Quando Duas Almas se Encontram
2 A segunda alma perdida
Notas iniciais
Diferente da primeira alma, a segunda não tem nada, nem família, mas sonha com a liberdade.
Foi um espancamento.
Não... Foi um tapa.
O tumulto envolve o espaço em que ela se encontra. Garrafas voam, pessoas caem, pessoas sangram. A segunda alma atordoada se perde no meio da multidão. Todo o seu corpo lateja, mas dói como se fosse um tapa. Foi um espancamento. Talvez por que o autor fora um homem que prometeu pagar muito por uma dança particular. Ele acabou criando uma confusão. Num movimento completamente normal ela se recolhe como uma concha. Gemendo. Todos continuam agitando garrafas e facas. Eles continuam gritando. Por que todos estão tão furiosos? Ela não entende. Nem quer entender.
- Sua puta idiota. Não consegue nem vender o corpo. – grita o rapaz que prometeu a grande soma de dinheiro – Não deveria ter pagado tanto para isso.
O homem cospe na mulher recolhida no chão. Mas ela nem sente. Ele parece ser um homem de classe alta. Veste um belo terno engomado e seu cabelo parece ter um litro de gel, tanto é seu brilho. Ao contrario dos outros, os olhos dele não são puxados; como os da moça que agoniza no chão. Enquanto a desordem continua, ela pensa: Por que estou aqui? Esse não é o meu lugar. Muitas pessoas estão ali apenas olhando. Vêem a briga como se fosse um filme de ação.
- Você ainda pode decidir me dar seu corpo – grita o homem de novo – e não vai morrer nessa confusão!
Aí está a frase que esta mulher nunca gostaria de ouvir. Morrer. Tão cedo? Por quê? Ela ainda não tinha se preparado. Levantou-se da toca em que estava e olhou bem para os olhos daquele que a ameaçara. Não disse nada, mas pelo olhar ele viu que ela não iria fazer o que ele falou. O nome dela? Loren Stanford. Ela era uma americana que foi tentar a vida no Japão. Não conseguiu muita coisa. Apenas uns trocados e ser espancada. Ela se move lentamente para o camarim da boate. O homem só não a impede, pois outro homem bêbado o segura pela mão. Pelo menos por lá ela estaria segura. Ela fecha a porta e, quando olha, uma amiga dela está lá.
- Eu vou embora – Fala Loren com uma voz pausada e fraca.
- Não vá, eu sei que a situação vai melhorar.
- Isso nunca vai melhorar!
Ela estava cansada. Cansada dos homens maus, dos maníacos e de ter que se despir toda a noite por trocados. Como ela gostaria de poder ganhar dinheiro sem ter todos esses contratempos. Gostaria de trabalhar com um pouco de dignidade. Mas a vida não é assim para ela.
- Fique aqui... Por mim... – Pediu a outra moça – você é minha melhor amiga aqui... Não sei como vou ficar sem você.
Ela olha para a amiga como se dissesse: desculpe, mas tenho que fazer isso. Ela já estava determinada a mudar sua vidinha ridícula, não tinha mais volta. Elas se abraçam e correm até o quarto para recolher as poucas coisas que possuía. Pegou um saco com as poucas roupas e sua amiga lhe deu um lanche. Ela pegou o dinheiro que tinha guardado e as poucas fotos que tinha com suas amigas da boate. Deixou o resto para trás. Depois daquela noite ela nunca mais gostaria de voltar àquele lugar. Abriu a porta da garagem dos funcionários da boate. Sua moto não estava mais lá. Havia sido roubada. Os gritos vindos de dentro da casa deixavam as duas com mais medo ainda. Mas não se importou. Nada a impediria de sair daquela vida. Despediu-se pela segunda vez da sua melhor amiga.
Apenas uma pessoa assiste a perda de uma amiga. Ela chora, afinal, elas eram muito amigas. Parceiras para tudo, enquanto alguns só a consideravam objetos de desejo, ela a tratava como um ser humano. Ela dá o primeiro passo para a liberdade que tanto queria. Aquela fora a gota d’água. Às 1:00 da madrugada ela vai embora. Logo ela desaparece no horizonte.
Seu corpo ainda lateja...
Foi um tapa?
Não... Foi um espancamento.
Notas finais
Foi um espancamento.
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