Quando Nossos Caminhos se Cruzaram
7 Palavras que Machucam
Notas iniciais
Ruan On
Se passaram alguns dias desde aquele primeiro reencontro com Suellen. E, embora nossos olhares ainda se cruzassem ocasionalmente pelos corredores, poucas palavras foram trocadas entre nós. A distância entre nós parecia ser o único elo comum que permanecia. Eu me sentia estranho, como se estivesse prestes a dizer algo, mas sempre faltasse coragem. Ou talvez fosse o tempo, que insistia em separar o que estava prestes a se conectar.
Hoje, porém, algo era diferente. Estava menos atarefado, com o trabalho nos computadores da escola quase concluído. O silêncio estava tomando conta da minha mente enquanto eu caminhava, com algumas folhas de dados nas mãos, distraído com meus próprios pensamentos.
Foi então que, ao virar o canto do corredor, eu a vi.
Suellen estava parada com suas amigas, Beatriz e Evelyn. Elas estavam conversando animadamente, mas eu não consegui desviar o olhar. O coração deu um salto no peito quando nossas vistas se encontraram. Eu poderia sentir, talvez, que algo entre nós estava prestes a se quebrar ou ser redescoberto.
Decidi me aproximar, com um leve sorriso no rosto, e acenei para Suellen, tentando chamar sua atenção.
Mas, antes que eu pudesse falar qualquer palavra, ela disse, de maneira rápida e direta:
— Não fala comigo, Ruan. Não agora.
O silêncio que seguiu a fala de Suellen foi pesado. Eu fiquei ali, sem saber o que dizer, sentindo uma dor na boca do estômago, uma sensação de rejeição que me atingiu de forma inesperada. Por um momento, desejei ter ficado quieto, não ter feito nada. Mas, ao mesmo tempo, não pude deixar de me sentir frustrado. Eu só queria conversar com ela, tentar entender o que estava acontecendo.
Beatriz, que claramente não sabia como reagir, deu um passo atrás, observando a cena com uma expressão indecifrável. Evelyn, no entanto, não parou de me encarar, seu olhar parecia carregado de malícia, mas também de curiosidade.
— Eu... eu só estava tentando ser educado, Suellen — eu disse, sentindo a voz mais baixa do que o normal. — Não era minha intenção te incomodar.
Ruan Off
Suellen, ainda evitando o olhar de todos, deu um pequeno suspiro, o rosto marcado por uma expressão de desconforto. Ela sabia que estava sendo ríspida, mas não podia evitar. Algo dentro dela estava em conflito, e, em meio a tudo isso, seu olhar se desviava novamente para o corredor, como se procurasse por uma saída.
— Eu... — Suellen começou a falar, mas as palavras falharam. A ansiedade estava tomando conta de seu corpo. — Desculpa, Ruan. Só... não é o momento.
Ela não conseguia explicar. Não sabia como dizer que sua vida estava sendo tomada por uma pressão constante, por expectativas que ela não podia mais lidar. E, no fundo, aquela interação com Ruan só estava lhe trazendo mais confusão.
Aquelas palavras caíram como uma lâmina no ar, e Ruan parou imediatamente, sem saber o que fazer. Beatriz, que estava ao lado dela, levantou uma sobrancelha e olhou para Suellen com uma expressão questionadora.
— Suellen, não foi um pouco rude? Ele só estava tentando ser educado.
Evelyn, que estava mais quieta, continuava olhando para Ruan com uma expressão um tanto curiosa, seus olhos pareciam avaliar, como se tentasse entender o que estava acontecendo.
— Quem é ele, afinal? — perguntou Evelyn, com um olhar de malícia que parecia mais uma provocação.
Suellen, que até então estava tensa, virou o rosto rapidamente, evitando os olhos de Beatriz e Evelyn. Sentia a pressão aumentando. Ela sabia que sua atitude não era a mais amigável, mas em seu peito, algo estava apertado.
Ela não sabia o que estava acontecendo consigo mesma. O que se passava dentro dela quando via Ruan era uma mistura de sentimentos confusos. Ele ainda estava ali, como uma sombra do passado que teimava em ressurgir. Ela sabia que ele não deveria ter aparecido, que ele não deveria mexer com o que ela vinha tentando esconder. A pressão do seu pai era algo sufocante, e ela tinha tantas preocupações em mente que mal conseguia processar tudo.
Seu pai... Ele havia sido cruel nos últimos dias, sempre lembrando das suas obrigações, das expectativas que ele tinha para ela. A pressão para ser perfeita, para conquistar tudo o que ele achava ser a única forma de viver. Era como se ela estivesse constantemente caminhando sobre um fio, tentando não cair.
Pensava em como o peso da responsabilidade estava se tornando insuportável. Cada conversa com ele a deixava mais nervosa, mais insegura. Como ela poderia lidar com tudo isso, com sua própria vida, se não fosse capaz de controlar nem mesmo seus próprios sentimentos?
Ela virou o rosto para suas amigas, sentindo-se dividida. Suellen sabia que elas a estavam observando, mas não queria se explicar. Não queria ser julgada. Ela já estava cansada de ser criticada, de ter que se esconder o tempo todo. Mas, ao mesmo tempo, o olhar de Ruan, aquele sorriso, a fez querer parar tudo e conversar com ele. Afinal, por que ele a fazia se sentir tão... desconfortável e, ao mesmo tempo, tão viva?
Respirou fundo, tentando afastar os pensamentos que estavam invadindo sua mente.
Ela não podia se distrair agora. Não podia cair novamente no que ela considerava uma ilusão. Mas, no fundo, Suellen sabia que não estava tão certa quanto pensava.
Ela se afastou ligeiramente do grupo, seus pensamentos se afastando daquelas palavras que haviam ficado no ar. Tudo estava ficando difícil de controlar. O olhar de Ruan ainda estava gravado em sua mente, aquele olhar que a fazia se sentir-se frágil, de certa forma. Ela odiava a vulnerabilidade, odiava o fato de que ele parecia ser a chave para um mundo que ela havia guardado longe por tanto tempo.
Mas o que mais a incomodava era o peso das palavras do seu pai, sempre martelando sua cabeça com as exigências. Ele tinha uma maneira de fazê-la se sentir como se não fosse boa o suficiente, como se estivesse sempre à beira do fracasso. A pressão para ser perfeita, para ser alguém que ele pudesse se orgulhar, estava sufocando suas emoções.
"Por que não posso ser como ele quer?" pensou ela, um pouco mais frustrada. "Por que não posso seguir o que ele diz e finalmente fazer tudo certo?"
As palavras dele ainda estavam frescas em sua mente, como se ecoassem pelas paredes de sua cabeça. Ele a comparava com as outras, com as suas amigas, com as meninas que eram mais “bem-sucedidas” em tudo o que faziam.
"Suellen, você precisa ser mais como elas. O que está fazendo com a sua vida? Está esperando o quê? Não é assim que se constroi um futuro!"
Era difícil respirar, e, agora, ainda mais difícil lidar com a presença de Ruan. O que ele queria? Por que tinha que aparecer justo quando ela mais precisava ficar no controle? Era como se ele fosse uma lembrança de algo que ela não queria mais enfrentar.
Ruan On
Eu fiquei ali, parado, observando Suellen se afastar. As palavras dela me atingiram com uma força inesperada, e eu imaginei que ela estivesse em conflito, mas não que agiria desta forma. Mas o que ela não sabia era que, para mim, o silêncio que existia entre nós já dizia mais do que qualquer palavra poderia.
Me virei para Beatriz e Evelyn, que pareciam tentar entender o que havia acontecido. Beatriz ainda estava com um olhar desconfiado, mas Evelyn parecia mais intrigada.
Foi então que vi as duas amigas de Suellen a acompanharem, e seguir seus respectivos rumos.
Ruan Off
— O que aconteceu, Suellen? — Beatriz finalmente perguntou, a curiosidade tomando conta de seu tom. — Você mal falou com ele. Não foi um pouco demais?
Suellen não respondeu imediatamente. Ela estava muito dentro de seus próprios pensamentos. Mas, finalmente, olhou para suas amigas, um pouco perdida.
— Eu não posso ficar aqui, não agora — foi o que ela disse, como uma justificativa que não explicava nada, mas ainda assim parecia fazer sentido para ela.
Antes que qualquer outra palavra pudesse ser dita, ela virou-se rapidamente, começando a andar pelo corredor. Suellen sabia que, naquele momento, tinha perdido o controle da situação. Ela só queria fugir para um lugar onde não fosse julgada, onde pudesse, finalmente, respirar sem o peso das expectativas de seu pai.
Enquanto ela caminhava, sentia seu peito apertado. Não queria mais estar em um lugar onde as palavras machucavam tanto, onde as expectativas a esmagavam como uma pedra. Mas, ao mesmo tempo, algo dentro dela estava gritando. A voz de seu pai, as memórias, as expectativas, tudo isso a fazia sentir-se como se estivesse indo na direção errada.
"Será que estou fazendo isso direito? Será que estou vivendo da forma que ele quer, ou estou me perdendo no caminho?" Este mesmo pensamento a consumia e se repetia enquanto seus passos a levavam para longe de Ruan, mas também, de uma parte importante de sua própria vida.
Conflitos e mais conflitos, isso era tudo que rodeava a mente de Suellen… ou era isso que ela achava…
(continua…)
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