Quando a mata cala
2 O sétimo
Quando Gabriel nasceu, a parteira perguntou quantos filhos a família já tinha.
— Seis meninas — respondeu a mãe.
A parteira olhou para o bebê.
Depois para ela.
Não disse nada.
Apenas apertou o menino contra o peito antes de entregá-lo.
A mãe percebeu.
— O que foi?
— Nada.
Mas a mulher fez o sinal da cruz.
Gabriel cresceu sem perceber que havia coisas que os adultos tinham medo de dizer em voz alta.
Foi o avô quem, sem querer, deu a ele a primeira pista.
Ele tinha nove anos e estava sentado na varanda, descascando uma laranja com uma faca pequena, quando perguntou por que a mãe nunca gostava que ele saísse na rua depois que escurecia.
O avô estava consertando uma sela.
Parou.
— Porque tua mãe é mãe.
— Mas minhas irmãs às vezes vão na vendinha.
— Suas irmãs são suas irmãs.
Gabriel esperou.
O avô continuou trabalhando.
— E eu?
A faca parou no meio da casca.
O velho ergueu os olhos.
Por um instante, Gabriel teve a impressão de que ele ia responder.
Em vez disso, disse:
— Você é o caçula.
— Eu sei.
— Então pronto.
Gabriel voltou para a laranja.
Só muito tempo depois que ele realmente entendeu o que o avô queria dizer.
Naquela noite, pouco depois da meia-noite, os cachorros começaram a latir.
Gabriel acordou.
Não foi um latido comum.
Era um alvoroço do lado de fora. Os cães corriam pelo quintal, arranhando a terra, chorando e latindo para alguma coisa que ele não conseguia ver.
Ele saiu da cama.
Abriu a janela.
O quintal estava vazio.
A lua iluminava o tanque, o galinheiro e a velha mangueira perto da cerca.
Então ouviu.
Um uivo.
Longe.
Gabriel sorriu.
Até ouvir outro.
Mais perto.
O sorriso desapareceu.
Ele fechou a janela.
Na manhã seguinte, encontrou uma das galinhas morta.
Não havia sangue.
Só o pescoço quebrado.
A mãe mandou as crianças não chegarem perto.
O pai enterrou a galinha.
E o avô não apareceu para o café.
Gabriel percebeu que aquilo era estranho.
Mais estranho ainda foi encontrar o avô, horas depois, sentado sozinho atrás da casa.
— Vô?
O velho não respondeu.
Gabriel se aproximou.
— Foi algum bicho?
— Foi.
— Cachorro?
O avô levantou os olhos.
— Não.
Gabriel esperou.
— Então o quê?
O velho olhou para a casa.
Depois para as irmãs de Gabriel, que brincavam no quintal.
Só então falou:
— Você sabe quantas irmãs tem?
Gabriel franziu a testa.
— Seis.
— E você?
— Eu?
O avô assentiu.
Como se aquilo explicasse tudo.
Gabriel riu.
— Sete.
O velho fechou os olhos. Foi a primeira vez que Gabriel percebeu que havia alguma coisa errada com ele.
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Aos quinze anos, começaram os sonhos.
Sempre o mesmo.
Gabriel estava correndo.
Nunca sabia de quem.
Nunca sabia para onde.
Apenas corria.
As pernas doíam. Os galhos arranhavam seu rosto. A terra molhada grudava nos pés.
E havia alguma coisa atrás dele.
Algo pesado.
Rápido.
Respirando.
Gabriel acordava sempre antes de descobrir o que era.
Na primeira vez, achou graça.
Na segunda, contou para a irmã mais velha.
— Não conte isso pra mamãe — Ela advertiu.
Na terceira, não contou para mais ninguém.
Porque, naquela manhã, acordou com terra debaixo das unhas.
E um corte no calcanhar.
Não era profundo.
Mas havia folhas presas na ferida.
Folhas que não existiam no quintal de casa.
Ele jogou fora.
Lavou o pé.
Não falou nada.
Naquela mesma semana, sua mãe começou a trancar a porta dos fundos antes de dormir.
Gabriel percebeu.
— Por quê?
— Porque sim.
— A gente nunca tranca.
— Agora tranca.
— Tem ladrão?
A mãe continuou dobrando roupas.
— Mãe.
— Gabriel.
Ele ficou quieto.
Ela levantou os olhos.
E foi aí que ele viu.
Medo.
Não preocupação.
Medo.
A mãe tinha medo dele.
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Quando completou dezoito anos, Gabriel foi embora.
Arrumou emprego numa cidade a quase duas horas dali e passou a voltar para casa somente aos domingos.
Foi fácil.
A distância resolvia muitas coisas.
Ou parecia resolver.
Até aquela sexta-feira.
Um problema no trabalho o obrigou a pegar a estrada de volta mais tarde do que costumava.
O motor morreu no meio do caminho.
Gabriel tentou ligar novamente.
Nada.
Olhou para o celular.
Sem sinal.
A estrada estava vazia.
Ele saiu do carro.
Abriu o capô.
Não fazia ideia do que estava procurando.
Foi quando ouviu o primeiro uivo.
Gabriel congelou.
Não era o mesmo som dos sonhos.
Era pior.
Porque ele conhecia aquele lugar.
Conhecia a mata dos dois lados da estrada.
Conhecia a distância até a casa mais próxima.
E sabia que não havia nenhum cachorro ali.
Outro uivo respondeu.
Dessa vez, do outro lado.
Gabriel fechou o capô.
Entrou no carro.
Trancou as portas.
Esperou.
Nada.
Então alguma coisa bateu no porta-malas.
Gabriel gritou.
Virou-se.
Nada.
Outra pancada.
Mais forte.
O carro balançou.
Ele ligou o motor.
Dessa vez, pegou.
Gabriel arrancou.
Não olhou para trás.
Só quando chegou em casa percebeu que estava chorando.
A mãe abriu a porta.
Viu o rosto dele.
Depois olhou para o carro.
— Você voltou pela estrada velha?
Gabriel ficou imóvel.
— Como você sabe?
A mãe empalideceu.
— Entra.
— Mãe.
— Entra, Gabriel.
— O que tem naquela estrada?
Ela fechou a porta atrás dele.
Passou a chave.
Depois conferiu a tranca.
E ainda colocou a corrente.
Gabriel olhou para ela.
— O que está acontecendo?
A mãe não respondeu.
— Mãe.
— Você não devia ter parado.
— Eu não tive escolha.
Ela fechou os olhos.
— Nunca pare naquela estrada numa sexta-feira.
Gabriel sentiu o estômago apertar.
— Por quê?
A mãe ficou em silêncio.
E Gabriel lembrou do avô.
Você sabe quantas irmãs tem?
— Eu sou o sétimo.
A mãe não respondeu.
— Eu sou o sétimo filho.
Ela começou a chorar.
Gabriel sentiu uma coisa fria atravessar o peito.
— Mãe?
— Seu pai queria contar.
— Contar o quê?
Ela passou a mão pelo rosto.
— Antes de você nascer.
— O quê?
— A gente tentou evitar.
Gabriel riu.
Um riso curto.
Nervoso.
— Evitar o quê?
A mãe olhou para ele.
— Você.
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Naquela noite, Gabriel não dormiu.
A mãe ficou no quarto ao lado.
Às três da manhã, ele ouviu a porta dos fundos abrir.
Levantou.
— Mãe?
Nenhuma resposta.
Desceu as escadas.
A porta estava aberta.
A cozinha vazia.
A mãe não estava em lugar nenhum.
Gabriel correu até o quintal.
— Mãe!
Nada.
Então viu o chão.
Pegadas.
Começavam na porta.
Seguiam pelo quintal.
Entravam na terra molhada.
Gabriel se aproximou.
E parou.
Não eram pegadas humanas.
Também não eram de cachorro.
Eram grandes demais.
Compridas demais.
Cinco dedos.
Garras.
Gabriel acompanhou a trilha com os olhos.
Ela terminava na cerca.
Do outro lado, a mata.
— Mãe?
Um galho estalou.
Gabriel recuou.
Outro.
Mais perto.
Ele entrou em casa e fechou a porta.
Passou a chave.
Empurrou uma cadeira contra ela.
O coração batia tão rápido que doía.
Então ouviu alguma coisa arranhar a madeira.
Uma vez.
Duas.
Três.
Gabriel ficou imóvel.
A mãe apareceu no corredor.
Descalça.
Pálida.
— Não abre.
— Mãe, o que é isso?
— Não abre.
— Onde você estava?
Ela não respondeu.
Gabriel olhou para os pés dela.
Estavam sujos de terra.
E havia sangue no calcanhar.
— Mãe...
Ela começou a chorar.
Então alguma coisa bateu contra a porta.
Os dois pularam.
Uma pancada.
Depois outra.
A madeira tremeu.
Gabriel segurou o braço da mãe.
— O que é isso?
Ela olhou para ele.
E disse:
— Não é isso.
Mais uma pancada.
— É você.
Gabriel soltou o braço dela.
— O quê?
A mãe apontou para o chão.
Gabriel olhou.
Havia sangue perto dos seus pés.
Ele não sentira nenhum ferimento.
Abaixou-se.
Passou os dedos pelo líquido.
Cheirou.
Ferro.
Sangue.
A porta tremeu novamente.
Gabriel olhou para a própria mão.
Então ouviu um rosnado.
Dentro da casa.
Atrás dele.
Muito perto.
Gabriel virou.
A mãe estava olhando para alguma coisa sobre seu ombro.
Mas não parecia assustada.
Parecia triste.
— Mãe?
Ela não respondeu.
Gabriel olhou para trás.
Não havia ninguém.
Quando voltou a olhar para a mãe, ela estava chorando.
— O que foi?
— Hoje é sexta-feira.
Gabriel sentiu o coração parar.
— E daí?
A mãe deu um passo para trás.
— Você sempre pergunta isso.
— O quê?
— Sempre.
Gabriel olhou para as próprias mãos.
Algo estava errado.
Os dedos pareciam compridos.
As unhas...
Ele piscou.
Normais.
— Mãe?
Ela recuou mais um passo.
— Eu sinto muito.
— Pelo quê?
Ela não respondeu.
Gabriel sentiu uma dor subir pelo braço.
Aguda.
Profunda.
Como se alguma coisa estivesse se movendo por baixo da pele.
Ele caiu de joelhos.
— Mãe!
Ela não veio.
A dor passou para o outro braço.
Depois para as pernas.
Gabriel gritou.
A mãe cobriu a boca.
E, por entre os dedos, sussurrou:
— Não deixa ele sair.
Gabriel parou.
— Quem?
A
mãe olhou para ele.
— Você.
Então os ossos começaram a estalar.
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Na manhã seguinte, Gabriel havia desaparecido.
A porta da frente estava aberta.
Havia marcas profundas no chão da cozinha e uma trilha de pegadas que seguia até a estrada.
A mãe não chamou ninguém.
Sentou-se à mesa e ficou olhando para as próprias mãos.
O telefone tocou.
Era a filha mais velha.
Quando ela atendeu, perguntou:
— Mãe? O que aconteceu?
Ela demorou a responder.
— Ele começou?
Do outro lado, silêncio.
— Mãe?
Ela fechou os olhos.
— Gabriel é o sétimo.
— Eu sei.
E foi aí que ela começou a chorar.
Porque todos sabiam.
Desde o dia em que ele nasceu.
Todos, menos Gabriel.
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