Quando Duas Almas se Encontram
1 A primeira alma perdida
Notas iniciais
Um tapa.
Não...foi um espancamento.
Os pensamentos vagos do jovem que está de joelhos entorpecem seus sentidos. Ele sente um formigamento estranho na bochecha. Sua mente se pergunta o porquê de estar ali. É uma ilusão? É a pura realidade? Alguém está gritando com ele. Por que ele nao consegue distinguir as palavras? Por que dói tanto se foi só um tapa? Não...foi um espancamento com certeza.
Ele acorda como de um sonho. Respira como se estivesse sendo sufocado. Foi apenas um tapa. Mas doeu como se fosse um espancamento. Talvez por quê foi seu proprio pai o autor do tapa. Num movimento completamente normal ele leva a mão ao rosto. A boca do seu pai continua se movendo. A fúria é clara. Por que ele grita? O rapaz ajoelhado não presta a atenção. Tanta gritaria para ele é apenas ruído. Finalmente ele volta à realidade.
— Seu filho ingrato e inconsequente!! — grita o raivoso pai — Depois de tantos anos você continua com essa sua decisão estúpida!!
Aquele homem que continua gritando veste uma roupa de sacertode. Sua cabeça nao tem cabelo. Seus olhos são tão achatados que às vezes alguns se perguntam como ele consegue ver. Seu rosto branco ganhou mais rugas quando começou a gritar com o pobre jovem. Enquanto a bronca procede, o jovem percebe: o lugar dele nao é aqui, nunca foi. Algumas mulheres se acomodam logo atrás do fusuma. Ouvem a conversa atentamente.
— Se não mudar de idéia nunca mais o considerarei como filho. Você vai sair dessa casa e eu nunca mais o receberei!
Aí estava a frase que o jovem esperava. VÁ EMBORA. As malas já estavam prontas. Ele se levantou e olhou bem nos olhos do pai. Não disse uma palavra. Aliás, existem momentos em que não é necessario dizer nenhuma palavra. O nome do jovem? Robert Kuronegui. O porquê de \"Robert\"? A mãe dele é americana. Mas o nome dela nao vem ao caso. Quando o filho sai da sala o pai resmunga sozinho. Havia perdido o filho. As mulheres se alvoroçam, uma corre atrás de Robert. As outras tentam acalmar o velho pai em fúria. O rapaz tira a vestimenta especial que estava usando e joga no chão do corredor. A moça que o segue recolhe.
Ele está cansado. Cansado de todo o dia ter que se ajoelhar de forma tão desconfortável. Cansado de receber tantos sermões do pai. Cansado da vestimenta pesada. Como ele gostaria de poder sair com os amigos às vezes. Gostaria de poder andar com uma calça jeans pela casa. Infelizmente seu pai faz a casa parecer uma prisao.
— Robert! — a moça chama pelo enfurecido rapaz — Seu pai não disse por mal!
— Eu sei bem o que o meu pai disse... e sei o que vou fazer agora.
A moça puxa robert pelo braço. Ela me parece bem bonita. Seu rosto parece o deuma boneca. Seus olhos são maiores que os das outras moças. Ele olha para ela como se dissesse: Eu não queria ir, mas tenho que ir. Olhando bem para os olhos dele ela faz o último pedido.
— Fique aqui... Se não for por eles; que seja por mim... Vamos, eu não sei o que vou fazer sem você.
Ele puxa delicadamente o braço das mãos dela. Infelizmente nada o faria mudar da direção daquele quarto. Já havia suportado demais. A moça cai de joelhos e fica aos prantos. Já Robert não quer olhar para trás. Ele sabe que se o fizer desistirá do seu objetivo. Ele pega sua sacola com algumas roupas, uma maleta com um bentô e algum dinheiro e seus objetos pessoais, como as poucas fotos que tinha com seus amigos. Não levou consigo nada que o lembrava daquele enorme santuário. Saltou a janela na direção de onde ficava a sua moto. O problema é que o pai dele a escondera. Não se importou. Não gostaria de voltar àquele monastério nunca mais. Não se despediu de ninguem. Nem da moça que segurou seu braço com tanta sinceridade.
A sua família assiste, atônita, a perda de um filho. A sua mãe e muitas mulheres choram. Aliás, ele era o único filho homem da família. Para o pai, era o único que poderia o substituir. O mesmo prendeu o choro. Queria manter a imparcialidade até o fim. O portão é aberto exatamente às 3:00 da tarde. A família está na porta da frente. De longe veêm ele andando rumo à liberdade que tanto desejou. O portão fecha.
As bochechas ainda latejam...
Foi um espancamento.
Não... foi um tapa.
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