Quando o Tempo Parar
4 As Pequenas Mentiras
Capítulo 4 – As Pequenas Mentiras
O hospital tinha o mesmo cheiro de sempre — álcool, metal e silêncio.
Bella odiava aquele cheiro.
Trazia à tona uma consciência que ela tentava esquecer.
Sentou-se na poltrona da sala de espera, as mãos frias sobre o colo.
A televisão passava um programa de variedades no volume baixo.
Pessoas riam na tela.
Ela não via graça em nada.
Vestia um sobretudo bege, calça escura e botas de salto baixo.
O cabelo preso em um coque frouxo e uma echarpe azul no pescoço davam a ela uma aparência serena — talvez até saudável.
Era assim que ela gostava de parecer: normal.
— Isabella Swan? — chamou a recepcionista.
Ela se levantou, ajeitou o casaco e caminhou até a sala 214.
Carlisle estava de pé, organizando papéis sobre a mesa.
A luz vinda da janela deixava o ambiente quase etéreo.
Ele sorriu ao vê-la entrar, com aquele olhar que misturava cuidado e resignação.
— Srta. Swan. Como tem se sentido?
— Ótima. — respondeu sem hesitar, cruzando as pernas.
Ele ergueu uma sobrancelha, o sorriso leve.
— “Ótima” de novo. É uma palavra recorrente no seu vocabulário.
— O senhor prefere que eu diga o quê? “Assustada”? “Com raiva”?
— Prefiro sinceridade. — respondeu, sentando-se à frente dela. — E, se for possível, um pouco de compaixão… consigo mesma.
Ela desviou o olhar, observando as anotações sobre a mesa.
— Eu só quero continuar vivendo como se nada tivesse acontecido.
— Isso é um mecanismo de defesa, Isabella. Natural. Mas perigoso, se durar muito.
Ela respirou fundo, fingindo concordar.
Carlisle pegou a pasta dela.
— Seu caso ainda está estável, mas seria bom fazer exames regularmente para comparação de evolução. Eu recomendo iniciarmos o protocolo básico — radioterapia leve e acompanhamento psicológico.
Bella sorriu, tensa.
— Sabe o que eu acho? Que às vezes a cura faz mais mal do que a doença.
Carlisle ficou em silêncio por um momento.
— A doença tira o tempo. O tratamento tenta devolvê-lo. Mesmo que pouco. Sente alguma dor?
— O problema é que o tempo nunca vem no mesmo formato. E não, por incrível que pareça, apenas cansaço excessivo, como se tivesse passado dias acordada.
— Está tendo dificuldades para dormir?
— Não. Só cansaço mesmo.
— Os sintomas é derivado da neoplasia, eu vou pedir alguns exames, por favor, faça. E gostaria que trouxesse alguém de sua confiança na próxima consulta, seria bom para você não vir sozinha. Irei deixar algumas medicações para ajudar na estafa, o seu psicológico estar abalado também contribui para esse seu cansaço.
Ela segurou a bolsa, pegou o encaminhamento e as receitas, pronta pra levantar.
Antes de sair, algo chamou sua atenção no corredor: uma fotografia em preto e branco.
Um campo aberto, o céu coberto de nuvens.
No canto da imagem, uma assinatura: E. Cullen.
Ela ficou ali parada, hipnotizada pela foto.
O contraste entre luz e sombra, a solidão no enquadramento.
Era bonita e triste, como tudo o que ainda a prendia à vida.
A tarde estava cinza, um vento frio soprava das colinas.
Bella caminhava até o estacionamento quando ouviu o clique de uma câmera.
Olhou para o lado.
Um homem, de jaqueta marrom e barba por fazer, estava encostado na mureta fotografando o céu.
A expressão dele era calma, concentrada, mas havia algo de melancólico no olhar — como se enxergasse mais do que estava diante da lente.
Eles se olharam por um instante.
Ele sorriu, um sorriso pequeno, quase tímido.
— Linda luz, não acha? — disse ele.
Bella piscou, um pouco surpresa pela naturalidade.
— Depende do ponto de vista. — respondeu. — Pra mim, parece um dia prestes a desabar.
— É o que a torna interessante. — disse ele, guardando a câmera. — A beleza está sempre um pouco antes da tempestade.
Bella arqueou a sobrancelha.
— Você é poeta ou fotógrafo?
— Os dois se confundem às vezes. — respondeu. — Edward.
Ela assentiu, ainda em tom neutro.
— Isabella.
— Prazer, Isabella. — Ela olhou em volta.
Ele sorriu, e dessa vez o olhar dele ficou mais suave.
Bella se despediu com um aceno discreto e entrou no carro.
O motor ligou, e por um momento ela se permitiu olhar o espelho retrovisor:
Edward ainda estava ali, ajustando a câmera para mais uma foto do céu.
Jessica a convenceu a sair.
O bar era moderno, com paredes de concreto e lâmpadas de filamento pendendo do teto.
Pessoas riam alto, copos tilintavam.
Bella estava sentada ao balcão, mexendo a palhinha no drink.
O vestido preto de tecido fino contrastava com o batom vinho.
Ela parecia perfeita — mas apenas por fora.
Jacob chegou atrasado, o perfume forte e o sorriso apressado.
— Desculpa, amor. Treino demorou.
— Tudo bem. — ela respondeu sem emoção.
Ele se sentou, pediu uma cerveja, começou a falar de patrocínios, seguidores, novas metas.
Bella ouvia, mas a mente vagava.
— Você tá tão distante ultimamente.
— Tô só cansada.
— Cansada… de mim?
— De tudo.
Ele bufou, sem entender.
— Você devia parar de pensar tanto. Vai acabar doente.
Ela soltou um riso baixo e irônico.
— Tarde demais.
Ele não captou o duplo sentido.
O vento soprava forte.
Bella encostou no carro, os olhos fixos no céu nublado.
As luzes da rua se refletiam nas poças de chuva.
Aos poucos, lágrimas começaram a descer — silenciosas, involuntárias.
Não era choro de desespero.
Era só o corpo finalmente reagindo àquilo que a mente tentava calar.
No banco do carona, o celular vibrava com mensagens não lidas.
Alice, Jessica, Jacob, trabalho.
Nada parecia importar.
Negar era mais fácil enquanto ainda fingia não sentir. Entretanto, o fingimento já não previa mais os efeitos esperado, e a dura realidade já estava estabelecida em sua mente.
Ela entrou no carro, ligou o rádio.
A música era The Scientist, do Coldplay.
Dessa vez, ela não desligou.
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