Quando menos se espera
5 Ombro Amigo
Notas iniciais
Após passar quase meia hora andando, finalmente encontrei a loja de doces. Era uma construção de dois andares bege com uma placa lá no alto escrito “palácio rosa”. Nunca pensei que o sonho de minhas amigas aconteceria tão rápido e fizesse tanto sucesso. Elas realmente correram atrás de seus sonhos, diferentes de mim, que continuo a mesma coisa de sempre: Uma garota frustrada.
Abri a porta de madeira e o barulho de inúmeras pessoas chegou aos meus ouvidos. Estava lotado e nem havia tanto espaço para todos.
Era um local simples, mas muito bem cuidado. Tinha tanto orgulho de ser amiga das donas do lugar.
− Olá senhorita, sinto dizer que estamos lotados. – avisou uma garota de avental rosa e cabelos presos num coque que logo veio me atender — Se voltar outro dia, podemos lhe oferecer uma fatia de bolo sem cobrar nada!
− Não se preocupe, não vim para comer – informei – Gostaria de falar com Sofia e Margô.
− E seu nome é?
− Anna, elas saberão quem é.
− Está bem, espere um instante aqui. – disse entrando para o balcão
Não passou nem dois minutos e ela retornou me dizendo para segui-la. Atrás do balcão onde havia mais duas atendentes, tinha uma escada que levava diretamente ao segundo andar. Subi até lá e me deparei com uma sala simples, duas mesas entulhadas de papéis e o piso rangendo a cada passo – Gostaria de ajuda-las a deixar esse lugar melhor- Mas nem consegui absorver mais detalhes porque Sofia e Margô se jogaram sem aviso em cima de mim, me abraçando até o ar acabar.
− Não acredito que está aqui! – Exclamou Margô agarrada a mim.
− Como convenceu seu pai? – perguntou Sofia se afastando um pouco.
− Não convenci. – respondi fazendo uma cara de quem aprontou.
− Fugiu? – perguntou Margo Começando a me puxar para um sofá verde no canto da sala – Sente aqui e nos conte tudo!
− O que ouve? Alguém lhe fez algo?
− Vou me casar. –falei por fim
Levou alguns instantes para que elas processassem a informação.
− O QUÊ? – As duas berraram ao mesmo tempo.
− Pensei que não gostasse de ninguém. –disse Sofia preocupada – Você mesma disse que achava todos os rapazes disponíveis imaturos.
− E acho! – confirmei balançando a cabeça. – Mesmo sendo tão imatura quanto...
− Então... Será um casamento arranjado! – Concluiu Margô.
Foi nesse momento em que as lágrimas começaram a sai .
Por mais que com outras pessoas do castelo eu tratasse esse assunto como algo trivial e sem importância, não era. Minha vida nunca seria a mesma após esse casamento.
A pouca liberdade que conquistei, estava se esvaindo aos poucos. As regras eram muito mais rígidas depois da fronteira e querendo ou não, acabaria por obedecer todas elas.
− Oh Anna! – As duas sentaram ao meu lado me confortando e enxugando as lágrimas que eu quis derramar á bastante tempo.
− DONA MARGÔ! – chamou uma voz feminina do andar inferior.
− JÁ VOU! – respondeu se levantando — Volto já.
Após sua saída, Sofia votlou a falar.
− Sinto tanto por você Anna! – lamentou. Seus olhos dourados mostravam sua intensa preocupação com meu futuro – Terá que parar de fazer as coisas que gosta.
− E cavalgar... – me lembrei.
− Mas talvez seu esposo não a proíba de fazer tais atividades em segredo, ele pode ser gentil. – tentou me tranquilizar com o seu costume otimismo
− Desde quando o lado inimigo é gentil? – resmungo deitando a cabeça em seu colo como uma criança.
− Inimigo? De quem está falando?
− Irei me casar com o filho mais novo do rei Willian.
− COMO É QUE É? – exclamou assustada – Como seu pai pôde aceitar que se case com alguém de Eldora? Sabendo que por culpa dele, milhares de inocentes morreram inclusive sua...!
— Minha mãe. – completei — não sei como esse acordo aconteceu, mas aparentemente eles estão cansados e querem formar uma aliança com Florentia para acabar com essa rivalidade.
− E precisa de casamento pra isso?
− Meu pai disse que isso vai mostrar confiança entre os dois povos e trazer paz e tranquilidade.
− E quanto a você? Não precisa de paz e tranquilidade também?
− Meu dever é garantir a felicidade do povo – respondi com uma voz automática. Já havia falado aquilo um milhão de vezes. – Não há nada que eu possa fazer
− E sua felicidade? – retrucou – Anna, quantas vezes você dizia que sonhava em ser uma grande mulher como sua mãe e casar apenas com alguém que amasse de verdade?
Dei um pulo e me levantei dando-lhe as costas.
− Nunca chegarei a ser metade do que ela foi.
− Claro que não – concordou com a voz mais suave que o vento – Você nunca será como ela, só pode ser você mesma.
− É isso que me preocupa. – respondi insegura – Ser eu mesma!
− Mas por quê?
− Ninguém vai me aceitar desse jeito, e passarei por um inferno quando chegar lá!
− Como sabe disso?
− Porque casar com quem não se ama deve ser assim.
− Tem razão. – concordou – Mas torça para que seu futuro marido não seja tão autoritário!
Voltei a sentar ao seu lado soltando um profundo suspiro.
− Estou torcendo com todas as minhas forças. – respondi decidida. Só me restava torcer mesmo, porque a realidade era bem diferente. – Mas... Como está indo seu noivado?
Há um tempo, Sophia havia descoberto que seus pais tinham arranjado um casamento para ela com um homem vinte anos mais velho e rico. Minha amiga brigou com seus pais e foi morar definitivamente com Margô, mas o acordo ainda era válido e o homem vivia correndo atrás dela. Queria ser corajosa como Sofia, só que na minha situação não dava pra atirar ele para o alto e sair correndo.
− Estou quase livre daquele maldito! – exclamou aliviada. – Theo está me ajudando a espanta-lo!
− Hum... Vocês andam muito juntos desde que saiu do palácio. – comentei desconfiada – Ele é um bom rapaz e acho que gosta de você!
− É claro que sim. – confirmou Sophia com um sorriso bobo no rosto – Se ele não gostasse, não seria meu namorado.
− Como? Vocês estão namorando? – Não acredito que ela não me contou – Desde quando?
− Oficialmente desde ontem. – disse rindo para si mesma – Dá pra acreditar nisso?
− Dá sim, eu sempre soube que ele tinha um interesse a mais por você!
− Eu pensava que ele gostava de Margô sabe... Estava sempre falando com ela.
− Theo só queria saber mais de você sem levantar suspeitas, mas... Você o ama? – A coisa mais importante era essa.
− Sim, eu o amo demais! – exclamou em êxtase – Acha que esse relacionamento tem futuro?
− Isso vai depender apenas de vocês. – digo sorridente.
Após passar quase quatro horas conversando com as meninas, sai para dar mais uma olhada pelos arredores. Ali era muito grande, se eu não prestasse atenção acabaria me perdendo outra vez. Comprei algumas coisas como: bolo, tecidos e coisas que Liliana sempre comentava que gostava. Queria presenteá-la com alguma coisa por todos esses anos me ajudando no palácio.
Mas depois de sair de uma livraria, tinham dois guardas na frente que me viram e começaram a analisar meu rosto com mais cuidado. O pânico tomou conta de mim e minha respiração começou a ficar rápida e ofegante.
Será que sabem que a princesa fugiu?
Dei as costas e andei pra longe, percebi que eles ainda me seguiam então corri. Sem nem pensar que essa atitude seria ainda mais suspeita. Droga, não queria voltar com os guardas, mas sim sozinha com as minhas próprias pernas pra mostrar minha independência.
Me misturei no meio da multidão e vi um beco próximo então resolvi me esconder lá até que os guardas sumissem de minha vista, mas acho que não foi uma boa ideia.
Enquanto descansava apoiada na parede de tijolos, vi uma dupla de homens me observando com uma expressão que eu não sabia decifrar. Minha consciência me mandava sair dali sem hesitar e entre os guardas e aqueles homens, preferia ser arrastada pelos guardas de volta para casa.
Comecei a andar rapidamente na direção da rua movimentada, mas num piscar de olhos, os dois já estavam á minha volta, me encarando como se eu fosse um pedaço de carne.
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