Diário de Rorschach. 27 de setembro de 1985. Era cedo e eu não consigo me lembrar que horas eram, o sol era muito fraco. Nós fomos acordados pelo barulho de algo se quebrando, o som vinha da sala, corremos para lá o mais rápido possível temendo ser um criminoso armado, mas quando chegamos lá não havia ninguém e o som que escutamos havia sido do vaso de flores que ficava em uma mesinha ao lado da poltrona em que Nina discutiu comigo na noite passada. Nina já ia voltando para cama para aproveitar os minutos de cochilo que ainda lhe restavam, eu também ia se não fosse pelo Rorschach. Lá no canto da porta de entrada estava a bolsa dela, — da minha mulher... — e a porta com sinais de arrombamento. Fui conferir mais de perto. Nunca mexi nas coisas dela então não poderia saber se faltava algo.

— Nina vem aqui, por favor.

Nina resmungou algo e venho até mim. Ela parou ao meu lado e passou a mão em meus cabelos abaixando-a até minha nuca e me causando aquele arrepio bom que só ela tem o poder de fazer.

— Do que se trata?

— Sua bolsa não estava aqui, estava?

— No. Ela estava na poltrona.

— Alguém entrou aqui e mexeu na sua bolsa preciso que a examine e me diga o que esta faltando.

Suas sobrancelhas franzidas assim que abre a bolsa mostra que sabe bem o que esta faltando.

— Os documentos que peguei, sumiram.

— Deus Nina. Eles sabem que você esta os investigando? Se sabem disso quer dizer que sabem sobre seus encontros com Rorschach, inclusive o que pediu.

— É.

— Você não vai voltar lá.

— Vou sí y quero ver quem vai me impedir.

— Eu! Você não pode voltar lá depois de terem invadido a sua casa e revirado sua bolsa.

— E o que quer que yo faça?!
— Que se afaste!

Quando Nina trincou o maxilar eu percebi que aquela discussão estava encerrada e o vencedor era ela.

—Voy tomar un banho e me arrumar para o trabalho. Estão tentando destruir o mundo y no voy deixar que façam isso.

Ela fez exatamente o que disse que ia fazer.

Nina estava prestes a sair, já na porta, mas voltou e me deu um beijo longo e intenso como se fosse o último.

E foi.

23h00min. Novamente atrasada. A história se repete e eu estou novamente sentado no sofá esperando ela chegar só que desta vez ela não vem.