Quando o sol se escondeu no horizonte, percebi que já estava mais do que na hora de ir embora. Peguei minha bolsa e a abracei contra o peito.

Como faria para voltar pra casa? E agora que estava escurecendo...

Sai percorrendo a trilha, que agora parecia um bosque mal-assombrado saído do inferno e comecei a narrar mentalmente o discurso que faria ao rei para justificar a ausência.

Voltei às ruas da cidade e a encontrei vazia e silenciosa, preferia mil vezes que estivesse movimentada, do que desse jeito.

─ Onde é que eu fui me meter? — murmurei.

Não demorou muito para encontrar o centro da cidade, já que havia um enorme alvoroço vindo de lá junto com música, dança e um cheiro forte de bebida alcoólica.

Bandeiras vermelhas e pequenas lâmpadas da cor laranja decoravam a praça principal iluminando tudo, algumas pessoas num círculo trocavam aleatoriamente de parceiros numa dança que eu nunca tinha visto e outras comiam bolos e carnes que se estendiam por uma comprida mesa de madeira, era uma das coisas mais legais que eu presenciei. O clima era tentador, mas eu precisava mesmo ir embora, o que me chateou um pouco no momento até avistar Daniel. Sim, ele realmente estava ali.

Será que o rei tinha descoberto e mandado ele?

Logo agora que estava tão perto de voltar ao palácio. Minha frustração seria evidente se ele me visse agora

Seus olhos semicerrados varriam a multidão. Com certeza a minha procura. Por outro lado, era um alívio não ter que me aventurar na trilha da floresta sozinha. Se o sermão do rei me deixa de cabelo arrepiado, imagine Daniel que é meu amigo. Detestava vê-lo decepcionado, especialmente comigo, então para facilitar seu trabalho, me espremi entre várias pessoas e fiquei parada em um espaço aberto.

O alívio em seu rosto era evidente ao me ver. Sua boca se curvou num sorriso e ele andou rapidamente na minha direção e me abraçou.

─ Daniel! – exclamei apertando mais meus braços à sua volta.

─ Você está bem? – Questionou me afastando um pouco para inspecionar meu estado deplorável – Alguém lhe fez algo?

Quase – quis dizer, mas o que saiu foi:

─ Estou bem. Caí na lama enquanto caminhava pela rua – me afastei um pouco dele e respirei fundo. Estava muito encrencada. – Pelo menos por enquanto.

─ Hum? Por que diz isso?

─ Com certeza terá um castigo por isso, não?

─ Teria, se alguém soubesse – sua expressão era semelhante a de uma criança que havia aprontado – Como acha que saí do Palácio?

É verdade. Daniel saia de vez em quando, mas sempre com autorização e apenas aos sábados . Se o rei tivesse mandado virem me buscar, viriam muito mais pessoas do que só ele.

─ Mas não te contei onde era a passagem! – será que deixei sem querer a porta aberta? ─ De que jeito descobriu?

─ Minha inteligência está acima da sua compreensão. – disse brincando.

Depois de conversar mais um pouco sobre como tentou enganar Liliana e o caminho que ele percorreu e aqui, Daniel ficou observando tudo com o maior interesse. Por mais que fosse óbvio que tínhamos de ir, nenhum de nós queria.

E aquela festa tão tentadora.

─ E então? – indaguei sorridente

─ Então o que?

─ O que acha de ficarmos aqui e aproveitar um pouco a festa? – sugeri com esperança de que ele dissesse um sim.

─ Não acho uma boa ideia. Temos que retornar antes que alguém perceba.

─ Aposto que já descobriram!

Liliana vivia entrando no meu quarto. E depois de Daniel tentar mentir pra ela, aposto que ficou desconfiada.

─ Talvez não.

─ Você não sabe – resmungo – Já se passou muito tempo. O que custa demorar apenas mais um pouco? O castigo será o mesmo!

─ Anna. Vim aqui somente para buscá-la. Não para dançar e ficar comendo em uma comemoração que duvido que tenha noção do que se trata.

É. Realmente não sabia.

─ E O que é?

─ é a Festa da Lua Nova. É um momento de luzes, histórias, adoração, bolos, danças e formação de casais. – contou gesticulou apontando para as coisas à nossa volta – Acontece todo o mês.

Todo o mês? Como nunca fiquei sabendo disso?

─ E...Por que não comemoramos também ?

─ Bem... Essa celebração tem como objetivo a união das famílias. Logo depois que sua mãe morreu, nunca mais foi realizado nada, já que era a data favorita dela. ─ Daniel parecia estar desconfortável ao citar ela, mas normalmente citar pessoas mortas sempre é. – Mas é uma festa muito bonita .

O céu que antes estava rosado, começou a ficar mais escuro agora. Talvez seja melhor retornar logo antes que aconteça alguma coisa. Não iria forçar Daniel a ficar e acabar se encrencando mais ainda. Não queria ser uma amiga egoísta. Apertei o colar da minha mãe contra o peito e respirei fundo.

─ Acho melhor irmos. Está escurecendo. – me virei andando na direção que não tinha muitas pessoas no caminho.

─ Espere! ─ ele puxou meu braço de leve.

─ O que foi?

─ Estava pensando que, essa é a primeira e última festa da lua em que vai poder participar. – afirmou – Não seria bom te ver partir sem isso.

Meus lábios se curvaram num grande sorriso.

─ Tem certeza? – pergunto um pouco receosa, mas ao mesmo tempo alegre.

Ele deu de ombros.

─ Nós já estamos aqui fora mesmo.

Com a autorização de Daniel dada, tratei de absorver aquele clima feliz e contagiante das pessoas.

Ficamos circulando por ali durante um bom tempo, experimentando vinhos e os famosos bolos da lua. Daniel me contou que a pasta dele é feita de semente de lótus, não sabia exatamente o gosto de lótus, mas ficou muito delicioso no bolo. Ele tinha um formato redondo e cobertura branca como a lua. Como nunca soube disso? Esse é meu reino. Ou era. Como a princesa não conhece um feriado realizado mensalmente?

De repente os sinos tocaram, todos ficaram inertes no seu devido lugar e em seguida abriram um espaço enorme no canto onde não havia luzes.

Olhei para cima e a lua brilhava intensamente como uma enorme lâmpada. Dei uma olhada no relógio que ficava no centro da praça e Já passavam das seis e meia. Procurei Daniel com os olhos na enorme aglomeração de pessoas, mas não encontrei.

Tudo bem, não vou entrar em pânico.

Quando apagaram as luzes e deixaram a luz prateada banhar a todos, fiquei deslumbrada e maravilhada com a linda visão.

─ O que está acontecendo? – perguntei para o vazio.

─ é a cerimônia de casais! – respondeu uma voz feminina atrás de mim carregada de emoção. – Quando a música tocar, as pessoas podem chamar o pretendente pra dançar ou confessar seus sentimentos. Dizem que quando um casal dança sob a luz da lua, está destinado a ficar junto para sempre.

Isso sim era diferente.

─ E é obrigado a participar disso? – questiono preocupada. Já tinha um noivo, não precisava de mais um.

─ Estamos em Florentia, nada aqui é obrigado – respondeu junto com uma risada que encheu o ar.

Quem me dera isso valesse para meu casamento.

Sons de flauta, tambores e violino começaram a ressoar no ambiente suavemente. Como eles conseguiam tocar algo no escuro?

As pessoas à minha volta foram diminuindo aos poucos e para não acabar sozinha ali, segui na direção de um homem que parecia ter a mesma fisionomia de Daniel.

Claro que era besteira se basear na altura, mas de todos, ele se destacava por isso.

Fui me aproximando com os olhos semiabertos tentando me acostumar com a pouca claridade e quando estava quase a sua frente, fiquei totalmente surpresa.

─ Outra vez? – questionou o rapaz com a sobrancelha arqueada e um sorriso brincalhão ─ Duas vezes, acredito que seja destino.

─ Mas, o que...Você...

Não dava pra acreditar. Era o rapaz da capa cor deBerinjela!

─ Sim, sou eu. – disse passando a mão em seus cabelos que chegavam aos ombros – E a senhorita me deve desculpas por mais cedo, não?

─ E-Eu...

Não consegui pronunciar nenhuma palavra . O que estava acontecendo comigo? Eu era a princesa! Como podia demonstrar fraqueza diante de um estranho.

Tinha que pedir desculpas de um modo digno.

─ S-Sinto muito senhor – inclinei a cabeça levemente – Apesar de ter tido meus motivos, fui muito desatenta. Por favor, aceite minhas desculpas.

Madame Miressa ficaria orgulhosa de me ver neste momento.

─ Aceito, mas tenho um pedido a fazer em troca disso.

─ Pedido? – respondi incrédula. Esse povo era mais ganancioso do que eu pensava ─ O que quer?

Estava preparada para ser grosseira, mas seu pedido era bem simples.

─ Uma dança? Por quê? – perguntei franzindo a testa.

─ É a primeira vez que visito a cidade. Então não conheço ninguém. – disse soando sincero em cada palavra ─ Seria muito bom participar dessa festa com alguém conhecido.

─ Você não me conhece, apenas esbarrou em mim. – retruco revirando os olhos.

─ Duas vezes – completou – Isso nos leva a um patamar maior do que estranhos não concorda?

O ar começava a ficar mais gelado.

─ Maior que estranhos, porém menor que conhecidos. – digo alisando os braços pra espantar o frio que veio com a escuridão.

─ Deixe-me resolver seu problema. – Ele retirou sua capa e a pôs sobre mim – Definitivamente somos conhecidos agora.

Ele aparentava estar se divertindo com a minha expressão de contrariada. Quem era ele?

─ Vamos dançar? – Perguntou estendendo a mão em minha direção.

A voz de Daniel ficava o tempo inteiro na minha cabeça dizendo Não. Mas que mal faria? Era só uma dança.

Ele me conduziu pra mais perto dos outros pares e começamos a dançar lentamente com a luz do luar sobre nós.

Surpreendentemente, ele dançava melhor do que eu esperava. Bem até demais

─ De onde você vem, tem algo parecido com isso? – pergunto após um rodopio.

─ Nada como dançar sob a lua, mas fazemos um baile branco.

─ Todos vão de branco ao baile?

Ele deu uma leve risada.

─ Não, apenas o nome se chama Branco. Quando se chega lá, tudo parece um arco-íris.

─ Deve ser maravilhoso – comento imaginando a decoração.

─ á primeira vista sim, mas depois acaba se tornando tedioso.

Sua condução era muito boa, já que ele evitou com que eu esbarrasse em várias pessoas à nossa volta.

─ É o que veio fazer aqui? – Indago tentando olhar em seus olhos. Eu tinha uma grande dificuldade de fazer isso com estranhos – Fugir do tédio?

─ Também – respondeu mostrando que não falaria nada, além daquilo – E você? É a segunda vez que te encontro sozinha por aqui. Qual é o seu mistério?

─ Deixa de ser mistério quando se fala – digo dando uma leve risada – E dessa vez não estou sozinha. Meu irmão mais velho veio comigo. Me perdi dele quando as luzes se apagaram, mas quando ela voltar, vou procurá-lo.

─ Suponho que ele não vai querer te ver perto de mim, certo?

─ Correto – confirmei balançando a cabeça – A não ser que queira se tornar conhecido dele também.

Ele gargalhou antes de falar novamente

─ Não.Não estou muito inclinado para arrumar encrenca hoje . Aposto que ele deve ser protetor.

─ Você não faz ideia do quanto.

A música estava quase no fim. Resolvi perguntar logo qual era seu nome. A curiosidade estava me matando.

─ Por quê?

Só havia um motivo.

─ Quando me lembrar de hoje, vou querer saber o nome do homem que dançou comigo – Falei abrindo um pequeno sorriso.

Não conseguia ver direito a expressão no rosto dele , mas parecia sério.

─ É Rael. E o seu?

Rael? Nunca tinha conhecido ninguém com esse nome.

─ É Anna. – E não era mentira, já que esse era meu segundo nome – O que vo...

A música parou do nada cortando a minha fala. Ranin me soltou devagar e se afastou enquanto as luzes foram acendidas.

Imediatamente consegui enxergar Daniel lá atrás de todo mundo que estava no calor do momento se abraçando ou beijando.

Olhei ao meu redor e Rael realmente tinha sumido. Assim como disse que faria. Não dava pra acreditar que ele pensou que Daniel iria arrumar confusão. Ele sempre foi tão pacifico.

─ Anna! – chamou quando estava mais perto ─ Temos que voltar imediatamente! Encontrei alguém pra nos levar até o palácio. Onde estava?

─ Me perdi quando ficou tudo escuro, mas estou bem.

Daniel me analisou de cima a baixo.

─ E essa capa? De onde veio?

É verdade. Rael não a pegou.

Analisei as pessoas ao meu redor e deduzi que se fosse muito importante pra ele, teria ficado e a pegado de volta.

─ Eu ganhei. – respondi dando de ombros

Ele resolveu parar de questionar e pegou minha mão para sairmos logo dali.