Capítulo 8 – A Metade do Amanhã

O som da campainha se misturava ao toque insistente do celular.

Do outro lado da porta, Alice segurava o próprio casaco com as mãos trêmulas.

O coração batia rápido demais, e um pressentimento frio a fazia sentir que algo estava errado.

— Bella? — chamou, batendo outra vez. — É a Allie.

Nenhuma resposta.

O silêncio do apartamento parecia pesado, espesso.

Alice forçou a maçaneta — estava destrancada.

Entrou devagar, o ar cheirando a café e solidão.

O notebook ainda estava aberto na mesa.

Na tela, o texto piscava:

“Há graça nos dias comuns…”

O resto permanecia inacabado.

Alice deu dois passos à frente e viu o copo caído, o líquido seco no chão.

Por um segundo, o mundo parou.

— Bella?

O corpo da irmã estava caído ao lado da mesa, o rosto voltado para o chão, o braço direito curvado de maneira estranha.

— Meu Deus… Bella! — gritou, ajoelhando-se ao lado dela. — Bella, me ouve!

Nenhuma resposta.

A respiração era rasa, o pulso fraco.

As lágrimas vieram sem aviso, como se a garganta não suportasse mais.

Alice tremia, apoiando a cabeça da irmã em seu colo.

— Não faz isso comigo… — sussurrou. — Por favor, não faz isso comigo.

A mão trêmula procurou o celular.

— Emergência… sim, minha irmã… ela desmaiou… respira, mas não acorda…

A voz se desfez em soluços.

O som distante da sirene cortou o silêncio da rua, e Alice chorava entre uma prece e uma lembrança — as duas garotinhas dormindo em casa, Jasper sem saber, a sensação de que o mundo estava despencando e não havia como segurar.

Quando os paramédicos entraram, Alice ainda estava ajoelhada, murmurando o nome da irmã como quem tenta chamar a alma de volta.

O quarto de hospital tinha paredes cor de marfim e um zumbido constante de aparelhos.

O cheiro de antisséptico se misturava ao da chuva que batia nas janelas.

Bella estava inconsciente.

Um tubo de oxigênio passava por baixo do nariz, o soro descia em gotas lentas.

O corpo parecia calmo demais para alguém em guerra.

Alice estava sentada ao lado da cama, o rosto abatido, o cabelo desalinhado.

Os olhos vermelhos denunciavam o choro contínuo.

Ela segurava a mão da irmã, como se o toque fosse capaz de impedir o tempo.

Carlisle entrou em silêncio.

A expressão dele misturava profissionalismo e pesar.

— Sra. Whitlock… — começou, com voz baixa. — Ela teve uma crise convulsiva. O tumor está progredindo.

Alice piscou algumas vezes, tentando processar.

— Mas… ela vai acordar, certo?

Carlisle hesitou.

— Sim. Mas o quadro está avançado. A atividade tumoral agora afeta o córtex motor e áreas do lobo temporal. Ela pode ter lapsos de fala, confusão… até novas convulsões.

Alice levou as mãos ao rosto, o som do choro voltando.

Carlisle se aproximou, tocando-lhe o ombro com gentileza.

— Eu sei que é difícil. Mas chegou o momento de pensarmos em medidas paliativas.

— Isso quer dizer que ela vai morrer. — disse Alice, sem olhar para ele.

Carlisle respirou fundo.

— Quer dizer que ela merece não sofrer.

O silêncio que seguiu pareceu um eco.

Do lado de fora do vidro, Edward observava.

Tinha chegado minutos antes, a pedido do pai, sem saber o motivo.

Agora, com o olhar preso na mulher inconsciente, a verdade se encaixava como uma fotografia antiga que finalmente fazia sentido.

As vezes em que ela desviou o olhar, os lapsos de fala, o brilho triste escondido por trás de cada sorriso.

Carlisle saiu do quarto e encontrou o filho ainda parado no corredor.

— Você sabia? — perguntou Edward, a voz baixa.

— Ela não me autorizou a contar. — respondeu o pai. — Mas eu achava que você iria perceber.

Edward fechou os olhos, as mãos trêmulas nos bolsos.

— Ela sabia o que estava enfrentando, e mesmo assim… — a voz falhou. — Ela vivia como se o tempo fosse um lugar seguro.

Carlisle olhou para ele com ternura.

— Talvez fosse, enquanto ela acreditou nisso.

O som da porta se abrindo trouxe Jacob.

O perfume forte, a jaqueta de couro, a pressa no andar — como se a pressa pudesse apagar a culpa.

— O que aconteceu? — perguntou, ofegante.

Alice o olhou com o rosto inchado de choro.

— Você devia ter estado lá.

— Eu não sabia, Alice! Ela não me disse nada!

— Ela não dizia pra ninguém o que sentia, Jacob! — retrucou, a voz ferindo o ar. — E mesmo assim você nunca percebeu!

Ele desviou o olhar, engolindo o que não sabia responder.

Entrou no quarto, o som dos passos ecoando no chão frio.

Parou diante da cama e olhou para Bella, imóvel.

Os olhos marejaram, mas havia algo ensaiado na dor dele — como se estivesse chorando para se convencer de que ainda a amava.

— Ei, amor… — disse em voz baixa. — Eu tô aqui, tá? Vai ficar tudo bem.

Alice fechou os olhos, incapaz de suportar o fingimento.

Edward observava de longe, o olhar sombrio e sereno ao mesmo tempo.

Jacob segurou a mão de Bella, mas ela não reagiu.

Então, num impulso quase teatral, se virou para Carlisle:

— O que vocês vão fazer pra salvar ela?

— Nós já estamos fazendo. — respondeu Carlisle, com calma. — Agora é sobre conforto, não sobre cura.

— Isso é desistir! — gritou Jacob.

— Não. — corrigiu Edward, entrando na conversa pela primeira vez. A voz dele era baixa, firme. — Isso é amar o suficiente pra deixar alguém descansar.

Jacob o encarou, irritado.

— E quem é você pra falar dela?

Edward hesitou por um segundo, depois respondeu:

— Alguém que a escutou quando ela ainda queria ser ouvida.

O silêncio que veio foi pesado, denso.

Jacob saiu do quarto, sem olhar para trás.

Alice respirou fundo, exausta.

Carlisle tocou no ombro do filho.

— Fica com ela um pouco.

Edward assentiu e se aproximou da cama.

As máquinas piscavam com luzes brandas.

Ele sentou-se ao lado, observando o rosto tranquilo de Bella.

Por um instante, quis fotografar — congelar aquele momento antes que o tempo o levasse.

Mas não levantou a câmera.

Só estendeu a mão e tocou a dela com delicadeza.

— Você sempre escreveu sobre o fim das coisas… — murmurou. — Mas ninguém te contou que, às vezes, o fim é só o jeito que o universo tem de recomeçar por dentro da gente.

Os olhos de Bella se moveram levemente sob as pálpebras.

Edward sentiu o toque sutil dos dedos dela se contraindo contra os seus.

Um sinal pequeno, mas suficiente.

Lá fora, a chuva começava a cair de novo — fina, constante, eterna.