QUASE CINDERELA
2 Bola Certa
Os corredores do Melia College estavam cheios. O sinal ainda não havia tocado e as pessoas aproveitavam para fofocar sobre o fim de semana. Liz estava em frente a seu armário dando uma olhada na grade de horário daquele dia, quando Vanessa passou por ela com Cami, uma garota nojenta que se achava porque sua mãe tinha uma loja de sapatos de grife.
Como sempre, a prima ignorou completamente sua existência.
—Por que algumas pessoas simplesmente têm tudo de mão beijada enquanto outras tem que lutar para ter o mínimo?
Bea sua única amiga, perguntou atrás dela enquanto observava Cami se afastar.
—Porque o mundo não é justo.
Aquela foi a conclusão simples que ela tinha chegado ao longo de seus dezessete anos.
—Argh. Odeio essa frase.
Durante a educação física no campo de futebol, enquanto Bea e Liz corriam em volta do campo resfolegando, Alicia e suas amigas tomavam sol nas arquibancadas e tiravam fotos para postar no Instagram. Elas não eram obrigadas a participar das aulas, mais uma vantagem de ter dinheiro.
Os garotos jogavam futebol na outra metade do campo, a bola já tinha ido várias vezes na direção delas.
Quando a aula estava quase terminando e Liz e Bea bebiam água na lateral do campo, uma voz gritou cuidado e de repente uma dor forte assolou o ombro de Liz e ela caiu de bunda no chão derramando o restante da sua água.
—Ai meu Deus, você está bem? —Bea perguntou ajudando a amiga a se levantar.
Liz podia ouvir as risadas das outras garotas.
Ela olhou em volta para ver quem tinha sido o filho da P*** que tinha acertado a bolada nela, mas todos faziam cara de paisagem enquanto tentavam não rir. Kaio saiu do meio deles.
—Ei, você pode jogar a bola de volta? —Ele pediu.
Com os punhos cerrados, Liz olhou em volta procurando a dita cuja e assim que a viu, deu um forte chute para o lado oposto ao que eles estavam.
Devolvida. —Ela disse e saiu pisando duro.
Ela ignorou os resmungos e palavrões do grupo e foi em direção ao vestiário.
—Aquilo foi demais! Você é minha heroína! —Bea disse quando alcançou Liz.
Mas ela não se sentiu uma heroína, sentiu dor. Assim que entrou no vestiário, tirou a blusa viu um enorme hematoma vermelho. Ela começou a massageá-lo
Bea foi até seu armário e pegou um spray para alívio de dores musculares que eles mantinham lá. Nenhum treino acabava sem alguém contundido. Já na primeira borrifada Liz sentiu um enorme alívio.
A dor não sumiu por completo, mas ficou suportável o suficiente para assistir o restante das aulas, embora vez ou outra ela emitisse um resmungo de dor.
Aquela noite, foi difícil trabalhar com o ombro doendo. Liz tinha que carregar bandejas pesadas o tempo todo de um lado para o outro. Não tinha nem três horas que o bar havia aberto as portas e ela já tinha quebrado dois copos e um prato. Natalia perguntou o que estava acontecendo com ela, mas Liz disse que não era nada.
Quando ela finalmente subiu para o quarto aquela noite, encontrou Vanessa esperando por ela no corredor com os braços cruzados.
—Como você explica isso? —Ela perguntou mostrando o celular.
Liz teve que se aproximar para ver do que ela estava falando e viu um vídeo se repetindo da bola acertando-a e ela caindo no chão. Ah não! Ela olhou para a foto de perfil, para ver quem tinha filmado e postado aquilo. Não ficou nenhum pouco surpresa quando viu que tinha sido Alicia.
—Levei uma bolada na Educação Física, cai e aquela garota idiota filmou.
—Não é disso que eu estou falando! Sabe como fica eu ter as pessoas rindo de você, isso me faz parecer uma chacota também.
Estava explicado!
—Deve ser horrível mesmo.
—Não haja com condescendência! Você mora na minha casa de favor, o mínimo que pode fazer é não me envergonhar para meus amigos.
Liz não morava de favor. Ela trabalhava duro e ainda contribuía com as despesas da casa com o pouco que ganhava. Mas ela preferia não aumentar aquela discussão e simplesmente se virou e entrou no seu quarto.
Aquele quarto, tinha sido improvisado quando ela foi morar com o tio seis anos atrás. Ali antes era uma dispensa, mas ao longo dos anos, ela conseguiu transformar e deixar minimamente aconchegante. Pintou as paredes sujas e manchadas de mofo e colou fotos de lugares que sonhava conhecer e alguns delas mesma.
Liz procurou alguns anti-inflamatórios na gaveta da mesinha improvisada de estudo e engoliu sem água, não queria descer e topar com Vanessa de novo.
Liz viu as pessoas rindo dela no dia seguinte no colégio. Estava claro que todos tinham visto o vídeo, a escola inteira seguia Alicia. Como se as fotos de tudo o que ela comia e vestia fosse de extrema importância. E por falar no diabo, ela surgiu do outro lado do corredor, com Derica e Julia em seu encalço.
Ela foi até onde Liz estava.
—O que está achando dos seus quinze minutos de fama? Não consegui achar seu perfil para te marcar.
—Não tenho rede-social, isso apodrece o cérebro.
Liz viu que as pessoas paravam para observar a cena.
― Oh, uma velha escola, que legal.
Mas sua expressão e tom de voz parecia gritar bizarra.
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