Quando Voltar a Te Ver

8 Ficção e Realidade


Quero te ver novamente

No teu olhar mergulhar

Sentir teu sorriso ardente

Em tua voz me abrigar

— Kuchiki Rukia

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Yasutora fez do mesmo jeito que fez com a gente: disse o nome, soltou um “prazer” e se calou. Mas eu estava ansiosa para ouvir Narutaki. Eu me perguntava se ele ia sorrir de novo, ou se eu tinha sido a única a ver aquele sorriso.

Ele olhou para a turma, respirou fundo… e meu irmão, visivelmente irritado, mandou ele tirar a toalha da cabeça.

— Muito prazer; acabo de chegar do Brasil. Meu nome é Kurosaki Ichigo.

Eu abri os olhos.

Eu estava olhando para o teto do meu quarto.

Fiquei confusa. Parecia tão real que, por alguns segundos, eu ainda não conseguia aceitar que estava dormindo. Mas era óbvio: não tem como o Ukitake-sensei errar um nome daquele jeito. A diferença entre Kurosaki e Narutaki é enorme. Nem a Orihime cometeria esse tipo de erro.

Além do mais, desde quando Kuchiki Rukia, uma nobre donzela como eu, seria tão atrevida e indecente?

Só de pensar naquelas cenas meu rosto já queima!

Estou andando com Rangiku demais.

Depois disso, não preciso nem dizer: não dormi mais.

Saí mais cedo do que o normal. Decidi passear pela vizinhança. Dobrei a esquina e vi alguém bem familiar limpando a frente da antiga casa do Ichigo, que até ontem estava deserta.

— Olá! Karin-chan. Não sabia que você morava por aqui.

— Ah! Rukia-chan! Na verdade eu não morava aqui. Me mudei naquele dia que te conheci. Meu irmão chega hoje de viagem, e nós viemos pra essa cidade morar com ele. A gente morava em Tóquio antes.

Meu coração deu um pulo.

— Seu irmão chega hoje? Não deixe de me apresentar.

— Por que você não vem conosco buscá-lo?

— Não dá. Hoje eu vou ter que buscar uns alunos novatos no aeroporto e levá-los à escola. Vou ter que ir ao colégio e sair de lá.

— Entendo… tudo bem então. Espero que a gente se encontre no aeroporto.

Conversei um bom tempo com Karin-chan. Depois fui à escola. De lá, Ukitake-sensei iria nos levar ao aeroporto.

No caminho, fiquei pensando nesse sonho ridículo… e em como eu tinha me sentido atraída por aquela criatura.

Me encontrei com Tatsuki e Orihime no caminho. Conversamos — claro — sobre garotos e sobre como a Orihime era popular.

— Para, Tats! Não é assim. Eu nunca fui tão popular com garotos…

— Deixa de modéstia, Hime. Esses peitos sempre chamaram atenção… — Tatsuki disse, sem cerimônia.

Era verdade. Concordei em silêncio. Todo mundo admirava as curvas dela… até o—

— Até o Ichigo gostava de você! — Tatsuki completou. — Deixa de humildade. Você sabe que ele nunca deu bola pra nenhuma garota que dava em cima dele.

Também era verdade. Aquele idiota nunca teve jeito pra romance… mas nunca deixou de ser popular.

— Não! Tenho certeza que ele não…

— Nem vem! Se ele até se confessou!

Eu travei.

— Peraí. Como é que é? O Ichigo se confessou?

E eu não soube disso? Pensei que fôssemos melhores amigos! Que desgraçado!

— Você não sabia, Rukia? — Orihime perguntou.

Neguei com muita força. Aquele morango estragado não tinha me dito nada.

— Antes dele partir, ele nos chamou no hospital pra se despedir. Depois disso, chamou a Hime em particular e se confessou. Disse até que não partiria se ela sentisse o mesmo.

— E você o rejeitou, Orihime?

— Sim… Eu disse que não sentia o mesmo, que não estava preparada pra namorar… e que ele gostava de outra…

A notícia me chocou bastante. Mas, logo, me recompus. Afinal, já tinham se passado dois anos sem vê-lo e, além disso… esses detalhes já não me importavam mais um puto.

Sinceramente, parecia até que eu ainda estava sonhando.

Partimos com Ukitake-sensei para o aeroporto às 9:00. Os novatos chegariam às 10:00.

Esperamos só dez minutos até um deles aparecer. Era moreno e usava uma camiseta que deixava os braços musculosos à mostra. No braço esquerdo havia uma tatuagem: um coração com asas e a palavra “amor” dentro… ou pelo menos acho que era isso. Ele tinha cabelos pretos, quase cobrindo os olhos, e era tão alto que, mesmo de longe, eu tinha que olhar pra cima pra tentar ver o rosto.

Chegamos até ele. Era ainda mais alto do que parecia. E tinha um jeito quieto, fechado.

Nos apresentamos. Ele não mudou a expressão. Só disse:

— Sado… Yasutora… Prazer.

Hitsugaya-san franziu a testa.

— Onde está o outro aluno?

— … família… — ele respondeu.

Certo. Deu pra entender. Mas bem que ele podia ter explicado melhor, né?

Voltamos pra escola. Quando chegamos, quase trombei com Kaien-san.

Ele me segurou pela cintura e sorriu. Seu sorriso me arrepiou até os pés.

Eu fiquei vermelha, mas me recuperei rápido. Depois de nos cumprimentarmos, recebi a bomba:

— Kuchiki-san. Você deve ir à sala do diretor. Yamamoto-sensei quer falar com você.

Cheguei na sala do diretor e lá estava meu irmão. Ele não parecia nada feliz.

Bem… ele nunca parece.

Mas agora ficou bem pior.

Cumprimentei formalmente os dois e esperei a próxima pancada.

— Kuchiki Rukia — Yamamoto-sensei começou. — Nós estamos procurando um tenente para o time de natação. Você já teve contato com os dois novatos. Acha que algum deles serve?

Não falei? Eu tinha virado a assistente do velho.

— Desculpe, sensei. Nós só conhecemos um. O outro está passeando pela cidade. E não dá pra saber se ele serve ou não… Ele não é do tipo que fala muito. Quer dizer: ele mal fala.

Fiquei uns vinte minutos dando relatório. Sinceramente, eles deviam ter chamado Hitsugaya. Yasutora e ele estavam se dando bem.

Quando finalmente deu hora do almoço, fui me encontrar com Rangiku e Momo. Elas estavam com Orihime, Tatsuki, Hitsugaya e o novato em nossa posse.

Discutiam um boato esquisito: diziam que Kaien-san tinha pintado o cabelo. Achei estranho. Quando eu trombei com ele, mais cedo, o cabelo estava escuro — lindo e surpreendente como sempre. E com certeza ele continuava na escola. Não teria dado tempo de mudar.

— A propósito, Yasutora-kun — Rangiku perguntou, mudando o assunto do nada — como é o outro transferido… o Narutaki-san?

Yasutora piscou, como se estivesse lembrando de algo importante.

— Narutaki? … Ah! Não… nome errado.

Ok. Entendi. Nome errado. Ótimo. Então não era só coisa do meu sonho.

Depois do almoço, caminhamos pela escola com Yasutora-san. Mostramos as salas, a sala de teatro (não entendo como alguém que mal fala decidiu entrar pro grupo), o laboratório de economia doméstica já reformado depois da explosão… e, por último, o estádio das piscinas.

Ele ficou impressionado com o tamanho do lugar. Na verdade, acho que qualquer um ficaria: são cinco piscinas, tamanho olímpico, dois vestiários, um masculino e um feminino, cada um com 30 banheiros individuais.

Como estávamos só nós, mostramos os dois vestiários. O masculino parecia ter sido usado recentemente, mas quem estava lá tinha saído, então sem problemas.

O grupo continuou a apresentação da escola pro novo aluno.

Eu fui procurar Kyouraku-sensei pra saber quando saíam os resultados do teste para Romeu e Julieta — o feminino foi ontem.

No meio do caminho, fiquei imaginando Kaien-san de cabelo pintado. Eu não achava que uma cor diferente da natural o deixaria melhor… mas é o Kaien-san. Ficaria bonito de todo jeito.

E não me entendam errado: eu sei que ele tem namorada. Mas eu fui apaixonada por ele por mais de quatro anos.

Não se esquece de um amor assim tão fácil. Então é normal que eu ainda sinta algo… mesmo que pouco, né?

Eu estava tão perdida nesses pensamentos que nem percebi alguém vindo em alta velocidade em minha direção — com uma toalha na cabeça.

A trombada foi grande.

Ele era alto. Eu não sou.

Ele vinha rápido, o imbecil.

É claro que eu fui lançada pra longe… ou deveria ter sido.

Ele foi rápido: na queda, girou o corpo e puxou o meu.

O resultado? Eu caí em cima dele.

No susto, eu não tinha percebido nada. Mas, pouco a pouco, fui recuperando os sentidos… e sentindo o corpo dele.

Ele era tão alto que meu corpo inteiro ficou sobre o dele.

Senti o abdômen subir e descer com a respiração acelerada.

O coração batia forte, descompassado: um doki doki intenso, num ritmo alucinante.

Minha mão estava no peitoral dele. Mesmo por cima da camisa, dava pra sentir que era desenhado.

Fiquei imóvel.

Ele também.

O aroma era irresistível. Cítrico.

Me deu uma sensação boa… e um conforto surpreendente.

Como se não fosse a primeira vez que a gente ficava assim.

A fragrância misturada ao sabonete deixou meus sentidos embaralhados.

Eu me recompus e pus os pés no chão, sentando sobre o corpo dele, passando a mão pelo tórax até ficar totalmente sentada.

— Você tá bem? — ele perguntou.

A voz era grave. E bonita. Tinha uma gentileza difícil de encontrar hoje em dia.

— Sim. Por pouco não me machuquei. Vê se presta atenção por onde anda. — Eu até que gostei disso… mas ele trombou em mim, né? Não posso deixar barato. — Por acaso é cego?

Eu ainda não tinha saído de cima dele. E, sinceramente, nem queria.

— Me desculpe. Não queria te machucar — ele disse. — Mas você também não estava prestando atenção por onde andava. Então não ponha toda a culpa em mim.

Peraí.

Eu ouvi direito?

— Quer dizer que eu tenho culpa? Você é idiota? Eu não tava correndo pelo corredor da escola com uma toalha na cabeça feito um imbecil!

— Escuta aqui—

Dessa vez ele começou a levantar e, por causa disso, eu fui escorregando pelo corpo dele.

Ele sentou. Nossos corpos se encostaram de novo. Ficamos tão próximos que eu senti a respiração dele no meu rosto.

O hálito cheirava a morango com menta. Uma combinação incrivelmente deliciosa.

Por causa do movimento eu acabei sentada em seu colo.

Vi a única parte do seu rosto sem toalha ficando vermelha.

Eu me levantei rápido.

Ele também.

— Nem vem que não tem. A culpa é minha… mas não toda minha.

Eu sabia que ele tinha razão. Mas nem por isso eu ia admitir. E agora que eu já tinha saído de cima dele, a discussão era questão de honra.

— OLHA, SEU TRASTE! QUE TIPO DE HOMEM É VOCÊ QUE NÃO ASSUME TODA A CULPA DE UMA TROMBADA COM UMA GAROTA? DÁ PRA SER MAIS RIDÍCULO QUE ISSO?

— GAROTA? SÉRIO? TÔ FALANDO COM UMA GAROTA? EU JURAVA QUE ERA UMA MENINA DO PRIMÁRIO! NÃO CONSIGO VER UMA GAROTA NESSA BAIXINHA MÁ DESENVOLVIDA!

— SE NÃO CONSEGUE VER É PORQUE TÁ COM ESSA ESTÚPIDA TOALHA NA CABEÇA, SEU DESGRAÇA—

Eu puxei a toalha.

E então eu vi.

O rosto era familiar demais.

Familiar como só o rosto de um ex-melhor amigo pode ser.

Não era à toa que estavam dizendo que Kaien-san tinha pintado o cabelo.

Ele também não me reconheceu de imediato — porque parecia tão surpreso quanto eu.

A toalha caiu como se estivesse em câmera lenta.

Cinco anos atrás, minha vida mudou quando eu o conheci.

Dois anos atrás, meu mundo desmoronou quando esse traste viajou sem deixar informação.

E agora… mais uma vez, meu mundo era alterado.

Abalado.

Pela aparição dele diante dos meus olhos.

Por quê?

Por que, quando eu consigo esquecer — quando eu consigo me acostumar com a saudade — você volta?

Me responda…

Kurosaki Ichigo.