Quando o Tempo Parar
9 Antes que a Luz se Apague
Capítulo 9 – Antes que a Luz se Apague
O som do monitor cardíaco marcava o tempo em pequenos intervalos.
Beep.
Beep.
Beep.
Bella abriu os olhos devagar.
O teto branco a cegou por um instante.
O corpo estava pesado, a cabeça latejava, mas ela respirava.
Respirava — e isso bastava.
À sua esquerda, Alice dormia numa poltrona improvisada, o rosto amassado contra o braço do assento.
O cabelo loiro bagunçado denunciava a vigília longa.
Bella piscou, o som do oxigênio a lembrando onde estava.
Lentamente, moveu os dedos, testando o corpo.
Tudo respondia, mesmo que com dor.
— Allie… — a voz saiu rouca, baixa.
Alice acordou num susto, os olhos arregalados.
Por um segundo, parecia que o mundo inteiro havia voltado a girar.
— Bella! — ela se levantou de imediato, as lágrimas já se acumulando. — Você tá me ouvindo? Consegue falar?
— Acho que sim. — sorriu fraco. — Mas me sinto atropelada por um caminhão.
Alice riu e chorou ao mesmo tempo, abraçando-a com cuidado.
— Eu achei que te tinha perdido.
— Ainda não. — Bella respondeu, entre um respiro e outro. — Mas pelo visto dei trabalho.
Alice se afastou, limpando o rosto.
— Você sempre deu trabalho. Desde o dia em que nasceu.
Bella arqueou uma sobrancelha. — Vai começar o drama maternal?
— Vou começar do começo, se quiser.
— Começa.
Alice respirou fundo e sentou na beira da cama.
— Mamãe sempre dizia que você era o bebê mais teimoso da ala. Chorava o tempo todo, mas parava só quando colocavam música.
— Eu lembro… — disse Bella, os olhos perdidos no teto. — Ela colocava Sinatra pra gente dormir.
— E papai dizia que você herdou o mau humor dele.
Bella riu. — Ele não tava errado.
Ficaram em silêncio por um momento, o ar denso e doce.
Alice continuou:
— Eu ainda sonho com eles às vezes. Mamãe no jardim, papai com aquela xícara de café, reclamando que o mundo anda depressa demais.
— Eles teriam gostado de saber que você virou mãe.
Alice sorriu. — E você, jornalista.
— Jornalista rabugenta.
— Mas a melhor.
Bella esticou a mão, e as duas se deram um aperto cúmplice — aquele tipo de gesto que vale mais que palavras.
— Sabe o que é engraçado, Allie? — disse Bella, olhando pro teto. — A gente cresceu achando que ia ter tempo pra tudo.
— E a gente teve, Bella. Mesmo que não o suficiente.
— Teve o essencial. — completou, sorrindo.
Mais tarde, Edward apareceu no quarto.
Trazia flores — simples, silvestres — e uma expressão de alívio.
— Eu deveria parar de te ver em hospitais. — disse ele, encostando-se à parede.
— Eu não recomendo. As camas são desconfortáveis.
— Pelo menos o humor tá intacto.
— Sempre. É meu sistema de defesa.
Ele se aproximou da cama e colocou as flores na mesa.
— Como está se sentindo?
— Fraca. Mas viva. É um bom começo.
— Meu pai disse que você é resistente.
— Seu pai é um otimista disfarçado de cético.
— Ele disse o mesmo sobre você. — respondeu Edward, rindo baixo.
Bella o olhou com curiosidade.
— Você viaja muito, não é?
— Já viajei. — respondeu, se sentando. — Paris, Marrocos, Nepal… Trabalhei com documentários sobre minorias e retratos sociais.
— Conheceu alguém famoso?
— Alguns. — deu um meio sorriso. — Mas ninguém tão interessante quanto as pessoas comuns.
— E você? Já amou alguém?
Edward respirou fundo antes de responder.
— Já. Mas sempre por pouco tempo. — olhou para o chão. — Eu sou péssimo em ficar.
Bella sorriu.
— Então talvez seja bom em voltar.
Os olhos dele se levantaram lentamente, encontrando os dela.
Havia ali algo silencioso e verdadeiro.
— E você? — perguntou. — Já amou?
Bella pensou por um instante.
— Achei que sim. Mas agora percebo que amor é outra coisa. É estar, não tentar possuir.
— E agora, você quer estar?
— Quero existir. E deixar alguma coisa bonita antes de ir.
Edward segurou a mão dela.
— Então deixa comigo a parte de registrar.
No fim da tarde, Jasper chegou.
Um homem alto, de voz tranquila e olhar firme.
Alice correu até ele, o abraço dos dois parecia uma dança antiga, repetida mil vezes.
— Ela acordou. — disse Alice, sorrindo entre lágrimas.
— Eu sei. — respondeu ele, abraçando-a com força. — Eu senti.
Bella observava com um sorriso fraco.
— Esse é o tal Jasper que roubou minha irmã. — Disse fazendo as apresentações entre o cunhado e o fotógrafo.
Ele se aproximou, brincalhão:
— “Roubou” é uma palavra forte. Eu diria que foi uma negociação justa.
— Você convenceu uma Swan, então já é digno de respeito.
As filhas deles apareceram logo depois, as gêmeas idênticas — Nina e Kate — correndo até a cama com curiosidade.
— Tia Bella! — gritaram em coro. — A mamãe disse que você quase virou um fantasma!
Bella riu, tossindo de leve.
— Quase. Mas fantasmas não usam batom.
Edward, encostado na parede, observava a cena com um meio sorriso.
As meninas se aproximaram dele, encantadas pela câmera pendurada em seu pescoço.
— Você é fotógrafo mesmo? — perguntou Kate.
— Sou.
— E você tira foto de fantasmas? — perguntou Nina, curiosa.
— Só dos que têm bom ângulo. — respondeu, piscando.
As meninas gargalharam.
Alice sorriu, acariciando os cabelos das filhas.
— Viu? Até o fotógrafo misterioso gosta de vocês.
Bella observava aquela cena como quem vê um quadro de calma depois de uma tempestade.
A família, os amigos, a vida pulsando ao redor — e ela ali, no meio, viva.
No dia seguinte, Emmett e Rosalie chegaram.
Ele, como sempre, entrou falando alto.
— Olha só quem resolveu voltar do limbo!
— Oi pra você também, Emmett. — respondeu Bella, rindo. — Continua com o mesmo tom sutil de um terremoto.
Rosalie veio logo atrás, um sorriso doce e discreto.
— A gente ficou preocupado.
— Eu também. Mas parece que ainda tenho contrato por aqui.
Emmett sentou-se na beira da cama.
— Tá vendo? A morte tem medo de gente teimosa.
— Então você vai viver pra sempre. — retrucou ela.
Todos riram.
Era uma risada boa, necessária — o tipo que limpa o ar.
Emmett, com a voz mais baixa, acrescentou:
— Você é a cola disso tudo, Bella. Mesmo quando acha que não tá fazendo nada.
Rosalie assentiu, emocionada.
— E a gente vai estar com você, sempre.
Bella respirou fundo.
— Eu sei. E é por isso que eu preciso… viver de verdade agora.
Alice que não saiu do lado da irmã em momento algum, a olhou, preocupada.
— O que quer dizer com isso?
Bella pegou o bloquinho de anotações ao lado da cama.
Na primeira linha, escreveu:
“Lista do que ainda quero fazer antes que a luz se apague.”
Leu em voz alta:
— “Nadar vestida de roupa, ver o pôr do sol nas Maldivas, conhecer o meu escritor favorito, Julian Barnes…”
Edward, que também se manteve presente o tempo todo desde o dia anterior, arqueou uma sobrancelha.
— Julian Barnes?
— Sim. — respondeu. — Foi por causa dele que decidi ser jornalista. Li O Sentido de um Fim aos dezessete e percebi que palavras podiam salvar — ou destruir — uma vida.
— E você quer conhecê-lo.
— Quero agradecê-lo.
— Então vamos fazer isso acontecer. — disse Edward. — Tudo. A lista inteira.
Alice segurou a mão da irmã.
— Bella…
— Eu quero viver, Allie. Não só esperar o fim.
As lágrimas vieram de novo, mas dessa vez eram calmas.
Bella olhou para todos — a família, os amigos, Edward — e sorriu.
Um sorriso cheio de serenidade e fogo ao mesmo tempo.
— A morte pode esperar um pouco. Tenho uma vida pra terminar de escrever.
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