk.