Quando a Lua Mente

3 Parte III – Sob o Véu da Lua


A manhã chegou cinzenta, como se o céu carregasse o mesmo peso das almas dentro da casa.

Ninguém dormira direito.

O café frio permanecia intocado sobre a mesa, e o som da chuva lá fora parecia acompanhar o ritmo lento de corações cansados.

O silêncio foi quebrado por uma batida fraca na porta.

Três vezes, lentas, hesitantes.

Moody ergueu a varinha e se aproximou, os passos pesados ecoando pelo assoalho, o barulho da sua perna de madeira parecia estar ainda mais nítida. O feitiço de reconhecimento foi lançado, a energia brilhou e se apagou.

— São eles — disse, com a voz mais grave do que o habitual. — A família Weasley.

Quando a porta se abriu, o vento invadiu a casa junto com o cheiro de terra molhada e desespero.

Molly estava pálida, os cabelos desgrenhados, os olhos inchados de tanto chorar.

Fred e Jorge, tão acostumados a rir, pareciam esculpidos em pedra.

Gina vinha logo atrás, abraçando um pequeno embrulho de lã, o cachecol do pai.

Sirius foi o primeiro a se aproximar.

— Molly... — tentou dizer, mas a voz morreu.

Ela o abraçou sem dizer nada, o corpo inteiro tremendo.

Depois, ergueu o rosto e olhou ao redor, como se esperasse que Arthur surgisse de algum canto, atrasado, rindo de si mesmo.

— Ele... ele ainda pode estar vivo — disse, num fio de voz. — Os aurores ainda estão procurando. Alguém pode tê-lo escondido, ou... confundido.

Tonks tentou dizer algo, mas a própria voz falhou.

Lupin, parado perto da escada, evitava encará-la.

Os olhos dele, sombreados, não transmitiam conforto, apenas fadiga, isso era o máximo de emoção que demonstrou desde o ultimo episodio quando desapareceu.

Como sempre, voltou ao amanhecer. Desgrenhado e sujo, mas ainda afirmando que não se lembrava.

O silêncio que se seguiu foi insuportável.

Molly tremia, apertando o cachecol nas mãos.

— Arthur sempre me mandava um Patrono quando ficava até tarde. Sempre.

Ela virou-se para Moody.

— Diga que o Ministério está mentindo. Diga que vocês não estão mais vendo o que é real!

O velho auror não respondeu.

Apenas abaixou a cabeça.

Molly soluçou.

Sirius a amparou, mas ela o afastou.

— Não me toquem! — gritou. — Desde que pisei nesta casa, só sinto frio, medo e... e essa coisa!

Ela olhou em volta, as mãos trêmulas.

— Essa casa... está viva.

As palavras ecoaram com força.

E, pela primeira vez, ninguém discordou.

Os dias seguintes foram um borrão de espera e tensão.

A presença dos Weasley alterou o ar da casa — como se o luto tivesse se espalhado pelas paredes.

Fred e Jorge tentavam fingir normalidade, mas não conseguiam.

Gina chorava todas as noites, e Harry ouvia seu choro através da parede fina.

Lupin desaparecia com frequência.

Tonks quase não falava mais e sorria com menos frequencia.

Moody passava as madrugadas rondando os corredores, o olho mágico girando incessante.

Harry sentia o peso da casa aumentar.

Era como se, a cada dia, o ar ficasse mais denso, mais quente, mais difícil de respirar.

E à noite, ele sonhava.

Nos sonhos, via corredores intermináveis, paredes pulsando, o som de garras arranhando portas.

E, entre as sombras, sempre os mesmos olhos dourados.

O mesmo rosnado.

A mesma fome.

Na terceira noite desde a chegada dos Weasley, Molly acordou com um barulho.

Ela odiava aquela casa. Aquele cheiro de algo pútrido que parecia permear ar.

Algo caiu no andar de baixo, um som surdo, de madeira e metal.

Ela se levantou devagar, os pés descalços tocando o chão gelado.

O corredor estava escuro, o que enviava arrepios pela espinha.

As velas não haviam se apagado, mas pareciam moribundas o que aumentava a sensação de ter algo a espreita.

Moddy não parecia estar por perto, mas o barulho abafado continuava.

O som vinha da cozinha.

Ao chegar à escada, ouviu passos — arrastados, pesados.

Chamou o nome de Sirius, depois o de Lupin.

Ninguém respondeu.

O cheiro veio primeiro.

Um cheiro forte, metálico.

Sangue.

Com coração disparado, Molly desceu as escadas em um ritmo quase cambaleante e se aproximou da cozinha.

Depois, o som: um gotejar constante, ritmado, quase hipnótico.

Molly com o coração disparado, olhou pela porta.

— Arthur? — sussurrou.

Silêncio.

A luz do luar refletia o chão da cozinha. Estava molhado.

Não de água, parecia mais escuro.

Tentou se aproximar para ver melhor, mas no primeiro passo seu coração subiu a boca.

Havia alguém caído ali. Não alguém, mas o que já foi alguém.

Caído junto à mesa, despedaçado, o rosto irreconhecível, o sangue escorrendo em fios finos que desciam pela madeira e se juntavam em pequenas poças.

O cabelo ruivo era o único traço que restara para identificar quem era, mas ela reconheceria mesmo se não estivesse.

Molly caiu de joelhos, o desespero gelou seu sangue.

Por alguns instantes o ar pareceu ter sido roubado, até que como se uma represa estivesse estourado, ela gritou.

O grito que saiu dela não parecia humano.

— AAHHH!

— RONY!

O som ecoou pela casa inteira, fazendo as paredes tremerem.

Sirius e Moody foram os primeiros a chegar.

O velho auror empalideceu, sacando a varinha.

Tonks cobriu a boca, engasgando com a vontade de vomitar.

Gina surgiu logo atrás, e Fred e Jorge a seguraram antes que ela visse.

— Não deixem ela ver! — gritou Sirius, mas era tarde.

Gina viu.

O grito dela se misturou ao da mãe, um som agudo, desesperado, que se espalhou por cada cômodo.

Horas depois, a casa estava mergulhada num torpor.

Moody isolou a cozinha com feitiços, mas todos sabiam que isso não importava.

O mal não vinha de fora.

Vinha de dentro.

Lupin apareceu algum tempo depois, o rosto pálido, o olhar vazio.

— O que aconteceu? — perguntou.

Moody o encarou com desconfiança.

— Você não sabe?

— Eu estava no porão. — A voz dele era tensa. — Escutei gritos, depois silêncio.

Sirius o observou, imóvel.

— No porão? — repetiu, frio. — E o que fazia lá embaixo, Remus?

— Procurava rastros. Pensei que... — ele hesitou. — Pensei ter sentido cheiro de sangue.

Tonks recuou um passo.

— Remus... o que você está dizendo?

Ele levantou as mãos, desesperado.

— Eu não fiz isso!

Moody bateu a bengala no chão.

— Ninguém disse que fez. Mas alguém fez. E quem estava no porão?

O silêncio que se seguiu foi quase físico.

O olho mágico girava sem parar, o som irritante cortando o ar.

Harry observava tudo.

Sentia-se distante, entorpecido.

A imagem de Rony não saía da mente dele.

Mas havia algo mais.

Uma lembrança vaga de ter ouvido passos antes, de ter visto algo mover-se entre as sombras.

E uma sensação que o deixava aterrorizado:

Naquela noite, Molly não dormiu.

Ninguém dormiu.

O choro dela ecoava pelos corredores, às vezes interrompido por sussurros que pareciam vir das paredes.

Sirius trancou todas as portas.

Moody conjurou proteções adicionais.

Mas nada adiantava.

A casa continuava viva, pulsante.

Harry sentia como se o olhar de todos o seguisse.

Tonks o observava com medo.

Lupin, com culpa.

Sirius, com algo próximo de compaixão — mas também dúvida.

O ar estava pesado.

O cheiro de sangue ainda impregnava os cômodos, misturado ao mofo e à chuva.

Deitado, Harry fechou os olhos.

Mas não dormiu.

Não podia.

Em algum momento da madrugada, ele ouviu o som.

Baixo.

Familiar.

Um rosnado vindo de dentro das paredes.

A chama da vela oscilou.

Ele piscou.

Mas o eco do rosnado permaneceu.

E, ao fundo, o som do choro de Molly se misturava a ele, como se a casa chorasse junto.

Na manhã seguinte, ninguém falava.

Sirius e Moody começaram a discutir sobre o que fazer.

Tonks tremia, a varinha nas mãos.

Lupin mantinha a cabeça baixa, o corpo curvado, como se lutasse contra algo dentro de si.

Molly, encolhida no sofá, não chorava mais.

Os olhos dela estavam secos, mas fixos, vazios.

— Foi essa casa... — murmurou. — Essa maldita casa.

Gina, com a voz quase inaudível, sussurrou:

— E se não for a casa?

Ninguém respondeu.

O relógio de pêndulo soou.

Uma, duas, três vezes.

E, entre os ecos, todos ouviram um som diferente — um bater irregular vindo do porão.

Um som de passos.

De alguém — ou algo — que subia as escadas.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.