Quando o passado não te deixa viver

8 É assim que nasce uma Fênix- Parte II


Notas iniciais
Eu não disse que voltava no feriado? Eis que aqui estou. Bom, esse capítulo marca o fim da primeira fase. De agora em diante a fic volta para o presente. Vem Antony!!! Saudades! A fic foi criada a partir desse capítulo, então, ele é muito importante. E totalmente dedicado a Bruh que me recomendou. Uma recomendação linda que me fez ficar emocionada e muito feliz. Muito obrigada pelo carinho. Então, vamos lá... Prestem atenção...

Alguns anos atrás...

Edward

Olhei mais uma vez para o relógio e, instintivamente, para o portão.

Nada! Ninguém!

Mais um dia em que Emm, Jas e Isabella não apareciam na universidade.

Desde o nosso término... Desde o seu desaparecimento... Desde que tio Charlie a pegara no colo, exausta, e colocara meu pai, minha mãe, Alice e eu para fora de sua casa.

“- Alguém suma com esses Cullen’s daqui. Eles já fizeram o bastante por uma vida”.

Foram as últimas palavras dele direcionadas a nós, aos gritos, diga-se de passagem, quando passou pela porta com Bella em seus braços.

E Emmett, dando vazão a um desejo de anos, não perdeu tempo. Segurou a porta e a bateu com violência assim que, desconfiamos que não éramos bem vindos, e saímos.

Alguém pode julgá-los por esse ato?

Nem vovó, nem Jasper se solidarizaram com nossa expulsão. Afinal, um Cullen ferira um Swan. Isso era inaceitável, mesmo que não fosse proposital.

Família protege e defende família, sempre...

Carlisle quisera me matar quando descobrira do que fui capaz. Já Esme, bom... Eu nunca a vira tão decepcionada comigo. Geralmente eu era seu orgulho. O filho que seguiria seus passos.

— Eles não vêem de novo, Edward. Será que Bella piorou?

Alice parecia um bichinho acuado, ao meu lado. A dor dela estava estampada em suas olheiras.

Jasper não a atendia, Isabella não a atendia. Estávamos totalmente alheios ao que quer esteja acontecendo na Sonho Azul.

A única certeza que tínhamos é que Bella não tinha ferimentos físicos, pois Esme descobrira que tia Renée desmarcara qualquer atendimento e cirurgia programada para ficar com a filha, em casa.

Bella não precisou ser internada. Graças a Deus!

— Vocês são patéticos.

— Ed, esquece “esse povo”. Vem, vamos entrar. Você está perdendo tempo e conteúdo. Há uma semana está alheio a tudo que se passa.

Segurei a ponta do nariz e pedi paciência aos céus.

— Pela última vez, saiam daqui.

Rugi minha fúria para Rósalie e Tânia.

Nem me importei se a amiga de minha irmã tivesse um pouco de razão: eu nem abrira a mochila na última semana.

Porém, isso não importava. Eu precisava ver o sorriso sapeca de Isabella, eu precisava saber que ela estava bem, antes de retomar minha vida.

— Não fale assim com Tânia, Edward. Você precisa dela.

Fechei as mãos em punho e trinquei os dentes, contando até 10 antes de pegar no pescoço daquelas duas.

Elas não conseguiriam mais...

Há um mês, logo depois que Isabella e eu “transamos” a primeira vez, sei lá, prevendo que decidira que, se Isabella mudasse, eu vislumbrava um futuro para nós, Tânia mudara totalmente sua forma de atuação, com a ajuda de Rósalie claro.

Ela não mais só se insinuava. Ela me chantageava também.

Sabia o quão desejava fazer residência no hospital de sua família e usava isso para conseguir o que sempre quis... Que Isabella e eu terminássemos. Porque só assim, segundo ela, teríamos uma chance.

E eu cedi. Como um idiota! Como um garoto mimado que quer porque quer o seu desejo realizado.

Afastei-me de Isabella totalmente. A ignorei o quanto pude e até a machuquei quando foi possível. Queria que ela acabasse com aquilo.

Sou tão covarde que sei que não seria capaz de fazê-lo.

Porra! Eu gostava dela. Mas, a quem quero enganar? Ela não serve para meu mundo.

Pobre menino bobo e iludido eu fui.

Quando cheguei ao limite da babaquice, dei o golpe fatal exigido por minha irmã e sua amiga, terminei...

Pude ver o quanto magoei a menina- mulher que habitava meus sonhos. Tirei seu chão.

Contudo estava envolvido demais no mundo ordinário de Rosie e Tânia. Sabia que as duas aprontavam. Sabia que enviavam fotos e vídeos para Isabella, insinuando uma traição. E mesmo sabendo o quando aquilo a feria, não impedi. Como disse, eu queria que ela terminasse.

Mas ela não o fez. Respeitou meu tempo, perdoou sem que eu pedisse, me amou quando eu não merecia.

E nem assim acordei. Continuei no meu mundo egocêntrico, medíocre.

Quando por fim, cedendo aos caprichos daquelas duas, dei o golpe final: terminei com Isabella, com a pior das desculpas, deixando fluir em mim, o que existe de mais baixo num ser humano: o ser impiedoso.

E mesmo assim Tânia achou pouco, se jogou em mim e grudou sua boca na minha. Foi o fim de cinema.

E mesmo que eu a tenha afastado quando percebi o que fazia, era tarde demais. Isabella havia presenciado.

Eu a machucara da forma mais cruel que podia.

E nem assim, fui capaz de corrigir a besteira que fiz. Não corri atrás dela, não implorei seu perdão. Nem mesmo me preocupei, de primeira, quando soube de seu desaparecimento. “O meu umbigo era mais importante”.

Só comecei a cair na real quando Isabella apareceu: abatida, machucada, desprotegida. Ela estava tudo, menos a menina sapeca que eu conhecera. E eu era o culpado.Sabia que havia matado algo nela naquele dia.

Por isso, ansiava para que voltassem logo à universidade. Tio Charlie proibira nossa entrada na Sonho Azul, mas ali seria diferente. Imploraria seu perdão. Ela mudaria de curso. Eu faria residência no hospital de nossas mães e começaríamos um relacionamento de verdade.

— Eu preciso que saiam daqui, Rósalie. Tenho que desenhar para que entendam que não são bem vindas? Desapareçam! Ou não me respondo por mim.

— Ai, Ed. Ta todo nervosinho e...

— Não me toque! Nunca mais. Tenho uma namorada, Tânia.

Falei alto, atraindo atenção para nós, e mesmo assim arrancando as garras dela de meu peito. Ela não podia me tocar, não mais. Só Isabella podia.

— Vem, Tânia. Vamos dar o fora daqui. Esses dois se merecem e merecem aqueles “pés rapados” mesmo.

Vendo meu estado de nervos, Rósalie agarrou o braço da amiga e a puxou para longe.

Respirei aliviado e voltei minha concentração para minha irmã.

Alice estava petrificada em seu lugar.

— Eles vieram. Eles...

Olhei para longe onde uma camionete branca passava e estacionava do outro lado, bem longe do meu carro, bem longe de nós...

— Eles... Bella não veio. Jasper... Ele...

Alice não foi capaz de se expressar.

Porque a amiga não havia aparecido e porque seu namorado nem olhara para trás.

Emmett? Nem se fala...

Eu conseguira, batera o recorde... O maior babaca de todos os tempos.

Bella

— Bella? Filha?

Ah não! Fechei os olhos e respirei fundo pensando, seriamente, em fingir que dormia.

Ignorei a ideia quase que imediatamente. Quem vinha a meu encontro era Charlie. Ele me conhecia. Sabia que não estaria dormindo em pleno dia de semana, ainda mais às 10hs da manhã.

Ele me conhecia...

— Oi, pai.

Quando parou na porta do quarto e viu que, apesar de ter tirado o pijama, eu não havia me levantado, o vinco proeminente, que se formava entre suas sobrancelhas quando preocupado, ficou duas vezes mais evidente.

Eu odiava o que estava fazendo com eles.

— Não desceu para tomar café conosco de novo. Está tudo bem? Sente-se melhor hoje?

Não, eu não me sentia nada melhor. Em meu íntimo só pensava em me dobrar em posição fetal e chorar até o mundo acabasse, a dor passasse ou me consumisse de uma vez.

Contudo, há uma semana que minha família parara seus mundos por mim. Eu os fazia sofrer com minhas dores.

Em consequência disso, optei por dizer o mesmo que havia dito a Emm e Jas para convencê-los a voltar à universidade.

— Estou bem, papai. Os pés já melhoraram. E talvez amanhã eu consiga voltar à rotina normal.

Menti descaradamente. As feridas físicas estavam cicatrizando, agora a do coração...

— Huum! Então, o que faz aqui?

Dizer que estava me escondendo não era aceitável. Dizer que não estava pronta para enfrentar a realidade e as consequência de meus atos, também não era uma boa ideia.

Logo optei por outra mentira.

— Emm e Jasper vão me mandar, por mensagens, o conteúdo das disciplinas que perdi. Quero colocar tudo em dia. E não estou com fome ainda, por isso não desci.

O problema é que aquele homem ali era Charlie Swan. Infelizmente, o único homem que me conhecia como a palma de sua mão.

Por isso ele, displicentemente, deu uma olhada geral pelo quarto e não encontrou nem sinal de algum material de estudo, eu sabia: Havia sido pega.

— Ta... Sei... Estudando... Mas, será que você não poderia deixar esses “tais estudos” para mais tarde? Estou precisando de um favor agora. Pode me ajudar?

Levantei as sobrancelhas e fechei os olhos em fenda, da mesma forma que ele fazia, quando sabia que estávamos tentando ludibriá-lo.

— O que é, pai?

Perguntei já sabendo que Charlie não pedia, ele exigia. Ainda mais se fosse para alegrar algum de seus filhos. Eu não tinha escapatória, era uma batalha perdida. Seja ela qual fosse.

— Preciso ir até a cidade buscar gasolina para os motores. E gostaria de companhia. O que acha de ir até Forks?

— Nem pensar, pai. Cuido de tudo aqui para o senhor. Leve um dos peões. Não quero sair, paizinho. Ainda mais para Forks.

Tentei. E só tentei...

— Não preciso de alguém para cuidar da fazenda, Bella. Tenho Billy para isso. E não quero fazer isso com um dos peões. Quero fazer com minha filha. Desejo a companhia, única e exclusivamente, dela. Isso é pedir demais?

Olhei-o com intensidade mordendo os lábios.

Trocamos informações e confidencialidades sem precisar de uma palavra.

— Sem hospitais? Sem perguntas demais?

Ele assentiu sabendo que eu não queria ser levado ao hospital mesmo mamãe e vovó insistindo feito duas loucas.

— Sua mãe nem sabe que iremos até lá, eu juro. Será só nos dois.

Pensei por alguns segundos, já chegando à conclusão de que ele só estava muito preocupado. Isabella Swan não era da que se deixava tomar pela tristeza. Ou seja, aquela não era eu.

E mesmo que ainda não estivesse pronta para enfrentar a universidade e os Cullen’s, eu teria que voltar a viver de alguma maneira.

Decidi começar pelo mais fácil: debaixo das asas de meu pai.

— Ta pai. Deixe-me só dar uma ajeitada no cabelo.

— Certo! Calce as botas. Te espero lá na entrada.

Apontou para meus pés descalços antes de sair pela porta sem dar maiores explicações. Não entendi foi nada.

Por isso, me apressei. Passei um pente pelos cabelos soltos. Calcei um par de botas marrons de cano baixo e menos de cinco minutos depois de nossa conversa eu já estava do lado de fora.

— Sabia que ia esquecer disso.

Ele segurava meu chapéu branco que Jacob me dera de aniversário. Colocou-o em minha cabeça e sorriu bobo para mim.

— Minha garotinha é linda. De chapéu fica mais bonita ainda. Tome...

Jogou-me a chave de sua camionete preta, enquanto se encaminhava para o lado do passageiro. Agora entendi o porquê de ter mandado que calcasse as botas.

— Dirija para mim. Quero aproveitar a paisagem.

— Mas, pai...

— Vamos, Bells. Não temos tempo a perder. Precisamos encher isso aqui.

Bateu no contêiner de 100 l, ainda vazio, na carroceria do carro.

— E quero voltar o quanto antes. A Mimosa está perto de “parir” e não posso perder isso. Minha vaca premiada merece que eu esteja aqui para presenciar sua segunda cria.

Abriu a porta e sentou-se, não me dando opção.

Eu sabia o que ele estava fazendo. Estava tentando me trazer de volta para a vida. Ahh, se ele soubesse o que aquela ideia faria conosco.

— Bonitona, linda, de chapéu, bota e um carrão. Acho que terei que ficar atento.

Sorriu sem nem saber que aquela era a descrição da mulher que Edward repugnava. A mulher que lhe daria um filho. A mulher que ele odiava.

A mulher que eu, aprendera a achar pouco...

Edward

Passei pela lanchonete, da universidade, dei uma olhada em meio à multidão de estudantes, até encontrar Alice, sozinha, sentada na nossa mesa de sempre.

Graças a Deus, Rósalie e Tânia haviam levado a sério minhas ameaças. Eu não precisava ficar olhando para aquelas duas e relembrando a cada segundo o quanto fora estúpido com Isabella.

— Quer comer alguma coisa? Está sem dinheiro? Pego para você.

Minha irmã negou e somente olhou para a fila ao longe onde Emmett, Leah e Jasper conversavam sobre alguma coisa. Eles não nos olharam.

Nem mesmo Jasper... Eu precisava consertar aquilo. Alice não merecia ser ignorada por minha culpa, aquilo a estava magoando e consumindo.

— Estou bem assim e pelo que parece você também.

Apontou para a água que eu segurava.

Dei de ombros concordando com ela. Andávamos mesmo sem muita fome.

Puxei a cadeira, a seu lado, e me sentei.

— Nada? Nem uma mensagem?

Ela voltou a negar segurando com mais força o celular entre as mãos. O olhar ainda preso ao Swan que amava.

Ao contrário do relacionamento que eu levava com Isabella, Jasper e Alice tinham muitos planos futuros.

— Não. Eu até quase cheguei a abordá-lo agora a pouco. Porém, assim que percebeu que ia a seu encontro, ele desviou o caminho e entrou no banheiro masculino. O que eu fiz, Edward?

Alisei os cabelos que ela revirara em um ato de desespero.

— Nada, irmã. Vou resolver isso. Deixe só Isabella voltar.

— E se ela não voltar?

— Ela vai. Não se preocupe. A conheço. Isabella não se deixa intimidar por um fim de relacionamento. Ela já passou por isso antes. Aliás, nem vai ser o fim. Assim que eu me desculpar e ela mudar de curso, voltaremos a ficar juntos e...

— Ou você é cego, burro ou muito idiota, Edward. Dessa vez vocês foram longe demais, irmão. Não será tão simples.

Rá! Ela que era iludida.

— Isabella me ama, Alice. Sempre me perdoa. Resolverei isso. Fique tranquila.

Ela não me respondeu. Somente revirou os olhos e respirou fundo, como que pedindo muita paciência a Deus.

— Aconteceu alguma coisa.

— Com o quê?

Ela segurou minha mão e voltou a apontar para onde meus cunhados estavam. Emmett falava ao telefone e parecia muito assustado. Leah segurava seu braço enquanto Jasper falava e falava em volta dele também.

— Deve ser algo com a fazenda. Eles estão aqui, mas não se desligam de lá. Isabella é assim também. Billy te liga a todo o momento.

— Não. É algo sério olhe para eles.

E antes que eu pudesse tentar entender o que se passava, eles saíram em disparada para o estacionamento.

E foi aí que três coisas aconteceram ao mesmo tempo: Os grupos de redes sociais foram inundados de fotos aterrorizantes.

Meu coração deu um aperto dolorido quase me fazendo curvar para frente.

E senti imediatamente que havia mesmo acabado com o mais lindo sentimento que já existira no mundo: o amor entre um homem e uma mulher.

Bella

— Vire à esquerda.

— Pai, eu sei onde fica o posto de gasolina.

— Eu sei que sabe, amor. Agora vire a direita e estacione debaixo daquela árvore.

Revirei os olhos e fiz o que ele mandou.

Definitivamente, não estávamos no posto.

Havia sido uma viagem tranquila e silenciosa, mas não desconfortável.

De tempos em tempos, Charlie cantarolava a música antiga que tocava em sua estação de rádio predileta.

Depois parava, me olhava com carinho, sorria e voltava sua atenção para a paisagem que nos rodeava.

Eu não estava entendendo nada.

— Vem, filha. Vamos descer um pouquinho.

Apontou para um galpão bonito, requintado e muito moderno do outro lado da rua.

— Se o senhor não se importa, vou esperar aqui.

Murmurei prevendo o que ele desejava. Eu não estava no clima...

— Eu me importo. Já está na hora de escolher seu carro, filha. Venha! Vamos dar uma olhada.

O que mais incomodou foi ver em seu rosto que ele estava louco para me “paparicar”. Eu sabia que só queriam a velha Bella de volta. Cheia de sorrisos e louca de vontade de viver.

Contudo, aquela Bella estava destruída e se preparando para decepcionar de vez os que a amavam.

Porque eu tinha certeza de que assim que descobrissem da gravidez era a única coisa que sentiriam por mim: decepção.

E eu não queria que a culpa de ludibriar meu pai fosse maior ainda. Eu não queria ganhar um carro e depois sentir que não o merecia.

— Hoje não, papai. Estive pensando e não preciso de um carro. Posso andar com Emm e Jas. Ou então com o senhor e a mamãe. Não é um problema para mim.

— Não, você não entendeu, meu amor! Não é um carro, querida. É a camionete que queria. Sei que a chateei com minhas recusas, mas hoje você me convenceu. Dirige com mais cuidado do que Emm e Jasper juntos. Você merece seu presente, filha. Venha, vamos escolher uma do jeitinho que quer.

Era bom saber que ele reconhecia mais alguma coisa boa em mim. Sou cuidadosa, sempre fui. E, estaria mentindo se dissesse que não doeu por ele não ter me dado aquele carro quando prometeu. Mas, agora passara.

Algo em mim estava quebrado. Porém, não queria piedade. Eu me recuperaria e enfrentaria o que o futuro me guardasse.

Eu não queria mais meu sonhado carro de presente, eu queria batalhar e comprá-lo por conta própria.

Eu não era mais uma só, precisava aprender a me controlar e a pensar de que logo, logo seria a única responsável por prover mais um.

— Desculpa, pai. Mas, não é um bom momento. Não quero um carro, nem uma camionete. Vou juntar o dinheiro que o senhor nos paga e comprarei um quando puder.

Charlie tirou o chapéu, esfregou os cabelos e me encarou visivelmente chateado.

Eu não me mexi, nem saí do lugar.

— Não seja assim, Bells. Não me castigue com essa recusa. Eu errei, filha. Sei que errei. Peço desculpas. Sempre penso que é pequenininha e saber que sairia pelo mundo dirigindo um carro grande me deixou apavorado, mas aí... Você prova que é capaz de tudo. E agora que me convenço, você não quer mais. Ajude-me, filha?

— Eu quero, pai. Mas, não devo. Vou juntar o dinheiro e...

— Vai demorar anos, filha. Você tem noção de quanto custa um carro desses? Não seja tão teimosa.

Bateu com a mão, na lataria, na parte de cima.

— Eu sei, pai. Por isso, não quero de presente. Vou comprar.

— Um empréstimo? Pago pelo carro e depois você me paga, ou então vou descontando, suavemente, no seu salário.

Neguei com a cabeça e liguei o carro indicando que a conversa havia terminado.

— “Teimosa, feito uma mula, Isabella Swan”. Sua mãe e sua avó me matarão por não ter comprado esse bendito carro quando quis. Agora fica de “birrinha”.

— Eu te protejo, paizinho.

Sorri e coloquei o carro em movimento, agora nos levando ao destino certo.

— Oi, Bella. Carrão, hein? É para completar?

— Encha o tanque de cima da camionete de gasolina. Depois complete-a de óleo diesel.

Instruiu meu pai, antecipando minha resposta ao frentista cheio de sorrisos para mim.

Papai era uma graça com ciúmes.

— E você, mocinha, passe para cá. A camionete volta pesada e com carga perigosa. Eu guio de volta.

— Sim, senhor.

Mesmo que quisesse gritar e negar seu pedido, pois sabia que era boa na direção, não o fiz. Papai estava cuidando de mim. E, agora, eu o entendia.

— Já volto.

Beijou meu rosto e se dirigiu até o escritório do estabelecimento para fazer o pagamento.

O esperei com calma e avaliando o movimento de entra e sai de veículos.

— Vamos. Sua mãe ligou. Está preocupada porque você não comeu hoje ainda.

— Mamãe se preocupa demais.

— Quando for mãe você entenderá, querida. Agora vamos lá. E volte para a rádio que gosto. Essas suas músicas me dão dor de cabeça.

Tentou fazer graça falhando miseravelmente. A fala dele me queimando como brasa quente. Ahh, se ele imaginasse.

— Bells, quero que me conte o que o Cullen te fez? Respeitamos o seu tempo. Ficamos quietos, amor. Mas, agora preciso saber que providência tomar quanto ao filho de Esme.

Introduziu o assunto que tanto desejava assim que entramos na rodovia.

Eu sabia que aquela nossa viagem de compras tinha suas segundas intenções.

— O senhor prometeu, pai. Sem perguntas. Eu já cansei de falar sobre isso. Ele não fez nada de errado. Eu é que me perdi e...

— Ah, me poupe, Isabella. Você conhece o caminho, é praticamente o quintal de nossa casa. Sabemos que terminaram. Eu quero saber é o que ele fez que te afetou tanto?

Pisou mais forte no acelerador, balançando a frente do carro. A raiva era visível pela maneira como apertava o volante entre os dedos.

— Ele não fez nada, papai. Eu é que me deixei abater. Mas, agora já passou. Só me dê alguns dias e prometo que minha vida volta ao normal. Só preciso me preparar mais um pouco.

— Preparar para quê? Para ver seu namoradinho com outra? É isso, filha? Aquele “merdinha” te traiu?

Encolhi-me no banco. Eu não queria que as imagens de Edward e Tânia voltassem a minha mente. Eu estava as ignorando desde o momento que acorda do pequeno desmaio, de exaustão, nos braços de Charlie.

— Então é isso, ele te traiu. Eu vou matar aquele garoto.

— Não, pai. Eu é que me iludi. Edward sempre deixou claro o tipo de relacionamento que tínhamos. Eu é que fiquei fantasiando e...

Pisou outra vez no acelerador.

— Do que está falando? Ele...

— Pai?

Voltei minha atenção para ele quando cortou uma frase no meio.

Charlie estava paralisado olhando para frente enquanto pisava firme no freio e tentava segurar o volante.

— SEGURA, BELLA!

Gritou e sem nem pensar coloquei as duas mãos na alça de apoio em cima de minha cabeça.

A nossa frente, um caminhão tentava, a todo custo, ultrapassar o outro antes de nos alcançar. O que era impossível.

Bateríamos de frente e seria muito rápido. Morreríamos esmagados.

— NÂO VAI DAR TEMPO, PAI! NÃO VAI DAR...

Gritei de volta quando Charlie, percebendo que eu estava certa, inclinou totalmente o carro para a esquerda, nos jogando para fora, no acostamento e depois num matagal. A intenção dele era receber todo o impacto de uma queda.

— Segura, filha. Se segura...

Foram suas últimas palavras antes da camionete capotar uma, duas, três vezes e então parar de cabeça para baixo.

Os air bags se abriram e o pó branco queimou meus olhos e dificultou minha respiração.

— Pai? Pai?

Gritei e não obtive resposta. Algo em meu abdômen e minha cabeça doíam demais.

Uma fumaça negra começou a sair do motor e um cheiro forte me causou náuseas e tontura.

— A GASOLINA! PAI, PRECISAMOS SAIR. A GASOLINA! VAI EXPLODIR.

Mas, Charlie não respondia. Estava inconsciente.

Com muita dificuldade destravei o cinto e cai, batendo a cabeça no teto do carro, que agora estava no chão. Tentei abrir a porta, mas estava emperrada.

— PAI! SOCORRO! ALGUÉM?

Mas, nada se movimentava a nosso redor. E pelo calor que emanava da parte da frente destruída do carro, eu sabia que tinha pouco tempo.

Por isso, com muita dificuldade e dores excruciantes, puxei as pernas para cima do banco, virei de lado e passei a chutar, com os dois pés, a maldita porta, até que ela cedeu minimante.

O ar não entrava em meus pulmões e quando me arrastei para fora, eu só pensava em me afastar. Contudo o fogo começava a se alastrar por cima do carro e logo chegaria ao tanque de gasolina quebrado e derramando líquido inflamável por todo lado.

— SOCORRO! MEU PAI ESTÁ NO CARRO. SOCORRO!

Ninguém havia parado. Meu pai morreria.

— Não! Pai? Pai?

Arrastei-me até o lado de Charlie. Sua porta não estava tão destruída, então foi fácil abri-la.

O corpo dele estava debruçado sobre o air bag do volante e seu nariz sangrava. Do lado da cabeça se via um corte, provavelmente causado quando a bateu na lataria lateral.

— Vamos pai, vamos.

Com muita dificuldade e sentido as dores se intensificarem, empurrei seu corpo para trás e destravei o cinto. O corpo inerte foi jogado violentamente para baixo.

— VAMOS!

Gritei me colocando de pé, como podia, e o puxando pela gola da camisa.

— AIII.

Segurei, com uma mão as costelas, e com a outra voltei a arrastá-lo.

Ele era pesado e eu lenta. O fogo já alcançava os bancos.

— VAMOS!

Ignorei minha dor e fiz mais força.

Ao longe escutei o barulho de carros parando e pessoas correndo e gritando.

— Chamem os bombeiros. Liguem para a emergência. Têm sobreviventes. É a camionete de Charlie Swan. Vamos!

Puxei com mais força me afastando o máximo que podia.

— Nos ajudem. Socorro! Chamem minha mãe.

— Vai explodir. Rápido, rápido!

Alguns homens chegaram e seguraram as pernas e os braços de Charlie o afastando do perigo. Os segui...

E assim que paramos a poucos metros de tudo um estrondo ensurdecedor fez se ouvir: a camionete explodira. Foi questão de segundos.

— Deus! Ela está sangrando. deitem-na. Fez esforço demais.

Quando olhei para onde os nossos socorristas apontavam senti todo o horror me dominar. Minhas mãos, minha barriga e meus braços estavam cobertos de sangue.

Meu filho...

— Ela vai desmaiar. Deitem-na.

Foi a última coisa de que me lembro daquele dia. Do horror de perder a única coisa que me fazia querer viver.

A última lembrança de que tenho da minha amada Forks.

Porque quando acordei daquele pesadelo dias depois, minha vida não era, nem de longe, a mesma que havia deixado.

Edward

Segundos depois de Emmett, Jasper e Leah saírem correndo do refeitório o lugar foi tomado por expressões de horror. E não demorou nada para que Alice e eu entendêssemos o porquê...

— Deus! Olhe isso, Edward.

Ela passava foto por foto de um terrível acidente. E nem precisou que eu descobrisse que eram compartilhadas por um dos grupos da faculdade na rede social badalada. Eu conhecia aquela camionete...

— É o tio Charlie. Por isso os meninos foram embora. Vem, vamos. Jasper vai precisar de você e Isabella de mim. Vem, Alice.

Forcei sua mão para cima, porém ela não saia do lugar. A boca escancarada em um “O” perfeito.

— Ed, tio Charlie não estava sozinho. Olhe só para isso, irmão.

Não, não... Eu não queria olhar. Não... Deus não faria aquilo comigo. Eu não merecia tal castigo.

— Não temos tempo para fotos sensacionalista, Alice. Vamos de uma vez. Os meninos vão precisar da gente. Ligamos para mamãe no caminho. Tio Charlie já deve estar no hospital. Vamos, quero estar lá quando Isabella chegar. Precisarei ser seu suporte, ela idolatra o pai e...

— Irmão...

— O quê, droga?! Não quero ver essa merda!

Esfreguei o cabelo, com violência e peguei o maldito aparelho.

— Ah não, Gatinha...

Numa das fotos Isabella aparecia já colocada em uma maca com o rosto e o corpo coberto de sangue. Ao fundo se via a carcaça da camionete pegando fogo.

Noutra, era tio Charlie que estava imobilizado. Também havia sangue em sua cabeça e pescoço.

— Não!

Nem sei direito o que fiz depois de compreender o que acontecia. Minhas pernas ganharam vida própria, passei pela sala, peguei o material, intocável há uma semana e corri para o estacionamento.

Alice me seguia, só parou para gritar para Rósalie pegar suas coisas.

— Por favor, Deus. Por favor...

— Ela está bem. Eles estão bem. Tem que estarem.

Clamei enquanto colocava o carro em movimento. Alice, baixinho, emana um mantra.

— Eu fui um idiota. Ela devia estar na universidade agora, não com tio Charlie. É culpa minha.

— Não, Edward. Não se culpe. Vai dar tudo certo.

Irritado, soquei o volante duas ou três vezes. Como se aquilo fosse acelerar o sinal de trânsito.

Ainda bem que Forks era pequena e tudo ficava perto de tudo. Então, em pouco tempo já estaciona nas vagas especiais para diretoria no hospital da família.

— Isabella Swan!

Gritei para a recepcionista que nos reconheceu imediatamente. Sua expressão me assustou.

— Ela e o pai estão sendo atendidos. Sua família está na sala de espera que fica naquela mesma ala. Não corram!

Foi impossível seguir a recomendação. Minha irmã e eu estávamos afoitos e loucos de preocupação.

Assustamos muito gente pelo caminho ao cruzar cada corredor como se fosse uma maratona, e só paramos quando, no fim de algumas portas, encontramos Emm, com Leah a seu lado, e Jasper parados e com cara de choro.

Alice se precipitou para seu par. Eu mantive-me discreto e calado. Sabia que uma hora ou outra a ira deles se voltaria para mim. Eu os conhecia.

— Como eles estão? Ficamos sabendo agora.

Jasper a abraçou e escondeu o rosto em seu pescoço soluçando baixo.

Foi Emmett quem respondeu. Ele parecia letárgico.

— Papai recobrou a consciência antes de chegar aqui. Aparentemente, está bem. Foi levado para fazer uma tomografia e deve ficar de repouso. Já Bells... Não temos notícia.

Engasgou a última parte e foi amparado por Leah.

— Mamãe está com ela. Ela parecia tão assustada quando veio dizer que logo papai iria para um quarto. Estou com medo, Alice. Bells é nossa garotinha não podemos perdê-la.

— Vocês não vão. Bella é forte.

Alice esfregou os cabelos dele.

Já Emmett gemeu baixo e deu vazão a suas preocupações.

— Ela não é mais forte. Vocês não a viram. Parece perdida agora. Está assustada, quebrada. Se algo acontecer a ela eu juro que mato você.

Apontou para mim irritado e fora de si.

Encostei-me na parede e fechei os olhos voltando a implorar a Deus pela vida de Charlie e Isabella.

— Como estão as coisas? Vim assim que fiquei sabendo.

Papai veio até nós.

Esme segurava um tablet nas mãos e o manuseava-o loucamente.

— Não sabemos ainda.

— Vou ver o que posso fazer e volto assim que puder com mais notícias. Fiquem calmos. Carl, ligue para Billy e peça-o que “blinde” mamãe. Ela não pode ficar sabendo do acidente antes que tenhamos notícias boas.

— Certo.

Papai assentiu já como o telefone em mãos.

Esme passou por Jas e Emm e os confortou com abraços rápidos. Depois sumiu porta adentro.

Minutos e minutos se passaram ou seria segundos... Não sei. Perdemos a noção da realidade quando apreensivos.

Só sei que tempos depois gritos foram ouvidos do fim do corredor e Esme reapareceu correndo atrás de um Charlie enlouquecido, fora de si.

— Eu não vou fica deitado numa cama, mulher. Preciso saber da minha filha. E já que você não me conta nada vou atrás de notícias em mesmo. É para isso que mamãe investiu parte de nosso dinheiro nessa “joça”.

— Charlie, ela está na sala de exames. Renée está com ela. Você precisa se acalmar.

— Me acalmar? Me acalmar?

De calça e uma camisão verdes, da cor do hospital, ele, com toda sua altura e postura de irmão mais velho, parou, virou-se para ela e lhe apontou o dedo ameaçadoramente.

Carlisle deu dois passos mais para perto deles. Emm e Jas também.

— Bella estava bem, Esme. Ela poderia ter saído ilesa do maldito acidente que causei. Mas, não, ela preferiu não ficar parada e esperar o socorro. Ela, colocou-se em risco, ao praticamente me carregar para fora do carro. Devo minha vida a minha filha. E exijo saber onde ela está. Ou você me conta ou invado cada cômodo daqui. A escolha é sua. Aliás, o que vieram fazer aqui? Não são bem vindos. Bells nem devia estar em casa naquele horário. Se ela estivesse na universidade nada disso teria acontecido.

Me olhou de cima abaixo antes de voltar a caminhar para perto dos seus.

O olhar que deu a Jasper o fez se separar de minha irmã.

— Pare de gritar. Estamos num hospital. Eu exijo que se acalme e se sente. Sua tomografia não deu nada hoje, mas pode dar amanhã. Além disso, tem quatro pontos aí. Agora sente-se.

Pontos. Era por isso que cabeça toda dele estava envolta de faixas. Aparentemente, era seu maior ferimento. Porém, o nariz também estava muito inchado.

— Vá exigir as coisas desses incompetentes, Esme. Se eu não tiver notícias da minha filha nos próximos cinco minutos eu... Eu...

— Char...

O deixando sem palavras, tia Renée apareceu da porta atrás de seus filhos.

A expressão abatida e chorosa dela me desarmou.

Isabella... Isabella? Engoli o choro e meu medo. Não! Não era possível... Deus não seria tão impiedoso. Eu era o grande culpado de tudo. Eu merecia ser castigado. Ela não...

— Bells, cadê a Bells, Renée? Está me assustando.

— Ela... Ela...

Tia Renée foi cercada pelos filhos e sacudida pelo marido, porém seus olhos pararam em mim. E o que vi me fez temer pelo pior... Tia Renée exalava rancor e raiva.

— Ela quebrou duas costelas. O ortopedista está avaliando agora. Tem sinais de que uma perfurou o pulmão. E estamos trabalhando com hipótese de traumas internos também e... Preciso que me acompanhe por um minuto. Ela teve uns segundos de lucidez e... Por favor, Charlie. Venha comigo.

Tio Charlie perdeu a cor. Eu também.

Mamãe fez menção de se aproximar, porém tia Renée a restringiu.

— Não! Fique aí. É assunto nosso.

— Renée, ele não pode ter emoções fortes. Ainda está em observação. Deixe-me ajudá-los?

— Não! Vocês já fizeram o bastante. Eu cuido da minha família. Não se intrometa.

Rugiu áspera enquanto puxava o marido para dentro.

Carlisle consolou uma Esme perdida e revoltada.

Jaspe não voltou a se aproximar de Alice. Ele e Emmett ficaram lado a lado e pareciam rezar baixinho.

— Mãe, faça alguma coisa. Não deixe que ela...

Solucei para Esme que só me puxou para perto dela.

Alice, muito perdida pela reação dos Swan’s, se juntou a nós.

— Ela vai ficar bem, querido. Bella é nova e forte. Vai ficar bem. Temos os melhores médicos. Se acalme.

Mas não era o que o semblante de tio Charlie dizia quando voltou para perto. Um animal acuado, machucado e muito, muito bravo era o que ele parecia. Ainda mais quando impôs sua vontade. Ele emanava raiva, poder e determinação.

— Esme, eu exijo que pegue sua família e vá embora daqui.

— O quê? Como assim minha família? Irmão, o que ouve? Bella não está bem?

— Minha filha não é assunto seu. Dêem o fora daqui ou não respondo por mim. Vão embora!

Ele aumentou o tom de voz e foi preciso que os filhos o segurassem para que não se aproximasse mais.

— Não vamos embora, Charlie. Somo sua família. Estamos aqui para vocês.

Papai tentou intervir, o que só piorou a situação.

— O estado dela é gravíssimo. Não há o que fazer por agora. Por isso, quero que sumam daqui ou vou chamar a segurança. Quero que se afastem. Bella precisa que estejamos inteiros para ela e com vocês aqui fica impossível de descansar e raciocinar. Por isso, sumam.

Voltou a falar alto, se descontrolando.

Um fio de sangue escorreu, de seu ferimento, por sua bochecha. Os pontos haviam soltado.

— Char, deixe-me ajudar? Você está ferido. E tenho certeza de podemos fazer algo por Bella.

Ele, violentamente, se soltou dos filhos e limpou o sangue que escorria com as mãos.

— Minha filha está ferida. Eu estou bem. Só estou pedindo privacidade pelo restante da noite.

— Tio...

— Não fale comigo! Não ouse.

Tentei, pela primeira vez na noite, mas logo fui cortado. Eu sabia que o problema dele era comigo.

— Eu quero que vão embora. Preciso pensar e preciso fazer isso longe de vocês. Por favor, saiam daqui.

Sussurrou a última parte com os olhos cheios de lágrimas. E aquilo nos atingiu em cheio. Tio Charlie era durão, nunca chorava e vê-lo naquele estado fez com que, mesmo sem palavras, decidíssemos que faríamos o que ele queria.

Ahhh, se soubéssemos. Foi a pior decisão de nossas vidas. Se eu tivesse prestado atenção em suas ultimas palavras talvez tivesse entendido.

— Nós vamos, Char. Mas, se precisar de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo é só ligar.

— Não vou ligar, Esme. Precisamos curar nossas feridas. Meus filhos, milha esposa e eu, estamos sendo tomados pelo caos. Precisamos de espaço e só de nós para fortalecermo-nos. Bells tentou sozinha e não funcionou...

Me olhou intensamente.

— Agora é nossa vez de lutar por eles. Por favor, nos deixem em paz.

Mamãe ainda o olhava tentando traduzir o que queria dizer, contudo meu pai, se antecipou e colocou a mão em suas costas a guiando para fora.

— Você tem até amanhã cedo para remoer seu sofrimento sozinho, meu amigo. Voltamos assim que o sol raiar para ajudá-los com isso e com o que precisarem. Somos família, Charlie

Estendeu a mão para mim e Alice nos arrastando para fora também. Fazendo o que imaginava ser o certo.

Ninguém se despediu de ninguém. Nem Alice e Jasper.

— Deixe seu carro aqui, Edward. Não quero que dirija nesse estado. Amanhã o pegamos.

— Me dê às chaves. Vou pegar minhas coisas e as suas.

Não fiz objeção nem a papai, nem a Alice. Entreguei-lhe as chaves e segui com Esme.

Sentei no banco detrás. Minha irmã logo se juntou a mim.

Foi uma viagem curta e dolorosa. Só quebrada, quando fomos ultrapassados por outro carro. Ninguém precisou falar nada, todos sabiam que eram Emm e Jas rumo a Sonho Azul. Provavelmente tio Charlie os havia mandado para casa também.

O silêncio doloroso só era quebrado pelos soluços das duas mulheres.

— Mãe, se algo acontecer durante a madrugada eles, eles...

— Nada vai acontecer durante a madrugada, garoto. Só se acalme. Amanhã será outro dia e Deus nos dará outra perspectiva.

Ah, se papai soubesse como estava certo.

— Querem comer alguma coisa? Posso ver o que...

— Eu não quero.

— Também não.

Dispensamos a preocupação de Esme assim que passamos pelas portas de casa. Graças a Deus, Rósalie não estava à vista.

Uma escuridão dominava o ambiente.

— Vou tomar um banho.

Peguei a mochila das mãos de Alice e corri escada acima. Eu não queria estar com ninguém. Precisava pensar e deixar que cada informação dominasse meus poros, meu interior.

E foi no silêncio de meu quarto que tudo ficou mais intenso.

Joguei a mochila sobre a cama. Arranquei as roupas deixando um rastro de bagunça até o banheiro.

Quando a água quente deslizou pelo meu corpo desabei. Chorei alto. Deixei que auto-piedade me dominasse.

Um tumultuado de sentimentos me dominava. Eu queria gritar ao mundo que não era culpado. Que Isabella estava naquele carro porque escolhera se fechar em dor e não enfrentar a vida e as perdas que ela oferece: no caso, o fim de nosso relacionamento.

Por outro lado, minha consciência gritava que sim, eu era culpado. Não havia sido justo. A fizera sofrer e não reconhecera o que estava bem debaixo do meu nariz: o amor.

Aquela conclusão me fez arfar. Deus! Eu amava aquela garota e estava a ponto de perdê-la. Eu não podia. Tínhamos o que viver.

O ultimo momento que passamos tivera um envelope como testemunha e...

— O envelope!

Desliguei o chuveiro e saí me secando e vestindo o que encontrei pela frente.

Há quanto tempo eu esta ali? Uma hora?

— Deus! Onde está?

Agarrei a mochila e despejei seu conteúdo em cima da cama.

Água, do meu cabelo, pingava e molhava as folhas, mas eu nem me importava. Só queria encontrar o que Isabella me entregara naquele dia e que por irresponsabilidade eu nem olhara.

— Onde está? Onde está?

Revirei cada folha, folheei livros e cadernos e só no último foi que encontrei.

Eu precisava saber o que Isabella queria comigo naquele dia.

— Merda!

Rasguei de qualquer jeito o lacre e senti o ar abandonar meus pulmões quando me dei conta de que eram exames.

Ela estava doente? Alice havia dito alguma coisa sobre Isabella estar gripada e tomando medicação, mas...

— Mãe! Mãe?

Gritei e saí correndo para encontrar Esme, já sabendo o que era aquilo.

Ah, Deus!

— Mãe, pelo amor de Deus, me ajuda? Mãe!!!!

Entrei sem bater acordando meus pais Alice e até Rósalie que logo se juntaram a nós no quarto de Esme e Carlisle.

— O que foi, Edward? É do hospital? Charlie ligou?

Assustaram-se com meu rompante.

— Não, mãe. Ninguém ligou, mas temos que voltar para lá. Ela está grávida, mãe. Ia me contar isso no dia que terminei tudo. Eu não lhe dei chance. Pelo amor de Deus, mãe, me ajude?

— O que está dizendo, filho? Se acalme.

Colocou-se de pé já pegando os papei de minha mão. Porém, meu pai já se direcionou para o banheiro.

— O que ele está dizendo é que foi irresponsável e inconsequente duas vezes, Esme. Isabella está grávida. Vamos, ligue para o hospital. Ou melhor, vamos para lá. Charlie não poderá nos expulsar agora. Vamos se mexam...

Em segundos já estávamos de volta à estrada. Rósalie não. Esme já estava, mais ou menos a par do que ela, Tânia e eu fizemos.

Mamãe a queria longe de Isabella e eu também.

— Rápido, Carl.

Paramos na porta do hospital e corremos para dentro. Todos consumidos por muita ansiedade.

— Doutora Cullen, precisamos conversar e...

— Agora não! Preciso ver meu irmão e o ortopedista que está cuidando de minha sobrinha. Bipe-o para mim e peça para que me encontre na sala de espera da emergência.

— Mas, doutora é sobre isso que...

— Agora não! Obedeça-me, mulher é uma ordem.

Esme gritou para a recepcionista enquanto voltávamos a correr por aqueles corredores. Minha cabeça girando de tantas informações e dúvidas.

Isabella grávida. Eu seria pai... Lógico que seria. Sabia que o filho era meu. Confiaria minha vida a ela.

Mas, o acidente... Talvez, talvez o bebê...

— Charlie? Onde ele está? Alguém me diga que quarto, Isabella está? Meu irmão deve estar com ela.

Esme gritou de novo ao não encontrar tio Charlie aonde havíamos o deixado.

— Mas, doutora é isso que estou querendo dizer. Eles não estão mais aqui.

— O quê?

Tudo parou. O mundo parou naquele instante. Me vi perdido em um lugar paralelo de indignação, silêncio, sofrimento e muito terror. Eu havia perdido tudo o que tinha e nem sabia.

— Assim que saíram, os meninos Swan’s foram logo atrás. E meia hora depois a doutora Swan assinou a transferência da menina. Uma UTI móvel a levou até o aeroporto e de lá embaraçaram numa UTI aérea. Eles se foram...

— Foram para onde? Do que está falando? Quero os documentos de transferência agora e o prontuário de Isabella. Quem autorizou o procedimento? A paciente estava estável?

— A paciente estava inconsciente ainda. E quem autorizou o procedimento fora à doutora Swan mesmo, ela tem autonomia para isso. E quanto aos prontuários teremos um problema, porque eles também foram levados. Não restou um...

Esme parou e olhou para a mulher, ela sabia o que eu diria, em seguida, em voz alta.

— Eles fugiram.

E foi ali, naquele dia que eu cresci, na marra.

De manhã, acordara um garoto cheio de esperança em retornar seu relacionamento conseguindo o perdão da namorada adolescente.

E terminara o dia se dando conta de que perdera não só a mulher de sua vida, como também o fruto da única noite de amor que tivera de verdade.

Naquele momento eu me dera conta de que o mundo não girava a meu redor. Girava em torno de Bella Swan, a minha Bella. E que nem que tivesse que esperar para todo o sempre, eu a encontraria e passaria o restante dos meus dias implorando para que voltasse, a pelo menos, me olhar nos olhos. Para que o mundo voltasse a girar.

Porque eu a amava...

— Eles fugiram...

Notas finais
Bom, perceberam que foi a primeira vez que Edward, do passado, chamou Bella pelo apelido? Tem muito a ver com intimidade e se dar conta de que a amava. Ok? Prometo que em algum momento saberão como tudo se passou por outros olhos. Certo? Beijinhos, minhas lindas. Uma linda e abençoada Páscoa a vocês e as suas famílias. Nos vemos nos comentários.