Quando o Tempo Parar
3 Ritual de Sobrevivência
Capítulo 3 – Ritual de Sobrevivência
O despertador tocou às sete.
O som familiar soou mais alto do que nunca, como se o mundo insistisse em continuar. Bella abriu os olhos e ficou ali, imóvel, observando o teto.
O quarto azul turquesa estava banhado pela luz fria de uma manhã nublada em Forks. Cortinas cinzentas filtravam o sol, deixando o ambiente num tom prateado.
O abajur sobre a cômoda, a pilha de livros ao lado da cama, o perfume leve de lavanda — tudo estava igual.
Mas ela não estava.
Levantou-se devagar, os pés descalços encontrando o chão gelado. Caminhou até a cozinha.
O relógio marcava 7h14.
Preparou o café com a mesma precisão de sempre — duas colheres, água fervendo, o som do líquido caindo no filtro.
Sentou-se à mesa, encarando a caneca fumegante.
O vapor subia, girava, e desaparecia.
Como tudo o mais.
Respirou fundo e abriu o celular. Três mensagens novas — todas triviais.
Nenhuma parecia pertencer ao mundo dela.
No espelho da sala, prendeu o cabelo num coque firme, passou base e batom protetor labial.
Cada movimento era parte de um rito: fingir normalidade.
Vestiu uma camisa de seda marfim, calça preta de alfaiataria e um sobretudo cinza-claro. Perfume suave.
Pegou a bolsa, as chaves, e olhou o post-it amarelado preso na geladeira:
“Retorno oncologista: quarta feira, 19/03 às 2:30 p.m.”
Ficou olhando por um momento.
Depois o arrancou, amassou e jogou no lixo.
A redação fervia como sempre.
O som do telefone, das impressoras e do café sendo passado criava uma sinfonia caótica de rotina.
Bella atravessou o corredor cumprimentando colegas com sorrisos automáticos.
— Bom dia!
— Oi, Bella!
Nada parecia diferente — e talvez esse fosse o problema.
Aro Volturi estava encostado na moldura da porta da própria sala, segurando uma xícara de porcelana e observando o movimento com o olhar clínico de quem decifra pessoas como textos.
— Srta. Swan. — disse, chamando-a com um aceno. — O relatório da série sobre segurança pública?
— Já revisei. Envio até o fim do dia.
— Ótimo. — ele sorriu, mas o olhar não acompanhava o gesto. — E você? Está bem?
— Estou. Só cansada.
— Hm. Cansada. — deu um gole no café. — O mundo inteiro anda cansado, Srta. Swan. Mas você parece exausta.
— Não é nada. — mentiu. — Talvez só precise dormir melhor.
Aro assentiu, sem acreditar, e antes de sair deixou escapar:
— Dormir é bom.
O sino da porta anunciou Alice, pontual como sempre.
Ela vestia um suéter azul e calça jeans, o cabelo loiro curto perfeitamente penteado.
Trazia no olhar o tipo de preocupação que disfarça com sorrisos.
— Você tá mais magra. — foi a primeira coisa que disse.
— É o café daqui. Vicia. — Bella respondeu, levantando a xícara.
Sentaram-se na janela, o aroma de pão fresco e canela preenchendo o ar.
Alice brincava com o guardanapo, dobrando-o em triângulos.
— Você falou pro Jacob sobre o tratamento?
Bella olhou pra rua, onde uma mãe empurrava um carrinho de bebê sob o vento.
— Ele não é bom com más notícias.
— E você é?
O silêncio foi pesado o bastante para substituir qualquer resposta.
Bella deu um meio sorriso, tentando desviar.
— Eu não quero que tudo vire uma despedida. Aliás, tenho certeza que essa relação já está saturada.
Alice segurou a mão dela por cima da mesa, e Bella permitiu o toque — por alguns segundos.
Depois se afastou.
O garçom trouxe duas fatias de torta de maçã.
Bella comeu devagar, mastigando sem sentir o sabor.
As luzes já estavam apagadas em metade do andar.
Jessica Stanley, sempre animada, passou apressada segurando uma bolsa e o celular.
— Bella! Hoje é sexta! Me diz que vai sair, por favor!
— Talvez.
— Vai sim! A vida é curta! — brincou, sem saber o quanto estava certa. — Eu e o pessoal vamos no Blue Moon de novo.
Bella sorriu de canto.
— Ainda não decidi.
— Então eu te ligo mais tarde, tá? — Jessica acenou e saiu.
O silêncio voltou.
Bella ficou encarando o monitor, o reflexo do próprio rosto no brilho da tela.
Atrás dela, a cidade acendia suas luzes.
Ela fechou o notebook.
Encostou a testa sobre os braços cruzados e respirou. O corpo já dando sinais de instabilidade. Mental e física.
O vento fazia as cortinas dançarem.
Bella deitou no sofá com o notebook aberto sobre as pernas.
A matéria piscava na tela:
“Como o medo molda o comportamento humano.”
Ela sorriu sem humor.
— Pouca ironia é bobagem.
Pegou o celular.
Mensagens novas de Alice. De Jessica.
Nenhuma de Jacob.
No canto da sala, o abajur projetava luz amarela sobre as paredes brancas.
O ambiente estava calmo demais.
Parecia um cenário esperando o próximo ato.
Bella se levantou, foi até a janela e olhou para fora.
As casas vizinhas exibiam pequenas fatias de vida — famílias jantando, risadas, luzes piscando.
Ela encostou a testa no vidro gelado.
O reflexo do próprio rosto parecia o de uma estranha.
Fechou as cortinas, apagou as luzes e foi dormir com o som distante da chuva batendo no telhado.
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