Quadros e Pincéis

3 Capítulo Três - O Gato de Botas


Notas iniciais
O próximo capítulo sai, provavelmente, na segunda-feira. Por favor, não desistam de mim. As minhas últimas provas me tiraram o tempo, mas aqui estou eu com mais um capítulo. Espero que gostem.

― Você não fala desse jeito. ― Ele retorceu o nariz ao dar certo espaço para que o rapaz entrasse. As mãos tremiam um pouco, mas Oikawa sabia bem que não era nervosismo, talvez fosse culpa da noite passada em claro. E o gosto da vodka ainda estava em sua boca, o que piorava tudo. Odiava aquela bebida, não sabia como havia acabado ali. ― O que faz aqui?

― Você trata todas as suas visitas assim? ― Kuroo riu em deboche, colocando os óculos escuros no alto da cabeça. ― Eu vim porque quis, querido.

― Você pode ir embora porque quer também ― disse ele, esbarrando no braço do sofá. Pegou os dois copos espalhados pelo chão e a xícara suja na mesinha de centro, o apartamento estava mais sujo do que esperava, mal sabia a última vez que parara para limpá-lo.

― Eu ficaria ofendido se não soubesse que você me adora.

Oikawa revirou os olhos, deixando os copos sobre a pia, poderia lavá-los outra hora. Naquele momento, tinha que lidar com seu visitante inesperado, já que mesmo que quisesse, não poderia simplesmente enxotá-lo dali. Ou podia, mas tinha certo senso de boas maneiras ― pelo menos, o que achava que eram boas maneiras. Coçou o couro cabeludo e balançou a cabeça negativamente. Era de se esperar que ele aparecesse ali do nada, era Kuroo afinal.

― Kuroo, o que veio fazer aqui? ― Suspirou. ― Eu tenho o que fazer, sabia? Não sou desocupado.

― Hm, você dormiu?

― E por que isso te interessa?

― Porque eu me preocupo contigo, talvez? ― falou ao abrir um dos armários da cozinha, já sabia onde as coisas costumavam ficar, Tooru não era do tipo que mudava tudo de lugar. Pegou a panela e pôs água para ferver no fogão. Ele sorriu com a forma como fazia aquilo, com a mesma malemolência do passado, quando passava várias das manhãs ali, fazendo aquelas mesmas coisas.

― Tenho uma cafeteira italiana ― disse ele, quebrando o clima leve que Kuroo parecia levar para qualquer lugar. O rapaz arqueou as sobrancelhas, tentando não reparar na frustração que deixara transparecer em sua voz. Por quê? Foi o que veio a sua mente. Por que a frustração, aquele quê de decepção? Não entendia.

― Por quê? ― perguntou.

― É mais prática, mais rápido de preparar o café, não sei, eu gosto e…

― Não, por que você assim? O que aconteceu? ― As mãos moveram-se rapidamente ao colocar a colher no pote e do pote para a água. O líquido logo ficou escuro, mas ele não parou realmente de mexer até que pôde ver as bolhas subindo. ― Não adianta dizer que não foi nada, eu sei que tem algo.

― Como pode ter tanta certeza?

― Sabe o ponto forte de trabalhar no centro da cidade, Tooru? ― Colocou o café na xícara transparente. ― Você pode realmente esbarrar em qualquer pessoa por lá, inclusive conhecidos. Inclusive seu irmão.

― Você falou com Tobio? ― Franziu o cenho. ― Espera, desde quando vocês dois são tão íntimos?

― Bom, não somos. Eu só dei uma esbarradinha nele no café e nós tivemos, hm, uma ótima conversa, por assim dizer.

Oikawa bufou, jogando as mãos para o alto em sinal de desistência, girou os calcanhares e deu passos duros audíveis até a sala, onde se jogou no sofá. O rosto era acariciado vagarosamente pela pelugem da almofada rosa que em nada combinava com o restante da decoração. Ouviu Kuroo dar uma risadinha debochada ainda na cozinha, enquanto mexia a colherinha dentro da xícara com a bebida forte ― do jeitinho que ele gostava de beber.

Lambeu os lábios ao vê-lo encostar no arco que unia a cozinha ao resto do apartamento. Ele sorria ao dar goles no café, talvez achasse toda a situação engraçada, principalmente porque aquela era a primeira conversa convencional que tiveram depois de algum tempo. Talvez até a primeira após o término do namoro, não sabia. Mordeu a bochecha interna ao notar que o rapaz não tinha mudado muito, algumas tatuagens a mais aqui ou ali, mas nenhuma mudança radical. E ele continuava inegavelmente bonito ao seu olhar. Mas não tão mágico e bem mais desinteressante; sinceramente, o seu sorriso o irritava. Aquilo provava ainda mais que não sentia nada que se aproximasse de “romântico” em seu ponto de vista. Havia apreço, algum carinho até, mas definitivamente não era amor.

As costas reclamaram pela posição em que estava e Tooru sentou, rodeando as pernas em um abraço e escondendo os punhos nas mangas do casaco, que era grande demais para ele. Kuroo sentou-se em sua frente, na poltrona cor carmim e aconchegante que costumava sentar, não tinha mais um sorriso nos lábios e olhava para a janela. Provavelmente pensava em abrir um pouco mais as cortinas, a visão do ponto onde estava era privilegiada, uma boa imagem da cidade.

― Oikawa, postura ― reclamou ele, apoiando o cotovelo sobre o braço do assento. Tooru revirou os olhos, ajeitando-se um pouco mais no sofá, parecia uma criança emburrada por levar bronca. ― Tobio não falou muito, só disse que vocês brigaram e que você tem evitado ele, é verdade?

Oikawa ficou em silêncio.

― Pelo seu silêncio, vocês realmente discutiram. ― Balançou a cabeça ao ver o outro assentir. ― Por que brigaram? Vamos, Tooru, não tenho o dia todo. Fala logo.

Ele desviou o olhar.

― Não vai me dizer? Sério? ― Suspirou. ― Sinceramente, não sei o que faço com vocês dois.

Olhou para os pés descalços, os dedos se moviam, tocando uns nos outros e fazendo um ruído estranho. Tooru gostava desse ruído, era uma ótima desculpa para ignorar todo aquele interrogatório fajuto e aquele “investigador” barato que insistia em fazer-lhe perguntas estúpidas.

Kuroo levantou de repente, provavelmente conformado com a falta de resposta. Ele o conhecia, Oikawa não se abria facilmente com ninguém, talvez não se sentisse confortável consigo ali, não mais. Era bizarro pensar que, depois de tanto tempo tentando ter sua confiança, Tooru agora se sentia desconfortável com sua presença. Andou a passos lentos até as janelas e abriu as cortinas com pressa, os raios solares preencheram todo o cômodo e Kuroo suspirou, desistente.

― Daqui a dois meses... ― começou, girando os calcanhares para voltar a olhá-lo. ― É, daqui a dois meses, um artista que Kenma gosta muito vai fazer uma nova exposição. Ele quer que você vá.

― Kenma? ― perguntou, cético, com a sobrancelha direita arqueada. ― Seu namorado Kenma? O antissocial? Me convidado para uma exposição? ― Riu.

― Olha quem fala. Há quanto tempo você não sai daqui? Antissociais unidos, não é esse o ditado?

― Acho que você não entendeu bem o conceito, oh, mestre da socialização. ― Revirou os olhos. ― Além disso, por que Kenma me convidaria para uma exposição?

― Ele conhece seus gostos. Sabe que você gosta do artista, eu nem sei quem é, mas se ele disse, eu acredito.

Suspirou cansado.

― Não.

― Tá, você não precisa responder agora. Pode falar com ele depois, ainda tem o número dele, não tem? ― falou, ignorando-o. ― Ainda falta tempo, você pode pensar com calma e aceitar.

― Kuroo, eu não vou.

― Tudo bem. ― Levantou as mãos em sinal de rendição. ― Só… saia um pouco, tá legal? Fale com seu irmão, ele tá preocupado contigo, você sabe como Tobio é, conversem.

― Tudo bem.

― Ótimo ― falou, dando alguns passos para além do sofá. ― Eu… vou indo. ― gaguejou, apontando para a porta.

― Certo.

― Tooru. ― Olhou-o nos olhos, com uma expressão séria, digna de um drama televisivo. ― Se cuida, certo?

Oikawa assentiu, desviando o olhar. Kuroo gesticulou, tinha muito a falar na ponta da língua, mas não o fez, não era hora para aquilo. Quando a cabeça cheia de fios castanhos encontrou a almofada, a porta bateu e a risada baixa de Tooru se espalhou por todo o lugar.

― Você é doido ― ele sussurrou, agora sozinho. ― Doidinho de pedra.