Quando a Neve Derreter
2 Traição
Notas iniciais
Era de se esperar que um príncipe fosse receber aposentos mais dignos de sua alta posição durante seu cárcere.
— Não um traidor — disse seu pai friamente na única visita que lhe havia feito naqueles meses todos de julgamento.
Hans estava surpreso por não terem chegado a uma decisão mais cedo. Não havia muito que discutir, sabia bem que para o que havia feito não tinha conserto ou forma de redenção. Nas Ilhas do Sul, quem traía o reino — publicamente, pelo menos — não merecia mais respeito que um vil assassino. E considerando que seu plano também consistia no assassinato de uma rainha, não havia muito a seu favor.
O que quer que pudesse tê-lo poupado até aquele momento havia pelo jeito se esvaído. Poderia esperar por algo diferente? Desde o momento em que foi pego, tudo que conseguia pensar era: “Estou morto”.
Assim que chegou à sua terra natal, foi tratado como um verdadeiro prisioneiro. Nada de mesuras e “Vossa Alteza Real”, claro que não. Foi prontamente jogado na masmorra mais escura e fétida que havia. Logo no mesmo dia, três de seus irmãos foram vê-lo, aqueles que mais o repudiavam. Bom, o sentimento era recíproco.
— Ora, mas era só uma questão de tempo até que o nosso irmãozinho se afundasse sozinho, eu não lhes disse? — falou Josef, que era o primeiro na linha de sucessão do trono. Tinha os cabelos apenas um tom mais claro que os de Hans e os olhos da mesma cor.
Os outros dois riram. Ali sentado no chão, Hans sequer ergueu a cabeça, suas mãos ainda atadas atrás das costas.
— O que foi? Nada a dizer? — perguntou Peter, o terceiro filho, que parecia tanto com Hans quanto Josef. — Fale, verme!
O ar de repente faltou aos pulmões de Hans quando recebeu um chute forte no estômago. Ficou vários segundos incapaz de se mover, em agonia no piso de pedra. Porém, quando recobrou as forças, fez uma tentativa ainda que inútil de revidar, avançando na direção dos três. Eles recuaram, surpresos, mas logo estavam rindo do infeliz irmão, que fora impedido pela corrente que o ligava à parede.
— Dê-lhe mais um para que aprenda a lição — mandou Josef.
E Peter fez como foi pedido. Desta vez, não poupou nem um pouco na força e Hans sentiu que seu estômago sairia pela boca. Tossiu fracamente em reflexo.
— É uma pena que perderemos nosso passatempo favorito em breve — pronunciou-se pela primeira vez Albert, o quarto filho. Ao contrário dos outros naquela masmorra, ele era o único que possuía cabelos louros e olhos bem escuros. — Afinal, estamos certos de que já sabe o fim que essa sua pequena aventura em Arendelle vai render.
— Calem essas bocas! — vociferou Hans, ciente de que poderia levar outra surra. — Vocês não sabem de nada! Não são vocês que decidem!
— Pouco importa. Todos no reino o detestam. Estão bastante ansiosos para ver sua cabeça num espeto, maninho.
Hans engoliu em seco. Não era nenhum idiota, sabia que o que falavam era verdade, mas não podia perder as esperanças, ao menos, não na frente deles.
— Isso veremos — disse ele, em tom de desafio.
— Você é tão patético. Não é surpresa nenhuma que nem nossos pais o suportem.
Especialmente a mãe, pensou Hans. A Rainha das Ilhas do Sul sempre teve seus favoritos e ele nunca fora um deles. Aliás, muito pelo contrário. Desde que ele nascera, ela havia incorporado uma espécie de repulsa por ele. A verdade era que nunca tinha sido uma mãe muito exemplar, negligenciando a criação dos filhos para que outros tratassem disso. Mas com Hans era pior. Não que alguém realmente fosse se importar com o décimo terceiro garoto da família real.
— Ninguém se importa... — Agora, ele ria, já meio delirante. Estava havia muitos meses sem ver a luz do sol, considerando que aquela masmorra úmida, escura e fria passara a ser seu lar.
Já começava a duvidar de que um dia tivesse sido um príncipe e que já dormira em lençóis de seda. O pior de tudo não era sequer o estado em que se encontrava, mas sim que seus irmãos no fim estavam certos.
— Aqueles malditos... Eles irão pagar por isso...
“Mas será que um homem morto pode se vingar?” foi seu último pensamento, antes de adormecer perdido nas horas, sem saber se era tarde da noite ou meio-dia.
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Finalmente, já era possível ver o porto da cidade. Elsa estava muito aliviada, pois não via a hora de descer do barco — ainda que a razão de estar ali pouco a agradasse também. A viagem tinha sido bastante tranquila, os mares estavam calmos. Porém, Elsa não confiava muito em navios desde o trágico fim de seus pais, por isso, qualquer terra que fosse era mais que bem-vinda.
— Está bem, Vossa Majestade? — perguntou Georg, o capitão.
— Sim, estou sim. É que a viagem me deixou um pouco enjoada, só isso. — Ela se afastou da proa em que esteve debruçada observando a costa.
— Ainda temos alguns minutos antes de chegarmos. Se desejar, pode se deitar um pouco e descansar.
— Obrigada, Georg, mas acho que só vou ficar bem quando colocar os pés no cais.
Infelizmente, não foi exatamente o que aconteceu. Havia uma comitiva a aguardando no porto, que apesar de ser cortês, era ao mesmo tempo fria e... Estava ficando paranoica ou eles estavam a fitando de maneira estranha?
Quando chegou ao castelo, foi diretamente levada para seus aposentos. As cortinas estavam fechadas, não deixando a luz entrar. Elsa foi logo resolver aquilo, puxando as cortinas e procedendo para abrir as venezianas.
Meu Deus, aquele local era muito deprimente. É claro que devido à ocasião, ela não esperava um ambiente alegre, mas tinha a impressão de que a condenação do Príncipe Hans apenas contribuía para que o clima ficasse pior, mas que já o era havia muito tempo. Parecia que havia algo impregnado no ar e era quase sufocante.
Houve uma batida na porta e ela estranhou, visto que mal havia tido tempo de se trocar. Foi ver quem era.
Não sabia bem o que estava esperando quando abrisse, mas perdeu seu fôlego por um instante ao pensar estar se deparando com o próprio Hans.
“Não,” ela colocava os pensamentos em ordens, “este tem os cabelos mais escuros e é um pouco mais baixo”. Além disso, o rapaz à sua frente possuía um modesto cavanhaque e uma postura ligeiramente tímida.
— Se-Seja bem-vinda, Rainha Elsa. — Ele fez uma reverência um tanto desajeitada. — Sou o Príncipe Klaus. Er, sei que a introdução oficial só deveria acontecer durante o jantar desta noite, mas receio que não possa adiar o que vim aqui dizer.
Elsa piscou os olhos em leve espanto, talvez por causa da franqueza do jovem príncipe.
— Deseja entrar? — ofereceu, incerta do que Klaus poderia querer conversar com ela.
Ele assentiu, passando pela porta quando ela lhe deu licença. Havia uma pequena área de descanso em frente à lareira do quarto, onde se encontravam um pequeno sofá e um divã. O príncipe ocupou o sofá, enquanto que Elsa se acomodou no divã, levemente inclinada sobre uma almofada.
— Pelo jeito, lhe deram um dos melhores quartos — comentou ele, de repente usando cortesias.
— Sim, sei que ficarei bastante confortável — ela falou, ainda que não gostasse de nada naquela situação. Um bom quarto não era exatamente um consolo.
Klaus pigarreou, como se estivesse alinhando seu raciocínio para começar.
— Me perdoe por tanta ousadia, sei que o que estou prestes a dizer pode parecer um insulto, mas... Rainha Elsa, eu imploro para que não deixe que matem meu irmão.
— O quê? — ela pensou ter ouvido mal.
Ele massageou as têmporas, analisando uma maneira melhor de pedir aquilo.
— Tudo bem, acho que fui direto demais... Escute, sei que o que Hans fez a você e à sua irmã é imperdoável, mas acredite em mim quando digo que ele não merece o destino que vai ter.
— Realmente, ainda que eu não saiba se um dia seria capaz de perdoá-lo, jamais desejei sua morte, mas não acho que eu tenha muito poder sobre as decisões do seu reino, não é? Se o Príncipe Hans tivesse sido julgado no meu país, pode ser que a sentença tivesse sido outra, mas como não foi o caso, estou confusa sobre o que espera de mim. Como sabe, estou aqui como convidada apenas.
— Não compreende... Hans, ele... Veja bem, o meu irmão nunca foi muito bem tratado aqui no palácio. Sempre foi menosprezado... Sou provavelmente o único que tem consideração por ele. Talvez por eu ser o décimo segundo filho, entenda um pouco como se sente, mas sempre foi diferente com ele... No último verão, Hans foi bastante humilhado. Foi durante o baile de aniversário do Josef, o mais velho. Coincidentemente a data é também aniversário do Hans — porém, poucos parecem se lembrar disso. Mas é melhor eu não desviar do assunto... Josef e outros mais velhos disseram palavras cruéis a ele, deixando clara sua insignificância diante de todos os convidados e, consequentemente, do reino. Deve imaginar como o orgulho de Hans ficou ferido...
Elsa franzia a testa, ainda sem entender qual era o ponto daquela conversa.
— O pior é que ele não havia feito nada para receber os insultos, acho que a sua simples presença já os perturba. Meus pais, o rei e a rainha... É errado falar algo que deponha contra eles, mas seu silêncio e indiferença naquela hora foram quase tão terríveis quanto se tivessem dito aquelas coisas eles mesmos. Aquela foi a gota d’água para o Hans. Ele já havia tido que aguentar muita coisa e aquele foi o momento em que ele se cansou. “Eles vão ver...” ele ficava repetindo nos dias seguintes, “Vão ver do que sou capaz”. Eu temia que ele fizesse alguma idiotice, avisei diversas vezes para que ele pensasse bem antes de tomar uma decisão drástica. E, por um tempo, achei que ele tivesse me ouvido, estava estranhamente tranquilo... Então, sem comunicar ninguém, partiu para a sua coroação, rainha. Ali, eu tive certeza de que ele estava prestes a cometer um grande erro, mesmo não sabendo o que tinha em mente.
Elsa precisou de pelo menos um minuto para absorver todas as informações e processá-las. Por um lado, o relato de Klaus fazia o perfil de Hans ficar um pouco mais claro agora. Antes, Elsa pensava que Hans era apenas um manipulador, sedente de poder. O fato de ter tantos irmãos mais velhos não permitia que um dia pudesse se tornar rei e, por isso, precisou achar uma alternativa. Em sua maioria, aquilo continuava sendo a verdade, contudo, haviam surgido mais algumas razões para aquele estratagema perverso.
O peso da vergonha e da indignidade podiam ter sido fatores ainda maiores que a simples ambição. Elsa sempre se sentiu solitária graças aos seus poderes e parte dela sempre temeu ser rejeitada por causa deles. Na época, ela não via como alguém poderia vê-la como algo mais que uma abominação se descobrissem, além de ter medo de ferir alguém. Felizmente, todos a aceitaram bem no final e seus poderes estavam sob controle. Não podia sequer imaginar como se sentiria se Anna ou seus pais de fato se referissem a ela com repúdio, ainda mais se fosse durante sua vida inteira.
Não, aquilo tudo não era razão para perdoar Hans por seus crimes, mas fazia com que o julgamento nas Ilhas do Sul não parecesse muito justo. Aliás, Elsa nunca quis que Hans morresse, mesmo que este tivesse atentado contra sua vida. Imaginar que talvez algumas palavras impiedosas dos irmãos tivessem levado Hans àqueles atos e que, dentro de um dia, talvez aqueles mesmos irmãos estivessem se divertindo quando vissem o machado indo em direção ao pescoço de...
— Espere! — exclamou Elsa repentinamente. — Príncipe Klaus, será que pode me dizer, afinal, o que quer que eu faça? Por mais injusto que tudo seja, que seu irmão seja de alguma maneira uma vítima das circunstâncias, não possuo poder para impedir e você sabe.
— Isso não é verdade — disse Klaus, pela primeira vez com um tom de voz firme.
— O que quer dizer?
— Você poderia ajudar.
— Pois não faço a menor ideia de como.
Klaus inclinou-se para frente, apoiando-se nos joelhos.
— Pode levá-lo com você para Arendelle.
— Como é?! — Elsa mal acreditava naquele absurdo. —Está fora de questão!
O príncipe deu um suspiro exasperado.
— Ouça, ninguém nas Ilhas do Sul estará disposto a dar abrigo ao meu irmão. Eu sei disso, pois pensei em mil maneiras de fazê-lo fugir, mas o povo tem raiva dele e conhece bem seu rosto. Iriam entregá-lo em questão de semanas, se não dias, não importa seu esconderijo. Tenho alguns poucos homens de confiança que poderiam tirá-lo de sua prisão no meio da noite e transportá-lo para sua embarcação. Antes que alguém pudesse dar por sua falta ou pela dele, já estariam longe.
Elsa estava a ponto de rir. A ideia toda era uma grande fantasia, totalmente insana.
— Príncipe Klaus, acho que você perdeu o juízo por completo. Apesar de tudo que aconteceu a mim e meu reino, sinto muito pelo seu irmão. De verdade. Mas isso tudo é impensável. Vai ter que aceitar minhas desculpas e se conformar. — Ela se levantou do divã. — Não se preocupe, pois não comentarei nada sobre nossa conversa com ninguém, mas esse assunto deve ser esquecido, está bem? Agora, se não se importa, estou um pouco cansada da viagem e gostaria de descansar antes do jantar.
— Mas não vai nem pensar sobre isso? É a única chance dele!
— Como eu disse, é simplesmente impensável. — Elsa foi até Klaus e tocou levemente seu ombro para que ele se pusesse de pé.
— Por favor, ao menos reflita! — ele se ergueu ainda que relutante e começou a caminhar para a saída, devido à pressão do olhar da hóspede.
— Já disse, é melhor deixarmos as coisas como estão, por pior que sejam. Tinha intenção de reatar os negócios com as Ilhas do Sul ainda durante minha estadia e trair a confiança dos meus anfitriões não é a melhor maneira de conseguir isso.
Elsa abria a porta para que ele saísse, mas não foi o que Klaus fez. Ele empurrou a porta com violência de volta à posição de fechada, seus olhos castanhos encarando Elsa com fúria.
— Não haverá negociações com Arendelle! Tudo isso é uma armadilha!
Sobressaltada, Elsa se segurou no móvel mais próximo que encontrou. Congelou a cômoda acidentalmente devido ao susto, seu olhar encarando o rapaz o tempo todo.
— C-Como assim?
— É exatamente isso! Você é nossa refém! Eles estão usando essa execução como desculpa para poder manter você sob custódia. Iam obrigá-la a assinar algum tratado estúpido para ceder a coroa pelos meios que fossem necessários! Quem sabe, a obrigassem a usar seus poderes de uma maneira inapropriada... O caso é que há muito tempo que meu pai tem interesse em Arendelle, ou melhor, em expandir seu reino ao continente. Só estava esperando pela oportunidade perfeita.
— Não... Esse convite foi para reatar os laços entre nossos reinos, para colocar um ponto final nessa história...
— Com todo respeito, mas talvez seja mais ingênua do que pensa. Se achou que Hans era ruim, com quem pensa que ele aprendeu? Ninguém nesta corte vale um tostão, Rainha Elsa. As Ilhas do Sul se tornaram um verdadeiro ninho de víboras e Vossa Majestade quase virou a refeição principal.
Elsa sentia-se zonza. Andou lentamente até a cama e se sentou nela, uma forte dor de cabeça começando a atacar. “Isso não pode estar acontecendo... Não pode...” não conseguia crer que quase caíra numa emboscada.
— Príncipe Klaus... — ela chamou em voz fraca.
O rapaz, um pouco mais calmo, se aproximou de prontidão.
— Se isso que me contou é mesmo verdade... Se eu estava prestes a ser traída... Por que não deixou que as coisas seguissem seu rumo? Por que me alertou?
Ele ponderou por alguns instantes, mas acabou por dar de ombros.
— Não concordo com a forma que as coisas acontecem aqui, só que quase nunca tenho como impedir. Mas desta vez, eu tenho. Não sou como eles, e acredito que até mesmo Hans é melhor que isso. Além do mais, era única forma de ajudar meu irmão. Quer dizer, vai ajudá-lo, não é?
Elsa suspirou, sua cabeça latejando.
— Suponho que não tenha muita escolha. Depois do que me disse, tenho uma dívida com você.
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