Quando menos se espera
10 Lições
Notas iniciais
─ Há aproximadamente oitocentos anos atrás, diversos navios saíram em uma expedição para encontrar e expandir o território dos cinco reinos mais ricos da Europa. Eles navegaram...
─ Quem ordenou a expedição? – questionou Madame Miressa me interrompendo e fazendo com que eu perdesse o raciocínio.
─ A rainha Alexandra Edele Hizua, sendo apoiada financeiramente por mais quatro reis das redondezas. Os Bárbaros estavam invadindo e destruindo muitas províncias á leste da antiga Inglaterra. Então a rainha acreditava que deveria haver outra opção além do combate direto: Uma fuga. Levou quase dois anos até encontrarem. Acabaram desviando diversas vezes, passaram até na Índia e...
─ Foco. Você precisa contar os fatos o mais diretamente possível.
Já não estava mais aguentando aquilo.
─ Levou dois anos – repeti me esforçando pra não deixar a raiva transparecer na minha voz – Mas eles encontraram uma ilha. Ela possuía um tamanho imenso, quase maior que os cinco reinos juntos. No entanto já era habitada por nativos que não falavam inglês. Isso dificultou a comunicação e uma possível negociação, gerando conflito e hostilidade.
Fiz uma pausa para tomar um copo da água e tentar lembrar o resto da história. Se eu errasse alguma coisa novamente, teria que contar tudo desde o inicio outra vez.
Larguei o copo na mesinha e retornei ao púlpito em que eu estava "ensinando" sobre a história de origem dos cinco reinos. Nunca detestei tanto a biblioteca como naquele momento. O cheiro de livro velho me incentivava a tentar terminar aquilo o mais rápido possível.
─ Após ficarem meses sem uma solução e com os bárbaros se aproximando, foi ordenado um ataque que massacrou os habitantes devido a falta de armamento. O desespero subjugou o que era certo e os mais jovens foram escravizados e – eu me sentia mal só de pensar – castrados para que sua descendência não buscasse vingança e...
─ Seja direta. – lembrou.
─ Com a mão de obra escrava e os exploradores partindo em missões de reconhecimento, uma cidade começava a ser construída. Em seguida a nobreza europeia, músicos, artistas, religiosos, estudiosos e cientistas embarcaram para o novo mundo. Os quatro reis e a rainha fizeram um acordo de divisão de terras após o reconhecimento territorial ser concluído. E junto ao acordo, cada um deles mandou seus herdeiros para governarem em seu lugar. " Um novo reinado, para uma nova geração" disseram.
Parei de falar tentando por em ordem os fatos.
─ E o que aconteceu depois? – questionou com a sobrancelha arqueada. Aposto que ela torcia em segredo para que eu fracassasse.
─ Os reis e a rainha resolveram permanecer com o povo restante que não conseguiria embarcar para o novo mundo. O ultimo barco que retornou, relatou que a cidade portuária principal estava devastada e em chamas. Não tinha mais motivos para voltar até lá. O passado seria esquecido e o novo território divido. Desse modo foram criados cinco reinos, levando o nome e sobrenome dos reis que morreram na antiga Inglaterra: Eldora, Mirai, Arnor, Florentia e Verena.
─ E?
─ Para impedir que algumas pessoas tentassem voltar ao nosso lugar de origem, foi criada uma lei proibindo que navios se afastassem muito do território. Essa lei foi quebrada apenas uma vez a trezentos e quatro anos, pela rainha Aurora Kasnier, que sonhava em conhecer lugares além do mar. Saiu escondida num navio e roubou um dos poucos mapas que existiam para ir á China. Não sei como, mas havia pessoas que falavam nosso idioma lá. Ela aprendeu diversos costumes e festivais que até hoje comemoramos. Principalmente festivais. Alguns costumes não eram do agrado de todos, então não foi muito utilizado.
Ouço palmas e olho em sua direção.
─ Parabéns. Quase pensei que escutaria essa história novamente.
Era a quarta vez que eu repetia aquilo.
─ Agora me diga o brasão de cada reino e seu significado, que estará dispensada.
Dou um longo suspiro antes de continuar.
─ A de Florentia, é um escorpião dourado. Significa que sempre vamos nos defender de quem mexer conosco (assim como o próprio animal.). A de Eldora é uma flor azul em meio à neve. Mostra que mesmo com dificuldades, eles ainda vivem. Arnor é um cacto, representa a beleza e a força do reino. Mirai, um eucalipto. O tamanho dessa arvore, é como a determinação dos reis para manter os cinco reinos unidos e por fim, Verena nosso maior aliado. Seu brasão é uma árvore de laranjeiras, que significa a prosperidade que eles têm no seu território.
Tinha terminado meio ofegante, mas tudo o que eu havia dito, era correto.
─ Vejo que estudou bastante. – afirmou – Só que tem que aprender a respirar e falar pausadamente para ser entendida por quem está ensinando.
─ Quer que eu fale mais uma vez? – questiono impaciente.
─ Não. Está dispensada.
─ Ah! – exclamo já indo em direção ás portas quando Madame Miressa me chama a atenção – O que?
─ Nem pense em ir atrás de Daniel. Ele está ocupado e não tem tempo para suas bobagens ouviu bem?
O tom que ela usava dava a entender que eu era uma má influencia para o filho dela. Ele tinha quatro anos a mais que eu. Como uma garota com 17 anos poderia fazer algo pra atrapalha-lo?
Ela era bem intimidadora. Usava um coque no alto da cabeça e um vestido verde Olivia que era sempre usado a não ser que ela tivesse outros modelos na mesma cor. Era a única pessoa que eu nunca ousaria enfrentar.
─ Sim Senhora. – Resolvi não questionar e apenas concordei antes de sair pela enorme porta envernizada da biblioteca.
Depois que Miressa nos pegou, tudo foi de mal a pior. Ela não disse nada ao rei, mas como castigo, me fez decorar e ensinar a história dos cinco reinos sem nenhum suporte! Além disso, eu teria aulas acrescentadas de etiqueta extras no fim do dia e aulas matinais sobre Eldora, meu futuro lar.
Já era 14 de junho. Faltavam vinte dias para a recepção real. O dia em que conheceria o noivo já odiado desde o conhecimento sobre sua existência.
Parei em frente a porta da sala onde Daniel recebia suas lições. Ela ficava no mesmo andar que a biblioteca. Lá de dentro vinha um som de pessoas discutindo. Não podia ser Daniel naquela sala.
Ouço o barulho de uma cadeira ser arrastada lá dentro e a voz de Daniel fica mais clara.
─ Será que podemos fazer uma pausa?
Nesse exato momento ele abre a porta e dá de cara comigo.
─ Olá – digo esperando que Daniel não pense que escutei toda a conversa – Tudo bem?
─ Ouviu tudo? – perguntou fechando a porta atrás de si e estendendo o braço em seguida para que eu pegasse.
─ Quase nada — comentei enquanto caminhávamos – Desistiu de ser certinho e agora vai se rebelar?
─ Ainda não – disse com a testa franzida – é que desde o ano passado, as coisas têm ficado um tanto estranhas.
─ Por quê?
─ Meu tutor insiste em me ensinar assuntos que não tem nada relacionado a se administrador do palácio. Debate, como conduzir reuniões com um grande número de pessoas, administração de terras e outras coisas.
─ Talvez ele acredite que tenha vocação para ser rei – brinco – alguém tem que substitui-lo algum dia não?
─ Alguém com sangue real – rebateu achando graça – ainda bem que essa responsabilidade não está sobre mim.
─ Queria eu poder governar, pena que nasci menina. Se as leis não fossem tão exigentes...
─ Mas soube que em Arnor, quem governa é apenas a rainha.
─ Sim, mas porque o rei está morto. –lembro.
─ Se acontecer algo com seu marido futuramente, também vai poder.
─ Olha em que me transformei. Desejando a morte de alguém por poder
─ Acho que a rainha de Arnor deve ter pensado o mesmo antes de matar o marido! – debochou.
─ Ela o matou? – pergunto assustada.
─ Não, foi em uma caçada. – riu ele – Mas me diga, o que está fazendo por aqui? Não devia estar estudando?
─ Sua mãe resolveu fazer uma pausa – digo soltando um suspiro de alivio. Só de pensar em estudo, minha mente já ficava cansada – Não entendo porque só eu estou sendo punida. Você também saiu!
─ Minha mãe sabe que a culpada de me influenciar para o mal é você – disse de um modo debochado – O filho dela nunca faria algo errado por conta própria.
Daniel falava como se ele fosse um santo.
─ Nem comece – aviso revirando os olhos – Mas o que planejava fazer?
─ Não sei. Apenas sai. – deu de ombros. – No que está pensando?
─ Bem... Podíamos ir ao jardim aproveitar esse dia maravilhoso. Respirar ar fresco...
─ Tudo bem, não precisa de mais argumentos pra me convencer – brincou erguendo as palmas das mãos para cima.
Estávamos descendo as escadarias brancas que levavam direto á saída mais próxima quando demos de cara com o rei no fim dela.
Para mim foi uma surpresa, já que quase não o via.
Adorava procurar semelhanças físicas entre nós dois, apesar de não haver nenhuma. Eu tinha herdado cada traço de minha mãe.
─ Majestade – cumprimentamos fazendo uma breve reverência.
─ Princesa – disse inclinando a cabeça levemente em minha direção antes de se dirigir a Daniel – Daniel. Fui informado agora mesmo sobre sua falta de disciplina.
É. Por aqui as noticias voam.
Larguei o braço de Daniel e juntei as mãos sobre o vestido.
─ Sinto muito Majestade – respondeu de cabeça baixa – Mas tenho dúvidas em relação ao conteúdo que meu tutor tem ensinado.
─ Entendo. Mas esse motivo não te dá o direito de ser insolente – repreendeu – Quanto ás dúvidas, acredito que posso respondê-las. Princesa, nos de licença, por favor. Vamos ao meu escritório.
Os dois se afastaram a passos largos e barulhentos. Permaneci parada olhando para o nada por um bom tempo. Ainda estava chocada.
O olhar frio e sem sentimento ao me cumprimentar doía, mas saber que o rei não agia desse jeito com Daniel machucava em mais.
O modo que o rei tratava Daniel, era tão...paternal.
Meu pai nunca havia me repreendido por escapar de alguma lição ou fazer travessuras. Essa era a responsabilidade de Madame Miressa, nunca foi dele.
Sei que ele sempre quis ter um filho para tomar seu lugar como rei, mas não é minha culpa que a rainha morreu antes disso.
Queria que ela estivesse aqui. Aposto que impediria esse casamento absurdo.
Subi novamente as escadas e dessa vez iria ir para meu quarto tirar um cochilo. Se ficasse vagando muito por ai sem fazer nada, era capaz de Madame Miressa me dar uma tarefa pra me ocupar.
Passou duas horas até que eu acordasse novamente. É muito estranho que tenham permitido isso por tanto tempo. Algo estava muito errado.
Logo depois que sai de meu quarto ainda um pouco sonolenta, esbarrei em Daniel que vinha na direção contrária. Seu cabelo estava bagunçado e os olhos avermelhados.
Não falou nada para mim, apenas me tirou gentilmente de seu caminho e prosseguiu para o quarto.
A principio achei muito esquisito, nunca tinha o visto tão perturbado. Talvez fosse melhor deixa-lo em paz para saber o que aconteceu mais tarde.
***
Durante o resto do dia, Daniel nem ousou olhar em meu rosto. Tentei chamar sua atenção diversas vezes, ele até reparava, mas resolvia simplesmente ignorar.
No jantar ele nem apareceu, Madame Miressa não se importou nenhum um pouco com o fato.
A situação estava ficando cada vez mais estranha. Será que Daniel foi punido? Ou o rei havia descoberto sobre nossa fuga? não conseguia nenhum momento a sós desde que meu pai o chamou para conversar.
Já era noite. Estava com minha camisola pronta pra deitar e não tinha conseguido falar com ele.
─ Vossa alteza deseja mais alguma coisa? – perguntou uma das criadas que cuidava de minhas roupas.
─ Não, estou bem. Pode ir.
Após ela sair do quarto e apagar as luzes, arrastei-me sore os cobertores e fiquei olhando para o teto. As tristezas e pensamentos ruins vieram rapidamente.
Não – Falei a mim mesma enquanto as lágrimas escorriam – ainda não há motivos pra se preocupar. Estou em casa e segura por enquanto.
Obviamente meu coração não acreditava nisso.
Meu maior medo se revelava durante a noite e com ele as lágrimas, que me levavam até aquele pesadelo pavoroso.
Perguntava-me se seria desse jeito pra sempre
Talvez não fosse tão ruim, mas poderia ser pior. A incerteza de não saber o amanhã acabava comigo e ter perdido o colar de minha mãe só piorava as coisas. A única parte que tive dela foi perdida por causa da minha atitude impensada e a pessoa que deveria me dar apoio e consolo, não se importa nenhum pouco com meus sentimentos.
Às vezes não queria ser princesa. Ter que exibir uma pose despreocupada e fingir que está tudo bem quando se está morrendo por dentro, é a pior obrigação que alguém da realeza pode ter.
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