Quadros e Pincéis

2 Capítulo Dois - Se essa rua, se essa rua fosse minha...


Notas iniciais
Notas: Olá, seres humanos! Como vão? Então, eu acredito que vocês tenham notado (ou não) que na última semana, não tivemos capítulo. Pois bem, eu estava doente, não tive como postar na última sexta e como só fiquei melhor na quarta, foi mais fácil postar hoje. Eu vou tentar postar todas as sextas-feiras a noite, juro que vou tentar ser organizada em relação a isso. Mas, sem mais delongas, aqui o capítulo, espero que gostem!

Havia um grande movimento no lugar naquela noite, era algo que qualquer pessoa que passasse por ali poderia notar com facilidade. Talvez a chegada do inverno fosse a grande razão para aquilo, estava frio, não o suficiente para fazer com que todos se trancassem em casa aos montes, mas um motivo suficientemente bom para todos se entupirem de cafeína em suas bebidas escaldantes, sim, era verdade. Mais importante de tudo, era motivo suficiente para que Suga sentasse ali àquela hora da noite, quando já deveria estar em casa, debaixo dos seus cobertores quentinhos.

Um fato importante sobre sua relação com o inverno, era que ela sempre fora ótima. Sugawara gostava de tudo sobre aquela época do ano, as baixas temperaturas, aquele climinha pacífico que se instalava a cada dia. E amava as roupas, de certo amava as roupas. A única coisa triste do inverno era o resfriado que insistia em tomar seu corpo todas as vezes que aquela estação chegava. O que levava ao porquê estava ali, sentado naquela mesa com aquela companhia.

Ele apertava as duas mãos entre as coxas com força, enquanto mordia o lábio seco apenas para lambê-lo depois. Esperava pacientemente pela bebida doce e quente que havia pedido há algum tempo, olhando com curiosidade demais para outra mesa, onde um rapaz bonito tomava pacientemente seu café. Ele tentava não chamar muita atenção em sua função de observador, mas era claro que aquilo não passaria despercebido pelo olhar meticuloso do seu jovem companheiro de cabeleira ruiva.

― Ele não vai aparecer magicamente aqui, Suga ― ele falou ao passar sem rapidez a página do livro que tinha em mãos. ― Você tem que ir até lá.

― Elementar, meu caro Watson! ― debochou, com uma falta de paciência não característica de sua personalidade. ― Só há um problema: eu não quero.

― Se não vai falar com ele, então pare de olhar. Ele já deve ter percebido sua investigação minuciosa sobre quantos músculos é possível ter em um braço, deve estar incomodado. E é estranho, não posso andar por aí com estranhos deslumbrados com músculos.

― Não me importo. Ele é bonito, posso olhar? ― Viu o outro olhá-lo por cima da armação dos óculos, o que o fez ter certeza da resposta que teria. ― Não precisa responder. Palhaço.

― Ah, vamos lá. Você tem observado esse cara desde que chegamos e olha que nem faz tanto tempo que saímos da escola.

― Na verdade, nós saímos há duas horas.

― Tudo bem, Sherlock. A questão aqui é que você deveria parar de incomodar o rapaz, você não parece interessado, só assustador.

― Que rapaz? ― Outra voz chegou aos seus ouvidos antes que o copo fosse colocado com rapidez sobre a mesa.

― Às dez horas, com algumas tatuagens no braço… direito, sim, é o direito sim. E, oi, amor, como foi seu dia?

― Ah, sim, o dono do estúdio de tatuagem que abriu hoje?

― Ele é tatuador? ― Suga perguntou, tentando parecer despretensioso, mas não enganava em nada nenhuma das duas pessoas presentes.

― Não faço ideia, só sei que ele é um dos donos. ― A xícara foi colocada por último, fazendo um barulho típico ao ser deixada sobre o jogo americano disperso na mesa. ― Bom, desejam mais alguma coisa?

― Menos fofoca sobre o tatuador saradão, minha resposta e meu beijo, talvez ― Hinata falou, em um tom engraçado. ― De resto, eu posso pedir depois. ― E sorriu.

― Eu tenho certeza que você tá tão curioso quanto eu ― Suga respondeu.

― Acredite, não estou ― replicou. ― E eu quero meu beijo.

Kageyama revirou os olhos aos abaixar-se para dar um beijo em sua bochecha, o que fez Shouyou soltar um resmungo em indignação. Koushi riu, tentando não olhar demais, nunca sabia o que fazer em momentos como aquele, era um tanto vergonhoso, na verdade, pelo menos em sua perspectiva de pessoa-que-dificilmente-entrava-em-romance. Aquela era a definição perfeita para tudo o que Sugawara passara até ali.

Conhecia Hinata não fazia muito tempo, porém, não havia nada mais verdadeiro que a amizade que tinha cultivado com aquele maluco idiota. Shouyou trabalhava na mesma escola que ele, duas salas depois da sua no primeiro corredor à direita. Aquilo estava gravado em sua mente desde o incidente com o chiclete verde no cabelo ruivo de Hinata, talvez houvessem se tornado amigos naquele instante, quando o baixinho surtou ao perceber o que tinha acontecido. Sugawara ria sempre que lembrava da história, o que era um completo desprazer para o seu amigo, já que o assunto sempre vinha à tona em reuniões entre os poucos amigos que havia feito em definitivo por ali.

E Kageyama… ah, Kageyama! Sugawara realmente não sabia o que dizer sobre aquela espécie de relacionamento que haviam criado entre si. Haviam se conhecido quando quando Koushi ainda estava na escola secundária, uma época meio nebulosa na vida de Oikawa. Todos sabiam que ele não estava bem, mas ninguém sabia como lidar exatamente, só Iwaizumi. Sempre Iwaizumi. As coisas estavam tão estranhas que, em algum momento de toda aquela confusão, Tobio entrou em sua sala de repente, tentando buscar sua ajuda para procurar pelo irmão. Porque todos sabiam que Kageyama era irmão de Tooru, assim como era de conhecimento geral que eles fossem de famílias diferentes.

Mas se Tobio era irmão de Tooru e Tooru era amigo de Hajime, ninguém mexeria em nenhum dos dois em momento algum, certo? Errado. E aquilo o deixava com tanta raiva que não conseguiria explicar. Suga suspirou, balançando a cabeça para expulsar aqueles pensamentos ruins. Não sabia por que estava pensando naquilo e, com toda a sinceridade que tinha em seu coração, não tinha a mínima intenção de saber.

Sua cabeça pesou quando Kageyama depositou um beijo singelo nos cabelos do marido, eles formavam um casal bonito, realmente. Suga olhou mais uma vez para Kageyama antes que seu nome fosse chamado por Nishinoya, era hora de voltar ao trabalho. Piscou um dos olhos, tentando despedir-se de forma discreta ao mandar um sorrisinho simpático. Queria ir embora dali logo.

Seus olhos recaíram mais uma vez sobre o rapaz tatuado na outra mesa sem o mesmo interesse de antes e massageou os ombros de forma discreta, estava cansado. Precisava de sua cama e, de preferência, com alguém nela.

oOo

Um suspiro pesado, apenas isso foi o bastante para que o arquivo fosse fechado com pressa. As palavras não demoraram na tela antes que fosse desligada também e as mãos que antes dançavam sobre as teclas em frenesi, agora não se moviam, não fizeram nada além de conformar-se sobre as coxas de seu dono. Outro suspiro, o corpo estava estático, não tinha intenção alguma em sair dali, assim como os olhos não puderam sair do reflexo no monitor.

Estava péssimo, aquilo tudo era péssimo, mal feito, horrendo, mal planejado e construído. Quem ele pensava que era para fazer algo tão… argh! Não gostava nem de pensar. Tinha um prazo, um maldito prazo a cumprir e ele só tinha que fazer o mesmo de sempre, não era grande coisa.

O espaço que deveria ser ocupado por um terceiro suspiro fora roubado pelo soar do alarme, o que fez Oikawa fechar os olhos e recostar-se na cadeira em que estava sentado. Eram cinco da manhã, cinco malditas horas da manhã! Onde estava com a cabeça? Riu em nervosismo, tudo estava dando errado. Não queria pensar no porquê. Na verdade, não queria pensar em nada.

Lambeu os lábios, respirando profundamente, tinha o que fazer. Tendou provavelmente o ligaria às 8h, não queria atender. Não queria ter que lidar com tudo aquilo de novo. Tinha se trancado em seu apartamento por um motivo, mas os seus problemas não o deixavam ficar só consigo mesmo, assim como não o deixavam pensar, e tudo o que ele precisava era pensar, refletir sobre caminhos a seguir. Entretanto, não havia mapa. Para onde iria sem uma bússola ou um mapa ou até mesmo um GPS?

Deveria ter corrido dali a partir do momento em que Suga bateu a porta e foi embora. Deveria mandar tudo se foder e sair um pouco daquele mundo, ir a algum lugar bom. Mas o casulo que havia criado em sua volta era resistente demais e Tooru ainda era uma pequena lagarta, não tinha asas fortes para rompê-lo. Coçou a cabeça assim que levantou, os cabelos não eram lavados há semanas, mas Oikawa não quis se mexer, o cansaço o venceria uma hora ou outra e ele não conseguiria resistir. Só que ele era um homem azarado, as coisas costumavam acontecer justamente do jeito que ele não queria.

As sete e meia da manhã, seus olhos ainda estavam abertos. O copo d’água era apertado pela mão direita, seu dono parecia estar concentrado demais em não deixá-lo cair, e realmente estava. As mordidas que dera nos lábios durante as últimas horas fizeram com que eles ficassem latentes e ardiam, assim como aquilo que guardava abaixo das pálpebras.

O celular tocou novamente e ele estremeceu, tinha recebido muitas ligações nos últimos dois dias e aquilo o desagradava de tal forma que tinha vontade de jogar o telefone contra a parede, quebrá-lo em mil pedaços e abandonar todo aquele incômodo que o rodeava. Respirou fundo antes de tocar a tela preta para atender. A voz do segundo integrante da situação ecoou por seus ouvidos diversas vezes antes que ele se concentrasse no assunto daquele diálogo ― que mais parecia um monólogo no ponto de vista de Oikawa.

Havia conhecido Tendou Satouri há cerca de três anos, quando finalmente assinou o contrato com uma das grandes editoras daquela região. A verdade era que o editor nunca realmente quis trabalhar consigo ou, pelo menos, era o que parecia até o momento em que o homem lhe confidenciou, entre várias taças de um vinho caro em comemoração ao número de vendas do seu livro, que não suportava a sua escrita, os seus enredos horrendos e até ele mesmo.

Oikawa mentiria se dissesse que não esperava por aquilo, principalmente depois de descartar várias de suas ideias naquele tempo. Liberdade criativa nunca pareceu uma expressão tão distante da sua realidade quanto nos cento e vinte dias em que trabalhou naquele projeto. Tendou costumava pegar pesado em suas críticas, mas Tooru sabia que não devia se deixar afetar por aquilo. Não devia, mas não tinha como, seu sonho estava sendo destruído pouco a pouco e não sabia como agir.

A linha ficou muda em algum momento, no entanto, Tooru não fez questão de saber o que havia acontecido. Foi muito mais fácil deixar que o celular caísse em seu colo, enquanto levava o copo vermelho a boca, para tomar o que ele pensava ser água. O líquido escorreu pelos cantos dos lábios, molhando a camisa de flanela que se acostumou a usar com o tempo. A garganta queimou a cada gole e Oikawa se perguntou em que momento do dia tinha passado da água para vodka. Talvez fosse melhor transformar água em vinho, mas não tinha aquele tipo de habilidade.

Deixou o copo sobre a mesa de centro e se acomodou um pouco mais na poltrona em que estava sentado. Os olhos fecharam vagarosamente, sendo abertos minutos depois quando seus ouvidos captaram o bater frenético na porta da frente.

Oikawa devia ter feito algo muito ruim no passado para que tudo aquilo acontecesse. Não tinha vontade de levantar para atender. Não tinha vontade de olhar para a cara de quem quer que fosse. Não queria, mas a voz o chamou e, porra, era aquela voz. Respirou fundo, pensando seriamente na ideia de ir a um centro espiritual para fazer a purificação da sua aura.

Os pés se fizeram firmes no chão e, a passos curtos e comedidos, ele caminhou até a porta para abri-la. Engoliu o seco antes de fazê-lo, porém a voz o apressou e o coração bateu mais rápido em nervosismo, o que repercutiu nos seus atos seguintes. O olhar escurecido lhe trouxe uma sensação desesperadora, não por ser desconfortável, não, não, ele nunca era desconfortável, prova disso era o sorriso acolhedor que lançava.

Não reclamou quando o braço tatuado recostou-se no batente da porta, nem quando ele mudou de postura, apenas para ficar da mesma altura que a sua. Entretanto, sentiu receio quando a mão caiu sobre seu ombro e aquele sorriso acolhedor se tornou algo mais parecido com divertimento. E quando a vez finalmente chegou aos seus ouvidos, o arrepio tomou-lhe o corpo por inteiro.

― Como vai, docinho?