Quando Voltar a Te Ver

7 Quarta-Feira Trágica


Tento escrever o que é te amar,

mas amor não cabe em papel.

É maior que o oceano

e mais estranho que o céu.

Kuchiki Rukia

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— Alô?

— Alô? É Kuchiki Rukia?

— Sim. Quem tá falando?

— É o Ukitake. Liguei pra te parabenizar!

— Pelo quê?

— Você foi selecionada para a competição de literatura. Parabéns!

— Sério? Obrigada, sensei!

— Ah! Eu não deveria dizer isso agora, mas acho que você será Julieta.

— Aaah! Professor, não me diga isso! E quem vai ser Romeu?

— Ainda não descobri, mas os nomes vão ser postos no mural da escola sexta-feira. Se eu descobrir até lá, te conto. Antes que eu me esqueça: o voo dos novatos deve chegar às nove. É melhor você e Hitsugaya-kun irem logo para o aeroporto.

— Ok! Já estou de saída. Ele já deve estar me esperando.

— Tudo bem. Até logo!

— Até!

Tinha acordado bem cedo, então caminhei lentamente até o ponto de encontro. Iríamos com Rangiku até próximo da escola; dali partiríamos para o aeroporto, onde encontraríamos os dois novatos, Sado Yasutora e Narutaki Ichirou. Espero que ele seja tão engraçado quanto o nome.

— Kia-chan, parabéns pelo papel principal! Sabia que você seria Julieta desde o começo!

Fui surpreendida por um abraço de urso da Rangiku.

— Peraí… como você…? Ah! Esquece.

Nosso assunto foi exclusivamente a peça e os novatos. Rangiku estava completamente ansiosa pela chegada deles; ela sabia que iam ficar na nossa sala.

Nem perguntei como descobriu. Vocês sabem, ela está por dentro de quase tudo — mas, quando digo “quase”, é porque não é que ela não saiba; é que ela esquece.

Normalmente, está por dentro de tudo mesmo.

Despedimo-nos dela e fomos para o aeroporto. Devo admitir que já estava ansiosa também. Como seriam? Bonitinhos? Charmosos? Ou incrivelmente sexys? Eram coisas que não saíam da minha cabeça.

Queria que isso acabasse logo; eu já estava ficando perturbada.

Chegamos ao aeroporto às 8h59 e ficamos esperando o desembarque. Seria fácil achá-los, porque já viriam fardados para fazer as apresentações. Nem nós, nem eles iríamos estudar hoje — essa talvez tenha sido a melhor parte do dia até agora.

Depois de mais ou menos meia hora, encontramos um deles parado próximo à recepção, esperando. Ele era moreno, bem alto, tinha um cabelo grande que cobria parte dos olhos. Apesar da farda, dava para ver que era bem musculoso, tanto que você via cada músculo por cima da roupa. Tinha uma expressão bem séria.

— Olá! Sou Hitsugaya Toushirou e esta é Kuchiki Rukia. Viemos buscá-lo e seremos os responsáveis por mostrá-los à escola.

— Prazer. Sou Sado… Yasutora. — É, deu para ver que ele não é muito de conversa.

— Onde está o Narutaki? — perguntei.

— Narutaki?

— Sim! Narutaki Ichirou! O garoto que devia vir com você.

— Ah! Saiu. Conhecer o lugar.

Agora deu certo: logo aquele a quem eu deveria apresentar a escola decidiu sair sem a gente. Tô feita mesmo.

Fomos com Yasutora-san até a escola. Lá, me separei deles e fui procurar pelo novato fugitivo. Combinamos de ir para a sala só quando nos reuníssemos os quatro.

Como vinha acontecendo ultimamente, toda vez que eu estava sozinha me sentia vazia. Mas não deixei a tristeza me dominar.

Procurei até cansar. Então decidi ir para a margem do rio, para pensar, como de costume.

Vi alguém lá, olhando o horizonte. Roupas cinza, listradas — era o uniforme da nossa escola — com a diferença de que havia um chapéu na cabeça do rapaz. Aproximei-me. Ele era bem alto, muito alto, 1,80 talvez?

Estava pensativo; mesmo de costas dava para perceber.

Eu tinha certeza agora de que ele nunca tinha ido à nossa escola.

— Você deve ser o novato fugitivo — falei, fazendo ele se virar.

Fiquei boquiaberta. Aposto que engoli um bocado de inseto. Era o rosto mais lindo que eu já vi — ainda mais realçado pela luz do sol.

Estava meio escondido pelo chapéu, mas isso só deixa ele mais lindo.

De início, ele mostrou uma cara furiosa, mas depois suavizou e lançou um sorriso de derrubar as estrelas em noite de lua cheia, e cegar o cego mais próximo de tão brilhante. Nunca vi alguém soltar facilmente esse tipo de sorriso.

Ele transmitiu um conforto incrível em mim.

Me fez sentir livre e sem tristeza.

Senti algo que há muito tempo não sentia.

Quase o abracei e beijei ali mesmo, mas me segurei.

Não quis parecer oferecida.

— Eu não sabia que quem viria me receber seria uma criança. Pensei que a escola fosse de ensino médio — falou, comparando nossos tamanhos.

Novamente senti algo que há muito não sentia: a vontade de chutar alguém até matar. Respirei fundo e controlei a ira.

Eu deveria mostrar cortesia ao novato, pelo menos por hoje.

— Me desculpe, ô-san, por desapontá-lo, mas vim buscá-lo para o asilo.

No instante, tirei o lindo sorriso da cara dele; ficou bem carrancudo agora.

Decidi observá-lo mais um pouco. Não deveria ter feito.

O chapéu era preto, com o símbolo da Nike no sombreiro e um “15” bordado à mão na cabeceira. O rosto — já falei — era angelical, mesmo com esse olhar de quem comeu comida azeda no café.

O corpo era bem definido. Percebi o abdômen tanquinho, o peitoral, o bíceps bem desenhado. Não grande como aqueles caras que fazem academia, mas bem distribuído e trabalhado, como se fosse riscado a lápis… me deixando quente.

Me pergunta como eu sei como era o corpo dele?

Simples. Quando o chamei de velhote, ele me puxou para si pelo braço, encostando todo o corpo no meu. E, quando eu digo “todo o corpo”, entenda como todo o corpo mesmo.

Fiquei sem fôlego. Eu o encarei.

Foi difícil não ceder para aqueles olhos castanhos que me olhavam com tanta intensidade e firmeza que faziam meu corpo tremer de dentro para fora.

Eu estava completamente pronta para avançar.

Queria abraçá-lo, beijá-lo até perder o fôlego.

Eu não me entendia.

Tinha acabado de conhecê-lo e ele estava me deixando louca.

Comecei a ter pensamentos do tipo: “me beija logo, droga!”, e outros que nem ouso repetir em voz alta. Meu corpo começou a suar e meu coração acelerou.

Mas eu não podia ceder assim tão fácil ao desejo.

Afinal, eu não guardei meu primeiro beijo até agora para perdê-lo com alguém que eu nem conheço, só porque tá me deixando perdida.

Decidi acabar com isso de uma vez. Encostei-me mais nele.

Senti mais daquele corpo delicioso que fazia o meu tremer.

Eu iria parar com essa aproximação, mesmo que não quisesse.

Ergui o rosto para mais perto do dele.

Senti sua respiração e, quando eu já estava no meu limite…

— Olha aqui, Narutaki… — ele se distanciou de mim de uma forma brusca.

Parecia estar em choque, como se tivesse caído na real de alguma coisa.

Ele olhou para mim, surpreso.

— Narutaki?

— Que foi? Por acaso não é o seu nome? Narutaki Ichirou?

— Olha, esquece isso, tá bom? Vamo pra escola, que é melhor. Mas antes eu quero ir a um lugar. Vai ter problema?

— Nenhum, desde que a gente chegue ainda de manhã lá…

Fomos até o parque de Karakura. Parecia até que ele conhecia a cidade.

Não pediu em nenhum momento orientação.

Sentou no balanço e ficou meio pensativo, tristonho, como se algo que deveria estar ali não estivesse.

Sentei no outro balanço e o observei por instantes. Queria saber o que se passava, mas não queria deixá-lo incomodado. Então decidi perguntar.

— Algum problema?

— Nada demais.

— Não se preocupe, ok? Pode me dizer.

— Não é da tua conta, entendeu?

Ele me olhou meio surpreso pelo que falou, como se não quisesse ter dito aquilo. Levantou-se do balanço, olhou para mim desanimado e saiu.

Deixei o tempo passar e então o segui. Eu estava preocupada.

Não entendia por quê… mas também entendia que ele tinha razão: não é da minha conta o problema dele. Eu fui uma metida.

O silêncio entre nós era bem pesado.

Quando chegamos próximo à escola, Narutaki parou novamente. Dessa vez, na beira do rio, onde o encontrei da última vez. Ele se virou para mim e olhou tristonho…

— Olha… eu não queria ter gritado…

— Não se preocupe. Eu fui metida mesmo.

— Mas…

— Olha, esse é o seu problema. Eu não tenho o direito de saber. Eu não tenho um método de entrar no fundo do seu coração sem que ele seja sujo. Então esperarei. Quando você quiser conversar, quando você achar que está bem para conversar… fale comigo, ok?

Ele soltou um pequeno sorriso, triste.

— Obrigado. Não será como antes, mas… obrigado.

— Como assim “como antes”?

— Não é nada. É só que ela não está mais aqui…

— Quem?

— Minha melhor amiga… As coisas realmente mudam em dois anos.

Depois dessa conversa estranha, finalmente fomos para a escola. Ele não parecia animado.

Parecia mais que iria explodir de nervosismo. Estava com as sobrancelhas enrugadas, fazendo uma cara de rabugento.

Nem parecia o dono daquele sorriso divino que quase me fez esquecer quem eu sou.

Nos encontramos com Hitsugaya-kun e Yasutora-kun e fomos para a diretoria. Lá, fomos mandados para o clube de natação. Os novatos ficaram na sala.

— Toushi-kun, Rukia-chan, e aí… como eles são? — fomos recebidos por uma Momo e uma Rangiku super animadas.

Puxei as duas para o canto e contei como os dois eram. Descrevi cada detalhe e como o Narutaki era irritante — mas parecia confiável.

— Ei! Parece que alguém tem um novo amor, hein?

— Corta essa, Rangiku. Não tô gostando dele.

— Pois não é o que parece, Rukia-chan.

— Até você, Momo?

— Vamos, Kia-chan, fala vai… você ficou a fim, não foi? Eu sei que ele parece ser do seu tipo.

— Não, não é. Você sabe que eu gosto de garotos que transmitam confiança, sejam leais, companheiros e fortes.

— Sério, Rukia? Você não pensou nada dele? Não parece…

— Tá bom, tá bom. Eu achei ele bonitinho, ok? Nada mais…

Meu irmão chegou, mostrando aquela cara de quem chupou manga e não gostou.

Era melhor que ninguém fizesse nada, ou ficaria de detenção.

Ultimamente ele tem mostrado muita emoção — até demais. Acho que está ficando doente.

Todo mundo o seguiu atentamente com os olhos e esperou ele falar…

— Muito bem. Como dito, hoje chegam dois novos alunos que servirão a esse esquadrão. Podem vir.

Yasutora e Narutaki entraram para se apresentar. Olhei imediatamente para Narutaki. Ele estava de calção de banho e com a toalha na cabeça, cobrindo o rosto. O corpo brilhava no sol e eu fiquei hipnotizada com ele.

Aquele corpo definido que me enlouqueceu horas atrás estava me deixando novamente lasciva.

Aposto que eu estava comendo inseto de novo, já que só me liguei depois de Rangiku me beliscar e cochichar no meu ouvido: “tá afinzona dele”, e eu responder: “não tô!”.

Meu irmão mandou eles se apresentarem. Yasutora fez da mesma forma que fez com a gente: disse seu nome, falou “prazer” e se calou. Mas eu me senti muito ansiosa para ouvir Narutaki se apresentar.

Eu me perguntava se ele ia soltar aquele sorriso de novo, ou se eu seria a única.

Ele olhou para a turma.

Respirou fundo.

Meu irmão olhou muito irritado para ele e o fez retirar a toalha da cabeça…

— Muito prazer. Acabo de chegar do Brasil. Meu nome é Kurosaki Ichigo.