Notas iniciais
Boa leitura!

─ Era necessário – Disse o rei Alexander após eu ter perguntado sobre o repentino casamento de Anna – E depois que ela for, terei ao menos um pouco de paz.

Como ele podia dizer isso?

─ Mas ela é sua filha! – Cerrei meus punhos tentando ao máximo evitar a raiva em minha voz.

─ Eu sei – Respondeu se escorando na cadeira e largando as folhas que segurava – Mas essa guerra já vem durando tempo demais e Anna entende que seu casamento é essencial para nos unir e estabelecer uma paz duradoura com Eldora. E agora que eles resolveram oferecer um acordo mais vantajoso...

─ Mais vantajoso? Pensei que essa fosse a primeira vez que o rei William tinha oferecido uma trégua!

─ Acha mesmo que durante dezessete anos de guerra, nunca foi tentado um acordo? – o rei deu uma risada de deboche e logo em seguida murmurou — Você não sabe de nada garoto.

E assim ele encerrou a conversa para voltar sua atenção à papelada de sua mesa.

Saí do escritório com a sensação de ter perdido meu tempo. Como sempre. Desde pequeno o rei às vezes me chamava para falar de assuntos banais, como garotas, estudos e fofocas do palácio.

Era estranho. Porque o mesmo tempo que ele gastava comigo, poderia ser usado com sua filha. Só via conversas entre os dois, quando havia algo de muito importante a ser comunicado ou em sermões que ela recebia depois de aprontar.

A única coisa que me intrigou na conversa foram os acordos durante esses anos que foram refutados. Se houve chance de ter paz antes, porque não foi aproveitado? Tinha que deixar aquele assunto pra lá. Duvidava que o rei fosse mencionar aquilo novamente.

Agora precisava ver Anna e impedir que fizesse alguma coisa impensada.

Entrei em seu quarto esperando vê-la. Mexendo na estante de livros, escrevendo os textos que minha mãe mandou ou entediada estirada na cama.

Mas não. Não tinha ninguém ali.

Ela realmente saiu. Mesmo depois de me ouvir dizer para esperar. Não sei por que ainda fico surpreso, quando Anna põe algo na cabeça, é quase impossível tirar de lá.

Andei em círculos no chão forrado tentando achar uma maneira de ir atrás dela, sem fazer nenhum alarde. O pior de tudo é que eu mesmo não tinha permissão de sair por causa do cargo. Teria que ir do mesmo modo que ela. Pelo espelho.

Ele era grande e retângulo, quase maior que eu. Com bordas douradas que se mesclavam a desenhos minúsculos de flores em volta da parede.

Aquilo podia ser uma porta secreta. Era a única coisa que se parecia com uma porta. O problema mesmo, era como iria abri-la.

Passei os dedos na diagonal, nos pedaços dourados de concreto presos à sua volta, tentando achar qualquer botão para apertar ou puxar, mas nada aconteceu.

Quando encontrasse com ela... Não conseguiria dizer nem a metade das coisas grosseiras que estão passando em minha cabeça agora.

Me agachei no chão e vi vários grãos de areia que provavelmente saíram dali debaixo.

Pressionei e puxei qualquer coisa que pudesse me ajudar . Quase chutei aquele maldito espelho pra ver se adiantava.

Quando estava quase pensando em desistir, reparei na lareira à frente da cama e no lado esquerdo do espelho. Foi construído num formato retangular cheio de tijolos avermelhados.

Dentro dele, no seu centro, tinha um cubo de um vermelho mais escuro que visivelmente estava fora do lugar.

Encaixei a peça pra ficar em harmonia com os outros e escutei um click quase inaudível vindo da parede.

Não perdi tempo, fui até ele e puxei os detalhes dourados de concreto.

A porta finalmente abriu.

Dei o primeiro passo em direção à escuridão, mas de repente, soaram batidas na porta.

Quem seria? Torci para que não fosse minha mãe. Ela já tinha me repreendido um milhão de vezes sobre o quão impróprio era, estar sozinho no quarto de Anna. Acredito que isso é apenas por desconfiar de meus sentimentos pela princesa.

Frustrado, fechei a porta rapidamente pegando almofadas da poltrona ao lado da cama, para socar debaixo das cobertas e formar algo parecido com um corpo.

─ Estou entran... – avisou Liliana antes de entrar e me ver – do.

Estava sentado na ponta da cama sinalizando para Liliana fazer silêncio. Ela acenou positivamente com a cabeça e usando o dedo indicador, apontou para a saída me chamando para conversar.

─ Diga. – falei quando sai para o corredor.

Minhas mãos já estavam começando a suar.

­─ O que aconteceu? – perguntou cruzando os braços – Por que ela está dormindo tão cedo?

─ Bem... – Nunca fui bom em enganar ninguém e Liliana sabia disso. Era melhor tentar falar a verdade o máximo possível – Sabe o quão mal Anna ficou com o casamento. Ela anda desanimada.

─ Hoje mais cedo, parecia bem. – suspirou descansando as mãos no quadril – Mas pra falar a verdade, nunca a vi chorando ou triste pessoalmente. Talvez não goste que outras a vejam sofrer.

Liliana tinha razão. Até mesmo quando éramos crianças, ela se escondia porque achava vergonhoso. Depois da infância, só a vi chorar novamente quando escutamos a reunião de seu pai escondido.

Anna conseguia ser alguém acessível, porém só contava o que sentia a aqueles que tinham sua confiança. Será que ela achava que não seria uma boa ideia se abrir comigo?

Era melhor não pensar muito nisso.

─ Faria um favor pra mim Lily? – perguntei olhando nos seus olhos.

─ Se estiver ao meu alcance, sim.

─ Consegue deixá-la dormindo por algumas horas? – Era só o que eu precisava. De tempo. – Não deixe que ninguém atrapalhe seu sono.

─ Não é impossível – Concluiu – Mas se sua mãe vir, sabe que não poderei impedi-la.

─ Eu entendo — Ninguém consegue impedir minha mãe de fazer nada – Pode terminar suas tarefas primeiro que eu fico aqui por enquanto.

Ela torceu o nariz com desconfiança e tirou as mãos da cintura.

─ Está bem. – disse fazendo menção de sair – Não demoro.

─ Leve o tempo que precisar. – tinha certeza que minha voz havia saído meio esganiçada. Era tão óbvio que algo de errado estava acontecendo. Espero achar Anna antes que alguém descubra.

Retornei ao quarto após Liliana sumir no corredor e enfim entrei na escuridão para ir atrás dela.

Notas finais
Vou me esforçar pra ter capítulos longos, só vai demorar mais um pouco pra postar. Até a próxima!