QUASE CINDERELA
1 NOITE SEM FIM
Liz estava terminando de esfregar uma mancha de molho da mesa, quando viu Alicia Mendez e seus grudes, Julia e Derica, entrarem. Alicia era uma espécie de subcelebridade local. Tinha uma conta no Instagram com mais de cem mil seguidores e pais ricos que lhe compravam bolsas de 20 mil, que mal cabia o celular, como a que estava usando aquela noite.
Olhando em volta, Liz notou que Natalia — outra garçonete, estava ocupada atendendo uma mesa. Droga! Ela teria que atendê-la!
Pegando sua caneta de pelinhos azul e bloco de anotação, ela foi de encontro a elas.
—Boa noite, bem-vindos ao Carlo’S o que posso fazer por vocês essa noite? —Ela deu sua saudação padrão.
Alicia que olhava em volta, jogou o cabelo preto para trás do ombro e disse:
—Uma mesa para cinco.
Como era domingo à noite o bar estava cheio. O hambúrguer e as batatas fritas de lá eram famosos na cidade.
Liz as levou até uma mesa perto de um jukebox e de uma mesa de bilhar. Depois de todos acomodados, ela anotou os pedidos e não se surpreendeu quando as garotas pediram uma salada de couve. O chefe era um excelente cozinheiro, mas não tinha como tornar aquilo apetitoso.
Ela já estava levando os pedidos, quando Adam Gonzales entrou no bar com Kaio Sarantos. Ele usava botas de combate e jaqueta militar. O rebelde sem causa. Filho do dono de praticamente todos os prédios dali, já tinha sido preso por dirigir embriagado e outros pequenos delitos, mas caras com o dinheiro dele não sofrem consequências.
Adam também era namorado de Alicia, pessoas ricas se atraiam. No colégio o chamavam de casal pisca-pisca de tanto que terminavam e voltavam.
Liz viu Vanessa —sua prima, se apressar para ir atendê-lo. Ela nunca atendia ninguém, nas poucas vezes que descia para o bar.
Ao olhar para Alicia, Liz viu que ela tinha uma expressão nenhum pouco amigável nos olhos. Todos sabiam como ela era possessiva em relação a Adam, não que isso tivesse algum resultado já que ele estava sempre traindo ela.
Depois de terminar de servi-los, Liz foi atender outras mesas, mas ela sempre acabava dando uma espiada para os ilustres clientes daquela noite. Eles jogavam, riam e conversavam entre si enquanto Vanessa ficava do lado esperando por uma migalha que fosse de atenção.
Adam e Kaio foram jogar lançamento de dardos, os dois eram bons, mas foi Adam quem levou a melhor. Para comemorar a vitória do namorado, Alicia pulou nos braços dele e o beijou...intensamente.
Horas mais tarde, quando a maioria dos clientes já haviam ido embora, eles pediram a conta. Liz somou tudo rapidamente e colocou o recibo sobre a mesa.
Adam foi quem pegou e depois de dar uma olhada, tirou várias notas da carteira e jogou em cima da mesa. Liz odiava os clientes que faziam aquilo. Qual era o problema de entregar nas suas mãos?
—Vai ficar depois da festa, não é? —Ela ouviu Alicia perguntar enquanto mordiscava o pescoço do namorado.
—Mas não para dormir, sabe que não faço isso.
Alicia revirou os olhos.
Eles estavam saindo, quando Liz pediu que esperasse um segundo. Ela pegou as notas jogadas na mesa e contou uma por uma, não seria a primeira vez que riquinhos tentavam dar golpes.
—Está tudo certo, aqui. Obrigada e tenham uma boa noite.
Alicia arregalou os olhos.
—Achou que nós daríamos um golpe nesse muquifo, só pode estar louca.
Liz abriu um sorriso de desculpas.
—É apenas praxe.
Caio ergueu as sobrancelhas escuras, mas não disse nada. Eles estavam se afastando quando Liz ouviu Alicia a chamar de “garota idiota”, mas ela sorriu para si mesma, tinha sido uma boa sensação irritá-los.
—Era tudo o que eu precisava essa noite. —Vanessa falou pegando uma nota novinha de cem da sua mão.
—Esse é o dinheiro do bar.
Mas a prima já estava correndo para as escadas.
***
Liz já tinha fechado o bar e estava colocando as cadeiras sobre a mesa, para ir dormir, quando Vanessa surgiu. Usava um vestido vermelho justo e havia cacheado as pontas dos cabelos que ela mentia dizendo que era ruivo natural.
—Então, como estou? —Ela perguntou dando uma voltinha.
Liz deu uma olhada na prima e garantiu que ela estava muito bem. O que era verdade, Vanessa era bonita, nenhuma Alicia nem nada, mas poucas garotas eram.
—Se papai perguntar, diga que fui dormir na casa de alguma amiga.
Assim que Vanessa saiu, Liz foi terminar de limpar a lanchonete. Lavou todo o chão e limpou todas as mesas. Ela olhou para olhou para o relógio e viu que já era duas da manhã.
Quando estava subindo para seu quarto, seu celular vibrou no bolso. Viu que era uma chamada de vídeo ao vivo que Alicia estava fazendo, por curiosidade, resolveu ver o que era e fez bem. Assim que carregou, a primeira coisa que ela viu foi Vanessa fazendo um strip-tease em cima de uma cadeira. Ela já estava com o vestido na cintura e vários caras aplaudindo.
Merda! Por que que a prima sempre se metia nessas coisas?
Do jeito que Vanessa era, acabaria a noite fazendo sabe-se lá o que com algum garoto rico mimado que só vai usar ela... Liz não queria nem pensar naquilo.
Alicia morava em um bairro chique cheio de mansões igualmente deslumbrantes, Liz parou a lambreta azul que tinha comprado de segunda mão dois anos atrás, ao lado de um Audi preto.
Ela foi até as portas enormes e tocou a campainha, alguns instantes depois, um homem alto e grisalho abriu, ele se apresentou como o mordomo e mandou que ela entrasse.
A casa era enorme e luxuosa e viu várias pessoas dançando na sala, ela reconheceu a mesa onde a prima estava no vídeo, mas Vanessa não estava mais lá. Liz saiu procurando por ela. Foi até o segundo andar e viu casais praticamente se comendo pelos corredores. Uma garota tinha os peitos a amostra enquanto um cara os chupava. Credo, será que não tinha um quarto naquele lugar gigante? Ou eles acham que estavam dentro de um episódio de uma série da Netflix sobre colégios e alunos?
Liz foi testar a sorte nos banheiros. Quando abriu uma das portas, viu uma garota de joelhos na frente de um cara, ele tinha as calças baixas e as mãos apoiadas na parede a sua frente. Havia uma inscrição no quadril dele, mas ela não teve tempo de ler.
Liz viu que se tratava de Adam e a garota era uma amiga de Vanessa que estava sempre com ela, pelo que Liz sabia ela tinha namorado, mas então ele também e isso não significava nada. Ao som da porta sendo aberta, ele olhou para trás preguiçosamente.
—Está gostando do show? —Ele perguntou.
Atônita, Liz deu as costas e fechou a porta com um baque alto.
Aquele garoto não tinha nenhuma vergonha?
Nesse momento, ela viu Vanessa sendo levada para um quarto por um cara que ela não conhecia. A prima tinha a cabeça pendurada e mal conseguia ficar sobre as próprias pernas.
Liz correu até lá e entrou no quarto antes que esse pudesse trancar a porta. Ele olhou para ela assustado quando a viu.
—Sai já daqui ou eu vou gritar. —Falou.
Ele resmungou alguma coisa, mas saiu antes que ela cumprisse a ameaça.
Liz foi até a prima e chamou seu nome, mas Vanessa estava desacordada. Ela estava contente por ter ido até ali e ter chegado a tempo antes que o pior tivesse acontecido. Infelizmente, nas condições que a prima se encontrava ela não poderia mesmo ir na lambreta e Liz não tinha dinheiro para pagar um taxi.
Depois de tirar os saltos de Vanessa e colocar ela mais confortável na cama, Liz procurou o celular no bolso da calça para mandar mensagem para o tio, mas naquele momento se deu conta de que tinha o esquecido. Droga!
Vanessa certamente tinha levado o dela, ela era viciada naquela coisa, mas sua bolsa não estava lá e consequentemente seu celular também não. Ela teria que ir procurá-los.
Ao sair do quarto, Liz trancou a porta com a chave e a levou junto.
Ela logo encontrou a bolsa caída debaixo da mesa onde ela havia dançado. E escreveu uma mensagem para o tio se passando pela prima. Ela era treinada em fingir ser uma garotinha mimada que parecia ter cinco anos.
“Oi, pai sai com minhas amigas para comer e vou dormir na casa de uma delas. Te vejo amanhã. XOXO ”
Liz suspirou.
Pronto, aquela catástrofe tinha sido evitada.
Quando estava voltando para ficar com a prima no quarto, ela viu Julia beijando o namorado no corredor e Liz só pode pensar que uma hora antes ela estava chupando outro cara. Pobre do namorado dela, chupando um pau por associação.
Alguns passos mais à frente, ela viu Adam entrar em um quarto com Alicia, que tentava arrancar a jaqueta dele. Eca!
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