Quando a mata cala
3 Duas notas
André morava ali desde que se entendia por gente. Na verdade, a família dele estava naquela região havia mais tempo do que qualquer um conseguia lembrar. O avô dizia que o pai do pai dele já caçava naquela mata, e que antes dele havia sido o bisavô, e antes ainda outro homem cujo nome ninguém mais sabia. A casa tinha mudado de lugar algumas vezes, as paredes tinham sido refeitas, o telhado trocado, mas a mata continuava começando logo depois da cerca, exatamente como sempre estivera.
Caçar nunca tinha sido apenas um trabalho para os homens daquela família. Era o que eles sabiam fazer. Conheciam as trilhas, os riachos escondidos, os lugares onde os animais costumavam beber água e até os sons que não pertenciam à floresta. André aprendera tudo isso ainda menino, acompanhando o pai e os tios. Aprendera a andar sem quebrar galhos, a reconhecer pegadas na terra molhada e a saber, pelo silêncio repentino dos pássaros, quando havia alguma coisa por perto.
Também aprendera que a mata tinha suas regras. Não desperdiçar munição. Não matar por diversão. E, principalmente, nunca abandonar um animal que tivesse sido abatido. O avô era rigoroso com isso.
— Se matou, aproveita — dizia.
Quando André perguntava o que acontecia se não aproveitasse, o velho apenas respondia:
— A mata sabe.
André cresceu acreditando que se tratava apenas da superstição de um homem velho. Com o tempo, deixou de pensar no assunto.
Naquela tarde, as crianças brincavam no terreiro. André estava sentado na varanda, consertando uma ferramenta, e vez ou outra levantava os olhos para acompanhar a brincadeira dos filhos. As crianças corriam atrás da bola, disputando quem conseguia chutá-la mais longe, até que um dos chutes saiu forte demais. A bola passou por cima da cerca e caiu perto da entrada da mata.
Lucas foi o primeiro a correr atrás.
André ergueu os olhos.
— Não vai longe — gritou da varanda.
Lucas levantou a mão sem se virar.
— Eu sei!
Foi a última vez que o pai o viu.
Quando percebeu que já tinham passado quinze minutos, André chamou:
— Lucas!
Nada.
Chamou de novo.
— Lucas!
Dessa vez, ouviu alguma coisa. Um som abafado, distante, que poderia ter sido qualquer coisa.
André levantou da cadeira e atravessou o terreiro. A bola estava perto da cerca.
Lucas não.
— Lucas!
Nenhuma resposta.
André foi até a entrada da mata. O caminho continuava entre as árvores, estreito e coberto de folhas secas.
Ele não gostou do que viu.
Um chinelo.
Pequeno.
Azul.
Virado de lado no meio da trilha.
André parou.
— Lucas?
Pegou o celular, ligou e chamou uma vez. Duas. Três. Nada.
— Filho!
A mata permaneceu quieta.
André entrou. Só alguns metros, o suficiente para pegar o chinelo.
— Lucas!
Um galho estalou mais adiante.
André levantou a cabeça.
— Filho?
Nada.
Ele deu mais alguns passos e então ouviu uma coisa que o fez parar.
Um assobio.
Curto.
Duas notas.
André ficou imóvel.
Esperou.
O assobio veio novamente, mais longe.
Ele olhou para trás. A casa parecia muito mais distante do que deveria.
— Lucas?
Nada.
André voltou para o terreiro.
Às cinco e meia, já havia seis pessoas procurando. Às seis, havia nove. Às seis e vinte, alguém ligou para a polícia. Às sete, já estava escuro.
As lanternas cortavam a mata em todas as direções. Chamavam o nome de Lucas, uma vez depois da outra.
— Lucas!
— Lucas!
— Ô, Lucas!
Nada.
André não parava.
— Vou voltar lá.
Um dos homens que ajudavam nas buscas segurou seu braço.
— André, já está escuro.
— Meu filho está lá.
— A gente já procurou até onde dava.
— Então não procurou o suficiente.
— André...
André se soltou.
— Eu não vou ficar aqui esperando amanhecer enquanto meu filho está lá dentro no escuro.
O homem olhou para a mata e demorou um pouco antes de responder:
— Espera a polícia chegar.
André acompanhou o olhar dele.
— Você está com medo?
O homem não respondeu.
E André percebeu que não era medo de se perder.
Era medo de entrar.
— O que foi?
— Nada.
— Fala.
— Não é nada.
— Fala, Antônio.
O homem respirou fundo.
— Sua mãe nunca falou disso?
André franziu a testa.
— Do quê?
Antônio olhou para a mata.
— E dizia que, se a mata ficasse quieta, era para voltar.
André sentiu um arrepio subir pela nuca.
A mata sabe.
A voz do avô, vindo de algum lugar que ele não visitava havia anos.
Ele afastou o pensamento.
André soltou uma risada nervosa.
— Antônio, pelo amor de Deus, meu filho está lá dentro.
— Eu sei.
— Então me ajuda a procurar.
Antônio não respondeu.
André pegou uma lanterna.
— Eu vou buscar meu filho.
Às oito e quinze, André entrou na mata novamente.
Ele conhecia aquele trecho como conhecia as próprias mãos. Sabia onde as pacas bebiam água ao amanhecer, onde os catetos se enfiavam quando fugiam, onde os veados costumavam atravessar ao entardecer. Tinha andado ali sozinho, de noite, sem lanterna, dezenas de vezes — seguindo rastro de tatu, esperando cutia sair da toca.
A polícia tinha chegado. Tinham cães, lanternas mais fortes e gente suficiente. Mas havia uma área da mata onde os animais não queriam entrar. Um deles simplesmente travava. O outro começava a rosnar.
André não queria esperar.
Não podia.
A lanterna iluminava alguns metros à frente. Árvores, folhas, troncos, galhos. O caminho que durante o dia parecia curto agora parecia não acabar.
— Lucas!
Sua voz morreu entre as árvores.
— Lucas!
Ele continuou.
— Filho!
Nada.
André apertou a lanterna. O feixe tremia, não por causa da mão, mas por causa da respiração.
Passou por uma árvore caída, depois outra, até encontrar alguma coisa no chão.
Um carrinho de plástico estava alguns metros adiante. O brinquedo favorito de Lucas. Estava sempre em seu bolso. André se abaixou e o pegou. Estava coberto de barro. Ele fechou a mão em torno dele.
— Lucas...
Olhou ao redor.
— Filho?
Um som respondeu.
Um soluço.
André levantou a cabeça.
— Lucas?
Outro.
Mais adiante.
— Pai...
André congelou.
Era ele.
Era a voz do filho.
— Lucas!
Saiu correndo. As folhas batiam nas pernas, galhos arranhavam seus braços.
— Lucas!
A voz veio novamente.
— Pai!
André virou à esquerda.
A voz parecia ter vindo dali.
Correu.
— Filho!
Nada.
Parou.
O silêncio voltou.
André ficou ofegante.
— Lucas?
Nenhuma resposta.
Então percebeu.
Não havia mais grilos.
André olhou ao redor.
Nada.
Nem um inseto.
Nem um pássaro.
Nem o vento.
A floresta tinha parado.
Ele se lembrou de um aviso de Antônio.
Se a mata ficar quieta, volta.
André fechou os olhos, numa tentativa de espantar o pensamento.
— Filho, se você estiver aí, responde.
Silêncio.
Ele deu um passo para trás.
Depois outro.
Foi quando ouviu um assobio.
Duas notas.
Curto.
Atrás dele.
André se virou.
Nada.
O assobio veio novamente, dessa vez à esquerda.
Ele girou a lanterna.
Nada.
— Quem está aí?
Nenhuma resposta.
Então ouviu o assobio novamente.
Atrás dele.
Sem olhar para trás, André correu.
Encontrou o segundo chinelo quase meia hora depois. Estava no meio de uma clareira. André reconheceu imediatamente. Era o outro, o par do que havia encontrado na entrada.
Ele se abaixou e pegou.
— Lucas...
Então percebeu uma coisa.
O chão estava molhado. Tinha chovido naquela tarde. Havia marcas de pés por toda parte.
André viu as suas.
As pegadas de Lucas deveriam estar ali também, mas não estavam. Apenas as dele e outras que André não conseguia identificar a que animal pertenciam.
Ele aproximou a lanterna. As marcas tinham cinco dedos compridos, abertos no barro.
André ficou olhando.
Uma segunda marca estava ao lado.
Depois outra.
E outra.
André seguiu a trilha até uma clareira mais adiante. Atravessou alguns arbustos e viu uma criança sentada no chão, de costas. Pequena. Cabelo escuro. Camiseta vermelha.
André sentiu as pernas fraquejarem.
— Lucas.
A criança não respondeu.
André se aproximou devagar.
— Filho?
A criança baixou a cabeça.
André estendeu a mão.
— Sou eu.
O menino começou a chorar.
André sentiu o peito apertar.
— Filho, vem.
A criança virou um pouco o rosto.
— Pai...
André não pensou. Ajoelhou e o puxou para os braços. Lucas estava gelado. Gelado demais.
— Meu Deus.
André apertou o filho.
— Você está bem? Está machucado?
Lucas não respondeu.
— Lucas?
O menino segurou a camisa do pai com força.
André passou a mão pelo cabelo dele.
— Vamos para casa.
Lucas começou a tremer.
— Não.
— O quê?
— Não vai.
André afastou o rosto do filho.
— O que aconteceu?
Lucas olhou para ele, chorando.
— Pai...
— Eu estou aqui.
— Não vai.
— Está tudo bem.
— Não.
— Filho, a gente vai embora.
Lucas segurou o braço dele.
— Não vai.
André sentiu uma coisa estranha.
— Lucas, olha para mim.
O menino olhou.
— Onde você estava?
Lucas abriu a boca.
Parou.
Olhou para alguma coisa atrás do pai.
André acompanhou o olhar.
— O que foi?
Lucas começou a chorar mais forte.
— Pai.
— O quê?
— Não olha.
André ficou imóvel.
— Não olha o quê?
O menino apertou o braço dele.
— Não olha para trás.
André sentiu o sangue esfriar.
— Lucas...
Um galho estalou atrás dele.
André fechou os olhos por um instante.
Depois virou a cabeça.
A luz da lanterna atravessou as árvores.
Nada.
Nenhuma pessoa.
Nenhum animal.
Apenas troncos, folhas e escuro.
André soltou o ar.
— Não tem nada.
Lucas continuava olhando por cima do ombro dele.
— Tem.
— Não tem.
— Tem.
— Lucas.
— Ela está aqui.
André sentiu a boca secar.
— Quem?
Lucas não respondeu.
André segurou o rosto do filho.
— Quem está aqui?
Lucas olhou para ele.
— A mulher.
André olhou para a mata.
— Que mulher?
Lucas começou a chorar.
— A que mora aqui.
André pegou Lucas no colo.
— Vamos.
Dessa vez, o menino não discutiu.
André voltou pelo caminho que tinha feito.
Ou achava que tinha feito.
Depois de alguns minutos, percebeu que alguma coisa estava errada. A clareira deveria estar atrás deles. A estrada deveria estar à frente. Mas as árvores continuavam.
Ele andou mais rápido.
— Pai.
— O quê?
— Você está indo errado.
André parou.
— Como você sabe?
Lucas apontou.
— A gente passou por essa árvore.
André iluminou o tronco.
Havia uma marca na casca.
Três riscos verticais.
— Não passamos.
— Passamos.
— Lucas, eu sei o caminho.
O menino ficou quieto.
André continuou.
Mais alguns minutos.
Então viu os três riscos novamente.
Na mesma árvore.
Parou.
Olhou para trás.
Olhou para frente.
Ele nunca tinha se perdido naquela mata. Nem quando menino, nem à noite, nem nas piores chuvas de janeiro. Conhecia cada trilha de caça havia trinta anos.
— Não.
Lucas enterrou o rosto no pescoço do pai.
— Pai...
— Está tudo bem.
— Não está.
André apertou o menino.
— Eu vou tirar você daqui.
— Ela não quer.
— Quem?
Lucas não respondeu.
André começou a andar.
Mais rápido.
A mata parecia diferente agora. Os troncos eram mais grossos, o caminho mais estreito, as árvores se aproximavam umas das outras.
André chamou:
— Alguém!
Sua voz pareceu pequena.
— Tem alguém aí?
Nada.
Ele continuou.
Até ouvir passos.
André parou.
Um.
Dois.
Três.
Atrás deles.
Ele virou.
A lanterna iluminou o caminho vazio.
— Quem está aí?
Os passos pararam.
André continuou andando.
Os passos voltaram.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Sempre na mesma distância.
Lucas levantou a cabeça.
— Ela está seguindo.
— Não olha.
— Ela está seguindo.
— Lucas, não olha.
André apertou o passo.
Os passos também.
André começou a correr.
Os passos correram atrás.
— Pai!
— Segura!
Ele correu entre as árvores. Galhos batiam no rosto. Lucas gritava. André não sabia mais para onde estava indo.
Só sabia que precisava sair.
Até que viu uma luz.
Fraca.
Entre as árvores.
— A estrada!
Acelerou.
Saiu da mata e caiu de joelhos no acostamento. A lanterna rolou pela terra. Lucas caiu junto.
André o abraçou.
— Conseguimos.
Lucas não respondeu.
André começou a rir, um riso nervoso.
— Conseguimos, filho.
Então ouviu uma sirene.
Uma viatura estava parada alguns metros adiante.
Um policial saiu correndo.
— Senhor!
André levantou.
— Meu filho.
— Onde vocês estavam?
— Na mata.
O policial correu até eles.
— Ele está ferido?
— Não.
— Graças a Deus.
O policial se ajoelhou diante de Lucas.
— Qual seu nome, campeão?
Lucas não respondeu.
André passou a mão pelos cabelos dele.
— Lucas.
O policial sorriu.
— Lucas. Certo.
Ele olhou para André.
— A gente está procurando vocês há quase três horas.
André franziu a testa.
— Três?
— Sim.
— Eu fiquei quanto tempo lá dentro?
— Não sei. A equipe entrou depois das oito.
André olhou para o relógio.
E sentiu o estômago afundar.
Era quase meia-noite.
Ele olhou para a mata.
A entrada estava a menos de cem metros.
— Não pode ser.
— O quê?
André não respondeu.
Porque tinha passado horas andando.
Horas.
E, durante todo aquele tempo, nunca tinha visto a estrada.
Nunca tinha ouvido a polícia.
Nunca tinha ouvido os homens gritando seu nome.
Nada.
O policial colocou a mão em seu ombro.
— Vamos para casa.
André assentiu.
Deu dois passos.
Parou.
Olhou para o filho.
Lucas estava olhando para a mata.
Não para a entrada.
Para alguma coisa mais acima.
André seguiu seu olhar.
No alto de uma árvore, havia dois pontos claros.
Olhos.
Pequenos.
Muito distantes.
André piscou.
Sumiram.
— Lucas?
O menino olhou para ele.
— O quê?
— Você viu alguma coisa?
Lucas demorou.
Depois balançou a cabeça.
— Não.
André ficou olhando.
— Tem certeza?
Lucas segurou a mão do pai.
— Vamos embora.
—
Naquela noite, quase ninguém dormiu.
A casa ficou cheia. Policiais, vizinhos, parentes, gente falando baixo, gente perguntando o que havia acontecido. Lucas não contou nada. Nem sobre a mulher, nem sobre a voz, nem sobre os passos. Quando perguntavam, dizia apenas que tinha se perdido.
André também não contou.
Não sabia como.
Às três da manhã, finalmente, a casa ficou silenciosa. Patrícia dormia no sofá. Lucas estava no quarto. André estava sentado na cozinha quando ouviu um som.
Um assobio.
Duas notas.
Curto.
Ele levantou a cabeça e esperou.
Nada.
André ficou imóvel.
Então ouviu de novo.
Duas notas.
Vindo do quintal.
Ele se levantou e foi até a janela. Não abriu. Olhou pela fresta da cortina.
Nada.
A lua iluminava o terreiro, a cerca, a mangueira e a entrada da mata.
Então os grilos pararam.
André fechou os olhos.
Não.
Não podia ser.
Os cachorros começaram a rosnar.
Não para a mata.
Para a casa.
André se virou.
Um deles estava no corredor.
O animal olhava para a porta do quarto de Lucas.
Rosnava.
André sentiu o coração acelerar.
— Sai daqui.
O cachorro não se mexeu.
— Vai.
O animal continuou olhando para a porta.
Então Lucas chamou:
— Pai?
André correu.
Abriu a porta.
Lucas estava sentado na cama, de olhos abertos.
— O que foi?
O menino não respondeu.
André entrou.
— Você está bem?
Lucas olhou para a janela.
— Pai.
— O quê?
— Ela está brava.
André sentiu
o corpo inteiro gelar.
— Quem?
Lucas apontou para a janela.
— A mulher.
André caminhou até lá.
— Lucas, não tem ninguém.
— Tem.
— Não tem.
— Tem.
André abriu a cortina.
Nada.
Só o quintal.
Só a noite.
Ele abriu a janela.
O ar entrou, frio e úmido, com cheiro de terra.
André olhou para o chão.
E viu.
Pegadas.
Começavam na mata.
Atravessavam o quintal.
Passavam pela janela.
E terminavam exatamente embaixo da cama de Lucas.
André não respirou.
Lucas segurou sua mão.
— Pai?
André olhou para o filho.
— O quê?
— Ela me deixou ir.
André ficou imóvel.
— O que você disse?
Lucas olhou para a janela.
— Ela me deixou ir.
— Por quê?
O menino não respondeu.
André apertou a mão dele.
— Lucas.
O menino finalmente olhou para o pai.
E falou tão baixo que André quase não ouviu:
— Porque ela só queria você.
Então veio um assobio.
Duas notas.
Curto.
Muito perto.
E, dessa vez, veio de dentro do quarto.
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