Quando o Tempo Parar

5 A Insustentável Injustiça do Ser


Capítulo 5 – A Insustentável Injustiça do Ser

A chuva caía fina sobre Forks.

A cidade, coberta por uma névoa quase poética, parecia refletir o estado de espírito de Bella — silenciosa, densa, cansada.

Ela estava em casa, sentada à mesa da cozinha, o laptop aberto com uma matéria inacabada.

O título piscava no topo da tela:

“A falha humana diante do inevitável.”

Suspirou, apagou o título e fechou o notebook.

O som do clique ecoou como um ponto final.

No chão, uma pilha de correspondências ainda fechadas. Entre elas, uma do hospital.

Ela a ignorou pela terceira vez naquela semana.

O celular vibrou. Jacob.

Jacob: “Não vou conseguir passar hoje. Reunião de última hora.”

Bella: “Tudo bem.”

Jacob: “Você tá bem mesmo?”

Bella: “Tô ótima.”

Ela olhou para o próprio reflexo no espelho da cozinha.

O rosto pálido, as olheiras levemente marcadas, o cabelo preso de qualquer jeito.

“Ótima”, repetiu em voz baixa, rindo sozinha.

O escritório estava mais silencioso do que o normal.

Aro Volturi, de terno cinza e expressão atenta, caminhava entre as mesas observando tudo como quem lê entrelinhas.

— Srta. Swan — chamou, parando ao lado da mesa dela. — Gostaria que revisasse a matéria sobre o aumento dos suicídios no noroeste.

Bella congelou por um segundo.

— Claro. — respondeu, e o tom de voz traiu um leve tremor.

Aro percebeu.

— Algum problema?

— Só ironia. — respondeu, devolvendo um sorriso cansado.

Ele inclinou a cabeça.

— Ironia é o tempero do caos. Eu gosto.

E saiu, como se tivesse dito algo leve.

Jessica apareceu logo depois, segurando dois cafés.

— Trouxe um pra você, amiga. Tem gosto de papelão, mas é quente.

Bella aceitou, rindo.

— Obrigada, Jess.

— Você tá mesmo bem? — perguntou a colega, olhando com carinho. — Desde aquele dia no bar, parece… distante e pálida.

— Acho que só tô repensando as prioridades.

— Adoecer faz isso, né? — disse Jessica, sem perceber o peso da frase.

Bella ficou muda por um instante.

— Faz. — respondeu, olhando para a xícara. — Faz sim.

O som do relógio marcava cada segundo com crueldade.

Carlisle a observava em silêncio, os cotovelos apoiados sobre a mesa.

— Você não voltou para os exames de sangue. — disse com voz calma.

— Eu sei. — respondeu Bella, sem encará-lo.

— Está evitando?

— Estou escolhendo.

— Entre o quê?

— Entre me sentir viva e me sentir uma estatística.

Carlisle respirou fundo.

— E o que a faz se sentir viva, Isabella?

Ela pensou.

— O cheiro da chuva. Café forte. E escrever sobre o que eu não posso consertar.

— É uma lista bonita. Mas incompleta. — respondeu o médico, com leveza.

Ela o olhou, curiosa.

— Incompleta?

— Falta você mesma nela. Se quer viver e não ser estatística, poderia criar uma lista sobre o que falta fazer antes de partir. Não posso obrigá-la a fazer um tratamento, mas posso aconselhar a tomar as decisões mais sábias. Está sentido alguma dor

— Ultimamente, dores de cabeça.

O silêncio se prolongou.

— Aqui tem dipirona, no seu caso não será tão prejudicial, mas preciso dos exames para receitar a medicação correta, apenas para você ter uma qualidade de vida melhor.

Antes que pudesse responder, uma batida na porta interrompeu.

Carlisle se levantou.

— Pode entrar.

Um homem entrou com uma câmera pendurada no pescoço. Jaqueta de couro, olhar atento — Edward Cullen.

Ele carregava uma expressão distraída, o tipo de presença que parece ao mesmo tempo distante e totalmente ali.

— Pai, o diretor pediu as fotos dos novos corredores — explicou Edward. — A luz da manhã tava boa.

Bella desviou o olhar, surpresa.

Carlisle sorriu.

— Isabella, este é meu filho, Edward. Edward, Isabella Swan.

— Nós nos vimos outro dia. — disse Edward, gentilmente. — No estacionamento.

Bella assentiu. — Sim. O poeta disfarçado de fotógrafo.

Ele sorriu, contido. — Ou o contrário.

Carlisle observou, intrigado, mas não comentou.

— Edward, por favor, leve os arquivos pro setor de imagem depois.

— Claro, pai.

Ele sorriu e foi embora, deixando a porta entreaberta.

O relógio de parede marcava 21h.

Alice estava na cozinha, preparando chá.

O som das gêmeas rindo vinha da sala.

Bella observava tudo com uma expressão suave, mas distante.

— Você devia vir morar com a gente — disse Alice, entregando-lhe a xícara. — Jasper falou que dá pra adaptar o quarto de hóspedes.

— Não precisa, Allie. Eu dou conta.

— Você não devia estar sozinha.

— Sozinha é como todo mundo nasce. E morre. — respondeu, serena demais.

Alice pousou a xícara na mesa com força.

— Para com isso, Bella! Você fala como se já tivesse morta! Eu estou aqui, e você não está sozinha! Tem chances para você mas você prefere ficar lamentando. Não quer fazer o tratamento? Não faça! Mas vive o tempo que lhe resta! — Alice suspirou profundamente — E não me afaste.

Bella ergueu o olhar, finalmente mostrando raiva.

— E você fala como se eu pudesse evitar!

O silêncio que veio foi quase palpável.

As gêmeas diminuíram o riso, percebendo a mudança de tom.

Alice sussurrou:

— Eu só quero que você lute.

— E eu só quero que você entenda. — respondeu Bella, a voz embargada. — Não é covardia. É escolha.

Alice começou a chorar.

Bella se levantou, passou por ela e beijou-lhe a testa.

— Te amo, Allie. Mas não quero que meu fim seja o seu desespero.

Saiu antes que a irmã pudesse responder.

O som das gotas batendo no capô do carro era ensurdecedor.

Bella respirou fundo, apoiando a testa no volante.

Os pensamentos vinham em torrentes.

Por que comigo?

Por que agora?

Isso é castigo Divino?

Bateu no volante, uma, duas vezes.

A dor não era física.

De repente, só bater não parecia resolver, um nó se formou na garganta, como se palavras estivessem embaralhadas como uma corrente no bolso.

E Isabella gritou, e se desesperou pela primeira vez.

Era como se a alma estivesse se debatendo dentro de um corpo que ainda se recusa a ceder.

De repente, uma batida suave no vidro.

Bella olhou.

Edward estava ali, escondido da chuva, segurando um guarda-chuva.

Ela abaixou o vidro.

— Você tá perseguindo pacientes agora? — a voz embargando no final da pergunta.

Ele riu, o olhar gentil.

— Só os que parecem precisar de um pouco de luz.

— Tá desperdiçando o guarda-chuva.

— Ah, eu gosto da chuva. Tira as pessoas do automático. — respondeu, com naturalidade.

Bella hesitou, depois abriu a porta.

Edward estendeu o guarda-chuva pra cobrir os dois.

— Vai pra onde? — perguntou ele.

— Pra casa. — respondeu. — E você?

— Pra nenhum lugar específico.

Ficaram em silêncio por alguns segundos, apenas ouvindo a chuva.

— Você sempre fala assim? — perguntou ela. — Como se o mundo fosse poesia disfarçada de tragédia?

— Só quando encontro alguém que entende o idioma.

Bella o olhou, e algo nela — uma parte que ainda resistia — se acalmou.

Por um instante, o tempo pareceu suspenso.

Quando finalmente se afastou, Edward disse:

— A chuva passa. Sempre passa.

Bella sorriu, cansada.

— E sempre volta.

Ele riu baixo.

Ela entrou no carro e, antes de ligar o motor, olhou pelo espelho retrovisor.

Edward caminhava pela rua, sem pressa, a câmera pendurada no pescoço, capturando a cidade sob a tempestade.

Ele fotografa o que o tempo tenta apagar, pensou.

E eu… ainda estou tentando existir.

Notas finais
Olá, eu sou Carol, não sou escritora mas tive uma experiência parecida com o que se passa nessa história. As informações, principalmente da doença, são pautadas da forma mais real possível mas isso não significa que é um diagnóstico pronto.