A capa acabou por ser muito útil no caminho de volta. O ar era gelado e a carroça que nos levava, não era limpa. Ela levava legumes e frutas para o palácio e sacolejava um pouco por causa da estrada de terra irregular, mas não a ponto de me deixar com mal-estar.

Daniel estava calado desde que subimos na carroça. Não era pra menos. Se fossemos pegos, só deus sabe o que aconteceria. E a essa hora, não restavam esperanças de sair dessa confusão impunes.

Pus a mão sobre minha clavícula para apertar o pingente a fim de ficar mais calma e mas não estava mais em meu pescoço.

Dei um pulo de onde estava sentada e olhei ao meu redor na cesta com cenouras e não encontrei.

Realmente tinha sumido!

Como pude ser tão descuidada?

Era a única coisa que eu tinha que pertenceu á minha mãe.

Mas com certeza, ela gostaria de me ver aproveitando a liberdade, em vez de ficar presa a um colar. Usar esse pensamento, talvez ajudasse a diminuir a culpa que já me corroía.

─ Você gostou? – perguntou Daniel interrompendo meus pensamentos – De ter saído?

Sua voz estava assustadoramente baixa. Provavelmente para que o homem que nos levava, não escutasse e acabasse nos delatando para alguém. Segui seu exemplo e falei no mesmo tom.

─ Foi uma experiência incrível! – apesar de ter me perdido e perdido o colar de minha mãe – Vou me lembrar disso para sempre!

Seus lábios se curvaram em um meio sorriso.

─ Que bom. Então valeu a pena! – disse ele – Queria que tivéssemos tido mais tempo pra fazer coisas assim.

─ Fugir do palácio? – a ideia de Daniel querer isso quase me fez rir.

─ Não. Passar mais momentos juntos – lamentou – quando comecei o oficio de aprendiz, acabei me distanciando. Sinto muito. Agora que irá embora, não posso fazer nada a não ser lamentar.

Ele baixou a cabeça, visivelmente abalado.

─ Não diga isso – supliquei – Era seu dever exercer algum cargo. Desde pequena, achei que um dia teria pouco tempo e que isso acabaria nos afastando. Mas você nunca permitiu que isso acontecesse. Sempre escapava de alguma aula ou tarefa, apenas pra me ver. Passei mais momentos da minha vida ao seu lado, do que com meu pai. Isso definitivamente é algo não?

Peguei sua mão e a apertei levemente.

─ Dani. Me escute – Ele ergueu a cabeça para me olhar – Tem sido um irmão pra mim durante todos esses anos. Não há motivo para que lamente o que se passou, Mas te peço que fique por perto até tudo isso acabar. – Pisquei os olhos rapidamente tentando evitar que as lágrimas caíssem. – Eu te amo e não quero te ver abalado por minha causa. Sorria que eu terei coragem de sorrir também.

Daniel aparentava estar sofrendo com o esforço de colocar um sorriso no rosto, mas conseguiu, apesar de não ser convincente no ato.

Nós dois permanecemos em silencio até chegarmos perto das árvores que levavam á trilha.

O homem puxou as rédeas dos cavalos e parou a carroça. Daniel desceu e me ajudou logo em seguida. Tirou uma moeda dourada de seu bolso de couro preso á cinta de sua túnica e deu ao homem. Ele se foi na maior tranquilidade até virar um pontinho na estrada. Esperamos a carroça sumir completamente para entrarmos na floresta sem sermos vistos.

Nuvens escuras flutuavam acima de nós e quando elas cobriam completamente a lua cheia, a escuridão tomava conta de tudo.

As folhas das árvores farfalhavam com o vento, galhos no chão faziam barulho a cada passo, e o que antes se parecia com um bosque encantado, virou um pesadelo em instantes.

Quando Daniel andou mais a frente e se afastou um pouco de mim. Corri assustada com a distância entre nós e peguei sua mão.

─ Já está com medo? – debochou quebrando o silêncio.

─ Você não?

Aperto meus olhos tentando enxergar alguma naquele breu.

─ Honestamente? Não – Disse me puxando devagar por entre as árvores – Depois que cresci, passei a ter medo de outras coisas.

Detestava quando ele jogava um mistério no ar, sem ter a intenção de revelar nada.

─ Como está enxergando o caminho nessa escuridão?– No máximo o que eu via era a sombra de uma árvore.

─ Tenho uma memória boa. – respondeu simplesmente.

─ O escuro me traz péssimas recordações sabe. – confidencio – Seria bom chegar logo.

─ Que recordações?

─ A noite que invadiram o palácio.

Ele parou no lugar feito uma estátua, fazendo com que eu trombasse nele. Naquele exato momento, as nuvens se afastaram e a luz da lua se derramou sobre nós.

─ Como pode se lembrar disso? Era tão nova...

─ Eu lembro. Lembro do fogo, das pessoas correndo e da gritaria.

─ Anna... – Ele se virou de frente pra mim sem largar minha mão – Porque nunca me contou nada?

─ Nunca surgiu oportunidade — dei de ombros – E também não é algo agradável de se dizer do nada. Tem momento certo pra isso.

─ Com agora?

─ Exatamente – forço uma risada – Nada melhor que uma floresta sombria para falar sobre traumas de infância!

─ Você pensa muito nisso? – perguntou expressando claramente a preocupação em seu rosto.

Demoro uns instantes antes de responder.

─ Quando enfrento uma situação estressante ou vou dormir chateada com algo, tenho pesadelos desse dia. É sempre igual. Alguém está me carregando, dá pra ver pelas janelas o céu avermelhado por causa do fogo e logo tudo fica escuro.

─ Com o casamento chegando, imagino que os tenha tido com mais frequência. – afirmou.

Esse papo estava começando a me deixar deprimida outra vez.

Não deveria ter dito nada, mas essa atmosfera que a floresta tinha estava me afetando.

─ Sim, mas já aprendi a lidar com isso – eu acho – Por que não continuamos logo e esquecemos esse assunto?

─ Claro. Vamos sim!

Não demorou muito para encontrarmos a trilha. A luz da lua ajudou muito na localização. A seguimos até passarmos por um enorme pinheiro. Atrás dele havia diversos arbustos que tapavam facilmente a entrada do túnel. A pesada porta de madeira ficava cravada em meio a rocha. O pinheiro a bloqueava completamente e os arbustos davam uma boa disfarçada no lugar.

Daniel a abriu sinalizando para que eu entrasse primeiro. A escuridão nos engoliu, mas só havia um caminho para seguir, então não seria tão difícil. O único problema eram as escadas. Alguns degraus largos, outros íngremes. Demoramos muito ali por que tivemos que caminhar bem devagar para não ocorrer nenhum acidente.

Quando enfim chegamos ao topo da escada, apenas empurrei a porta e ela cedeu facilmente. Talvez Daniel a tinha deixado aberta ou ela abria do lado de fora. Era meio preocupante.

Entrei apressada e soltei as presilhas de meu cabelo, que enfim estavam soltos. Bagunçados, mas soltos. Tirei os sapatos sujos de terra e joguei para debaixo da cama.

─ Enfim em casa! – me joguei de costas sobre a cama.

Daniel permanecia calado em frente a porta/espelho aberta com os olhos arregalados.

─ O que está fazendo? Feche a porta antes que alguém entre! – fiquei apoiada sobre os cotovelos na cama e virei minha cabeça para onde ele estava olhando.

─ Maldição!

Madame Miressa estava de pé em frente a porta do meu quarto de braços cruzados e testa franzida.

Notas finais
Até a próxima!