DISTRITO UNIVERSITÁRIO

SEATTLE, ESTADOS UNIDOS, 2016

CHRISTIAN

Mais um dia de aula se encerrou, meu último dia para ser mais preciso, pois terei que tirar umas férias forçadas. Ordens do diretor, fazer o que né? Ele me informou que toda a faculdade estava comentando que eu estaria ficando obcecado demais por lendas antigas.

Em parte, isso era até aceitável, já que sou professor de História Antiga, mas também admito que queria muito descobrir se aquela bela jovem dos quadros pendurados em meu quarto, pintados pelo meu tataravô, realmente existiu ou se as histórias dele eram apenas frutos de sua imaginação.

Antes de ir para casa, passei na biblioteca da faculdade para devolver alguns livros e depois segui a pé até a vila acadêmica onde ficava os apartamentos de boa parte dos professores e dos alunos em intercâmbio.

Eram vinte minutos de caminhada, mas assim que cheguei ao prédio, lembrei que não tinha nada para se comer na geladeira então peguei o carro e saí do distrito universitário.

Quando cheguei em casa, encontrei Leila jogada no sofá assistindo o que parecia ser um filme de ação. Havia conhecido ela há dois anos, em um bar próximo ao campus. Ficamos juntos aquela noite, mas depois vimos que engatar um namoro não era a praia de nenhum de nós então terminamos apenas sendo amigos, às vezes coloridos.

Podia parecer estranho ou até falta de ética profissional o fato de um professor dividir o mesmo apartamento com um aluno, mas como Leila era aluna de Medicina e eu professor de História, nós praticamente não conseguíamos nos encontrar pelo campus durante o dia então isso não foi um choque tão grande para alguns professores, só para os mais antigos e conservadores, é claro.

— Como você está? – perguntei chamando a atenção dela que se virou para olhar para mim e logo levantou para vir me ajudar com as sacolas de compras.

— Estou melhor. A dor de cabeça passou faz algumas horas.

— Que bom. Trouxe pizza para o jantar e aquele sorvete que tu gosta.

— Mentira!? Aí, Christian, assim vou me apaixonar por você, com todo esse seu mimo e preocupação comigo.

— Péssima idéia, Leila. Mas sabe porque me preocupo contigo? – indaguei enquanto colocávamos as sacolas na bancada da cozinha.

— Porque sou a amiga colorida mais legal do mundo? – ela disse sorrindo, unindo as mãos fazendo um coração.

— Não. É porque você me ajuda a pagar o aluguel, aí tenho que te manter viva e bem saudável por muito tempo. Sabe como é que é, né? Não leve para o lado pessoal. São só negócios.

— Ha ha, que engraçado. Vou voltar a assistir ao meu filme que eu ganho mais. Ah propósito, Paul ligou hoje de tarde para confirmar se ainda vamos acampar com eles no final de semana? Porque ele precisa comprar a quantia certa de carne para o churrasco.

— Por mim, nós vamos, mas e se você tiver uma de suas crises forte de enxaqueca no meio da floresta?

— Para isso que existe remédio para dor de cabeça, Christian – ela debochou pegando a caixa da pizza – E não demora muito aqui na cozinha não porque senão quando você chegar na sala, a pizza já vai ter acabado.

— Mais é morta de fome mesmo.

— Morta de fome nada. Você sabe muito bem que eu estou grávida e preciso alimentar minhas filhas? Elas já tem até nomes, a Lom e a Briga.

Sorri me divertindo com as piradices da Leila e fui terminar de guardar o resto das compras. Depois de banhar e trocar de roupa, finalmente, me dirigi para sala de estar e a vi tirar o terceiro pedaço de pizza da caixa. O filme que estava passando era um da saga Anjos da Noite.

Leila adorava filmes assim onde cultuavam a fantasia de um mundo cheio de vampiros e lobisomens. Ela não cansava de me questionar se Vlad – O empalador, poderia ter sido realmente o primeiro vampiro do mundo e eu sempre dizia que não, porque além de eu ser bem cético com relação a seres sobrenaturais, a vida de Vlad havia sido a base do meu TCC.

— O filme está bom, mas eu já vou dormir – comentei tirando os pés dela do meu colo já me levantando do sofá.

— Vai dormir ou vai ficar olhando para aquelas pinturas? Juro por Deus, que da próxima vez que transarmos, ou vai ser no meu quarto ou aqui na sala. Porque não vou transar com aqueles quadros me olhando não. É sinistro demais até para mim que gosto de terror.

— Já vai começar com a zoeira de novo? Eu gosto daqueles quadros, Leila, e principalmente da história que os envolvem.

— É por isso que a gente se dá tão bem. Ambos viemos de família de doidos. Você com seu tataravô que aparentemente era louco, enquanto que eu tenho tendências suicidas na parte feminina da família. Minha tia, mãe e irmã se mataram porque estavam ficando loucas com tanta crise de enxaqueca e eu estou indo no mesmo rumo. Isso deve ser alguma maldição, só pode. Estou falando da minha família e não da sua, tá?

Rolei os olhos.

— Não vá dormir aí no sofá. E se for se suicidar, deixe primeiro o dinheiro do aluguel desse mês na bancada da cozinha e por favor, não suje o meu sofá porque ainda estou pagando as prestações dele – falei tentando controlar o sorriso.

— Também te amo, peste – escutei ela dizer enquanto eu seguia o pequeno corredor rumo ao meu quarto.

Como de costume, fiquei deitado admirando a beleza daquela moça. Não tinha condição do meu tataravô ter inventado tudo aquilo. O que ele ganharia em troca mentindo? Praticamente nada a não ser a fama de doido.

Todavia, eu estava disposto a limpar o seu nome e provar que aquela mulher tinha sido real na vida dele, nem que para isso viajasse até a Inglaterra para obter minhas respostas.

★ ★ ★ ★ ★

PARQUE RATTLESNAKE

NORTH BEND, ESTADOS UNIDOS, 2016

UMA SEMANA DEPOIS

Terminei de ver como Leila estava na nossa barraca, pois durante a trilha até ao pé da montanha ela havia começado a sentir fortes dores de cabeça.

— Como ela está? – perguntou-me Elizabeth, namorada do Paul – Se quiser, nós podemos recolher as coisas e acampar outro dia.

— Ela só precisa descansar alguns minutos e logo vai está enchendo o nosso saco de novo.

— Ok então. Os outros querem ir banhar no lago mais tarde.

— Eu vou aproveitar para ir agora, assim quando vocês forem eu posso ficar cuidando das coisas aqui no acampamento.

— Tudo bem.

Peguei apenas uma toalha e segui pela pequena trilha. O lago ficava a uns trezentos metros da clareira onde erguemos nossas barracas. Estava me aproximando da margem quando notei uma figura esguia sentada em uma pedra que ficava bem embaixo da queda da cachoeira. Quando dei mais alguns passos em direção à pessoa, constatei que era uma mulher e a mesma se encontrava nua.

— Oi, moça! – gritei chamando a atenção dela.

Os segundos que ela me encarou antes de pular dentro da água foram o suficiente para reconhecê-la. Será que encontrei a moça do quadro ou pelo menos alguém parecido com ela? Ou tudo aquilo não passava de uma pegadinha do meu cérebro?