Quando a Lua Mente

1 Parte I – Sombras da Ordem


A noite se estendia como uma ferida aberta sobre o céu de Little Whinging.

Os postes pareciam mais distantes do que o habitual — suas luzes, frágeis e trêmulas, mal tocavam o asfalto encharcado. O vento cortava as esquinas como um animal ferido, arranhando as janelas e arrancando gemidos metálicos das calhas.

Harry esperava. Não apenas pelos bruxos — esperava algo que ele não sabia nomear.

O calor sufocante do verão dera lugar a uma umidade doentia, um mormaço que trazia o cheiro de terra revirada e ferrugem. Ele sentia o ar pesado em cada respiração. Desde o ataque dos dementadores, algo dentro dele não se encaixava. Era como se a realidade tivesse uma rachadura, uma linha tênue por onde a sanidade escorria aos poucos.

O som veio primeiro: o farfalhar breve de capas no ar, seguido de um sussurro que cortou o vento. Então, os vultos surgiram entre as nuvens, deslizando como corvos sobre a cidade adormecida.

Os membros da Ordem da Fênix chegaram.

Um após o outro, surgiram no beco — Tonks, Moody, Lupin, Kingsley e os outros. O rosto de Moody parecia ainda mais cicatrizado à luz pálida do luar, o olho mágico girando em nervosismo contido.

Tonks tropeçou como sempre, qualquer um podia ouvi-la praguejando baixo, mas logo Lupin a ajudou com uma gentileza cansada. O sorriso dele não alcançava os olhos.

— Tudo pronto, Potter? — a voz rouca de Moody cortou o silêncio.

Harry assentiu, tentando não demonstrar o tremor nas mãos. Havia algo diferente naquela noite, talvez um reflexo do encontro com os dementadores ou essa sensação de secura que sentia na garganta desde o ocorrido. O grupo, normalmente composto e seguro, parecia tenso — como se todos pressentissem um mal que ainda não tinha nome.

Até o ar parecia hesitar.

Eles partiram.

O voo foi silencioso, um corte negro cruzando os céus de Londres. A cidade abaixo dormia ignorante enquanto o vento carregava o gosto metálico da chuva e da fuligem de Londres. Harry sentia o peito apertado; o frio não vinha apenas da altitude. Ele pensou ter ouvido algo — um som grave, rouco, que parecia sair de dentro das nuvens. Quando olhou para Lupin ao lado, ele apenas disse:

— Deve ter sido o vento.

Ninguém mais pareceu notar algo.

A casa da rua Grimmauld Place apareceu como um tumor entre as residências, fazendo jus a reputação dos Black: silenciosa, úmida, como se tivesse sugado toda a cor das casas vizinhas.

O número 12 deslizou para fora das sombras, e Harry sentiu o peso familiar e nauseante da magia antiga — o feitiço de Fidelidade ainda estava intacto, mas a atmosfera parecia... errada.

Tonks franziu o cenho ao entrar. O ar ali dentro tinha cheiro de mofo. Os quadros dormiam sob lençóis poeirentos, e os olhos de criaturas empalhadas pareciam segui-los do alto das prateleiras.

— Está mais frio do que da última vez — murmurou Lupin.

Ninguém respondeu.

Harry atravessou o corredor e sentiu a textura pegajosa do ar — como se algo invisível o observasse de perto, com a respiração presa entre as cortinas. O retrato da Sra. Black despertou, gritando impropérios, mas mesmo ela parecia mais rouca, mais fraca, como se o tempo tivesse se alimentado da própria fúria.

No salão principal, encontraram Sirius.

O padrinho parecia exausto, as olheiras marcando um rosto que perdera o brilho rebelde de outrora.

Ele abraçou Harry com força, mas o toque estava frio.

— Finalmente, garoto... — a voz dele falhou. — Já estava ficando louco esperando.

O jantar foi silencioso.

A mesa longa e escura refletia a luz das velas em chamas trêmulas. Moody comia em silêncio, o olho mágico girando lentamente, como se medisse o peso das sombras ou por algum defeito de fabricação. Tonks tentava parecer animada, mas naquela casa o riso dela soava forçado, como vidro prestes a quebrar.

Harry observava tudo. Sentia algo se movendo nas entrelinhas — olhares rápidos, pausas longas, a respiração contida de Lupin quando alguém mencionava “ataques recentes”. Havia notícias sussurradas sobre aurores desaparecidos, mas ninguém ousava comentar.

Mais tarde, quando todos se recolheram, o silêncio da casa era quase sólido.

Harry não conseguia dormir.

O som dos passos de Lupin ecoava no andar de baixo — cadenciado, metódico, como um vigia que teme o que guarda. Sirius, deitado no quarto ao lado, falava sozinho, murmurando nomes do passado, como se tentasse lembrar quem ainda estava vivo.

Perto da meia-noite, algo quebrou o ritmo do silêncio: um arranhar leve vindo do porão.

Harry se ergueu, o coração acelerando. O som parecia vir de dentro das paredes — como unhas raspando a pedra.

Ele pensou em acordar alguém, mas a vergonha e a curiosidade o seguraram, afinal a casa era velha e podia ser só o rangido da madeira.

Desceu.

O corredor era como uma caverna escura.

Cada degrau gemia como se protestasse. No porão, o ar era úmido, cheirava a vinho velho e a algo...

Harry apontou a varinha.

— Lumos.

A luz se espalhou, revelando apenas caixas e poeira.

Mas então ele viu: um rastro fino de sangue seco, quase negro, riscando o chão até a porta dos fundos.

O coração dele bateu tão alto que o som pareceu preencher o porão inteiro.

Antes que pudesse reagir, Lupin apareceu atrás dele, silencioso demais.

— Harry... — disse suavemente, com a voz baixa demais para ser natural. — Não devia estar aqui a essa hora.

O olhar do homem parecia estar distante, frio, como se parte dele estivesse em outro lugar.

Harry tentou explicar o que ouvira, mas Lupin apenas pôs a mão no ombro dele — um gesto que deveria ser protetor, mas naquele momento parecia conter algo de possessivo, quase faminto.

— A casa tem seus sons — disse ele, com um meio sorriso. — Às vezes, os vivos se confundem com os ecos.

Por um segundo, ele achou ter visto o reflexo de olhos amarelados piscando no escuro atrás do professor.

Na manhã seguinte, ninguém comentou o ocorrido, como se nada tivesse acontecido.

Tonks olhava para Lupin que estava ainda mais pálido, com uma preocupação que beirava o medo. Moody falava menos que o habitual.

Sirius tentava agir como anfitrião, mas os sorrisos dele eram cada vez mais vazios.

Durante o café, uma carta chegou.

A coruja pousou sobre a mesa, as asas tremendo.

Moody pegou o envelope, cheirou o papel, e seu rosto endureceu.

— Arthur não apareceu — disse, seco. — Desapareceu ontem à noite, depois de sair do Ministério.

Silêncio.

Tonks deixou cair a colher. Lupin ficou imóvel, os olhos perdidos.

Sirius levantou-se devagar, o rosto tenso.

— Desapareceu? — repetiu, com a voz falha. — Como...?

— Nenhum sinal de luta. Nenhum vestígio. — Moody olhou em volta. — E o mais estranho... o feitiço de escudo que ele usava não foi rompido.

O relógio do corredor marcou as horas com um som oco.

Harry sentiu o estômago virar.

O mesmo frio de antes voltou, rastejando sob a pele.

A noite caiu novamente.

E com ela, o ar dentro da casa pareceu se mover — como se as paredes respirassem, inchando e contraindo em sincronia com algo invisível.

Harry tentou ignorar, mas quando olhou pela janela, jurou ter visto uma silhueta parada no jardim: imóvel, voltada diretamente para ele com olhos amarelos.

Piscar de olhos.

Sumiu.

Mas a sensação permaneceu.

Aquela certeza insuportável de que, dentro ou fora da casa, alguém os observava.

E que algo muito antigo — e muito faminto — já estava entre eles.