Steve não viu o vizinho intruso nos três dias seguintes, ele admite que Tony o deixou intrigado. Mas estava tudo ótimo, havia conseguido terminar seu serviço antes do prazo estipulado, já entregara para seu chefe que prontamente repassou mais trabalhos para o loiro, por sorte nenhum com urgência, então poderia aproveitar o tempo e fazer tudo com calma.

Novamente no seu prédio, Steve se encontrava na lavanderia, sempre separava as tardes de quarta para lavar a roupa, grande parte dos moradores trabalhavam em horário comercial e lavavam nos fins de semana ou na parte da noite, então ele tinha mais privacidade e menos concorrência para as maquinas.

Estava encostado em uma parede da lavanderia lendo um livro qualquer que havia em sua prateleira quando o moreno conhecido entrou completamente encharcado e notavelmente irritado, ele parou de frente para a grande mesa que fazia parte do comodo e começou a se despir espirrando água para os lados.

— Sabe que é um prédio de família, não é? -

Tony se virou para ele assustado, claramente não percebera o loiro ali, sorriu sem graça, com certo alivio no semblante.

— Hey, vizinho. Saber que é eu sei, o difícil é a definição de "família", é composta por um casal sexualmente ativo, seus filhos e as vezes demais parentes, então se têm pelo menos uma ou duas pessoas sexualmente ativas, qual o problema de algumas crianças verem um cara de cueca? -

Tony se surpreendeu com o riso do loiro, Steve abaixou o livro, se aproximou de uma distância respeitável e estendeu a mão.

— Steve Rogers. Dia ruim? -

O outro apertou a mão com um sorriso sincero, apenas ele havia se apresentado na última vez que se viram, quando Tony invadiu "educadamente" o apartamento de Steve em busca de internet.

— Diria que o pior de todos. Essa tempestade me pegou de surpresa, então cheguei em casa pronto pra um banho quente e percebi que não estava com minhas chaves, ficaram na minha mesa no escritório que também já está trancado, seria mais fácil se meu celular não quisesse fazer companhia para as chaves. Agora tenho que esperar alguém que tenha uma cópia... Ou passar a noite na lavanderia e ir trabalhar com as mesmas roupas de hoje. -

Ele falava enquanto colocava a roupa na maquina de lavar recém desocupada por Steve. O loiro observava o moreno e pensava se seria uma boa ideia oferecer seu apartamento para ficar enquanto não resolvia o assunto da chave. O olhar cansado do homem seminu a sua frente foi resposta o suficiente.

— Pode ficar em casa, melhor do que acabar assustando as crianças do prédio. -

Fez o convite com uma risada e começou a tirar a última remessa de roupas da secadora, colocou o cesto ao lado do maior que já continha suas roupas dobradas e começou a dobrar as outras.

— Sério? Tem suco na geladeira hoje? -

Tony riu também e Steve estendeu um conjunto de moletom para ele, o moreno pegou com um agradecimento baixo e se vestiu, as roupas eram notavelmente maiores do que o número dele o que fez os dois rirem de novo.

— Obrigado, Steve, é um vizinho e tanto. -

Deu uma batidinha no ombro do Steve e tirou a roupa que havia acabado de colocar na maquina de lavar, rapidamente as jogou na secadora e ligou a mesma em uma temperatura alta. Ficaram em silêncio até a secadora avisar que seu trabalho estava pronto, Tony tirou as roupas de dentro e simplesmente as enrolou segurando em baixo do braço, Steve já havia terminado de dobrar suas roupas e estava apenas esperando o vizinho. Eles subiram pelo elevador acompanhados do mesmo silêncio confortável. O loiro abriu a porta pedindo para que o outro ficasse a vontade, dessa vez ele realmente quis dizer isso. O moreno foi até o sofá e se sentou encostando a cabeça e fechando os olhos.

— Ahn... Se quiser tomar banho é a primeira porta. Eu vou... Fazer a janta... -

Só agora percebera o quão estranho era aquilo, trouxe um vizinho que mal conhecia para dentro de casa, vestindo suas roupas e ainda oferecera seu banheiro, ah sim, sem esquecer do convite oculto para a janta, deveria ter pensado melhor antes de abrir a boca.

— É, banho é uma boa. -

Tony se levantou em um salto e foi para onde Steve tinha apontado, porém, assim que fora entrar no banheiro acabou tropeçando em algo, a princípio pensou ser um tapete, mas mudou de ideia quando a coisa miou alto arranhando seu pé descalço.

— Filho da mãe! -

Steve correu até o vizinho preocupado, havia esquecido completamente da gata de estimação que tinha o péssimo habito de dormir na porta do banheiro. Rapidamente pegou o animal de pelos brancos, que por usa vez não demorou a subir nos ombros do maior.

— Desculpe por isso, Peggy gosta de se fingir de tapete as vezes... Ela te machucou? -

Tony segurava um dos pés que tinha notáveis vergões. Ele balançou a cabeça em sinal positivo e olhou para a gata sentada no ombro do outro, ele tinha certeza que ela estava olhando para ele como se dissesse "não tem lugar para você aqui, humano."

— Sim, ela só me deu um puta susto, mas... Peggy, a gata?! Sério?? -

O loiro explicou que foi uma homenagem a uma velha amiga, mas não ocupou muito o tempo do moreno que conseguiu entrar no banheiro sem maiores acidentes e tomar seu banho. Steve foi até o quarto, achou melhor pegar uma toalha e outra muda de roupa que servisse no menor. Procurou em seu guarda-roupa alguma de quando era menor, mas ao invés achou peças que Bucky provavelmente esquecera de levar embora, uma parte de Steve desejava que ele havia deixado de propósito, para que o loiro não esquecesse dele. Pegou uma camiseta e uma calça que pertenciam ao antigo parceiro e levou junto com a toalha.

— Tony, eu encontrei algumas roupas que podem te servir... E uma toalha limpa também. -

O moreno abriu a porta assim que o outro bateu, ele agradeceu com um sorriso e pegou a muda que o loiro estendeu corando levemente, o vizinho intruso não pôde deixar de pensar em quão "fofo" o vizinho ficava daquele jeito, agradeceu de novo e fechou a porta começando a se secar e vestir.

Quando saiu do banheiro o cheiro de comida já estava por todo o apartamento, foi praticamente puxado pelo perfume dos hambúrgueres até a cozinha, onde Peggy observava atentamente o trabalho de seu dono, era obvio que ela também estava doida por um pedaço.
Os dois homens sorriram um para o outro e continuaram assim enquanto juntos arrumavam a mesa e em um silêncio confortável começaram a jantar.

Obrigado pelas roupas... São de algum amigo ou parente? -

Tony sabia que não eram do outro, ficariam ridiculamente curtas no loiro, e estava curioso para saber por que ele tinha roupas masculinas desse tamanho em casa. O sorriso de Steve se desfez, novamente ele mergulhou em um mar de memórias, algumas felizes e distantes, outras próximas e tristes. Além de não gostar de tocar no assunto também não sabia como o vizinho reagiria com o fato de sua homossexualidade (bissexualidade na verdade, mas não era relevante nesse caso).

Não, eram do meu parceiro. -

O moreno se surpreendeu com a resposta que apesar de um pouco seca deixou um sorriso no rosto de Tony.

— Término difícil? -

O moreno disfarçou o sorriso e se fez interessado, o dia que começou tão horrivelmente não poderia ter final melhor se ele descobrisse que o vizinho não só era gay também como estava solteiro. Steve por sua vez apenas olhava para o prato nostálgico.

Algo assim... Ele se mudou pra Russia, da ultima vez que soube estava com uma garota. -

O loiro se sentiu confortável em compartilhar sobre isso pela primeira vez desde que o outro se mudou, apesar de sentir falta do moreno estava feliz por ele ter encontrado alguém, a ruiva com quem estava era uma modelo russa, então imaginava que ele estava mais do que bem.

— Sinto muito por isso... Mas é o certo, não é?! Seguir em frente... Devia tentar também. -

Tony não disfarçava, apesar de parecer que Steve não percebia que ele estava mais dando em cima do que dando conselhos reais.

— É um pouco complicado pra mim, Bucky era meu melhor amigo e único companheiro que já tive... Eu não sou bom com relacionamentos. -

Steve não percebeu, mas se sentia confortável em dizer tudo aquilo para o moreno como se fossem velhos amigos, ele olhou para Tony pela primeira vez desde que o assunto havia começado, sentiu como se o ar a sua volta tinha ficado mais quente, os olhos do vizinho exalavam aquele calor e o sorriso do mesmo o encantava, começara a pensar que melhor do que ser amigo do vizinho seria eles terem um relacionamento mais profundo, algo como o que ele tinha com Bucky.

— Eu... Vou arrumar o quarto de visitas... -

O loiro levantou corado, colocou o prato na pia e sumiu pelo corredor, Tony pensou se tinha dito algo errado, se Steve tinha achado ele muito atirado, ou simplesmente não estava afim do moreno e tinha feito o convite só por pena. Ele olhou para a gatinha sentada ao lado da cadeira que o observava atentamente, perguntou baixo se ela tinha algo contra ele, mas o animal apenas saiu andando atrás de seu dono.

Steve não demorou a voltar, nesse meio tempo Tony terminou de comer, lavou os dois pratos e voltou para a sala. O loiro mostrou o quarto para o vizinho, entrou no banheiro para um banho e depois foi direto para o próprio quarto fechando a porta assim que Peggy passou. Com um desejo de boa noite que somente o moreno ouviu ele se deitou e teve um sono sem sonhos, muito diferente do vizinho.