Quando o passado não te deixa viver
4 À volta
Notas iniciais
Dias atuais
Edward
— O padre vai recebê-lo agora, doutor Cullen.
A secretária, uma senhora baixinha de cabelos claros, que me conhecia desde sempre, me sorriu tranquila e apontou para a sala de Marcus, que ficava do lado esquerdo do salão paroquial que também fazia parte da construção da igreja matriz de Forks.
— Edward, que bom vê-lo. Entre, sente-se. Veio para falarmos sobre a capela que aquela bela fazenda merece.
Antes que entrássemos no “modo amigo”, lhe estendi a mão.
— Sua benção, padre.
— Deus te abençoe, meu filho.
Era muito estranho ele me chamar de filho, afinal estudamos juntos nos anos iniciais e depois no ensino médio. Só nos afastamos porque seguimos caminhos diferentes. Marcus fora para o seminário, em Port Ângeles e eu fiquei aqui e fui para a universidade.
Acho que por isso só usávamos essa formalidade quando nos cumprimentávamos. Porque depois...
— Acho que a capela ficará bonita na colina. A visão do riacho e do por do sol será esplêndida no verão.
— Rá! Não será dessa vez ainda, padre.
Sorri o melhor que eu podia. Há muito havia perdido o costume de como fazer isso.
Marcus, desde que minha casa ficara pronta, tentara me convencer a construir uma capela nas imediações. Porém, eu recusava veemente. Aquele projeto, aquele sonho não era meu. Eu só usufruía dele. Se algum dia algo seria acrescentado, caberia única e exclusivamente, a sua dona. Que com certeza, amaria uma capela, uma baia, um galpão para o maquinário, uma estrutura de silagem e...
— Hum! O que aconteceu? Você não me parece bem.
Suspirei saindo de meus devaneios, depois desci os cotovelos para as pernas, fechei os olhos e esfreguei, furiosamente, o cabelo.
— Esse é o problema, Marcus. Nada! Nada aconteceu. Nunca acontece nada. Jenks não me atende. Sua esposa diz que está viajando, porque tem novidades. Mas, não consigo acreditar mais nessa desculpa. Já se passaram mais de cinco anos.
— Quer falar em confissão? Podemos ir até a igreja.
Levantou-se e fechou a porta, nos dando o máximo de privacidade que a ocasião pedia.
— Tudo bem. Só quero conversar. Está sendo complicado. Ontem dois carros passaram rumo a Sonho Azul. Tive tanta esperança...
— Mesmo? E quem era? Não tive notícias de visitantes. Sua secretária não sabe dizer o que se passa por aqueles rumos?
— Jéssica está ocupada com nossos novos vizinhos. Nem a sondei. Alice estava comigo, padre. Imagina como doeu vê-la quase desabar a minha frente? O que eu faço, Marcus?
— Não sei, Edward. Não vou pedir para que siga em frente. Já sei o que vai dizer. Sei que tem fé, que um dia eles voltem. Então reze, só reze. Para que Bella esqueça o passado e que Jenks venha dessa viagem com novidades para você.
— Não posso desistir, Marcus. Não quando...
— Eu sei... Ela vai voltar. Não importa quanto tempo demore. Um dia Bella vai voltar e o passado terá que ser enfrentado, Edward. Um dia eles cansarão de fugir.
— Deus te ouça, Marcus. Deus te ouça...
— Ele vai ouvir.
Agora deixemos esse assunto de lado. Quero saber se veio trazer seu patrocínio, bem gordo, para nossa quermesse da semana que vem?
— Sua sorte, seu padre, é que a colheita, vais ser farta esse ano. Senão...
— Sou seu sócio. Rezo para chover, então colaboro e tenho uma parte. E falando em colheita boa, quem será o novo agrônomo da Sonho Azul? Porque é óbvio que não é o mesmo. Você viu as plantações deles? Estão lindas!
— Eu vi. Queria muito que fosse Emmett ou Bella.
— Quem te viu, quem te vê. Nem parece aquele que implicou com a garota pela escolha dela.
— Nem me lembre, padre. Nem me lembre.
Lembranças On
— Nossa! É tão estranho vivenciar do que só observar.
— Deslumbrada! Parece criança.
— E você parece uma velha. Pare de resmungar, Rosie. Deixe a menina.
Alice não parava quieta, olhava para tudo e para todos e só não apontava o dedo porque Rosie lhe lançava olhares assassinos.
Era o primeiro dia dela na universidade e eu amava como ela parecia animada.
— Quero vir com Jasper, a partir de amanhã. Vocês não sabem tirar o bom dos momentos, por menores e mais simples que sejam. Os Swan’s sim sabem aproveitar a vida.
— Não se acanhe! Junte-se a eles.
Apontou Rosie quando Emmett deslizava a camionete pelo estacionamento e parava na sua vaga de sempre.
O desgosto de minha irmã era falso. Até mesmo agora, quando sacudia o cabelo e se juntava a Tânia, sua melhor amiga, era possível notar como ela disfarçava, por cima do ombro, só para vê-lo um pouquinho.
— Vou lá. Vem comigo?
Eu iria, era o que eu sempre fazia.
Emmett e Jasper eram meus melhores amigos. Porém, hoje seria o primeiro dia de Isabella também e mesmo que estivesse maluco para vê-la, tocá-la... Não faria isso. Apesar de morrer de saudades, daquela menina sapeca, não lhe daria falsas esperanças... Eu ainda pensava do mesmo jeito. Bella não era ideal para o futuro que decidi para mim.
Por isso, fiquei no meu lugar e juro, mesmo se quisesse, não conseguiria dar um passo sequer. Eu não estava preparado para ver aquilo.
— Ah, Deus!
Não que não tivesse visto Bella desde os seus quinze anos, ela já estava com dezoito agora, só que eram raríssimas às vezes em que frequentávamos o mesmo lugar por mais de dois minutos. Ela me evitava a todo custo.
Então na dava para notar os detalhes, a evolução... E que evolução.
— Lice!
Disse efusivamente, fechando minha irmã nos braços e beijando seu rosto da maneira mais amigável que faziam desde que se entendiam por gente. A espontaneidade dela continuava a mesma.
E, Deus! Ela estava... Linda! Diferente! Não parecia mais a garota magrela com quem eu terminara naquele dia.
O corpo, nada escondido, por uma camisa xadrez aberta, com um nó na cintura, uma regata branca que grudava aos seios fartos. E um short jeans curto esfiapado na altura das coxas.
Nos pés botas de canos curtos e na cabeça um chapéu também branco.
A obra toda fazia dela um deleite para qualquer homem parado no estacionamento.
Contudo, quando consegui voltar a respirar, não estava preparado para o que se seguiu, Bella saiu dos braços de minha irmã e correu para Jacob Black, que sem hesitar, a segurou, levantou e a rodou para quem quisesse ver.
— Olha! Não é que a caipira arranjou alguém ideal para ela. Ele é bem bonitinho. E eles combinam. Parece que são "Agronomia na veia". Pelo menos nisso e no gosto ruim para roupas, ela não mudou.
Feche a boca, maninho, e venha comigo. Tânia quer te ver.
— Agronomia?
Perguntei sentindo aquela palavra queimar em minha boca.
— Isso, Ed. Terra até o pescoço, para sempre.
Bateu a mão em meu queixo e me puxou pela mão, me levando até sua melhor amiga que tentava a todo custo me arrastar para sua cama, não deixando de resmungar quando Emmett deu um beijão em Leah.
Esses eram os Swan’s. demonstravam o que sentiam e não se envergonhavam. Eu tinha tanto a aprender com eles.
Pena que não achava isso naquela época. Vendo Bella nos braços de Jacob, quase me corroí de ciúmes e jurei que a teria de volta.
Eu poderia mudá-la...
Lembranças Off
— Eu deveria ter mudado por ela, Marcus. Teria evitado tanta coisa. Alice e eu seríamos felizes agora se eu não tivesse...
— Se... Quando... talvez... Eu já disse e repito, pare de se martirizar, Edward. O que está feito, está. Você mudou e Deus lhe dará outra chance. Tenho certeza.
— Eu não...
Disse antes de tirar o cheque para lhe dar o dinheiro do patrocínio. Aquela conversa nunca teria fim e Marcus precisava mesmo cuidar da vida e da comunidade.
Era hora de ir para casa...
Dias atuais
Bella
— Chegamos!
Alinhei a camionete e puxei o freio de mão.
O coração, parecia, bater na boca tamanha ansiedade. Era a primeira vez que aparecíamos, em público, desde que retornamos a Forks.
— Hum, aqui é grandão, mamãe. Posso ir com você?
— Oh, meu amor...
Destravei o cinto e olhei para meu filhote, deslumbrado, em sua cadeirinha.
— Hoje não dá. Mamãe tem um compromisso importante agora. Mas, logo trarei você para conhecer tudo.
— Estudamos aqui, Antony. Essa universidade tem história. Um dia será você a atravessar esses portões.
Jasper, saudoso, olhava para fora do campus, mas, tenho certeza, nada via. Sua mente estava longe, muito longe.
— Será nada, titio Jas. Vou estudar lá no “Basil” perto do titio Benj. Assim que voltarmos para nossa casinha, não é, mamãe?
Estiquei o braço e acariciei os cabelos claros dele.
— Vamos deixar essa conversa para daqui a pouco? Assim que sairmos daqui vamos conhecer sua nova escola. Tenho certeza que gostará de lá, assim como da antiga. Esperem a mamãe. Já volto. Desejem-me sorte.
— Sorte, mamãe.
— Como se ela fosse precisar...
Sorri para Jasper antes de atravessar os portões da velha, mas conservada construção secular.
Quando, ocasionalmente, visitando o site da instituição descobri que precisavam de uma professora de Anatomia veterinária, não pensei duas vezes. Me escrevi, ainda no Brasil, e logo recebi um telefonema: o cargo era meu.
Agora era só apresentar a documentação e começar a trabalhar na segunda feira.
Eu sabia que as aulas seriam a noite e que minha vida seria muito corrida tendo que conciliar a clínica, a loja, a universidade e Antony, mas...
Eu precisava disso. Cada vez mais... Sempre mais. Mente vazia não era bom para mim... Eu não podia pensar. Não podia parar... Não podia correr o risco de cair em tentação.
Deus!
— Oi, bom dia. Sou Isabella Swan, tenho uma entrevista com Aro Volturi agora.
Disse a secretária assim que cheguei à recepção.
— Ah, sim! A nova professora. Pode se sentar ali. Ele já deve estar chegando. Tinha me alertado de que viria. Só um minuto, vou mandar chamá-lo.
Agradeci e me sentei onde ela apontava. Eu esperava que ele não demorasse muito, Jasper não conseguiria conter Antony por muito tempo no carro.
Procurando uma distração folheei alguns folders que estavam em cima da mesinha perto do sofá.
A universidade não havia mudado tanto assim. E aquele lugar era tão vivo em minha mente. Tantas recordações...
Lembranças On
— Sabe, Jake,eu estava pensando, podemos dissecar as plantas para o herbário lá em casa. Teremos mais espaço e ficarei mais a vontade.
— Ai, Bells, relaxa...
Jogou o braço por cima do meu ombro e me puxou para mais perto.
— É só o primeiro dia. Nem sabemos como será feito e além do mais, não disponho do mesmo tempo que você. Terei praticamente só o domingo para cuidar das matérias, dos trabalhos, das provas.
Andamos mais depressa pelo estacionamento indo ao encontro de Emmett.
— Eu te ajudo. Não se preocupe som isso. Só prefiro que seja lá em casa e...
— Ahh, o que ele quer? Vocês estão conversando?
Paramos abruptamente e senti Jacob enrijecer quando avistamos Edward Cullen parado ao lado de Alice e Jasper.
Eu não podia culpar Jacob pela raiva. Ele presenciara minha dor, de adolescente, quando Edward me deixara.
Ele fora minha base, um amigo forte e fiel que ficara horas e horas me entretendo com longos passeios a cavalo ou somente ouvindo quando tudo parecia não ter fim.
Jas e Emm juravam que ele queria mais do que amizade, e eu tinha consciência disso. Talvez um dia... Porque no momento eu estava sozinha.
Amigos, família e carreira era tudo que eu queria e precisava.
Sabia que agora entrando na universidade teria que ver e até talvez conviver com Edward, graças ao relacionamento inabalável, de meu irmão com a irmã dele. Eu só tinha esperanças de que fosse demorar mais.
— Não, não estamos conversando e não sei o que ele quer. Quer para de me apertar. Não vou me jogar nos braços dele.
— Sei...
Resmungou baixo enquanto atravessamos os últimos degraus até chegarmos a eles.
Jacob não se afastou de mim.
— Emmett ainda não chegou? Estou pronta.
— Está vindo. Só foi buscar Leah. Oi Jacob.
Alice o cumprimentou. Meu amigo só acenou a cabeça para ela. Seus olhos estavam cravados em Edward, que devolvia os mesmos olhares assassinos.
— Tudo bem. Vou esperar no carro já que meu pai assim o quer,
— Pode ir comigo, Bells. Gasto cinco minutos da Paraíso na Sonho Azul.
— Só nos seus sonhos, Jacob. Papai degola e depois deserda Emmett, Bella e eu se ela sentar naquela moto. E você, mocinha...
Jasper, ainda segurando Alice pela cintura, apontou o indicador para mim.
— Pare de reclamar. Papai não lhe negou seu carro, promessa de formatura é promessa. Só pediu para que esperasse até que encontremos o modelo ideal.
— Não quero um modelo ideal, Jas. Quero uma camionete. Agora, vou pra aquela dali esperar até que se despeçam... Argh!
— Bella? Espere. Eu queria conversar.
O toque... Deus! Há quanto tempo eu não o sentia?
As mãos continuavam macias e fortes ao mesmo tempo. E como podia aquele simples ato despertar tantos sentimentos conflitantes em mim?
— Não ponha suas mãos nela, Cullen!
Jacob rugiu se aproximando de Edward.
— Ou o quê, Black? Vai me bater, ser expulso e perder o emprego tudo de uma vez. É isso?
— Ora seu...
— Ei!Parem! Jake, se afaste.
— Estão chamando a atenção rapazes. Querem parar.
Jas se colocou entre eles, os separando.
Alice veio para meu lado e segurou meu braço pronta para me tirar dali se algo de pior acontecesse.
— Vá para a casa, Jacob. Nós também já estamos indo. Emmett já vem. Olhem?
Apontou Jas para o corredor. Emmett vinha com Leah em seu encalço.
Quando Jacob não se moveu, toquei seu braço.
— Vá, Jake. Não quero que se atrase e dê motivos para seu pai brigar. Nos falamos mais tarde, eu te ligo.
Billy Black, juntamente com toda sua família, moravam e trabalhavam na Paraíso, ou seja, obedeciam a tio Carlisle. Portanto, não deixaria que fossem demitidos por minha culpa.
— Por favor, Jake...
Se acalmando, ele se afastou, bateu, como gesto de brincadeira, no braço de meu irmão e me abraçou com força antes de cochichar no meu ouvido.
— Não deixe que te enrole, Bells. Ele não mudou. Se, tem alguém aqui que merece uma chance, sou eu.
— Vou pensar sobre isso.
Sorri antes de lhe beijar na bochecha e vê-lo se afastar.
— Droga! Por que ele te toca? Jasper por que permite isso? Você viu esses shorts? Quando ela levanta os braços, mostra até o...
— Quer parar? Isso não é da sua conta. Droga, Cullen! Nem sei por que estou falando com você.
Frustrada pela demonstração de... De... Sei lá como denominar o que havia acabado de acontecer, dei a volta no carro e já estava pronta para entrar, quando mais uma vez fui agarrada pelo braço.
— Desculpa, desculpa... Eu não tenho o direito. Sei disso... Mas vê-la sendo tocada por outro acaba comigo. Por Deus, Bella, tenha piedade?
Incrédula, me virei totalmente para ele.
— O que você quer, Edward? Termina comigo por eu ser inadequada e agora fica de crisesinhas de ciúmes. Então, eu pergunto... O que quer?
— Você, porra! Eu quero você! Não consigo, não posso ficar longe. Tentei, juro que tentei. Mas, você é minha. Minha menina. Minha!
Antes que processasse qualquer coisa a boca dele estava na minha e foi impossível fazê-lo parar. Eu o amava... O amava desde sempre e o tempo longe só servira para me certificar disso.
— Volta pra mim, Bella? Volta pra mim...
Dentre beijos quentes e juras de amor, eu voltei... O perdoei e recomeçamos a namorar...
Ah, se eu soubesse que fora neste dia que selara para sempre minha vida, meu futuro.
Lembranças Off
— Isabella, me perdoe pela demora. Estava vistoriando algumas alas que acabaram de serem pintadas. Estamos prontos para receber nossos alunos segunda.
— Não tem problema, Aro. Aproveitei para relembrar épocas boas nesse lugar.
— Ah, sim. Vamos falar disso em minha sala? Também quero tratar de sua carga horária e também sobre o salário. Venha...
O acompanhei e, como da última vez, selando mais uma vez meu futuro naquele mesmo lugar.
Eu só esperava que, dessa vez, fosse tudo diferente e bom para mim. Porque agora havia Antony em minha vida. E só ele importava.
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