— Entendeste?

— Sim, Anastasia.

Nós sorrimos e voltamos para onde Christian e Jamie estavam conversando.

— Poderiam nos dar a honra de saber sobre o quê dialogavam enquanto nos olhavam entre sorrisos? – Jamie indagou fingindo não saber de nada, mas era óbvio que ele havia escutado nossa conversa com sua audição apurada de híbrido.

— Estávamos a discutir sobre a que caminho tomar, mas entramos em um impasse – falei dando um ligeiro sorriso – A Viscondessa deseja passear em direção à fonte principal enquanto que a mim anseio visitar as alamedas cobertas do jardim.

— E o que as moças decidiram? – Christian perguntou nos olhando.

— Iremos visitar a fonte principal e será a Viscondessa que irá nos conduzir.

Laura convidou Jamie para ir à frente com ela e minutos depois os dois já conversavam tão animadamente que nem notaram quando puxei Christian para um caminho secundário que dava acesso as alamedas, as mesmas se encontravam cobertas por lindas flores de diversas cores.

— O que estás a fazer? – perguntou-me Christian assustado.

— Deixemos o Conde e a Viscondessa a sós um pouco – sugeri sorrindo – Vamos por aqui.

— Não és apropriado para uma moça ficar a sós com um rapaz – ouvi Christian murmurar meio receoso atrás de mim.

— Eles ficarão bem – garanti sentando-me num dos bancos distribuídos ao longo do caminho.

— Não estavas a falar deles e sim da senhorita.

— Irás atacar-me por acaso? – o olhei fingindo uma cara de espanto e ele sorriu.

— Não, Vossa Alteza.

— Anastasia – o corrigi.

— Não irei atacá-la, Anastasia.

— Então não tenho o que temer, agora porque não vens sentar-se aqui comigo e contar-me um pouco sobre vossa pessoa?

Christian me confidenciou que o grande sonho dele era servir ao exército e ir defender o país na guerra, mas acabara por ser tornar escritor em Moscou a pedido do pai e devido vossa mãe não aprovar o serviço militar, pois ele era filho único.

— Entendo perfeitamente vossa mãe – disse enquanto girava o caule de uma flor que ele havia me dado há alguns minutos.

— Entende?

— Sim, Christian. Essa atrocidade que os homens chamam de guerra só está trazendo lamentos para algumas famílias e vossa mãe não quer perdê-lo, mas deixemos de falar sobre coisas desagradáveis. Tocas piano, Christian?

— Sim, sou um excelente pianista.

— Adoraria muito ouví-lo tocar algum dia.

— Será uma honra encantar a senhorita com uma melodia de minha autoria.

Conversamos mais alguns minutos, depois fomos procurar por Jamie e Laura para retornarmos ao castelo.

★ ★ ★ ★ ★

Passava da meia noite quando troquei a camisola bege que usava por uma mais parecida com um vestido. Desci com o objetivo de cavalgar até o riacho da propriedade. Há esta hora, todos já deveriam está em seus quartos descansando então ninguém me veria sair.

— Anastasia?

Detive-me no meio da escada. Virei-me e vi Christian parando a alguns degraus a frente. Ele trajava uma calça verde clara e um chemise branco.

— Christian... Pensei que já estivestes repousando.

— Estou a sofrer de insônia.

Desviei meu olhar do dele e pedi que retornasse ao quarto. Escutei ele subir novamente as escadas e quando Christian entrou no corredor principal continuei meu caminho até o estábulo, o mesmo ficava a uns 100 metros do castelo e acabei por sorrir ao notar a presença de Christian me seguindo. Entrei parando em frente a um cavalo branco e passei a mão em seu focinho.

— Vamos até o nosso lugar especial? – sussurrei a ele que relinchou encostando o focinho em meu rosto, olhei para o lado, para a porta, a tempo de ver Christian antes do mesmo se esconder por completo então sorri e usei minha velocidade de híbrida – És falta de educação espionar uma dama – exclamei atrás dele fazendo o mesmo se virar assustado com a mão sobre o peito.

— Como chegaste até aqui... tão rápida?

— Segredo – sorri passando por ele, selei meu cavalo e ergui a camisola até a altura do joelho para facilitar minha subida, passei por Christian que ainda estava confuso – Se quiseres me acompanhar, ficaria honrada.

Ele concordou, selando outro cavalo e já me acompanhando.

★ ★ ★ ★ ★

— Depois do que passaste hoje, ainda achas prudente sair para cavalgar durante a noite? – Christian perguntou-me algum tempo depois aproximando seu cavalo do meu.

— Acho – respondi olhando-o, o mesmo estava tão lindo sob a luz do luar que minha garganta logo começou a arder ao lembrar do seu cheiro delicioso durante o baile.

“Controle-se” repeti a mim mesma, inúmeras vezes até chegarmos ao local.

— Por que vens à noite neste lugar? – questionou-me Christian enquanto amarrava os cavalos numa árvore.

— Silencia-te e saberás.

Fechei os olhos, escutando todos os sons a minha volta: a cachoeira, a água descendo a correnteza, as árvores e os animais ao longe. Em outro momento, todos estes sons acalmavam-me, mas Christian estava ali comigo e os únicos sons ao qual minha mente se concentrava era os de seu coração batendo e de sua respiração bem próxima a mim.

“Controle-se, Ana” comecei repetir novamente em minha cabeça quando senti a pressão dos lábios dele sobre os meus, mas logo ele veio a se afastar.

— Perdoe-me pelo atrevimento – Christian virou-se de costas para mim, visivelmente envergonhado.

— Quero senti vossos lábios novamente nos meus – pedi tocando-lhe o ombro por trás então ele virou-se encarando-me.

— Por quê?

— No dia em que cheguei a esta cidade, o viste numa banca comprando flores, apaixonei-me por ti desde aquele instante – ele escutava-me atentamente então abaixei meu olhar dando um passo para trás – Mas como meus pais não me permitiam sair do castelo, o senhor apenas ficaste em meus sonhos. Quando meu pai comunicou-me que iria representá-lo num baile e que deveria tocar piano, foi em ti que inspiraste aquela linda música. Fiquei surpresa e feliz ao ver que era o senhor o aniversariante. Nunca me senti tão feliz em toda minha vida.

O olhei. O luar nos iluminava tornando Christian mais lindo do que jamais o vira antes. Ele se aproximou cauteloso inclinando seu rosto ficando só a alguns centímetros do meu e deu o sorriso que eu tanto amava.

— Também me apaixonaste por ti na primeira vez que a viste. Tu eras a moça mais bela daquele baile – sussurrou selando seus lábios aos meus.

O beijo começou calmo depois se tornou mais intenso, ele pediu passagem com a língua e eu cedi enlaçando-o pelo pescoço.

— Amo-te, Anastasia – Christian sussurrou entre nossos lábios então deslizei gentilmente minhas mãos para dentro de seu chemise (camisa de linho), mas ele pegou meus pulsos me impedindo de continuar – Não posso desvirtuar-te.

— Não vou deitar-me com outro homem que não sejas o senhor.

— Verdade? – perguntou surpreso.

— Sim, meu amor.

Christian sorriu então o beijei, controlando-me para não machucá-lo com minha força e ignorando a ardência na garganta pela sede de atacá-lo. Quando dei por mim já estávamos deitados na relva da clareira, completamente nus. As mãos dele passeavam pelo meu corpo, provocando-me sensações únicas. Eu nunca imaginei que um dia eu sentiria aquilo, ainda mais com um humano.

“Por favor, meu Deus, dai-me forças para não matá-lo” rezava mentalmente enquanto ele se aprofundava mais e mais em mim e eu senti que meus caninos queriam despontar.

Nossos corpos se movimentavam em uma sincronia perfeita e num ritmo lento, mas não tardou para que ele intensificasse o movimento então me senti como se tivesse indo ao céu por alguns instantes, segundos depois Christian gemeu libertando-se enquanto me beijava.

Ele se deitou ao meu lado e me puxou para cima dele. Repousei a cabeça em seu peito e um sorriso bobo pairava em meus lábios. Ficamos alguns minutos naquela posição enquanto o sentia acariciar-me os cabelos quando o som de um trovão ecoou ao longe.

— Melhor voltarmos antes da chuva – ele disse pegando minha mão e a beijando então o olhei apoiando meu queixo sobre seu tórax.

— Temos mesmo que ir? Podíamos ficar aqui e tornar esse lugar especial... só nosso.

— Esse sempre será nosso lugar especial, onde declaramos e concretizamos o nosso amor.

Sorrimos um para o outro então levantamo-nos e assim que terminamos de nos vestir, nos beijamos mais uma vez antes de montarmos em nossos cavalos e partimos rumo ao castelo.

★ ★ ★ ★ ★

Após aquele final de semana, Christian e eu começamos a nos encontrar com mais frequências. Para que ninguém desconfiasse tínhamos ajuda das minhas Damas de Companhia que me eram leais, mas meu conto de fadas logo veio a tornar-se um pesadelo, pois um dia meu pai regressou inesperadamente e assim que adentrou meus aposentos no castelo encontrou Christian e eu na cama, descobrindo assim nosso romance.

— Perdão Majestade, sei que não és uma hora apropriada, mas gostaria... – Christian começou, mas foi interrompido por meu pai.

— Cala-te rapaz! Se vista e vá embora – ele disse em um tom assustador.

Christian tentou argumentar, mas levantei da cama enrolada no lençol e pedi para ele ir embora, prometendo que depois nos encontraríamos. Ele assentiu, se vestiu e saiu do aposento rapidamente. Não ousei olhar para meu pai enquanto escutávamos a carruagem de Christian se afastar da propriedade.

— Como ousas trair minha confiança?! – meu pai gritou dando-me um tapa no rosto o que me fez cair sobre a cama.

— Perdão, papai – implorei me levantando enquanto soluçava.

Ele avançou contra mim, mas mamãe entrou no quarto impedindo-o de me bater novamente.

— Já chega, Raymond! – exclamou minha mãe abraçada a mim – Sabes que ela tem que ser julgada pelo Alto Conselho.

— Vista-se! Partiremos imediatamente! – ele ordenou e saiu do quarto extremamente irritado.

Mamãe me abraçou forte e não me segurei começando a chorar novamente.

— Anastasia, minha filha, tu tens que acabar com essa brincadeira...

— Não és brincadeira, mamãe. Amo Christian Trevelyan e és com ele que quero passar toda a minha eternidade.

— Como isto foste acontecer contigo? Tentamos tanto te proteger do mundo e olha o acontecera. Venha, te ajudarei a se vestir.