Notas iniciais
Nem demorei... Capítulo dedicado todinho a Lili Cullen que me presenteou com a segunda recomendação.

Dias atuais

Edward

— Oi, boa tarde. Minha mãe?

— Ah, doutor Edward, que bom que veio. A doutora te espera. Pode entrar.

Com gestos, de cabeça, cumprimentei as poucas pessoas esperando na recepção e me dirigi para a sala de Esme.

Já era fim de tarde e a maioria dos médicos já haviam encerrado o dia. Com exceção, é claro, de alguns especialistas que vinham de outras localidades, e atendiam a noite.

Forks era pequeno, é certo que nosso hospital tinha uma estrutura de primeiro mundo, contudo, a maioria dos profissionais de nossa área não a escolheria para viver. Preferiam ficar indo e vindo. Já que mamãe, juntamente com o conselho administrativo, faziam de tudo para que os melhores atendessem aqui. Mesmo que fosse uma vez por semana.

Esme dizia que não era só questão de dinheiro, já que o hospital era particular, mas também humanitário. As pessoas tinham que encontrar o que precisavam e procuravam, perto delas.

— Posso entrar?

Enfiei a cabeça para dentro depois de uma leve batidinha.

Esme estava, de óculos, esfregando a testa e concentrada demais atrás de um monte de papeis e livros caixas.

— Venha. Entre, entre.

Fez menção de se levantar, porém fiz sinal para que permanecesse sentada. Fui até ela, beijei seu cabelo e me sentei a sua frente.

— O que foi? Jéssica disse que a senhora parecia afoita ao telefone.

Ignorando minha recomendação, levantou- se, jogou os óculos, de qualquer jeito sobre o amontoado, foi até o frigobar pegou duas garrafas de água, uma para mim e outra para ela.

Depois, com aparência preocupada, voltou a seu lugar e me encarou.

— O que foi, Esme? Está me deixando ansioso e preocupado.

— Renée entrou em contato.

Respondeu secamente.

Ainda com a garrafa na mão, senti meus “ossos gelarem”. Há quase cinco anos tia Renée havia desaparecido, junto com a família e nunca mais dado sinal de vida.

Como fizeram com todo o restante de cada bem, não voltaram para saber de nada. Não venderam, alugaram ou designaram um responsável. Somente a Sonho Azul era comandada por Harry e Sue Clearwater. Porém, eles eram considerados família já que Leah, filha mais velha deles, havia desaparecido com os Swan’s. Presume-se que tenha se casado com Emmett já que eram um casal na época.

Também são pais de Seth, um rapaz jovem que perambula pelas lavouras dos Swan’s quase todo dia de amanhã. Apesar de sempre me cumprimentar com um aceno de cabeça, ele nunca falou comigo. Nem quando me via, em casa, da cerca que dividia as duas fazendas.

Ele era amigo de Jacob então sua animosidade comigo era explicável, já que o melhor amigo de minha Bella nunca fizera questão de esquecer que eu era o culpado pelo desaparecimento dos Swan’s.

— Ela está aqui?

Instintivamente, olhei para os lados esperando que minha ex- sogra se materializasse em qualquer lugar.

— Não, filho. Pelo que fui informada, alguém em nome dela, ligou para a contabilidade e pediu que separássemos toda a documentação do hospital, que logo voltarão a entrar em contato.

Mamãe e Renée eram sócias no Medical-Forks, desde que se formaram. A estrutura inicial fora presente de vovó Marie para a filha e a nora. E desde então atuavam juntas, até aquele fatídico dia.

— E por que a preocupação, mãe? Sei que mantém tudo em ordem. A parte dos lucros dela não está depositado a parte? Só esperando pelo grande dia em que voltaria e exigiria o que era seu de direito? Não entendo sua neura.

Esme esfregou mais a mão da testa, devia estar com uma enxaqueca daquelas.

— Eu sei, filho. Está tudo em ordem. Acabei de revisar, junto com alguns conselheiros e a contabilidade. Centavo por centavo.

— Então?

— Ah, não sei, Edward. E se ela, ou a pessoa responsável por ela, não sei... Não concordar com os investimentos que fizemos? E se quiserem vender a parte dela? Não tenho esse dinheiro. Não quero uma pessoa diferente aqui. Estou preocupada. Seu pai disse que não vai investir nada no hospital.

— Está sofrendo por antecedência, mãe. Tia Renée ama isso aqui. Ela não se desfaria assim e...

— Eles amavam muita coisa em Forks, filho. E não pensaram duas vezes.

Senti a famosa pontada de dor e culpa que me acompanhavam diariamente. Eu não havia só perdido o amor da minha vida, tinha feito Alice perder Jasper, Esme sua melhor amiga e seu irmão e papai seu amigo de anos...

Deus! Eu havia destruído a família que me acolheu e me criou como seu.

— Desculpa, eu não quis...

— Tudo bem, mãe. Você está certa. Mas, não penso que seja assim. Alice e eu vimos dois carros diferentes indo em direção a Sonho Azul. Creio que tenham mandado alguém para fiscalizar suas coisas.

—Viram? Interessante! Falei com sua avó hoje, ela não me disse nada sobre visitas. Aliás, achei que estava diferente, a voz parecia mais forte e quando disse que passaria mais tarde para vê-la, fui dispensada.

Vovó Marie vinha definhando. O coração estava fraco e ela teimava em ficar vivendo sozinha na antiga sede da Sonho Azul, apenas há um kilômetro da casa de Tio Charlie.

— Temos que levá-la ao cardiologista, mãe. Já se passaram seis meses desde a última consulta.

— Só se for amarrada. Foi pra isso que liguei. Ela nem me esperou falar. Disse que estava ocupada e que não precisava de cardiologista nenhum. E que o “moleque” da última vez quase a matara. Disse que quer a de sempre. Senão, nada feito.

— “A de sempre” é tia Renée?

Mamãe assentiu.

— Doutora, desculpe-me por interromper, mas seu ultimo paciente acabou de chegar.

— Tudo bem, leve-o ao consultório. Eu já vou.

Sua secretária nos interrompeu, pelo interfone.

— Não se preocupe, também preciso ir. Vou pra casa hoje. Preciso dar água aquelas plantas ou quando Bella voltar só vai encontra o resto do que um dia foi um lindo jardim.

Levantei-me.

— Filho...

Evitei a piedade de mamãe e lhe fechei entre os braços. Eu sentia tanto a falta daquele contato. Esme havia me perdoado pelos meus erros e abraçá-la era a certeza disso.

Já Carlisle disse que me perdoara também, porém nunca mais me olhara do mesmo jeito. Eu o havia decepcionado de tantas maneiras.

— Não, mãe. Ela vai voltar. Eu sei... Agora vá trabalhar. Também já vou.

Afastei-me já caminhando para a saída.

— Passe na boutique e pegue suas irmãs. Vou demorar mais um pouco. Precisarão de carona.

— Alice... Pego Alice.

— Edward...

— Ou Alice ou nada, Esme. Só tenho uma irmã.

E sem esperar por sua resposta saí dali antes que me deixasse levar e passasse pelo quarto onde sabia que Bella havia estado pela ultima vez. Eu sempre fazia isso quando vinha até aqui.

— Você precisa perdoar, filho.

Gritou da porta.

— E você precisa parar de insistir, mãe.

Lembranças on

— Bella não vai gostar do seu presente.

— É claro que vai. Rosie que escolheu, e eu aprovei. É linda, Alice. E sei que gostou também.

— Claro que gostei. Para mim, para Rosie, não para Bella. Devia ter deixado que eu comprasse o presente.

Segurei a mão dela e atravessamos correndo a avenida que separava a universidade do barzinho do Caius onde nos reuniríamos para comemorar os dezoito anos de Bella.

Todos já estavam lá, só faltava minha irmã e eu.

— Eu queria algo diferente do que Bella tem e Rosie pôs boa vontade. Ela queria ajudar, Alice.

A pequena revirou os olhos e fez cara de indignação.

— Não sei quem é mais ingênuo, você que acredita nessa bondade súbita de Rósalie. Ou Bella que acredita que você mudou e a aceitará como é. Ela vai odiar seu presente, e se Deus quiser perceberá seus planos, e ter dará “um pé”, Edward.

— Vai sonhando, maninha. Aquela garota me ama.

— Pois é, esse é o problema. Ela te ama e você será um homem morto se fazê-la sofrer de novo. Jasper e Emmett não deixarão passar mais uma vez.

Ignorei Alice.

Há dois meses, depois de beijos molhados e roubados e muita persuasão, Bella havia aceitado minhas desculpas e voltávamos a namorar oficialmente.

A princípio, não fora nada fácil, por isso mantemos em segredo. Porém, odiei Jacob Black a sondando e antes que cometesse um crime, fiz com que ela comunicasse a todos de que era minha novamente.

E então aqui estávamos...

— Deixe que eu me preocupo com isso, Irmã. Ali...

Apontei para o fundo, onde uma mesa barulhenta se destacava,

Para meu desgosto, a “Agronomia” em peso tinha comparecido.

— Lice!

Uma se jogou nos braços da outra chamando a atenção para nossa chegada.

— Parabéns, amiga.

Alice lhe estendeu uma sacola da boutique que ela e Rosie frequentavam como se fosse uma lanchonete.

— Obrigada!

Bella amava ganhar presentes, por isso não perdeu tempo, abriu a sacola e deu gritinhos de satisfação quando viu a camisete branca, de lasie, que minha irmã escolhera.

Certo! Não era tão bonito quanto o meu presente, mas era sofisticado e simples ao mesmo tempo. Eu podia ver Bella a vestindo, com jeans, claramente.

— Posso falar com minha namorada agora? Já acabaram?

Alice estirou a língua para mim antes de correr para o lado de Jasper, nos dando um pouquinho de privacidade.

— Oi, namorado. Como foi seu dia? Sentiu saudades?

Antes de qualquer coisa, a puxei para perto e beijei sua boca dando um espetáculo.

Seus amigos gritaram e fizeram brincadeirinhas bestas.

E daí? Ela era minha. Sempre fora.

— Sabe que eu preferia que estivéssemos comemorando sozinhos, não é? Já tinha até feito reservas num restaurante ótimo em Port Ângeles. Você está estragando com meus planos, Bella.

— Da próxima vez. Eu já tinha combinado com eles antes de voltarmos, Edward. Não podia frustrá-los.

— E eu posso ser frustrado?

— Não, não pode meu amor. Prometo que te recompenso depois. Agora vem, vamos comemorar com todos. Caius, está trazendo uma picanha ao queijo que está de dar água da boca.

Sem muita vontade deixei que ela me puxasse para a algazarra. Cumprimentei Emm e Jasper, os outros, não fiz questão.

Sentei e a puxei para meu colo.

— Seu presente.

— Ah, meu bem. Não precisava.

Não precisava, mas seus olhos brilhavam enquanto desenrolava o laço e retirava a caixa de dentro da embalagem. Quando abriu a tampa e conferiu o conteúdo... Alice se aproximou...

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— É... É...

— Bonita?

— Assassina?

Jasper tentou ajudar, Emmett brincou.

Bella pareceu?... Não sei, pareceu?... Decepcionada?

— Nós podemos trocá-la, Bells, se não tiver gostado.

Alice se intrometeu.

— Trocar nada, Alice. É linda. E o número dela. Vamos comprar é um vestido que combine para aquele jantar que me deve, não é, amor?

Bella, ainda em meu colo, me olhou, me olhou de novo e então sorriu, sorriu lindamente.

— Eu gostei sim, Alice. Obrigada, Edward. Muito obrigada.

Sorri presunçoso para minha irmã. Que só negou com a cabeça e murmurou um “cego” em minha direção.

— E aí, moça, será que combinam com meu presente?

E para meu desgosto, Jacob Black se aproximou e colocou na cabeça dela um chapéu. Isso mesmo, um chapéu.

E para completar minha frustração, Bella se soltou de mim e pulou nos braços dele.

A sandália fora jogada de qualquer jeito de volta a caixa. Trocada por um chapéu qualquer que nem embalado estava.

— Que lindo, Jake! Eu amei. Vermelho, igual às botas que Leah me deu. Obrigada!

Para provocar, ele a rodou nos braços fazendo com que ela segurasse o tal acessório e gritasse de felicidade.

— Viu, irmão? Ele sabe do que ela gosta.

— E eu sei do que gosto, Alice. Bella vai se acostumar.

Fiquei mais meia hora naquele lugar e depois fui para casa. Comemoraríamos outro dia, do meu jeito.

Se bem que, se fosse do meu jeito... Não! Bella não estava pronta. Andava me restringindo e fugindo de momentos mais quentes. Literalmente, não estava pronta e eu morto de vontade de tê-la.

Naquele dia, uma percepção me tomou antes que eu dormisse: Mais um aniversário de Bella se passava e eu não disse que a amava.

Será que eu a amava?

Lembranças off

Dias atuais

Bella

— Mãe, por que eu não tenho uma sala? Titio Memett, Jas e você têm, também quero uma.

— Sabe, Pequeno homem, cresça e apareça.

Emmett bagunçou os cabelos de meu emburrado filho, que avaliava cada parte de nossa loja, quase pronta, como se entendesse de alguma coisa.

— Não tenho uma sala, amor, tenho um consultório para animais. Jasper precisa de uma sala para a contabilidade e a que Emmett usará é de todos nós, funcionará como escritório geral das fazendas.

— Eu sei, mamãe. Mas, também “pleciso” de uma sala, para contlo... Conto... “Que polcalia” de palavra!

— Antony! Vou lavar sua boca com sabão.

Fiz pose de brava, fazendo uma nota mentalmente de fazer Emmett engolir a palavra porcaria.

— Desculpa, mamãezinha. É que estou chateado, “pleciso” mesmo de uma sala para “contlolar”, isso, “contlolar” as chuvas aqui e no Brasil. Vou ficar onde? E quando as vacas e as éguas ficarem “plenhas”? Preciso de uma mesa para apoiar minha agenda.

Eu queria sorrir. Deus, eu queria gargalhar para a carinha de brava dele, ao bater o pé, calçados de botinas, e apontar para a agenda, que papai lhe dera, e que agora estava cheia de números a ermo e desenhos de cavalos, cavalinhos, céus azuis, com sol escaldante e nuvens cinza carregadas de chuvas.

— Tudo bem, filho, você está certo. Mamãe vai colocar uma mesa pra você lá na sala do tio Jas, mas...

— “Yes”! TIO JAS... Você vai ter que me emprestar suas canetinhas legais.

Fez um gesto de vitória e antes que eu terminasse de falar, saiu correndo em busca de contar as novidades ao tio.

Neguei com a cabeça e ainda sorrindo, voltei a avaliar as instalações já prontinhas de nossa loja. Só faltava a última inspeção da vigilância sanitária e então... Portas abertas.

— E então, ficou como sonhava? Ainda dá tempo de fazer mudanças.

Emmett, parado no batente da porta, me avaliava com intensidade.

Era a primeira vez que eu vinha aqui e via tudo pessoalmente. E, fato, fotos e vídeos mentiam.

Porém, eu sabia que o olhar dele em mim, não tinha haver com minha percepção sobre a loja ou a construção...

Emmett tentava me desvendar. Só que ele não era Jasper... Com eu disse, enganar quem compartilha sentimentos amargos em relação à outra pessoa, é muito fácil.

— Está tudo lindo, Emm. Eu não teria feito melhor. Até o depósito de adubos e rações ficou perfeito. Vocês se superaram.

— E a localização? Ficou chateada de ser aqui?

Estendeu a mão e a rodou, indicando a vizinhança, ou seja, a Cullen’s Medical.

Por que ele não era direto? Por que não perguntava de uma vez se estava incomodada de trabalhar de frente para Edward?

— Nem um pouco chateada. Eu convenci papai a comprar esse terreno, Emm. Amo a localização. Está tudo certo, não se preocupe.

— Certo. Então venha. Vamos olhar lá em cima. Antony, venha aqui. “Papai” quer te mostrar uma coisa.

— O quê? O quê?

Meu filho veio correndo, fazendo com que Emmett se abaixasse e o pegasse nos braços. Jas vinha logo atrás.

— Já vai ver.

Descemos, pelos fundos na cozinha da loja, os três degraus que nos levavam de volta a garagem. Depois caminhamos até a porta detrás e aí sim, subimos dois lances de uma escada branca e impecável de tão limpa.

— Faça as honras, irmã.

Emm, me estendeu a chave.

— Olha!

Antony se remexeu nos braços do tio e logo foi colocado ao chão.

— É uma casa, mãe.

— É sim. Venha ver aqui.

Jas o levou para o corredor enquanto eu avaliava como cada móvel havia ficado em cada ambiente.

É, para quem escolhera tudo por foto ou vídeo, até que ficara bom.

— Mãe!

Chamou Antony, de novo, meio afobado.

Fui ao seu encontro, e quase gemi ao ver sua carinha mais brava ainda e seus bracinhos emburrados, ao contemplar seu quarto decorado com tema de florestas e animais selvagens.

— Que foi, filho? Mamãe errou?

Abaixei-me, ficando da sua altura, e o puxei para mais perto.

Emm e Jas escondiam uma risada.

— “Pol que” tenho um “carto” aqui? Não quero “molar” aqui. Gosto da fazendo do vovô e do meu “carto” de lá. E dos animais e da “lavoula” e da cachoeira e da vovó e da bisvovó.

— Oh, meu amor!... E vocês não ajudam, não é?

Olhei severa para meus irmãos, que só levantaram as mãos em sinal de “não tenho nada com isso”, e saíram me deixando com um garotinho emburrado.

Sentei-me no chão e o puxei para um abraço apertado.

— Não vamos morar aqui. Você não vai morar aqui. Esse lugar é só emergência, ou quando, depois que você chegar da escola, e cansar de esperar por nós na loja, poder vir tirar um cochilo, brincar, assistir televisão. Ou quando mamãe tiver que dar aula à noite e ficar muito tarde para ir para a fazenda... É um lugar provisório. Tio Jas e tio Memett também têm seus quartos.

O puxei para fora e mostrei as portas logo à frente.

— Não vamos “molar” aqui?

— Não.

— “Plomete” de dedinho?

Estendeu o mindinho para mim, como Benjamin o ensinara ainda no Brasil.

— Prometo de dedinho.

Balançamos o dedo um do outro.

— Tá bom, então.

Beijou-me no rosto e então correu de volta para o quarto e começou a explorar cada brinquedo que mamãe, Leah e eu escolhemos com tanto carinho para os dias de ócio em que ele seria obrigado a esperar até que um adulto pudesse o levar para casa.

Aproveitei a pequena pausa do furacão Antony e caminhei para a porta de frente a sua.

— Ah, ficou bom.

Olhei detalhadamente a cama alta no meio do quarto. Uma roupa de cama marrom a adornava e nas mesinhas de cabeceira, dois abajures simples e de bom gosto.

À esquerda o guarda roupa de quatro portas, uma dava para o banheiro da suíte.

De frente para a cama um painel, com uma televisão de Led e alguns livros, a maioria de veterinária e agronomia.

E por fim, à esquerda, a varanda com vista para rua e fatidicamente, para o prédio de Edward.

Será que ele usava as instalações de cima? Eu não sabia.

Só sabia que não usaria a minha.

— Gostou? Papai não poupou esforços, nem dinheiro. Está ansioso por sua aprovação. Devia falar com ele, Bells. Charlie se culpa por ter te obrigado a voltar.

— Ele não obrigou.

Murmurei adentrado mais e me sentando na poltrona perto da porta da sacada.

— Praticamente...

Jasper se sentou a minha frente, aos pés da cama.

— Vovó precisa de nós, Jas. E, além do mais, eu teria que enfrentar meu passado alguma hora.

— Está preparada? Ele saiu assim que chegamos. Emm e eu o vimos. Foi sorte não ter virado a cabeça.

Ele não dizia o nome de Edward em voz alta, quase ninguém em casa dizia. Era um assunto evitável e incomodo.

— Vou estar. Preciso estar.

Fechei meus olhos, por dois segundos, e trouxe a mente uma lembrança, dentre tantas, que reforçava minha memória do porque de tanta dor.

Lembranças on

— Desfaz essa “cara”, filha. Quer ir para casa?

Dei de ombros. Fingindo não sentir desconforto com tudo que se passava. Estávamos na casa de tia Esme comemorando o aniversário de Edward. A área de lazer estava lotada.

Alice estava em nossa mesa. Já Edward estava “fazendo sala” para seus colegas de universidade.

Até aí tudo bem, o problema era que mal nos cumprimentara quando chegamos, o que não passou despercebido por nossa família. E também o fato de Tânia, amiga de Rósalie, não desgrudar do lado dele.

— Não, tia. Está tão cedo.

— Mamãe tem razão, Lice. Já deu para nós.

Jasper concordou.

Abaixei a cabeça quando mais uma risada estrondosa da loira bonita reverberou pelo espaço.

— Nem devíamos ter vindo. Vou perguntar a mamãe se ela quer ir conosco. Já volto.

Charlie se levantou, me olhando com pesar. Eu escutaria naquela noite... Papai há muito estava desgostoso com meu relacionamento com Edward.

Por Deus! Eu sabia! Sabia que não estava tudo bem. Sabia que ele agia como um idiota na presença de seus amigos, mas... Que droga! Eu o amava. Achava que esses anos todos separados serviriam de alguma coisa. Mas, eu me enganara. Edward não me amava. Nunca amaria.

— Ele é um idiota! Eu te avisei, Bells.

— Tá bom, Emmett. Você me avisou. Joga na cara, é tudo que preciso agora.

— Sua irmã está certa, amor.

— Não, Leah. Não a defenda. Bella sofreu esse tempo todo e não aprendeu nada. Foi só o Ed estalar os dedos e ela voltou. Merece sofrer mesmo.

— Emmett! Chega!

Mamãe o advertiu.

— Vem, Bells. Vamos esperar lá fora.

Jasper pegou minha mão e me guiou para fora dali, Alice nos seguiu.

Eu queria chorar. Queria por um fim em tudo... Mas, não suportava a ideia de perdê-lo.

— O que tem de errado comigo? Por que ele faz isso? É nossa família aqui. Se ele se envergonha e não nos queria em sua festa, por que nos convidou? O que faço, Jas?

Virei-me para meu irmão já com os olhos rasos de água. Era questão de segundos até a obra de arte que Alice fizera em mim, desmoronar.

— Pare, Bells. Venha cá.

Jas fechou-me em seus braços e alisou meu cabelo.

— São mundos diferentes, maninha. Não chore. Você tentou. Desista. Desista, enquanto ainda pode, Bells.

— Eu vou morrer sem ele, Jas.

— Ele já está te matando, lady Be.

Solucei baixinho e deixei que meu irmão me amparasse.

— Bella, eu lamento tanto. Meu irmão não sabe o que faz.

— Por favor, Alice. Deixe-nos. Amanhã nos falamos.

— Mas, Jas. Você já vai? Nos combinamos que...

— Agora não, Alice. Deixe-nos.

Ouvi o barulho dos saltos dela em contato com o chão se afastando.

— Não, Jas. Fica. Não faz isso com vocês. Alice não merece.

Afastei-me dele e encarei seus lindos olhos verdes.

— Você também não merece. Vem, vamos embora. Ligamos para papai do caminho e avisamos que já fomos. Se corrermos dá tempo de assistir ao capítulo daquela série que gostamos.

Deixei que ele me arrastasse até o local na frente da casa onde os carros estavam estacionados.

— Faço pipoca enquanto você prepara o brigadeiro.

— Não. Você faz tudo. Vou só sentar no sofá e...

— Bella! Isabella!

Jasper e eu viramos ao mesmo tempo.

Edward vinha a passos rápidos em nossa direção. Alice nos olhava, com aparência chorosa, da varanda.

— Você está indo embora? Ia sem se despedir?

Dei de ombros, de novo.

— Não achei que fosse perceber. Aliás, nem sei se notou nossa presença.

— Ah, não! Não tenha uma crise de mulherzinha. É meu aniversário. Eu precisava dar atenção a meus amigos. Eles são importantes. A maioria tem influência nos principais hospitais e clínicas da região.

O “importantes” era Tânia, a filha de Jane Volturi, a principal acionista do maior hospital de Port Ângeles.

Só que eu também era importante, minha mãe era sócia do hospital da mãe dele. Meu pai comprara o terreno para montar a clínica dele.

Eu era “a namorada”.

— Tá bom, Edward. Vai lá ficar com seus amigos influentes. Nós vamos para casa.

Virei de costas e voltei a caminhar. Jasper me seguiu.

— Não, Bella! Espera... Jas, nos deixe sozinhos, por favor.

— Sem chances, Cullen. Estou a um passo de convencê-la de que você não vale à pena. Já chega de aceitarmos calado o que você faz. Precisamos acabar com isso antes que Emmett quebre seu nariz, Edward. Deixe-nos em paz. Volte para seu mundo.

— Por favor, Jas. Só me dê uns minutinhos com Bella. Enquanto isso, fale com Alie. Ela está apavorada de medo de te perder.

E ela estava mesmo, eu conhecia minha amiga.

Alice continuava na varanda, mas seu cabelo, sempre impecável, já estava remexido e virado em todas as direções de tanto que ela o esfregara de nervoso e ansiedade, a mesma mania de Edward.

— Fale com ela, irmão. A fadinha não tem culpa. Eu te espero.

— Ele vai te iludir.

Sorri triste para meu irmão. Era uma verdade. No momento que Edward abrisse a boca eu me renderia.

Mas, se uma pessoa só sofresse nessa vida já era o bastante, eu não precisava de meu irmão e minha melhor amiga pagando por minhas fraquezas. Porque era claro, como água, que Jasper deixaria Alice para trás, por mim. Assim como Emmett fizera com Rósalie.

— Ficarei bem. Já sou crescidinha, Jas.

Beijei a testa dele e, tentei, empurrá-lo em direção a namorada.

— Credo, irmão! Você tá gordo. Vamos ter que te exercitar mais.

— Bells...

— Vai lá, Jas. Se despeça direito e vamos embora. Se for rápido não dará tempo de Edward me iludir.

Afastei-me dele alguns passos e Edward me seguiu, meio desconfiado.

Jasper, a contra gosto, foi até Alice.

— Preciso beijar você e saber que está tudo bem entre nós, que estamos na mesma página e...

Estendi as mãos o barrando e fazendo com que parasse.

— Vá para dentro, Edward. Seus amigos devem estar sentindo sua falta. Nos falamos outra hora.

— Não, Bella. Te conheço. Não vou deixar que vá para casa chateada.

— Ei, Bells, tá bonita, hein?Parece até uma boneca. Vai a uma festa chique? Se quiser de divertir de verdade estamos fazendo uma fogueira lá no retiro. Apareça.

Sorri para Jacob que, nos interrompera, quando passava a nossa frente, com uma quantidade grande de lenha na mão.

— Hum, posso ir assim? Se for em casa trocar de roupa Charlie não me deixará sair.

— Claro que pode. E podemos arranjar qualquer coisa legal para você com minha Irmã. Diga a tio Charlie que te levo em casa depois, caso seus irmãos estejam se divertindo aqui. Apesar de que, Emmett jurou que apareceria.

— Tudo bem. Dê-me cinco minutos.

Jacob sorriu cínico para Edward e se afastou.

— Tá maluca? Você vai trocar minha festa para se esgueirar para a companhia dos empregados? Você não vai. Ou entra comigo ou vai pra casa.

— Vá para o inferno, Edward!

Voltei a dar-lhe as costas.

— Não! Bella! Não, pelo amor de Deus! O que está fazendo? É meu aniversário. Não é isso que quero de presente. Espere...

Voltei a parar e esse foi meu maior erro. No momento em que ele se aconchegou a minhas costas, levantou meu cabelo e beijou minha nuca e meu pescoço, eu já havia me rendido.

— Não quero que vá para a casa dos peões. Quero que fique comigo. Quero que me espere, porque assim que isso aqui acabar, vamos comemorar. Eu e você. Sozinhos, na cidade. E prometo que vai ser maravilhoso.

Merda! Merda!

Os beijos molhados tinham um efeito grandioso em mim. As mãos em minha cintura. O corpo quente totalmente colado ao meu...

Há muito que as carícias haviam mudado de tom, e só não havíamos nos entregado ainda, porque eu me segurava.

Não queria me render, não queria entregar a Edward minha virgindade sem saber se eu era mesmo o que ele queria. Se o fizesse com essa dúvida aí seria mesmo o meu fim.

— Não vou ficar nessa festa, Edward. Se Tânia se esfregar mais uma vez em você, vou quebrar o nariz dela. E aí sim, você terá motivo para se envergonhar de mim.

— Eu não me envergonho de você. Só não concordo e não aceito sua escolhas. Vamos, amor... Esquece, Tânia. Ela não significa nada.

— Diga isso a ela e a Rósalie.

— Volta pra lá comigo, Bella. Passamos pela festa e então fazemos a nossa.

Ele me virou em seus braços e antes que eu raciocinasse, sua boca gulosa e suas mãos, com vida própria se apossaram de todos os lugares.

Era quente, muito quente.

— Odeio essas calças, elas te marcam demais. Te deixa mais deliciosa. Odeio que fiquem vendo. Odeio... Você é minha, só minha.

— Não sou sua. Não sou de ninguém, aliás, sou dos meus pais. Pare, Edward...

Mas, ele não parou. Os beijos aumentaram e a intensidade dos toques também. Ainda bem que estávamos mais afastados, longe de olhares curiosos que, certeza, achariam que aquilo era mesmo um “atentado violento ao pudor”.

— Minha. Só minha.

— Ed, cadê você? Não seja grosseiro. Volte para seus convidados.

Rósalie gritou ao longe, quebrando um pouco o clima.

— Volte para lá, não seja grosseiro.

Imitei a irmã dele, usando voz fina e fazendo cara de cínica.

Ele sorriu e continuou me enchendo de selinhos e aperto.

— Volto se você voltar comigo. Se não, vou ser apelidado de grosseiro e Esme vai ficar muito brava com você, porque direi que a culpa é sua.

Brincou sorrindo, e esse era o Edward que eu amava. O Edward que se mostrava para mim, só para mim.

— Sua mãe me ama.

— Lógico que ama. Mas preza a boa educação. Volte comigo, Bella? Não quero que vá para o retiro.

Afastou-se um pouquinho e me olhou com muita intensidade.

Era meu fim, eu nunca daria conta de dizer não quando ele me pedia algo olhando com tanta magnitude. Edward me tinha nas mãos.

— Tá, Edward, você venceu. Volte para lá. Vou para casa com meus pais.

Apontei para Charlie, Renée e vovó Marie que vinham em nossa direção.

— Não quero que vá embora. Quero comemorar com você depois.

— Você quer comemorar comigo depois, mas não me quer aqui com seus amigos, não precisa disfarçar. Vou para casa. Amanhã conversamos.

— Bella...

— Amanhã, Cullen. Amanhã teremos uma conversa definitiva. Não faça bobagens e tire as mãos de Tânia de cima de você.

Dei mais um beijinho nele e me afastei.

Minha promessa não fora cumprida em muito sentidos naquela noite e naqueles dias.

Lembranças off

Eu não fora para a fogueira de Jacob...

Eu não tivera a “tal” conversa séria com Edward...

Tânia não tirara as mãos deles...

Eu não me protegera dele...

Eu não me protegera do destroçar completo de meu frágil coração. Eu não protegera minha família de mim. Eu não protegera meu pequeno futuro da dor que sempre viveria em mim.

— Mamãe, venha ver a cama do papai Memmett, é “enolme”.

— Bella?

— Tá tudo bem, Jas. Vamos terminar isso aqui, porque quero ir logo para a fazenda antes que escureça.

Eu não me preparara para nada...

Notas finais
Bom, só para esclarecer, "retiro" aqui na minha região, e como se denomina as casas dos peões. Ok? Outra coisa, o próximo é muito importaaannttee. Aguardem e confiem. "It Malia". E todo amor do mundo por Antony.