Marina tinha sete anos e um truque contra o medo: contar até dez, bem devagar, do jeito que a mãe tinha ensinado. Funcionava para trovão. Funcionava para o vento forte batendo a persiana. Funcionava até para quando as luzes piscavam durante uma tempestade.


Nunca tinha falhado.


Então veio o arrastar.


Vinha de fora. Parava quando ela prendia a respiração. Voltava quando ela soltava o ar.


Começou baixinho. Foi crescendo, devagar, como se soubesse que ela estava ouvindo.


Ela contou até dez.


Não adiantou.


O arrastar parou bem debaixo da janela.


Depois, silêncio.


Um silêncio errado — do tipo que não acontece quando a noite está calma, mas quando alguma coisa resolveu ficar parada. Esperando.


Ela puxou o cobertor até o nariz e fechou os olhos com força.


Dorme.


A mamãe sempre dizia que a Cuca só levava quem estivesse acordado.


Então ela dormiu.


Ou fingiu.


Respirou devagar, como via o pai fazer na rede depois do almoço. Contou os segundos entre uma inspiração e outra. Não mexeu nem os dedos dos pés.


Lá fora, nenhuma folha balançava.


Nem o cachorro latia.


Nem os grilos cantavam.


Era como se a noite inteira tivesse prendido a respiração junto com ela.


Então veio o risco.


Um som seco. Fino. Como unha longa arranhando madeira seca.


Devagar.


Um risco único na janela.


Depois outro.


E outro.


Como se alguém estivesse contando.


Um.


Dois.


Três.


Ela esperou o quarto risco.


Ele nunca veio.


Em vez disso, ouviu um estalo. Bem embaixo da cama.


O coração bateu tão forte que ela teve certeza de que aquilo podia ouvir.


Outro risco. Mas agora não vinha da janela.


Vinha do assoalho. Debaixo dela.


Lento. Como se uma unha atravessasse cada tábua, procurando o lugar exato onde ela estava deitada.


Parou exatamente sob sua cabeça.


Ela quis gritar.


Não conseguiu.


Alguma coisa respirava ali.


Não era uma respiração humana.


Era úmida e pesada, com um cheiro doce demais — fruta passada, flores esquecidas ao sol.


A voz da mãe voltou à sua memória.


"Se ouvir a Cuca, não olhe."


Ela obedeceu.


Ficou imóvel.


Os olhos apertados.


As mãos tremendo debaixo do cobertor.


Então sentiu.


Um peso muito leve afundou o colchão.


Primeiro perto dos pés.


Depois dos joelhos.


Depois da barriga.


Como se alguém estivesse engatinhando sobre a cama.


Muito devagar.


Muito perto.


Até parar sobre seu rosto.


O quarto continuava em silêncio.


Mas ela sentiu a respiração.


Bem na frente da sua.


Quente.


Pacientemente esperando.



Esperando apenas que ela abrisse os olhos.


Então, bem no fundo da sua cabeça, uma voz:


Eu sei que você está fingindo.