Quando eu te Abraço
4 Após quatro meses de análise
Notas iniciais
Inacreditavelmente verdadeiro. A garota mais bonita do mundo, que causava engarrafamentos a cada passo, podia agora fundir-se na multidão como uma aluna qualquer da Oxford University, uma incógnita da fileira da frente, mal vestida, um rosto vazio passando de bicicleta pela Carnaby Street, jogando comida aos pombos do parque, quieta, desamparada. Um rosto desconhecido. Natural, de volta a fragilidade de minhas origens, ninguém poderia me reconhecer. Eu não tinha aparecido e este pequeno fato era o suficiente para tornar Holly real. Mas, se me debruçasse em frente ao espelho, veria o que não queria – tensão, resignação, morte.
Aos poucos, me dava conta de que era a única que possuía este poder: Dar vida a minha célebre substituta, Holiday Gosling. Despontar na rua, avaliando os olhares, para a grande decepção dos despreocupados. Escrever, sem estragar com palavras as entrelinhas. Distribuir sentimentos, mesmo àqueles que me tornava a mais vulnerável. Escapar do personagem e encontra-lo, vez ou outra, novamente.
Um vaso vazio que preferia estar cheio
Sombras de monstros naquele meio
Pois, então, haveria alguma coisa,
Ainda que fossem monstros pacíficos
Um final magnífico
Flores me acompanham, roxas, encarnadas
Que nada eram além de envenenadas.
Somente de nós fragmentos
Encontrariam fragmentos de outros
No mais, é tudo um bocejo solitário,
Ou o breu de um vazio armário.
Mas, amor, amor
Preciso de você
Mesmo que venha dessas flores malvadas
A maioria das palavras estava riscada. Uma escritora indecisa, mudando de ideia a todo segundo. Acima de tudo, irritada, assustada, apavorada. Uma escritora que rasteja para o guarda roupa, para os vestidos escuros, para as luvas sóbrias, enganchando o telefone no ouvido. Uma adolescente, uma menina, uma mulher. Ela não vê diferença no meio termo. As mãos, agarradas a caneta, flutuam livremente pelo papel, como pluma em um vendaval. As palavras salvam-na da vida, do cansaço e do descontentamento.
Abraço-me a lanterna e a pilha de livros. Ligações telefônicas são um absurdo em Londres, Inglaterra, onde a guerra e a escuridão consomem o Reino Unido e espalha-se com fervor. As ligações, assim como as andanças de táxi, haviam acabado. O que eu diria para a pessoa que cuspisse um alô, no meio da noite, pois é quando a chama acende-se em meu coração, como se fosse de propósito? O que perguntaria aos chofers, quando pusesse os pés para dentro de seus carros?
Além do mais, o cheiro de mofo, a escuridão densa, interrompida por um fio de luz exterior e pelo brilho da lanterna lembra-me das noites em Illéa, quando eu era menina demais para valoriza-las. Precisava apenas capturar alguns vaga-lumes e solta-los na escuridão, para que sua bolinha amarela iluminasse as trevas. Ler com Dale durante a madrugada, sem cessar. Austen, Shakespeare, Capote. Risadas e lágrimas, de romances melosos a livros de história. Absorvendo conhecimento o quanto pudéssemos.
Nunca me lembrava de como começara a escrever. Talvez porque aquilo era uma coisa forte demais para que eu pudesse apenas confinar-me – já era amor antes mesmo de ser. Viajar nas palavras como quem flutua em nuvens, caminhar nas entrelinhas e desvendar-me lentamente. Sempre prometera a mim mesma que se não fosse escritora, seria atriz. Qualquer coisa para que pudesse transmitir emoções para meus telespectadores e, pela primeira vez, ser outra pessoa.
Agora que eu o era, não poderia deixar o passado para trás.
O problema de dormir era este: Não mais me trazia sonhos. Uma nuvem grande e nítida de lembranças, como aquelas que eu observava correr no céu com vovó. Estão sempre a surgir, recordando-me de quem eu era.
Do mundo.
Da minha vida.
Quero acabar com a minha vida, mas não sei como. Há sempre meios, mas nenhum que seja bonito o suficiente, digno do acontecimento. Penso que nunca o encontrarei, pois a vida é uma ponte para a morte e eu nunca tinha visto uma ponte feia. Então, pergunto-me novamente, por que quero estar morta? Eu já não estou?
Estou quente e inchada. Acho que estou doente, mas nunca se sabe. Uma vez li que administrar bebidas alcoólicas e remédios tarja preta – principalmente aqueles comprados na alfandega, o que era meu caso – poderia deixar-me como um balão precisando de algo para apoiar-se.
Nada, nem os tornozelos inchados, nem a dor dilacerante que corta meu crânio ao meio, poderia comparar-se ás lembranças de que fugira – imagens, não só da vida pública, mas da privada, também. Imagens que tenho de negar, para que, quando acordar deste breve transe, eu possa prosseguir. Por um pé na frente do outro, fingindo repetidas vezes de que só há aquele momento, esta noite a ultrapassar.
Mas, as lembranças resistem à própria persistência. Ultrapassam barreiras e transbordam para fora.
Havia alguém, não havia? Havia um conto sem fadas inventado. Um alguém chamado Nathan Leger. Um alguém que eu chegara bem perto de amar.
Só quando ouço uma voz grave do outro lado da linha é que percebo o telefone enganchado em minha orelha.
– Para deixar um recado para Edward Schreave, aguarde o sinal.
Disse a secretária eletrônica e aguardei pacientemente, tentando não tremer sob o fone. Deixo a lanterna e tudo o mais que segurava-me de lado. Charlotte demorou dezoito anos para ser criada e, agora, justo agora, não tirarei sua máscara. Não decepcionarei ninguém mais.
– Meu querido irmãozinho! Adivinhe quem é. Bem, você não me atende, então eu espero que esteja com uma morena realmente maravilhosa. Agora você tem o meu número e bem que poderia me ligar, não é mesmo, seu babacão? Sinto saudade – sincera, sacudo-me de um lado para o outro, tentando apagar o medo, bolando uma nova história – Estou na França. Mando notícias para a mamãe se eu lembrar. Olhando areia branca e pensando em vocês. Não está decepcionado comigo, está? Me liga logo, por favor. Te amo muito, muito, muito.
Bati o fone e abracei as pernas novamente. Sozinha, sozinha, não importa o que aconteça. Sair, eu tenho que sair para a escuridão enervante, o sol da manhã nascendo em meio à neblina. Ou pelo menos tentando nascer pela neblina.
O sol sempre me fora uma ostra prateada inexistente desde a chegada a Inglaterra. Como se estivesse com preguiça de brilhar.
A noite desponta, mais escura do que clara. Tenho de ser silenciosa, pois mulheres são proibidas de sair à noite, mesmo que seja por dois míseros segundos. Espairecer, ser um fantasma. Há apenas oitos ao meu redor, mas eles são muito silenciosos. O medo é uma nuvem negra ao redor deles, insistente, pairando acima de suas cabeças. O único som é de passos ecoando. Os meus passos.
Fico à espera de ver o sol subir mais alto. Ver o mundo ganhar vida. Sentir-me encurralada, pois quero fugir mesmo quando não há para onde ir. Pois esse mundo não é o meu mundo – eu mesma o arranquei de mim. Entretanto, aquele não poderia ser o meu mundo, mas era o mundo que eu tinha escolhido, que eu requisitara e que agora eu amava.
Destino. Nunca acreditei nele. Talvez uma desculpa para esperar as coisas acontecerem. Mas, não sei, agora, sentir algo trombando em meu ombro, abraçar-me a ele, criança, adulto, adolescente, inalando o cheiro de uísque, escutar as batidas de um coração frenético. Como se... Como se tudo aquilo estivesse planejado, de alguma forma. Como se as cordas do meu caminho tivesse se embaralhado e cruzando-se, magicamente, com o caminho de outro.
– Ei, ei – diz, segurando o meu peso – A senhorita está bem?
Se você já leu muitos livros ou teve uma ou duas noites de insônia, seria fácil dizer algo realmente profundo sobre aquele momento. Um encontro de almas, mas não almas apaixonadas. Uma ideia inconsciente. Só isso para explicar a forma como enrolei seus braços ao redor do seu pescoço e a forma como ele se deixou abraçar. Uma menina triste e alta que não deixava de alertar-lhe sobre sua tendência para destruição.
– Tudo bem, tudo bem – ele sussurra em meu ouvido – Qual é seu nome?
Os sussurros são inaudíveis. Meus sussurros. Meus cacos de vidro que você tenta juntar em vão: Uns brilhantes, outros cinzas, alegres, perdidos, sem significado, tempo sem rumo. Vermelhos, brancos, entretanto, despedaçados. Nunca se encaixam.
– Holly... Como Holly Goligtly.
Ele quer alguma coisa. Ele está se deixando abraçar. Ele sabe quem eu sou e quer alguma coisa de mim.
– O que você quer de mim, Paul Varjak?* Um autógrafo, quem sabe? Ah, já sei, quer que eu bole... – me detenho – Só me abraça, tá?
Deixo-me abraçar. Eu não sabia, até aquele momento, que sofrer como sofrera pela minha liberdade fora um privilégio, para além da mágoa. Em Londres não há sentimentos, só os minutos a passar tentando manter as esperanças, um pé à frente e outro atrás, ás vezes alimentando cães abandonados. Esperança para que a guerra acabe – pois o Reino Unido havia declarado guerra há mais de quatro anos. Assim, não poderia sofrer por ninguém, pois estava ocupada demais tentando proteger o almoço privado de nutrientes, sofrendo por mim mesma. Tentando proteger-me. Senti-lo a me envolver, a acariciar-me o cabelo como quem afaga um gato. Um remédio afastador de preocupações.
De qualquer forma, nada, nem mesmo a ideia florescendo no cérebro poderia explicar o porquê de eu balbuciar meu endereço e deixar um estranho – que bem poderia ser um ladrão, devo acrescentar – levar-me para meu apartamento, semi-acordada, balbuciando de forma senil. Deixa-lo deitar-me delicadamente na cama dura, como a um filho, prender-me o cabelo de plástico, tirar-me os sapatos e observar, tremendo, o orifício rosa jogado a cama.
Eu não durmo. Adormecer parece errado, principalmente quando você tem medo de afundar.
Fale com o autor