Quando o Coração Escolhe
4 Capítulo 04
CASTELO GAULLEDREW
CAMBRIDGE, INGLATERRA, 1816
Não sabia ao certo que hora da manhã era quando resolvi voltar para casa. Ontem após chegarmos do baile Jack e eu tivemos uma discussão horrível. Ele não aprovara nem um pouco a ideia de receber os Trevelyan no castelo, Laura e Jamie conseguiram acalmá-lo, mas fiquei bastante triste com o ocorrido e decidi sair de madrugada para andar pela propriedade.
Observei o céu tentado novamente descobrir a hora, em vão, pois o mesmo encontrava-se coberto por um manto cinza de nuvens, de repente senti a presença de vampiros ao meu redor. Parei no meio da trilha aguçando meus sentidos de audição, olfato e visão.
— És melhor fazerem-se presentes – falei alto e logo meu pedido fora atendido, oito vampiros no total cercaram-me fazendo um círculo – Quem são vocês? Digam o que queres?
Um deles sorriu e avançou contra mim, desviei-me a tempo e tentei colocar em prática na luta todos os ensinamentos que o General Weiss havia me ensinado, mas encontrava-me em desvantagem e por fim eles me imobilizaram no chão antes mesmo de consegui transformar-me em minha forma Crinos. Um vampiro de cabelos pretos até na altura do ombro se aproximou de mim, em sua face sustentava um sorriso bastante sádico.
— Rapazes, o que acham da ideia de brincarmos um pouco com esta híbrida antes da chegada do mestre?
Em resposta os outros concordaram dando sonoras risadas. O vampiro de cabelos pretos rasgou minha camisola e passou a mão pelo meu corpo, depois agarrou o pantaloon com força, mas antes que conseguisse arrancá-lo uma voz bem forte veio detrás dele.
— Ninguém tocará nela!
— Mestre?! – todos exclamaram mutuamente e levantaram-me do chão então pude reconhecer o dono da voz.
— Travis – rosnei e ele riu parando a minha frente.
Travis era um híbrido assim como eu meio-vampiro e meio-lupino, ele já fora um dos aliados mais confiáveis de meu pai, mas Travis demonstrou sua verdadeira natureza corrupta e foi banido do Clã Alucard.
— Olá, minha adorável princesa. Como estás linda.
— O que fazes aqui?
— Quero que entregue um pequeno recado para aquele reizinho de merda...
— Não ouses falar mal do meu pai!
Ele ordenou que os dois vampiros me soltassem, então de repente estava sendo pressionada contra uma árvore. Travis sufocava-me apertando minha garganta com uma das mãos e eu tentava, sem muito êxito, soltar-me.
— Adoraria possuí-la minha querida, provar de vossa doce inocência, mas infelizmente o meu trabalho aqui és outro – ele sussurrou no meu ouvido – Comunique ao Raymond que se ele não me disser onde está Luna, não terás o antídoto.
— Antídoto... para... quê? – indaguei com dificuldade, pois ele ainda sufocava-me. Ele chamou um rapaz que pegou meu pulso mordendo-o, instantaneamente comecei a chorar de dor.
— Para salvar-lhe da morte. Mordida de lupino puro és fatal para híbridos – Travis sorriu dando-me um beijo em seguida – Tens apenas dois dias de vida, minha adorável princesa. Raymond sabe onde me encontrar.
Ele me soltou e me vi sozinha novamente na trilha.
Avaliei os estragos em mim, a camisola e o pantaloon antes branco, agora estavam úmidos e sujos de terra, na camisola jazia uma enorme fenda em sentido vertical até um pouco abaixo da costura do meu busto, o cabelo encontrava-se úmido e bagunçado devido ao orvalho da floresta e da luta que eu travara, por fim no pulso esquerdo havia uma mordida horrível.
Para que ninguém percebesse o sangue que escorria do ferimento pressionei o local contra minha barriga e corri até o castelo. Subi em velocidade humana o lance de escadas da entrada ignorando o assombro de alguns empregados por estas vendo-me em vestimentas inapropriadas.
Logo cheguei ao corredor principal que dava acesso a ala dos aposentos e deparei-me com Christian e sua família que seguiam Lady Thouless e Lady McRose.
— Vossa Alteza! – todos exclamaram assustados, Christian me olhou com uma expressão preocupada e abaixou o olhar assim como vossos pais.
— Onde estás Jack? – perguntei firme passando por Christian e aproximando-me de Rose.
— O Visconde de Gaulle encontra-se a caminho de Londres, Vossa Alteza. O que houve com vossa pessoa?
— Lady McRose, por favor, peça a um dos guardas para ir buscá-lo. Preciso dele aqui no castelo com urgência – ordenei, mas Marina hesitou um pouco – Rápido Marina! – gritei e ela saiu apressada então voltei-me para Rose informando-a do ocorrido – O bando de Travis atacou-me na floresta.
— Vossa Alteza passa bem? – o Senhor Trevelyan perguntou.
— Claro que não meu pai, não vê que ela está a sangrar? – disse Christian levemente irritado.
— Não se preocupe, foi apenas um corte no braço e me perdoem se não estou apresentável para recebê-los – falei e virei-me novamente para Rose – Lady Thouless, termine de conduzi-los até os aposentos, depois informe ao vosso marido que necessito dele. Estarei na espera de vós em meu quarto.
Caminhei alguns metros, adentrei em meu aposento e segui para o quarto de banho. Quando Rose e Sir John entraram no quarto eu já me encontrava devidamente vestida com uma camisola branca e um robe bege.
O marido de Rose sentou-se na beirada da cama então lhe mostrei a mordida, ele e Rose trocaram um olhar aflito e tentaram-me acalmar dizendo que Jack como meio-bruxo saberia o que fazer. Sir John fez um curativo em meu pulso e logo veio a se retirar. Marina apareceu e ajudou Rose com meus trajes.
— Separei dois vestidos para Vossa Alteza escolher – Marina informou.
Olhei para a cama adornada de diversos acessórios e dois vestidos (um vermelho em veludo com detalhes em ouro e um alaranjado estampado com gola armada).
— Irei vesti o vermelho – informei e comecei a vesti-me com ajuda de ambas. Não coloquei as anáguas como de costume apenas as finas meias 7/8 pretas, o pantaloon, e o corselet preto.
— Está bom Vossa Alteza ou queres que aperte mais o corselet? – indagou Rose.
— Está perfeito assim – falei já colocando o vestido.
Marina trouxe-me os sapatos pretos de salto baixos e algumas joias então escolhi um par de brincos em rubi e um colar em ouro e rubis, por fim sentei-me à penteadeira e Rose arrumou meu cabelo em um coque trançado finalizando-o com uma linda tiara em ouro adornada com delicadas pedras de rubi.
Fui até o grande espelho e fiquei contente com a imagem refletida. Uma das empregadas veio informar-me sobre o almoço então comuniquei que não desceria por estar um pouco indisposta.
★ ★ ★ ★ ★
À tarde na hora do chá pedi para que Laura e Jamie descessem primeiro para recepcionar os hóspedes. Minutos depois, senti o cheiro de Christian vindo do lado de fora da minha porta.
— Entre Christian – pedi e ele entrou envergonhado.
— Como adivinhastes que era eu que estava a porta?
— Intuição – Christian sorriu da minha resposta – Então... – hesitei um segundo – ...o que queres?
— Apenas vim ver como tu estavas, pois não desceste para o almoço – ele se aproximou de mim – Me deixaste preocupado.
— Como já havia dito foi apenas um corte no braço, nada demais. Estou bem – disse calmamente sorrindo.
— Isso me alegra muito.
Ficamos nos encarando e desviando o olhar, pois não tínhamos mais assunto para articular.
— Acho... – falamos ao mesmo tempo e nos olhamos sorrindo do embaraço.
— Acho melhor irmos antes que venham ver o que houve – terminei minha fala.
Christian consentiu oferecendo-me o braço que o enlacei. Como o clima havia melhorado eu pedi que o chá fosse servido no amplo jardim. Assim que eu e Christian nos aproximamos todos se levantaram.
— Por favor, sentem-se – pedi sentando-me à cabeceira da mesa toda decorada com doces, bolos, frutas, sucos e é claro o chá que logo começou a ser servido.
Minutos depois, avistei Jack se aproximar de onde estávamos e a expressão dele era de pura preocupação.
— Jack! – exclamei levantando-me e correndo, a passos humanos, para abraçá-lo.
— Anastasia, o que houve?
— Estavas a andar pelas proximidades do castelo quando fui atacada pela corja de Travis.
Jack afastou-se de mim e começou a andar de um lado para outro visivelmente irritado.
— Miseráveis! – ele praguejou com raiva.
— Acalme-se, meu irmão – pediu Laura levantando-se, vindo até nós postando-se ao meu lado.
— Espero que esses desgraçados não tenham tentado tocar-lhe, porque cabeças rolarão.
— Tentaram me desvirtuar, mas Travis chegou a tempo e interviu.
Ele se virou olhando-me surpreso igualmente como sua irmã.
— Também estranhei, mas ele pediu que desse um recado ao meu pai. Se ele não disser onde está uma moça chamada Luna, eu... – hesitei lembrando que estávamos à frente de humanos – Eu irei sofrer as consequências – o abracei sussurrando baixo em seu ouvido – Fui mordida no braço por um lupino de raça pura.
— Não se preocupe Alteza, ninguém lhe fará mal. Estou indo até Londres comunicar pessoalmente aos vossos pais sobre o ocorrido, mas retornarei em breve.
— Jack, por favor, não faça nenhum disparate – implorei e ele sorriu abraçando-me, sussurrando em meu ouvido que ia deixar um antídoto para mim dentro do vaso de flor em cima do meu piano, assenti sutilmente e nos desvencilhamos – Boa viagem – desejei-lhe.
— Até breve Alteza.
— Cuidado, meu irmão – murmurou Laura abraçando-o.
— Não se preocupem, prometo retornar são e salvo.
Jack beijou minhas mãos e saiu apressado. Suspirei fundo e acompanhei Laura de volta à mesa, sentando-me e encarando meus convidados com suas faces confusas.
— O que o Visconde de Gaulle és para vós? – Christian perguntou e eu sorri meio tímida.
— Fomos praticamente criados juntos então o considero como se fosse um irmão, assim como o Conde de Preston e a Viscondessa de Gaulle, mas prossigamos com o nosso chá.
Após o chá, pedi licença por alguns instantes e conduzi-me até a sala anexa ao meu aposento para tomar o antídoto deixado por Jack, quando retornei nos conduzimos para a biblioteca onde Christian e eu jogamos uma partida de xadrez, fora um jogo complexo, mas no fim eu o venci.
Sugeri um passeio para que Laura pudesse passar um tempo a sós com Jamie longe dos olhares das nossas Damas de Companhia, pois ele ainda continuava sendo meu noivo e segundo nossas tradições nenhum de nós dois podíamos trocar afeto com outra pessoa.
O Sr. e a Sra. Trevelyan recusaram informando que permaneceriam no castelo conversando com Lady Thouless, Lady McRose e Lady Hemsey – Dama de Companhia da Laura – então saímos em direção ao vasto jardim.
Minutos depois olhei por cima do ombro e vi Jamie e Laura que se encontravam a uns quatros metros atrás, os mesmos trocavam galanteios e olhares românticos. Pedi licença a Christian e chamei Laura para conversar um pouco distante dos rapazes.
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