Quando a Lua Mente
2 Parte II – O Engano de Grimmauld Place
O segundo dia amanheceu pesado, como se o ar carregasse o peso das paredes. A claridade não atravessava direito as cortinas de veludo; não que fosse alguma novidade, a casa parecia repelir a luz.
No corredor, o relógio de pêndulo marcava as horas com um som estridente, como se cada badalada ecoasse de dentro de um corpo.
Sirius tentava distrair-se limpando objetos antigos, mas a casa o vencia, ás vezes me perguntava se Mostro realmente limpava a casa. Cada cômodo escondia um passado, cada sombra guardava um nome.
Harry observava o padrinho de longe — a cada estalo do fogo, Sirius se sobressaltava, desde o desaparecimento de Arthur ele parecia ouvir coisas que os outros não ouviam.
Lupin permanecia em silêncio, olhando para o nada, o rosto tenso. As orelhas pálidas, os lábios secos.
Tonks o seguia com o olhar sempre que podia; uma mistura de amor e medo.
Havia algo diferente nele, como se a pele estivesse um tom mais acinzentado, os olhos mais afundados.
Harry não conseguia parar de reparar e isso o incomodava mais do que admitia.
À noite, a reunião começou.
Moody posicionou feitiços de segurança, murmurando palavras que pareciam mais antigas do que qualquer língua. O ar vibrou.
— Mais dois sumiram — disse ele, sem preâmbulo. — Dawlish e Emmeline. Ambos vistos pela última vez em suas casas. Nenhum sinal de luta. Nenhum rompimento de feitiços.
O silêncio que se seguiu não foi de choque, mas de confirmação.
Como se todos já esperassem, estavam sendo caçados.
Lupin falou, baixo:
— Talvez... não tenha sido ataque. Talvez tenham saído por conta própria.
Tonks o olhou, desconcertada.
— Está dizendo que desertaram?
Ele não respondeu de imediato. Um músculo na mandíbula se contraiu.
— Estou dizendo que há algo errando conosco — murmurou. — Dentro.
Moody bateu com a bengala no chão.
— E o que isso significa, Lupin?
Lupin ergueu os olhos. Por um instante, eles pareceram refletir a luz das velas de forma errada — um brilho dourado, quase animal.
— Você sabe o que significa, Alastor.
O silêncio posterior foi ainda mais pesado.
A chama das velas diminuiu, como se o ar da sala tivesse sido engolido por algo invisível.
Sirius respirou fundo.
— Estão todos cansados. A casa... mexe com a cabeça de qualquer um e os últimos dias não tem sido fáceis para ninguém.
Mas mesmo enquanto falava, o som das paredes estalando o fazia olhar por cima do ombro.
Naquela noite, a chuva caiu com força.
Harry acordou com o barulho, ou achou que fosse chuva.
O som parecia vir do teto, mas se movia, arranhando, como passos leves.
Ele se levantou, segurando a varinha e abriu a porta devagar. A porta do quarto de Sirius que ficava em frente estava aberta e ao se aproximar não encontrou ninguém, estava vazio.
O corredor estava mais escuro do que antes, as velas que estavam nos castiçais tremulavam quase se apagando, como se alguma coisa suprimisse as chamas conforme passava.
No final do corredor, a escada parecia levar ao abismo, mas mesmo assim lá embaixo ainda conseguiu ver... um vulto.
Alguém parado diante do retrato da Sra. Black, sussurrando.
Com o coração disparado Harry se aproximou devagar com a varinha levantada.
O vulto virou-se e um relâmpago iluminou uma parte da casa. Era Lupin.
O rosto meio iluminado, meio oculto — pálido, o olhar fixo, a respiração irregular.
Ele parecia falar com o retrato, ou não. Talvez murmurasse sozinho.
— Professor...? — disse Harry, hesitante.
Lupin piscou e pareceu acordar de um transe.
— Harry? Eu... — a voz dele falhou. — o que você está fazendo acordado?
O menino não respondeu. O ar entre eles parecia vibrar.
— Harry?
— Desculpe professor... pensei ter ouvido algo.
Lupin continuou com olhar fixo, mas a respiração parecia estar normalizando.
— Não deve ter sido nada Harry, volte a dormir, você precisa descansa.
Lupin se afastou, rápido demais sem esperar uma resposta, e desapareceu no corredor.
Harry ficou parado, observando o vazio onde o homem estivera.
Por um segundo, jurou ver a sombra dele se arrastando pelo chão, longa demais para ser humana.
O dia seguinte trouxe novas notícias.
Kingsley não havia retornado ao Ministério.
Nem um Patrono, nem uma mensagem. Nada.
Sirius estava impaciente, andando de um lado a outro.
Moody inspecionava a casa, conjurando feitiços de detecção.
Tonks chorava em silêncio.
Lupin sumira desde o amanhecer.
Harry se sentia cada vez mais isolado.
Aquela casa, que deveria ser refúgio, agora o fazia sentir-se vigiado, e parte dele sabia que não era apenas paranoia.
Às vezes, ao se olhar no espelho, ele via o reflexo se mover meio segundo depois.
Às vezes, ouvia um segundo coração batendo dentro do peito.
Na tarde seguinte, Lupin reapareceu.
A roupa estava suja, os sapatos molhados.
Sirius foi o primeiro a falar:
— Onde diabos você estava?
Lupin não respondeu. Sentou-se à mesa, as mãos trêmulas, os olhos vermelhos.
— Eu... não me lembro.
Moody franziu o cenho.
— Não se lembra?
— Só que saí para procurar Kingsley. — A voz dele era seca. — Depois... nada.
Sirius se aproximou, preocupado, mas algo no olhar de Lupin o fez parar.
Um brilho úmido, quase febril.
Tonks tocou o ombro dele.
— Remus, você está bem?
Ele olhou para ela — e por um instante, o olhar não era humano.
Tonks recuou, os lábios tremendo.
Ninguém disse nada.
O silencio parecia pesar como algo tangível.
Apenas o barulho do vento soprando pelas frestas da casa.
As escadas rangiam em compassos, como se alguém as subisse quando ninguém estava lá.
Mesmo estando rodeado de pessoas, Harry começou a tremer, não de frio, mas medo, a ansiedade começava a corroer sua sanidade e os ruídos atrás das paredes, vozes murmuradas das conversas só o faziam se sentir mais claustrofóbico.
Ao olhar para frente, viu-se refletido no espelho, mas não parecia ele.
Mas o mais perturbador era a voz que se parecia com a dele próprio, dizendo:
"Eu sei o que você é."
Harry começou a evitar o espelho.
Uma noite, acordou e viu Moody parado na porta, observando-o.
O olho mágico girava, mas o outro estava fixo, humano, cansado.
— Você está diferente, Potter — murmurou. — Desde o ataque.
Harry sentou-se na cama.
— Diferente como?
Moody o observou por um longo tempo antes de responder:
— Não sei, talvez o ataque tenha cobrado mais de você do que imagina.
Moody apenas se afastou como se não se importasse com a resposta.
O tempo perdeu sentido.
Dias e noites se confundiam.
A casa tinha um ritmo próprio, respirava, pulsava.
E, aos poucos, cada um deles começou a se afastar dos outros.
Sirius passava horas trancado no sótão, falando com o retrato da mãe.
Tonks dormia pouco, andando pela casa com a varinha acesa, murmurando feitiços de proteção.
Lupin desaparecia nas madrugadas, sempre com o mesmo olhar vazio ao voltar.
E Harry... Harry sentia fome. Uma vontade estranha, um impulso de correr, aquela casa estava acabando com ele.
Numa noite sem lua, ele acordou suando frio, o coração acelerado.
Estava parado no corredor vazio, não sabia como chegou ali. Parecia haver um som baixo, molhado.
Passos? Não.
Algo arrastando no chão.
Desceu devagar.
A luz das velas tremia.
A cozinha estava vazia, mas o chão...
O chão tinha marcas. Riscadas, fundas, como se algo tivesse rasgado a madeira.
E ao centro, algo escuro.
Sangue.
Sirius apareceu logo atrás, ofegante.
— Meu Deus... o que é isso?
Moody desceu em seguida, varinha em punho.
O silêncio foi cortado pelo som de uma porta batendo lá em cima.
Todos olharam ao mesmo tempo.
Tonks gritou o nome de Lupin.
Ninguém respondeu.
Sirius subiu primeiro.
No quarto de hóspedes, a janela estava aberta.
As cortinas tremulavam com o vento, e sobre o parapeito, havia marcas — impressões de mãos e algo mais.
Pelos.
Pelos cinzentos, longos, ainda úmidos.
Sirius fechou a janela, o rosto pálido.
— Ele se foi.
Moody murmurou um feitiço, mas o resultado foi apenas um eco — a casa respondeu com um som que parecia um rosnado.
Harry não dormiu naquela noite.
Deitado, observava o teto e sentia o ar vibrar, como se a casa o escutasse.
Lá fora, a chuva começava outra vez.
E, por um instante, entre o trovão e o silêncio, ele teve certeza de ouvir algo — uma respiração rouca, próxima, dentro do quarto.
Virou-se.
Nada.
Mas o cheiro...
O cheiro era de sangue.
Fale com o autor