Quadros e Pincéis
4 Capítulo Quatro - Ohana quer dizer família...
Notas iniciais
A pequena mão segurou a outra com a maior quantidade de força que ainda restava em seu corpo. E o corpo retraiu-se a cada passo para dentro daquele lugar enorme, pessoas iam e voltavam, correndo de um lado para o outro, cheias de malas e pertences estranhos. E o barulho era enorme, tão alto que incomodava seus ouvidos.
Iwaizumi parou de repente e sua mão foi deixada de lado por alguns instantes, não conseguiu não segurar o sobretudo pastel que ele usava. O celular tocou e o rapaz sorriu ao visualizar o nome que aparecia na tela. Cecília não sabia dizer quem era, não havia conseguido ver. Mas Hajime não respondeu a chamava, só moveu a cabeça para os lados e a garota não entendeu o gesto. Não até ver um homem gigante andando em sua direção, ele dava passos pesados no chão, olhava para eles com uma cara de poucos amigos e era completamente assustador!
Seu corpo estremeceu ao ouvir o som das passadas e Cecília se aproximou ainda mais de Iwaizumi, na tentativa de se esconder daquele estranho. Entretanto, as pálpebras abriram bastante ao vê-lo se aproximar demais e abraçar o homem ao seu lado. Era um abraço apertado, pôde notar. Iwaizumi estava na ponta dos pés e suas mãos batiam nas costas do gigante como um médico a bater na bunda de um bebê que acabara de nascer.
Sua mochila caiu no chão e ela se apressou para pegar, a movimentação atraiu o olhar do homem para si e ela abraçou o próprio corpo, tímida. Fez besteira, menina boba! Hajime desvencilhou-se do aperto e virou para si, sorrindo como um boboca. Ouviu sua risada, mas não o olhou no olhos, era difícil saber o que fazer naquelas situações. Ele ajoelhou a sua frente e apertou suas bochechas para que sorrisse um pouco, não havia nada para ter medo. Iwaizumi não esperou muito tempo para pegá-la no colo, levá-la para cima não lhe pareceu uma boa decisão, aquela posição a fazia ficar no foco de visão do rapaz de cabelos castanho-claros, ele era bastante esquisito em sua perspectiva.
― Cecília. ― Hajime beijou sua testa. ― Esse é meu amigo, Asahi, ele vai levar a gente para casa hoje, tudo bem?
Ela assentiu, sem dizer uma palavra. Coçou o pescoço enrolado pelo cachecol desconfortável ― presente da velhinha que costumava morar na mesma rua que a sua ― e deitou o rosto sobre o ombro de Hajime.
― Então essa é a famosa Cecília ― Asahi disse, numa tentativa de soar simpático embora nada o fizesse parecer simpático para a menina. ― É um prazer conhecê-la.
― Minha filha não é uma mulher de negócios, Asahi, ela não precisa de formalidades.
― Claro, mas nada impede de ser no futuro.
Iwaizumi semicerrou os olhos e o homem calou-se por um instante, estalando a língua no céu da boca ao soltar resmungos de como ele continuava chato. A garota quis rir, mas não ousou abrir a boca, ele poderia notar.
Era verdade que Cecília havia aprendido a ser cuidadosa com o tempo. A Srta. Linda, cuidadora das crianças do orfanato, costumava dizer que quem falava demais podia perder a língua. E ela não queria que isso acontecesse! Afinal, não havia passado tanto tempo naquela cama mal-cheirosa do hospital para sair de lá sem língua. Seria bastante trágico, não? Não poder falar mais ou comer direito, deuses, era um pesadelo! Por isso, procurava ficar quieta quando Iwaizumi falava com outras pessoas, era, certamente, o melhor a se fazer. Tinha medo de que ele desistisse dela se fizesse alguma besteira. Cecília não queria voltar para o orfanato, de jeito nenhum.
Hajime apertou-a um pouco mais em seus braços e sussurrou para que se segurasse direito, iriam para casa agora.
Casa… Ela nunca pensou que teria uma casa. Como seria ter uma casa? Mal esperava para descobrir.
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― Você precisa, urgentemente, fazer compras, Hajime-san ― disse ele ao abrir as portas do armário nas paredes da cozinha.
Iwaizumi fez uma careta estranha, mas não respondeu ao que lhe fora dito, quando se tratava de Noya era melhor ignorar. Asahi estava sentado no meio da sala, em frente à estante que havia acabado de montar, com os olhos vidrados na televisão de fullHD branca, na qual uma propaganda qualquer passava antes de voltar a programação de animações infantis que Cecília havia escolhido assistir. O alto homem estava suado, com uma aparência cansada pelos esforços feitos ao longo do dia.
― Eu vou fazer compras, mas que droga. ― Fechou as portas do armário, mesmo que Nishinoya ainda tentasse bisbilhotar as besteiras que havia comprado assim que chegou.
― Qual é? Só tem macarrão aqui, Cecília precisa de fibras para ficar forte como o Asahi-san.
― Noya, macarrão tem fibras ― Asahi respondeu, agora deitado no chão, olhando para o teto. Iwaizumi revirou os olhos e o rapaz baixo desceu do banquinho rosa, com a expressão enfezada por seu elogio ter sido corrigido.
― Mas, mesmo assim, ela precisa de outros nutrientes… ― Soltou uma risada sem graça ao coçar a cabeça e olhar afiado para Hajime.
― Agradeço a orientação, mas eu sei cuidar da minha filha muito bem, obrigado. ― Iwaizumi pronunciou-se finalmente. ― De qualquer forma, qual dos dois cavalheiros quer fazer o favor de ir ao supermercado para mim?
Noya desviou o olhar para a geladeira, mudo. Estava cansado demais para sair daquele ambiente quente e confortável para encontrar a temperatura congelante de fora. No entanto, Iwaizumi não deu muita atenção àquele ato de covardia do seu maior julgador ali, Asahi o cortou antes que pudesse dizer qualquer coisa sobre aquilo:
― Não precisa, já mandei mensagem para o Daichi. Daqui a pouco ele aparece aqui com algumas comprinhas.
― Por favor, diga que você não pediu para ele trazer comida pronta ― Iwaizumi suplicou, com a mão na testa, um gesto de exaustão, de certo.
― Relaxa, Hajime, eu tenho uma boa cabeça sobre esses ombros, okay? ― Riu. ― Pedi para ele trazer ingredientes, tudo bem?
― E posso saber que ingredientes foram esses?
― Não faço ideia, mas ele se vira, Daichi é nosso chefe.
― E um ótimo chefe ― Noya replicou, a cabeça apoiada no cabo da vassoura. ― Você devia comer a sopa de miso que ele faz, é uma delícia.
Hajime suspirou, balançando a cabeça para os lados, precisava de um banho, isso sim. Mas Cecília ainda estava no banheiro, conseguia ouvir o som do chuveiro dali. Andou até o quarto de paredes azul-celeste e abriu a gaveta da cômoda, escolhendo uma roupa com estampa de unicórnio que havia comprado quando Cecília foi a sua casa pela primeira vez.
Sorriu ao lembrar como os olhos da menina brilharam, era a coisinha mais fofa que havia visto na vida. De certo, perdera seu coração para aquela criança desde o dia em que ela o olhou pela primeira vez, com aqueles olhos grandes e esperançosos. Ela havia o escolhido, foi ela quem determinou o que faria, Iwaizumi não pode fazer nada além de se deixar levar.
Ainda lembrava daquele dia, a visita ao orfanato foi ideia de um amigo seu, talvez aquilo o fizesse ficar inspirado, não? Eram crianças, afinal, havia aquele quê de magia no ar. Mas assim que entrou naquela sala, quando encontrou-a sentada no canto, sozinha, apenas com aquele ursinho de pelúcia em seu braços; e quando ela direcionou o olhar para si, apenas para desviá-lo depois, envergonhada, foi ali que ele percebeu: seu coração vazio poderia ser preenchido por alguém mais. O apartamento em que morava era grande demais para só ele morar, por que não dividí-lo com mais alguém? Por que não dividir toda a sua vida com outra pessoa? Cuidar e dar parte do seu tempo para aquele serzinho tão pequeno e fofo?
― Qual o nome dele? ― Foi o que ele perguntou naquele dia, agachado em frente a criança de pele retinta.
― Rico ― ela falou, timidamente.
― Hm, que nome bonito. E qual o seu?
― Cecília.
― Muito prazer, Cecília, meu nome é Hajime. ― Ela sorriu, tão curtamente que quase não notou o movimento dos lábios, e Iwaizumi retribuiu com um sorriso de orelha a orelha. Seu amigo estava certo, crianças poderiam dá-lhe inspiração. Meses depois ele saberia que aquela menina havia feito magia e que sua coleção de quadros mais famosos seria dedicada a ela.
Entretanto, era verdade que ele mal imaginava que aquela menina participaria da sua vida tão ativamente a partir dali. Nem mesmo que se permitiria amá-la um pouquinho, mas isso ele percebeu depois, com a correria dentro de hospitais e entre os horários curtíssimos de visita, nos quais mais a observava do que realmente conversava. Era um fato que ele não havia aprendido a agir daquele modo, ele nunca havia cuidado de alguém daquela forma. E vivenciar aquilo tudo fez com que uma palavra passasse a rondar sua mente por um bom tempo e quando ela se acomodou em seu peito, um sentimento leve o tomou por completo.
― Acabei. ― Ela entrou no quarto com uma toalha grande demais para sua altura. ― Ah, pai, de unicórnio não. ― Ele sorriu ao escutar mais uma vez aquela palavra tão curta, com um grande significado. Entregou-lhe o pijama, saindo do quarto logo depois, a porta fechou, mas ele não saiu dali.
Hajime era pai agora, ela era sua filha. E quando notou isso, percebeu também que nunca deixaria de ter aquele cuidado a mais, aquele amor tão profundo quanto o oceano. Eles eram família agora.
Afinal, ohana queria dizer família e família queria dizer nunca abandonar ou esquecer.
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