MANSÃO VILLEBURY

LONDRES, INGLATERRA, 1816

Não tardou e logo chegamos a Londres. Jack, Laura e Jamie também haviam sido convocados por meu pai para irem conosco como testemunhas. A carruagem logo parou em frente a uma enorme mansão. Engoli em seco ao adentrar o prédio rústico.

General Weiss me conduziu para uma sala enquanto que os demais sumiram por um outro corredor. Ralph entregou-me um vestido de linho na cor bege, bem simples e mandou-me vestir. Duas mulheres apareceram para me ajudar a tirar meu vestido depois elas saíram.

Coloquei o vestido de linho e fiquei no aguardo do General Weiss que logo apareceu e conduziu-me a passos humanos pelos corredores.

A sala onde os membros do Alto Conselho Real Grã-Mystic se reuniam parecia-se mais com um tribunal do que uma sala de reuniões. Todos estavam presentes. Raul e Margot Wycliffe (Arquiduque e Arquiduquesa de Calais). Khanok e True Greeney (Arquiduque e Arquiduquesa de Wexford). Linc e Elena Lefriere (Arquiduque e Arquiduquesa de Lancashire) e minha mãe representava o clã Ventrue.

— Estamos reunidos neste conselho para julgarmos Anastasia Alucard por ter sido flagrada em fornicação com um humano – meu pai falou e vi o assombro entre os rostos dos presentes.

— Vamos ouvir a acusada primeiro – disse Khanok do clã Greeney após sua esposa True sussurrar algo a ele.

— O que tens a declarar?

— Que amo o humano Christian Trevelyan e desejo passar toda minha eternidade casada com ele.

— Cala-te! – meu pai gritou extremamente alterado me fazendo encolher de medo – Terminará com o aquele fedelho...

— Não! – gritei lhe interrompendo.

— Serás castigada por tal afronta. General Weiss, traga-me o chicote das nove caldas.

— Não, Raymond. Ela és nossa filha e apenas uma criança – minha mãe suplicou tentando interceder por mim.

— Ele deves aprender a respeitar nossas tradições. Dez chicotadas – informou meu pai assim que Ralph retornou a sala.

O General Weiss amarrou-me os braços a dois pilares de frente para onde meus pais estavam e rasgou a parte detrás do vestido revelando minhas costas. Já no primeiro golpe senti minha pele ser rasgada pelas pontas em prata do chicote. Por serem feitas de prata, as feridas retardavam a se curar e a cada golpe que eu levava minha mãe chorava junto comigo.

— Ainda queres ficar com aquele humano? – meu pai perguntou-me com sua voz séria e autoritária.

— Sim...

— Mais dez chicotadas – anunciou ele e eu engoli em seco, porém suportei a nova sequência de golpe com meu rosto banhado de lágrimas pela imensa dor que sentia – Te ofereço o perdão, mas terás que acabar com essa brincadeira...

— Não... és... brincadeira... – pronunciei ofegante levantando o rosto encarando meu pai – Se queres... castigar-me... vá em frente... suportarei... quantas chicotadas... forem necessárias... por amor... ao Christian.

— Vejo que com o castigo tu não aprenderás a lição então serás condenada à morte, mas antes chegará a vossos ouvidos que a família Trevelyan morreu num terrível ataque de animal.

— Não... Por favor... Não os mate – supliquei.

— A vida deles está em vossa mão.

— Acabarei meu romance com Christian... mas rogo-te... que não machuque aquela boa família.... Por favor, meu pai... O senhor pode... condenar-me a morte... mas estou a suplicar-te... que deixe os Trevelyan vivos.

— Se todo o conselho for a favor de vosso pedido, eu o atenderei.

Olhei em súplica para todos os presentes e eles aceitaram, mas disseram que não me matariam. Então o General Weiss me soltou fazendo-me cair no chão e logo minha mãe apareceu ao meu lado oferecendo-me vosso braço para que eu sugasse vosso sangue, pois assim o processo de cura de meu corpo seria mais rápido.

— Peço permissão para falar, Vossa Majestade – ouvi Jamie dizer, mas meu rosto estava escondido então não pude ver o que acontecia apenas os escutava – Obrigado, Majestade. Bom, como minha futura esposa fora encontrada em fornicação com um humano então estou no meu direito de repudiá-la e gostaria de pedir a aprovação de Vossa Majestade para desposar a Viscondessa de Gaulle.

— Permissão dada – escutei meu pai falar – Tem alguém neste conselho que deseja tomar-lhe a mão de Anastasia.

— Como queres que tomemos a mão de vossa filha para entregar aos nossos filhos se ela está impura? – falou Margot Wycliffe, Arquiduquesa de Calais.

— Eu desejo, Majestade – era a voz de Jack então larguei o pulso de minha mãe e já recuperada um pouco dos feridos virei o rosto a fim de olhá-lo, ele sorriu para mim de um jeito condescendente e retornou a olhar em direção ao meu pai – Peço vossa aprovação para desposar vossa filha.

— Permissão dada. Já que este assunto está finalizado, declaro que o casamento de Anastasia e Jack seja feito na próxima semana e o casamento de Jamie e Laura será na semana seguinte. Dou por encerrada esta reunião.

Jack saltou de onde se encontrava aparecendo ao meu lado e ajudou minha mãe a levar-me para um dos aposentos da mansão. Após vestir-me fui sentar-me no parapeito interno da enorme janela do quarto, olhando fixamente a paisagem do jardim, porém perdida em pensamentos, tentando descobrir um jeito de fugir com Christian.

— Fugir não és prudente.

Encarei Jack, agora sentado ao meu lado.

— Como sabes o que penso? Possuístes um novo poder?

— Não, mas pensaria nisso se estiveste em vosso lugar.

— Por que estás a querer-me por esposa?

— Por culpa.

— Então fostes tu que me denunciastes? – indaguei triste.

— Não, Ana, mas sinto-me culpado da mesma forma. Como amigo, preso por sua segurança sempre, então não faça nenhum disparate. Se tu chegares a fugir, eles te caçarão e tanto tu quanto o humano serão mortos. Se ama realmente aquele rapaz, deixo-o para que possa viver.

— Creio que não será fácil fazê-lo desistir de mim.

— Magoe-o.

— Nunca, Jack – murmurei levantando-me.

— Se não o magoar, ele virá atrás de ti, tentará fazer tu fugir com ele e o resultado não serás outro que não a morte para ambos. Pense em vossa mãe, em vossa irmã e nos pais dele. Agora, Alteza – ele levantou-se – Devo partir para supervisionar o preparo de nossa carruagem. Partiremos após o chá da tarde.

Jack fez uma mesura e saiu deixando-me com uma grande escolha em minhas mãos.