QUANDO O CORAÇÃO RECONHECE

5 CAPÍTULO 4 - A única que sempre ficou



Havia três coisas que eu sabia sobre Sarah Swan com absoluta certeza.

A primeira era que ela não conseguia atravessar uma sala sem encontrar alguma coisa para bater, derrubar ou tropeçar.

A segunda era que, quando dizia “não é nada”, quase sempre era alguma coisa.

E a terceira era que eu estava apaixonado por ela havia tempo demais.

O problema era que Sarah não fazia ideia da terceira.

E, considerando minha extraordinária capacidade de transformar qualquer tentativa de falar sobre sentimentos em uma piada ou uma mudança de assunto, provavelmente continuaria sem fazer ideia por bastante tempo.

Eu a observava do outro lado da mesa enquanto ela roubava batatas do meu prato.

Não uma.

Não duas.

A quarta.

— Você tem batata — lembrei.

Sarah mastigou tranquilamente.

— Já discutimos isso.

— Não. Você decidiu que as minhas são melhores sem qualquer fundamento científico.

— Existe fundamento.

— Qual?

Ela apontou para o meu prato.

— Estão aí.

Olhei para as batatas dela.

Depois para as minhas.

— São exatamente iguais.

Sarah fez aquela expressão de profunda paciência que costumava usar quando acreditava estar explicando alguma coisa muito simples para uma pessoa particularmente limitada.

— Jacob, você precisa aprender uma coisa importante sobre a vida. A comida dos outros sempre é melhor.

— Isso não faz sentido.

— Nem tudo precisa fazer sentido.

— Você é analista financeira.

— No trabalho. Durante o almoço eu sou uma pessoa livre das amarras da racionalidade.

Pegou outra.

Segurei seu pulso.

— Sarah.

Ela olhou para minha mão.

Depois para mim.

— Você está realmente disposto a destruir vinte anos de amizade por uma batata?

Eu deveria ter soltado.

Não soltei imediatamente.

O pulso dela era pequeno dentro da minha mão.

Seus olhos verdes me encaravam por trás daquelas lentes absurdamente grossas.

Uma mecha de cabelo havia escapado e estava presa na lateral dos óculos.

Sarah provavelmente não tinha percebido.

Eu percebia essas coisas.

Sempre percebia.

— Vinte anos? — perguntei.

— Aproximadamente.

— Você tem memória seletiva.

— Tenho excelente memória.

— Você esqueceu meu aniversário quando tinha dezesseis.

— Não esqueci.

— Esqueceu.

— Eu confundi o dia.

— Com o aniversário do Paul.

Sarah fez uma careta.

— Foi um período difícil.

— Você comprou presente para ele.

— E você ficou com o presente.

— Era uma camiseta tamanho pequeno.

Ela começou a rir.

Soltei seu pulso.

Sarah roubou mais duas batatas.

— Trapaceira.

— Inteligente.

— Ladra.

— Vencedora.

E foi naquele momento, enquanto ela ria de mim com um aparelho nos dentes, óculos que provavelmente poderiam ser usados para observar crateras na Lua e uma combinação de roupas que faria Alice considerar abandonar a carreira na moda, que pensei pela milésima vez:

Como essa mulher consegue não saber?


Não lembrava exatamente quando comecei a amar Sarah.

Essa era uma das perguntas que me incomodavam porque eu gostava de respostas precisas.

Uma data.

Um momento.

Alguma espécie de divisor.

Não existia.

Sarah simplesmente estava lá.

Primeiro era a menina que aparecia em casa com os joelhos ralados.

Depois a garota que fazia o dever de matemática comigo e ficava furiosa porque eu não entendia uma equação que, segundo ela, “até uma ameba resolveria”.

Depois veio a adolescente que começou a conversar comigo sobre garotos.

Eu odiei aquela fase.

Ela nunca percebeu.

Talvez porque eu fosse muito bom em fingir.

Ou talvez porque Sarah fosse completamente incapaz de acreditar que eu pudesse sentir ciúme dela.

A primeira vez que apareceu na minha casa dizendo que um garoto da escola a tinha convidado para sair, quase engasguei com refrigerante.

— Quem? — perguntei.

Ela disse o nome.

Não lembro mais.

Lembro apenas de ter passado os quinze minutos seguintes explicando por que o sujeito era um idiota.

Sarah me ouviu.

Depois cruzou os braços.

— Você nem conhece ele.

— Conheço o suficiente.

— Você falou com ele duas vezes.

— Foram duas conversas muito reveladoras.

— Você perguntou se ele tinha uma caneta.

— E ele não tinha.

— Isso é seu argumento?

— Homem que não carrega caneta não é confiável.

Sarah ficou me olhando.

— Você é completamente maluco.

Ela saiu comigo naquela noite.

O garoto sem caneta nunca teve chance.

Eu tinha dezessete anos e me considerei brilhante.

Anos depois percebi que havia cometido um erro.

Porque toda vez que afastava alguém dela, Sarah interpretava como mais uma prova de que eu era o melhor amigo protetor.

E eu nunca corrigia.


— Jacob.

Voltei ao presente.

Sarah estava me olhando.

— O quê?

— Você desapareceu.

— Estou aqui.

— Fisicamente.

— Estava pensando.

Ela levou a mão ao peito.

— Você?

— Engraçadinha.

— Quer conversar?

— Sobre?

— O que estava pensando.

— Não.

— Então por que fica me encarando?

Droga.

— Não estava encarando.

— Estava.

— Estava olhando.

— Qual a diferença?

Pensei em responder:

A diferença é que eu estava pensando em como seria beijar você.

Em vez disso, peguei meu copo.

— Você está com molho no rosto.

Sarah imediatamente passou a mão na bochecha errada.

— Aqui?

— Outro lado.

Passou no queixo.

— Aqui?

— Meu Deus.

Peguei um guardanapo.

Inclinei-me.

Sarah ficou imóvel quando limpei o pequeno ponto de molho próximo ao canto de sua boca.

Muito perto.

Perto demais.

Os olhos dela encontraram os meus.

Por um segundo, Sarah não fez piada.

Eu também não.

Meu polegar estava perigosamente próximo de sua boca.

Bastaria diminuir alguns centímetros.

Só isso.

Então ela piscou.

— Pronto?

Afastei a mão.

— Pronto.

Sarah sorriu.

— Obrigada, mãe.

Fechei os olhos.

— Você acabou de me chamar de mãe?

— Você limpa meu rosto, manda eu dormir, pergunta se comi...

— Sarah.

— Falta começar a carregar lenço.

— Eu posso deixar você com molho na cara da próxima vez.

— Não faria isso.

— Faria.

— Não faria.

— Por que tem tanta certeza?

Ela pegou outra batata do meu prato.

— Porque você cuida de mim.

Sim.

Eu cuidava.

Só não do jeito que ela imaginava.


Voltamos para a empresa pouco depois das duas.

Sarah falava sobre alguma mudança que queria fazer no modelo das projeções financeiras.

Eu deveria estar ouvindo.

Estava tentando.

Então ela tropeçou na entrada do elevador.

Segurei seu braço.

— Impressionante.

Ela recuperou o equilíbrio.

— O elevador está desnivelado.

Olhei para o chão.

— Não está.

— Um milímetro já é suficiente.

— Para uma pessoa normal, não.

— Você está me chamando de anormal?

— Estou evitando termos ofensivos.

Ela apertou o botão do décimo oitavo andar.

— Um dia eu vou deixar você cair e não ajudar.

— Eu quase nunca caio.

Olhei para ela.

Sarah sustentou minha expressão durante aproximadamente dois segundos.

— Está bem. Às vezes.

Continuei olhando.

— Frequentemente.

Levantei uma sobrancelha.

— Quase diariamente.

— Melhor.

As portas se fecharam.

Ficamos sozinhos.

Sarah encostou-se à parede.

— Obrigada pelo almoço.

— Gostou?

— Muito.

— Mesmo eu tendo sido obrigado a proteger minhas batatas?

— Principalmente por isso.

Sorri.

Ela também.

E então Sarah fez uma coisa completamente banal.

Tirou os óculos.

Limpou as lentes na barra da camisa.

Só isso.

Eu fiquei olhando.

Sem as lentes grossas, seus olhos pareciam maiores.

Verdes.

Sempre foram bonitos.

Eu sabia disso desde criança.

— O quê? — perguntou.

— Nada.

Sarah recolocou os óculos.

— Você está fazendo muito isso ultimamente.

— Isso o quê?

— Me olhando e dizendo “nada”.

As portas se abriram.

Fui salvo pelo elevador.

— Trabalho, Swan.

Ela saiu.

— Covarde.

Fiquei parado.

— O quê?

Sarah caminhou de costas.

— Você ouviu.

— Volta aqui.

— Tenho trabalho!

Ela virou-se.

Deu três passos.

Bateu o ombro na lateral de uma porta.

— Ai!

Comecei a rir.

Sarah virou-se furiosa.

— Ninguém viu!

— Eu vi.

— Você não conta.

— Quanto vale meu silêncio?

Ela mostrou o dedo médio.

— Isso não é pagamento.

— É tudo que vai receber.

E foi embora.

Eu continuei sorrindo.


— Você é patético.

Virei-me.

Paul estava atrás de mim.

— O que você quer?

— Nada.

— Então vai embora.

Ele olhou na direção em que Sarah desaparecera.

Depois voltou para mim.

— Quantos anos mais?

— Do que está falando?

— Disso.

— Disso o quê?

Paul imitou minha expressão de alguns segundos antes, colocando uma mão dramaticamente sobre o peito.

— “Sarah...”

— Eu não faço essa cara.

— Faz pior.

Entrei na minha sala.

Paul entrou atrás.

— Não convidei.

— Amizade não precisa de convite.

— Você só usa esse argumento quando quer me irritar.

— Funciona.

Sentei-me.

Paul permaneceu de pé.

— Você vai contar?

— Contar o quê?

— Jacob.

— Paul.

— Você ama aquela mulher desde que éramos praticamente adolescentes.

— Fala baixo.

— Por quê? Ela está a cinquenta metros daqui e provavelmente brigando com uma impressora.

Olhei para a parede de vidro.

Paul sentou-se.

— Sério. Por que nunca contou?

— Não é tão simples.

— É exatamente simples.

— Para você tudo é simples.

— Porque às vezes vocês complicam coisas que não precisam ser complicadas.

— Ela não me vê assim.

Paul ficou em silêncio.

Depois começou a rir.

— O que foi?

— Você é presidente de uma empresa que movimenta milhões de dólares.

— E?

— E é completamente idiota.

— Sai da minha sala.

— Sarah não te vê assim porque você passou metade da vida tratando ela como se fosse feita de vidro e a outra metade namorando mulheres que parecem modelos.

— Uma coisa não tem relação com a outra.

— Tem toda relação do mundo.

Inclinei-me para a frente.

— E o que queria que eu fizesse? Aos dezessete anos chegasse e dissesse: “Oi, Sarah, somos amigos desde crianças, mas agora comecei a pensar na sua boca”?

Paul pensou.

— Um pouco mais romântico seria recomendável.

— Exatamente.

— E depois?

— Depois o quê?

— Você tinha dezoito. Depois dezenove. Vinte. Vinte e cinco...

— Obrigado pela cronologia.

— Estou tentando entender em qual década pretende agir.

Respirei fundo.

— Ela acha que sou irmão dela.

Paul apontou para mim.

— Porque você deixou.

Aquilo me irritou porque era verdade.

— E agora?

— Agora conta.

— E se estragar tudo?

Paul ficou sério.

— Finalmente chegamos.

Não respondi.

Ele continuou:

— Você não tem medo de Sarah não sentir a mesma coisa. Tem medo de perder o que já tem.

Olhei para ele.

— Ela é minha melhor amiga.

— Eu sei.

— Minha vida inteira está misturada com a dela. Minha família é a família dela. Isabella entra na casa do meu pai sem bater. Billy trata Sarah como filha. Eu não lembro de uma fase da minha vida em que ela não estivesse lá.

— Eu sei.

— Então não me diga que é simples.

Paul ficou quieto.

Eu respirei fundo.

— Se eu falar e ela não sentir o mesmo, posso perder tudo isso.

— Talvez.

— Excelente conselho.

— Mas talvez esteja perdendo outra coisa ficando calado.

Olhei para ele.

Paul levantou-se.

— Só pensa.

Foi até a porta.

— E Jacob?

— O quê?

Ele sorriu.

— Ela não te chama de irmão.

— Quase chama.

— Ela chama você de idiota, arrogante, ditador, metido e algumas coisas que provavelmente violam a política interna da empresa. Mas nunca de irmão.

Ele saiu.

Fiquei olhando para a porta.

Maldito Paul.


Trabalhei durante algumas horas.

Ou tentei.

No final da tarde, Aro entrou na minha sala.

— Tem um minuto?

— Para você, sempre.

Ele sentou-se.

Aro fazia parte da minha vida desde antes de eu entender o que ele fazia na empresa.

Era amigo do meu pai.

Conselheiro.

Quase família.

Quando Billy começou a reduzir sua participação nas operações, Aro foi uma das pessoas que mais me ajudaram na transição.

Colocou uma pasta diante de mim.

— Europa.

— Finalmente alguém vai resolver meu problema.

Aro riu.

— Seu problema é querer resolver em três meses o que seu pai levaria um ano para fazer.

— Sarah disse praticamente a mesma coisa.

— Mulher inteligente.

— Não diga isso na frente dela. Vai ficar insuportável.

Aro sorriu.

— Ela sempre foi inteligente.

— Demais.

— Billy percebeu muito cedo.

Abri a pasta.

— Ela é provavelmente a melhor analista que temos.

— Provavelmente?

Olhei para ele.

Aro arqueou uma sobrancelha.

— Não deixe sua modéstia administrativa diminuir os méritos da garota.

Sorri.

— Está bem. É a melhor.

— Melhor.

Continuei lendo.

Aro ficou em silêncio por alguns segundos.

— Vocês almoçaram juntos hoje.

Levantei os olhos.

— Como sabe?

— Vi vocês chegando.

— Ah.

Ele sorriu.

— Ainda naquele restaurante?

— Sim.

— Vocês iam lá quando eram adolescentes.

— Você lembra?

— Jacob, eu conheço vocês há anos.

Fechei a pasta.

— Ela continua roubando minhas batatas.

Aro riu.

— Algumas coisas não mudam.

— Infelizmente.

Ele me observou.

— Talvez isso seja bom.

— O quê?

— Algumas coisas não mudarem.

Pensei em Sarah.

— Talvez.

Aro voltou ao assunto da Europa.

E, durante a hora seguinte, discutimos negócios.

Eu não tinha qualquer motivo para desconfiar dele.

Nenhum.

Se alguém naquela tarde me dissesse que Aro Volturi seria capaz de prejudicar minha família, eu provavelmente teria defendido seu nome.


Já passava das oito quando saí da sala.

O setor financeiro estava quase vazio.

Quase.

Vi a luz.

Sarah.

Claro.

Caminhei até sua mesa.

Ela estava tão concentrada que não percebeu minha aproximação.

Tinha três planilhas abertas.

Alguns documentos espalhados.

E aquela expressão.

Aquela que significava que alguma coisa não estava fechando.

Parei diante dela.

— Sarah.

Ela deu um pulo.

Imediatamente mudou uma das janelas na tela.

Percebi.

— Você precisa parar de fazer isso!

— Eu falei seu nome.

— Você apareceu do nada!

— Estou com sapato social. Faço barulho.

— Não o suficiente.

Olhei para o monitor.

— O que está fazendo?

— Trabalhando.

— Isso eu percebi.

Ela começou a organizar os papéis.

— Estou revisando fornecedores.

— Agora?

— Perdi a hora.

— São oito e vinte.

Sarah olhou para o relógio.

— Droga.

— Vai para casa.

— Só preciso terminar...

— Não.

Ela me encarou.

— Não?

— Amanhã você termina.

— Jacob, estou no meio de uma coisa.

— E amanhã a coisa continuará aqui.

Sarah suspirou.

— Você é muito mandão.

— Sou seu chefe.

— Essa desculpa está ficando velha.

— E você está cansada.

— Não estou.

Nesse momento ela bocejou.

Fiquei olhando.

Sarah fechou a boca.

— Isso não prova nada.

— Claro.

— Foi falta de oxigênio.

— Levanta.

— Jake...

— Eu te levo.

— Estou de carro.

— Então vou com você até o estacionamento.

Ela estreitou os olhos.

— Por quê?

— Porque quero.

— Tenho vinte e tantos anos.

— Parabéns.

— Sei andar sozinha.

Olhei para ela.

Sarah apontou para mim.

— Não.

— Eu não disse nada.

— Pensou.

— Só pensei na coluna de ontem.

— Aquela coluna apareceu do nada.

Comecei a rir.

Ela desligou o computador.

— Idiota.

Pegou a bolsa.

Depois alguns papéis.

Depois o celular.

Depois tentou pegar um copo vazio.

— Me dá isso.

— Eu consigo.

— Sarah.

— Jacob.

Peguei os papéis da mão dela.

— Pronto.

— Controlador.

— Eficiente.

Seguimos pelo corredor.


No estacionamento, chegamos ao carro dela.

Sarah procurou a chave dentro da bolsa.

Trinta segundos.

Um minuto.

— Quer ajuda?

— Não.

— Sarah...

— Eu sei onde está.

— Onde?

— Na bolsa.

— Isso eu deduzi.

Ela continuou procurando.

Tirou uma carteira.

Um pacote de lenços.

Dois batons.

Uma caneta.

Um pequeno caderno.

Um pacote de biscoitos.

— Você tem comida aí?

— Emergência.

— Há quanto tempo esse biscoito está na bolsa?

Sarah olhou a validade.

— Não interessa.

Continuou.

Finalmente encontrou a chave.

— Viu?

— Estou impressionado.

— Nunca duvide de mim.

Ela abriu a porta.

Então parou.

— Jake?

— Hum?

— Obrigada pelo almoço.

Sorri.

— Já agradeceu.

— Eu sei.

— Então por que está agradecendo de novo?

Sarah deu de ombros.

— Gostei.

— Podemos repetir.

— Sem Paul e Emmett?

— Principalmente sem eles.

Ela sorriu.

— Combinado.

Ficamos nos olhando.

Outra vez.

Eu poderia dizer.

Talvez Paul estivesse certo.

Talvez eu tivesse passado anos esperando por um momento perfeito que nunca existiria.

— Sarah...

— Hum?

Olhei para ela.

Os óculos enormes.

O cabelo começando a escapar do coque.

O aparelho aparecendo discretamente quando sorria.

Aquela saia horrorosa que Alice provavelmente já havia tentado queimar.

Sarah.

Minha Sarah.

— O quê? — perguntou.

Eu tinha as palavras.

Quase.

Então um carro buzinou atrás de nós.

Sarah levou um susto.

— Meu Deus!

Virou rápido demais.

Bateu o quadril na porta.

— Ai!

Fechei os olhos.

O momento desapareceu.

— Você está bem?

— Estou!

— Bateu forte.

— Minha dignidade sofreu mais.

Comecei a rir.

Sarah apontou para mim.

— Péssimo amigo.

Amigo.

A palavra caiu entre nós.

— Boa noite, Jake.

Ela beijou meu rosto.

Entrou no carro.

— Me manda mensagem quando chegar.

Sarah colocou o cinto.

— Sim, mãe.

— Sarah.

— Vou mandar!

Fechou a porta.

Esperei até o carro desaparecer na saída.


Mais tarde, deitado na cama, recebi uma mensagem.

Cheguei. Nenhuma árvore, poste ou ser humano foi ferido durante o trajeto.

Sorri.

Respondi:

Milagre.

Sarah:

Vai dormir. Você está velho e precisa descansar.

Eu:

Você me chamou de bonito ontem e de velho hoje. Decida.

Demorou alguns segundos.

Eu NÃO te chamei de bonito.

Sorri.

Chamou.

Os três pontinhos apareceram.

Sumiram.

Voltaram.

Boa noite, Jacob.

Eu:

Fugindo do assunto?

Sarah:

DORME.

Eu ri sozinho.

Depois escrevi:

Boa noite, Sarinha.

A resposta demorou um pouco.

Boa noite, Jake ❤️

Fiquei olhando para o pequeno coração na tela.

Ridículo.

Era provavelmente um coração de amizade.

Sarah colocava corações em mensagens para Alice.

Para Isabella.

Talvez até para Emmett.

Ainda assim, fiquei olhando.

Paul estava certo sobre uma coisa.

Eu tinha medo.

Não de Sarah.

Nunca dela.

Tinha medo de dizer que a amava e transformar a única relação da minha vida que nunca precisara de esforço em alguma coisa complicada.

Sarah sempre estivera ali.

Nos aniversários.

Nas férias.

Nos piores dias.

Nos melhores.

Quando minha mãe morreu.

Quando meu pai adoeceu.

Quando assumi a empresa.

Quando tudo mudava, Sarah continuava sendo Sarah.

Minha certeza.

Minha casa.

Talvez fosse por isso que eu adiava.

Porque, no fundo, acreditava que teria tempo.

Tempo para criar coragem.

Tempo para encontrar o momento certo.

Tempo para dizer a ela que nunca a enxergara como irmã.

Que cada mulher com quem eu estivera tinha precisado dividir espaço com alguém que nem sequer sabia que estava competindo.

Que Rosalie tinha percebido.

Que Angela tinha percebido.

Que Paul e Emmett sabiam.

Provavelmente Alice também.

Todo mundo parecia saber.

Menos Sarah.

Sorri olhando para a última mensagem.

Boa noite, Jake ❤️

Apaguei a tela.

Amanhã ela estaria lá.

Provavelmente chegaria com café derramado na roupa.

Provavelmente reclamaria de alguma coisa.

Provavelmente roubaria minha comida.

E eu teria outra oportunidade.

Era isso que eu pensava.

Que sempre haveria amanhã.

Que Sarah sempre estaria ali.

Eu ainda não sabia que algumas certezas só revelam o tamanho que ocupavam dentro de nós quando são arrancadas.

E que chegaria o dia em que eu daria qualquer coisa para ouvir Sarah Swan me chamar de idiota mais uma vez.