Quando menos se espera
11 Verdades
Notas iniciais
─ Sabia que os vaga-lumes simbolizam as almas que continuam a viver após a morte? – perguntei a Liliana escorada no parapeito da janela de meu quarto – Queria poder ver alguma, pena que não é a época correta pra vê-las.
Estava quase no fim do outono. O vento gelado que soprava em meu rosto não foi o suficiente pra me fazer sair dali.
─ E acredita nisso? – Questionou ela sentada na beirada de minha cama escrevendo algo rapidamente em sua prancheta.
─ Não. – dou de ombros – mas queria.
─ Por quê?
─ Minha mãe. – digo simplesmente sem acrescentar mais nada.
Não tê-la junto comigo nunca doeu tanto.
Liliana estava lá há um bom tempo escrevendo. Acredito que ela até esqueceu o que foi fazer no meu quarto.
─ lily? – chamei.
─ Sim? – respondeu sem tirar os olhos do que estava fazendo.
─ Por acaso tem algum compromisso para mim nesta tarde?
Ela procurou com os olhos rapidamente em sua folha. Ela deu um pulo de onde estava sentada e caminhou em direção á porta até agarrar a maçaneta.
─ A prova do vestido é agora! – exclamou tentando segurar prancheta com uma só mão. Mechas saíram de seu coque perfeitamente arrumado e ficaram balançando ao lado de sua orelha– Temos que correr antes que chamem Madame Miressa!
Liliana morria de medo dela. Ergui meu vestido e passei correndo pela porta aberta. Se ela tivesse problemas com a pontualidade, podia ser tirada de seu cargo de secretária e acabaria ficando com menos uma pessoa de confiança ao meu lado.
Daniel não falou comigo durante a semana inteira. No começo tentei ser compreensiva e dar espaço, mas em breve estou de partida e logo não terei mais sua companhia. Porque não se abria comigo? Cada vez que passava reto por mim ou fugia de meu olhar, fazia com que me sentisse mais sozinha no palácio.
─ Vamos conseguir chegar – assegurou Liliana ofegante.
Da ultima vez que corri assim foi para fugir daqueles patifes daquele beco. Acabaria ficando toda suada desse jeito.
A alfaiataria ficava no segundo andar enquanto meu quarto ficava no terceiro e penúltimo. Chegar as escadas levou quase dois minutos. Paramos de correr ao ver guardas caminhando no corredor enquanto descíamos os degraus.
─ Quase lá – ela murmurou aflita.
Paramos em frente a grande porta bege cheia de círculos dourados dos mais variados tamanhos sobre ela. No centro, a maçaneta redonda também dourada parecendo se misturar com os outros detalhes decorativos.
Nem precisamos bater. Uma garota usando o típico uniforme cor de abóbora das assistentes do alfaiate estava saindo com o olhar de preocupação que sumiu assim que nos viu.
─ Estava indo busca-las. – afirmou abrindo melhor a porta — Estão atrasadas.
A grande sala do atelier de costura estava escura, entulhada de tecidos , papéis e fitas por toda parte. Juntamente com as assistente dando mais vida ao lugar andando de um lado para o outro.
Tirei os sapatos e Subi em um pequeno tablado circular que ficava no centro da sala. Fiquei lá parada encarando o chão enquanto as costureiras tiravam medidas e andavam a minha volta.
Um tempo depois a porta foi bruscamente aberta e subitamente ergui a cabeça. A única que entrava com essa ousadia nos cômodos era Madame Miressa e com certeza ela iria me repreender se me visse com a postura relaxada.
─ Soube que se atrasaram. – disse olhando ao redor e examinando Liliana com um olhar incisivo. – Outra vez.
─ A culpa é minha – digo cruzando os braços e me virando em sua direção em cima do tablado – acabei me distraindo.
─ Tem andado frequentemente distraída. — comentou juntando a palma das mãos e me olhando nos olhos – Claro, a culpa é sua, porém é porque alguém permite.
Ela andou lentamente até mim e falou em voz baixa.
─ Eu te disse após a sua fuga que não toleraria nenhum deslize de sua parte. – Madame Miressa enrolou um cacho de meu cabelo no seu dedo e me deu um sorriso ameaçador – Pensou que não ficaria de olho?
Nojo. é só o que conseguia sentir.
Aos poucos foi se afastando em direção a porta.
─ Liliana. Venha comigo. – Liliana me olhava apavorada. Balancei a cabeça sinalizando que não podia fazer nada para remediar a situação. Desolada, ela a seguiu de cabeça baixa e fechou a porta atrás de si depois de sair da sala.
Coloquei a mão sobre minha clavícula procurando o colar que deveria estar ali.
Aquela bruxa estava me afastando dos meus amigos.
Lágrimas teimavam em querer sair, mas não deixei. Não era o momento certo.
Desci do tablado e fui ao provador colocar o vestido de noiva. Era maravilhoso, tinha um espartilho coberto por tecido rendado, uma saia longa e um véu curto. A renda tinha sido bordada com desenhos de rosas, cardos, narcisos e trevos.
Apesar de ter gostado, o sentimento de infelicidade não saia de dentro de mim.
retornei ao tablado e as costureiras começaram a andar ao meu redor mexendo em minha cintura e fazendo comentários uma com as outras, mas nunca falando comigo.
Tudo o que eu mais desejava era sair dali. Ficar parada me deixava nervosa e ultimamente tenho tido vários motivos pra ficar assim.
Ouvi uma batida na porta e uma voz que parecia ser a de Daniel conversava com uma das costureiras que tinha atendido a porta. Ela apenas acenava positivamente com a cabeça pela fresta da porta. Imediatamente desci do tablado erguendo o vestido com as mãos para não arrastar no chão.
— Princesa, seu vestido! — chamaram as costureiras atrás de mim com urgência. Não me importava nenhum pouco com aquele vestido de casamento estúpido. Queria falar com Daniel.
Não conseguia entender o que tinha acontecido para que ele passasse a me evitar. O colocaria contra a parede e o forçaria a me dizer.
Escancarei a porta e dei de cara com a expressão de susto no rosto dele. Após analisar minha roupa, Daniel fez uma careta estranha. Parecia estar sentindo dor apenas por me ver.
Sem dizer nada , virou de costas e saiu caminhando a passos largos pra longe de mim.
Tentei falar alguma coisa, mas as palavras não saiam. Tudo ultimamente tinha se tornado mais difícil.
Depois daquela cena não consegui continuar usando aquele maldito vestido. Voltei correndo ao provador e coloquei de volta meu vestido azul habitual. Ignorei os protestos das costureiras e segui em direção ao salão de baile.
Lá havia um piano de cauda preto — o meu favorito — que sempre permanecia com a tampa aberta.
O salão havia sido limpo e encerado. Deviam estar o preparando para o noivado.
Sentei no pequeno banco preto de madeira e encarei as teclas do piano.
Agora que Daniel estava me evitando, percebi o quão sozinha estou nesse lugar. Miressa cuidou de minha educação, mas foi apenas isso. Uma professora ensinando uma aluna. Ela nunca demonstrou afeto por mim.
Liliana era diferente. Tinha certeza que se tivesse escolha, não estaria trabalhando comigo. Sempre fui desobediente e isso sempre afetava a vida dela.
Daniel e eu nos conhecíamos desde pequenos. Era como um irmão. Me protegia das confusões em que me metia, repreendia quando algo muito ruim acontecia e se abria quando algo o estava incomodando.
Não faço ideia do que está acontecendo, mas espero que ele conte logo. Não vou suportar ir embora assim.
As lágrimas começam a cair e sinto um aperto no peito.
Esfrego os olhos e decido colocar tudo aquilo pra fora tocando uma música.
A principio erro algumas notas por conta da emoção, mas não importa. Tudo o que existia naquele instante era eu, o piano e meus sentimentos que ecoavam pelo salão em forma de música.
Quando apertei as ultimas teclas e o pedal para prolongar as notas, senti o peso sumir e por um momento eu estava em paz. Era estranho o quanto a música tinha poder de aliviar as dores do coração. Fiquei de olhos fechados para prolongar aquela sensação, mas logo alguém a interrompeu.
─ Nunca vi ninguém tocar com tanta tristeza – comentou o rei escorado na parede perto da entrada do salão.
─ Pai – sussurro estupefata.
Tentei secar o rosto que estava molhado por conta das lágrimas, mas não consegui. A manga do vestido era muito áspera.
Ele veio caminhando pra perto de mim e estendeu um lenço.
─ Isso deve ser por causa do casamento suponho.– disse com a testa franzida.
─ Sim – talvez essa fosse minha chance de tentar convencê-lo – Deve saber que a ideia de ir embora me desagrada grandemente.
─ Miressa falou comigo sobre isso – contou se apoiando com apenas uma mão no piano soltando um suspiro. – eu queria falar com você sobre o assunto, mas não tinha achado um momento oportuno pra isso.
Em vez de falar com Daniel semana passada poderia ter me chamado. – quis dizer
─ E agora é um momento oportuno? – questiono erguendo uma sobrancelha.
─ De certo modo sim.
Meu pai me encarou por alguns segundos antes de voltar a falar.
─ Você entende a importância desse casamento? –perguntou suavemente.
Faço que sim com a cabeça.
─ Temos que unir nossos reinos para dar um fim a guerra.
─ Exato. Mas não é só isso.
─ Como é?
─ Estão havendo revoltas em dois dos cinco reinos. Os rebeldes querem acabar com a monarquia e dividir o poder entre eles.
─ Por que?
─ Eles afirmam que nós governamos com muita rigidez e que não nos importamos com o povo. O reino de Verena foi destruído. – quase pulo do banco ao ouvir isso – o rei, a rainha e seus herdeiros foram mortos. Tiveram a coragem de matar a princesa a sangue frio! Todos que apoiaram a monarquia também tiveram o mesmo destino. Por isso que não faz sentido continuar essa guerra, precisamos nos aliar á aqueles que não caíram.
─ Mas porque essas pessoas são tão radicais? — questiono intrigada – E desde quando isso vem acontecendo?
─ Já fazem alguns meses. Estou tentando não deixar que essa informação se espalhe para não gerar pânico, mas precisava te contar para que saiba o quão importante será seu casamento.
Mas...Não seria mais perigoso ir nesse exato momento? E se invadissem Eldora e me matassem também?
─ Não – levanto do banco trêmula. – Não posso!
─ Anna.
─ Não há outro modo? S-Se tentasse fazer outro acordo com o rei...
Caminhei pra longe dele colocando as mãos na cabeça. Ele devia pensar que eu era maluca.
─ O casamento é o acordo! – Respondeu bruscamente – E sua responsabilidade é ajudar a proteger as pessoas que confiam em nossa família para governar. Tudo isso – disse olhando a nossa volta – Sua vida confortável só é possível por causa deles. Então você vai sim se casar para nos salvar, por que se não fizer isso, haverá consequências que duvido que tenha a capacidade de lidar.
Voltei pra perto dele com os olhos cheios de lágrimas novamente.
Tudo o que ele dizia era verdade, mas meu coração se recusava a aceitar aquilo.
─ Mas...Não quero ter que ir. Esse é meu lar...
Ele soltou um longo suspiro cansado.
─ Anna. Sinceramente, não há motivos pra ficar aqui. Sempre fui um pai ausente, sua mãe está morta e os amigos que teve na infância, estão vivendo suas vidas e evoluindo, enquanto você continua com atitudes de uma criança que busca atenção de qualquer jeito. – enquanto escutava meus olhos tinham se transformando em uma cascata – Acredite que será melhor para você assim.
─ Você diz essas coisas, mas...se tivesse sido alguém presente, não precisaria ver sua filha tentando chamar a atenção que claramente não recebeu – funguei um pouco e coloquei a mão sobre o peito. Estava falando muito rápido – Por quê? Por que não gosta de mim?
Passaram-se alguns segundos até que meu pai respondesse.
─ Não é questão de gostar – falou pausadamente — Só... Não suporto olhar para seu rosto. É absurdamente parecida com sua mãe e toda vez que a vejo, a morte dela se repete na minha cabeça. Não gosto de me lembrar disso então resolvi colocar essa distancia entre nós. Tem todo o direito de ficar magoada com essa situação, mas um dia verá as coisas de outra maneira.
─ Que outra maneira? – questionei sentindo os olhos arderem de tanto chorar – Será que pode dizer?
Meu pai balançou a cabeça negativamente.
─ Era só isso? – questiono arrasada. Queria deitar no chão e não sair mais dali.
─ Sim. – respondeu se afastando a passos lentos de mim.
Quando pensei que finalmente estava indo embora, ele se virou.
─ Não guarde rancor – pediu como se fosse possível – Isso fará mais mal do que bem a você.
Com isso deixou o salão deixando minha mente tentando entender e acreditar em tudo o que tinha dito.
Saí correndo dali até a escadaria principal para ir ao meu quarto.
No fundo já sabia que meu pai não queria me ver, mas escutar isso saindo da boca dele doeu demais. Nunca tive o sentimento tão forte de estar sozinha quanto agora. Daniel passou a me evitar sem motivo nenhum e por causa de Madame Miressa, não conseguiria falar com Liliana.
Com essa revolta acontecendo, era capaz de nos matarem á caminho de Eldora. Será que ninguém pensou nessa possibilidade?
Não. Esse não seria meu fim.
Peguei uma larga bolsa de couro e coloquei roupas, um papel com o retrato de minha mãe e algumas moedas de ouro. Vesti a capa de Rael e abri a porta que levava a floresta.
Desci os degraus no escuro rapidamente sem medo de cair, já que a raiva que estava sentindo não deixava que eu pensasse em outra coisa sem ser em fugir e ir embora daquele lugar.
Quando as escadas chegaram ao fim, tateei a parede para enfim sair do túnel.
Reparei ao sair pela porta de madeira envelhecida que ainda tinha muita claridade. Se não fosse pelos altos arbustos e as árvores de Eucalipto, seria muito fácil alguém me ver.
Coloquei o capuz na cabeça e segui a mesma trilha que havia usado antes.
Iria a cidade ver as meninas antes de ir. Não fazia ideia de onde, mas seria um lugar bem longe dos rebeldes e do meu pai. Talvez até encontrasse Rael no caminho. Seria bom devolver a capa ao verdadeiro dono.
As possibilidades pareciam infinitas e o alivio de saber que poderia escolher meu próprio caminho me empolgou. Por pouco tempo.
Dois homens vestindo a armadura dourada do palácio surgiram dentre as arvores e pediram que eu voltasse ao meu quarto.
Sem saber o que fazer, apenas corri. Conseguiria ser muito mais rápida por não ter a estatura tão grande quanto os dois.
Me enfiei entre os arbustos e continuei correndo sem olhar para trás. As arvores tinham caminhos estreitos demais para dois homens de armadura.
Depois de ter despistado os dois, me enfiei ainda mais na floresta sem ter ideia do que fazer para ir em direção á cidade.
Encontrei outra trilha e me escorei numa arvore para descansar um pouco. o coração estava acelerado.
Tudo até ali ia bem, até sentir duas mãos agarrando meus braços.
Eram outros guardas.
Sacudi os braços e me debati feito doida para tentar daquela situação. Mordi um deles acima do cotovelo e não adiantou nada.
Não é a toa que eles trabalham no palácio.
Ouvi um deles dizendo pra me levar ao portão principal enquanto o outro discordava por algum motivo que não prestei muito atenção por estar tentando fugir do aperto das mãos deles.
Joguei todo o peso do meu corpo para trás a fim de faze-los cair, mas a única que caiu fui eu e ainda por cima bati a cabeça numa rocha na queda.
Depois disso minha visão ficou turva e toda a energia que tinha se esvaiu.
Fale com o autor