QUANDO O CORAÇÃO RECONHECE

6 CAPÍTULO 6 -O lugar onde ela deveria estar



Existem momentos em que o tempo deixa de funcionar normalmente.

Eu descobri isso naquela noite.

Os minutos podiam durar horas.

As horas podiam desaparecer sem que eu percebesse.

E toda vez que alguém saía da margem do rio caminhando na minha direção, o tempo simplesmente parava.

Eu olhava para o rosto da pessoa antes mesmo que ela falasse.

Tentava descobrir pela expressão.

Encontraram?

Está viva?

Está ferida?

Está morta?

Depois vinha sempre alguma versão da mesma resposta.

— Ainda nada.

E o mundo voltava a funcionar.

Mal.


O carro de Sarah foi retirado da água pouco depois das quatro da manhã.

Eu estava lá.

Não deveriam ter deixado.

Paul tentou impedir.

— Jake, não precisa ver isso.

— Preciso.

— Não vai ajudar.

— Eu preciso ver.

Ele segurou meu braço.

— Jacob...

Eu me soltei.

— Se fosse Rachel, você iria?

Paul ficou em silêncio.

Não precisei repetir.

Caminhamos até onde estavam retirando o carro.

Ou o que restava dele.

A parte dianteira estava destruída.

Um dos lados amassado.

O vidro quebrado.

Quando vi aquilo, alguma coisa dentro de mim cedeu.

Sarah estava ali.

Minha Sarah estava dentro daquele carro quando ele caiu da ponte.

Eu tinha ouvido.

Ouvido o medo na voz dela.

Ouvido o impacto.

Ouvido meu nome.

Fechei os olhos.

Por um segundo, voltei para aquela ligação.

Jake...

Estou aqui.

Eu não consigo parar.

Você vai conseguir.

Mentiroso.

Eu tinha dito que ela conseguiria.

Tinha prometido com a certeza de um idiota que acreditava que querer alguma coisa com força suficiente era capaz de fazê-la acontecer.

— Jake.

Paul tocou meu ombro.

Abri os olhos.

— Tem sangue.

Ele não respondeu.

Eu conseguia ver.

No banco.

Pouco.

Mas havia.

Um policial aproximou-se.

— Senhor Black?

— Encontraram alguma coisa?

— O cinto estava destravado e uma das janelas foi quebrada de dentro para fora.

Demorei alguns segundos para entender.

— Ela saiu.

— É uma possibilidade.

— Não. — Olhei para ele. — Ela saiu.

— Senhor...

— O martelo.

Paul me olhou.

— Que martelo?

Eu quase ri.

Não havia nada engraçado.

Mesmo assim, lembrei.

— Isabella deu um martelo de emergência para ela.

— Sarah tinha aquilo no carro?

— Tinha. Ela riu durante uma semana. Disse que a irmã assistia a vídeos demais na internet.

Olhei novamente para o vidro.

— Ela quebrou.

O policial manteve a cautela.

— É possível.

— Então ela saiu.

— Ainda precisamos considerar...

— Ela saiu daquele carro.

Minha voz ficou mais alta.

Paul segurou meu braço.

— Jake.

— Se ela quebrou a janela e soltou o cinto, ela saiu!

O policial assentiu.

— É exatamente por isso que estamos ampliando as buscas rio abaixo.

Pela primeira vez em horas, consegui respirar.

Sarah tinha saído.

Ferida.

Talvez inconsciente.

Talvez presa em algum lugar.

Mas saíra.

Ela estava lá.

Esperando.

E nós iríamos encontrá-la.


A bolsa apareceu às seis e vinte e três.

Eu sei o horário porque olhei para o relógio quando ouvi alguém gritar.

Corri.

Um dos homens da equipe de busca vinha da margem carregando uma bolsa coberta de lama.

Reconheci antes mesmo de chegar perto.

Marrom.

Grande demais.

Pesada demais.

A bolsa que Sarah carregava praticamente todos os dias.

— É dela.

O policial colocou uma mão diante de mim.

— Senhor, precisamos preservar...

— É dela.

— Nós sabemos.

— Onde encontraram?

— Aproximadamente três quilômetros rio abaixo.

Meu coração acelerou.

— Então ela foi levada pela correnteza.

— É possível.

— Abram.

— Senhor Black...

— Abram a bolsa.

O homem hesitou.

Eu perdi a paciência.

— Ela me disse que havia alguma coisa dentro!

Aro estava alguns passos atrás.

Percebi seu movimento.

— O quê? — perguntou.

Olhei para ele.

A lembrança voltou.

O pendrive está na minha bolsa.

Tem tudo.

Os desvios...

Aro.

Por alguns segundos, apenas encarei aquele homem.

Aro parecia exausto.

A camisa estava molhada.

Os cabelos, normalmente impecáveis, estavam desarrumados.

Ele passara boa parte da madrugada organizando equipes particulares.

Tinha telefonado para contatos.

Conseguira mais mergulhadores.

Providenciara barcos.

Fizera tudo que eu sequer conseguia pensar em fazer.

Ainda assim, ouvi novamente a voz de Sarah.

Eu acho que foi Aro.

— Um pendrive — respondi.

Aro franziu a testa.

— Pendrive?

— Ela disse que estava na bolsa.

O policial abriu cuidadosamente.

Carteira.

Maquiagem.

Caderno.

Canetas.

Um pacote de biscoitos completamente destruído pela água.

Reconheci.

Na noite anterior eu tinha perguntado havia quanto tempo aquele pacote estava na bolsa.

Tive vontade de vomitar.

— Continua.

Celular.

Quebrado.

Chaves.

Documentos molhados.

Uma pequena nécessaire.

Nada.

— Tem um bolso interno.

O policial abriu.

Vazio.

— Não.

Aproximei-me.

— Tem que estar aí.

— Não há nenhum pendrive.

— Ela disse que estava.

Paul se aproximou.

— Pode ter caído quando ela saiu do carro.

— Estava num envelope.

Aro falou atrás de mim:

— Se a bolsa abriu dentro da água, qualquer coisa pequena pode ter sido levada.

Olhei para ele.

— Ela disse seu nome.

Aro ficou imóvel.

Paul também.

— Meu nome? — Aro perguntou.

— Antes do acidente.

O rosto dele demonstrou surpresa.

— O que ela disse?

Eu tentava lembrar exatamente.

Tudo se misturava.

O barulho da chuva.

Minha voz.

O desespero dela.

O carro.

Foi ele.

Quem?

O pendrive está na minha bolsa.

Os desvios...

Aro.

— Ela estava investigando desvios.

Aro não respondeu imediatamente.

— Desvios da empresa?

— Acho que sim.

— E mencionou meu nome?

— Sim.

Aro olhou para a bolsa.

Depois para mim.

— Então precisamos descobrir por quê.

Eu esperava defesa.

Negação.

Indignação.

Ele não fez nada disso.

Apenas continuou:

— Assim que encontrarmos Sarah, ela explica. Até lá, vou mandar preservar os servidores e levantar tudo em que ela estava trabalhando.

— Não.

Aro parou.

— Ninguém mexe no computador dela.

— Jacob...

— Ninguém.

Ele assentiu.

— Tudo bem.

Sem discutir.

Sem perguntar.

— Você decide.

Aquilo me confundiu ainda mais.

Aro tocou meu ombro.

— Mas primeiro encontramos Sarah.

Olhei para o rio.

Sim.

Todo o resto podia esperar.


As primeiras vinte e quatro horas foram as piores.

Depois descobri que estava errado.

As segundas foram piores.

E as terceiras.

Cada hora sem encontrar Sarah transformava esperança em alguma coisa mais difícil de sustentar.

As equipes avançavam rio abaixo.

A correnteza estava forte por causa da chuva.

Buscavam nas duas margens.

Mergulhadores entravam em pontos considerados críticos.

Drones sobrevoavam trechos de mata.

Aro contratou uma segunda equipe particular.

Depois uma terceira.

— Quanto isso está custando? — perguntei em algum momento.

Ele me olhou como se eu tivesse dito algo absurdo.

— Você realmente acha que isso importa?

Não.

Não importava.

— Faça tudo.

— Já estou fazendo.

— Se precisar de helicóptero...

— Já consegui.

Olhei para ele.

— Obrigado.

Aro colocou a mão no meu ombro.

— Não agradeça. Eu conheço Sarah desde que ela era uma menina.

Sua voz falhou discretamente.

— Nós vamos trazê-la para casa.

Eu quis acreditar.

Deus, como quis.


Na segunda noite, Isabella desmoronou.

Até então, tinha se mantido estranhamente funcional.

Respondia perguntas.

Falava com policiais.

Separava fotografias.

Passava informações médicas.

Então alguém perguntou se Sarah possuía alguma cicatriz que pudesse ajudar numa identificação.

Identificação.

A palavra bastou.

Isabella simplesmente parou.

— Cicatriz?

O policial falou com cuidado:

— É procedimento, senhorita Swan.

— Para identificar o corpo?

Silêncio.

— Isa... — tentei.

Ela virou para mim.

— Eles estão procurando um corpo?

— Não.

— Jacob.

— Estamos procurando Sarah.

— Você ouviu o que ele perguntou!

Ela começou a chorar.

— Minha irmã está viva.

Eu a abracei.

— Eu sei.

— Ela está viva.

— Eu sei.

— Você prometeu que iam encontrar.

Fechei os olhos.

Outra promessa.

— Vão encontrar.

Isabella apertou minha camisa.

— Ela não pode me deixar sozinha.

Aquilo me destruiu.

Porque eu não sabia o que responder.

Sarah jamais deixaria Isabella sozinha.

Se tivesse escolha.


Naquela mesma noite, a muitos quilômetros dali, uma mulher sem documentos permanecia ligada a aparelhos em um hospital pequeno.

Eu não sabia.

Ninguém sabia.

Ela havia sido encontrada ainda durante a madrugada por um homem que verificava danos provocados pela chuva em uma área próxima à margem do rio.

Estava inconsciente.

Ferida.

Sem bolsa.

Sem celular.

Sem documentos.

A correnteza a carregara por quilômetros.

O resgate a levara ao hospital mais próximo como mulher não identificada.

Traumatismo craniano.

Fraturas.

Hipotermia.

Aspiração de água.

E nenhuma condição de dizer o próprio nome.

Sarah Swan estava viva.

Mas, para nós, continuava desaparecida.


No terceiro dia, fui obrigado a voltar à empresa.

Não queria.

Billy praticamente me empurrou.

— Você precisa tomar banho, dormir algumas horas e resolver algumas coisas.

— Não vou trabalhar enquanto ela estiver desaparecida.

— Não pedi que trabalhasse.

Meu pai estava sentado diante de mim.

Parecia ter envelhecido dez anos em três dias.

— Pedi que aparecesse.

— Por quê?

— Porque há quatrocentas pessoas naquela empresa esperando notícias e ninguém sabe o que fazer.

— Eu também não sei.

Billy ficou em silêncio.

— Eu sei.

A frase foi pior do que qualquer ordem.

Passei as mãos pelo rosto.

— Ela deveria estar lá.

— Eu sei.

— A mesa dela está vazia.

Billy fechou os olhos.

— Eu sei, filho.

— Não consigo entrar naquele andar.

Meu pai aproximou-se.

— Então não entra.

Olhei para ele.

— Faça o que conseguir.

Assenti.

Foi assim que voltei.


O elevador abriu no décimo oitavo andar.

Por um segundo, esperei vê-la.

Ridículo.

Mas esperei.

Sarah caminhando rápido demais.

Uma pasta debaixo do braço.

Café na mão.

Óculos escorregando.

Talvez reclamando porque alguém tinha mexido em alguma planilha.

Nada.

O corredor estava silencioso.

Paul estava me esperando.

Não disse nada.

Apenas caminhou comigo.

Passamos pelo financeiro.

Não olhei.

Ou tentei não olhar.

Falhei.

A cadeira dela estava vazia.

Havia uma caneca sobre a mesa.

Um pequeno adesivo colado no monitor.

Um casaco pendurado.

Parei.

Paul também.

— Ninguém mexeu — disse.

— Eu pedi.

— Eu sei.

Entrei.

Aproximei-me da mesa.

Toquei o encosto da cadeira.

Três dias.

Parecia impossível.

Abri uma gaveta.

Paul falou:

— Jake...

— Preciso descobrir o que ela estava fazendo.

— Agora?

— Ela falou de desvios.

Sentei-me.

Liguei o computador.

Pedi acesso administrativo.

Procurei.

Relatórios.

Projeções.

Fornecedores.

Nada que explicasse.

Sarah tinha sido cuidadosa.

Cuidadosa demais.

— Não estou encontrando.

Paul olhou para a tela.

— Talvez estivesse no pendrive.

A palavra me irritou.

— Então está no fundo daquele rio.

— Não sabemos.

— A bolsa estava aberta.

Passei as mãos pelos cabelos.

— Ela estava indo me entregar aquilo.

Paul ficou quieto.

— Se eu tivesse ido com ela...

— Não.

— Eu quis ir.

— Jacob.

— Ela não deixou.

— Não faz isso.

— Se eu tivesse insistido...

— Você não causou o acidente.

Olhei para ele.

— Eu deixei ela sair sozinha sabendo que estava assustada.

Paul segurou a borda da mesa.

— Você não sabia que o carro estava sem freio.

— Ela disse que estava com medo.

— Disse que estava um pouco assustada. Não disse que alguém tinha ameaçado ela.

— Porque eu não perguntei direito.

— Você perguntou!

— Devia ter insistido!

Paul elevou a voz.

— E fazer o quê? Trancar Sarah numa sala?

Fiquei em silêncio.

— Você conhece aquela mulher. Se Sarah decide fazer alguma coisa, nem você, nem eu, nem Deus muda a cabeça dela.

Quase sorri.

Quase.

— Ela ia me contar.

— Então vamos descobrir.

Olhei para a tela.

— Como?

Paul puxou uma cadeira.

— Começando do começo.


Aro apareceu pouco depois.

Trouxe café.

Colocou um diante de mim.

— Seu pai disse que você estava aqui.

— Estou tentando descobrir no que Sarah trabalhava.

Ele olhou para o monitor.

— Encontrou alguma coisa?

— Não.

— Quer ajuda?

Olhei para ele.

A pergunta era simples.

Mas Sarah tinha dito seu nome.

— Você sabe por que ela mencionaria você?

Aro ficou em silêncio por alguns segundos.

— Tenho pensado nisso desde aquela noite.

— E?

— Não sei.

Ele puxou uma cadeira.

— Sarah me perguntou algumas coisas sobre fornecedores nas últimas semanas.

Meu corpo ficou tenso.

— Que coisas?

— Nada que me parecesse extraordinário. Contratos antigos. Estruturas de aprovação. Empresas que participaram da expansão internacional.

— Quais empresas?

Aro pensou.

— VGI, talvez. Orpheus. Não lembro todas.

Eu me levantei.

— Você sabia.

— Sabia que ela estava revisando contratos.

— Por que não me contou?

Aro pareceu genuinamente confuso.

— Porque ela é sua analista financeira, Jacob. Sarah revisar contratos não me pareceu um evento que exigisse informar o presidente.

Eu não tinha resposta.

Fazia sentido.

Aro continuou:

— Se ela encontrou alguma irregularidade envolvendo decisões minhas, quero saber tanto quanto você.

— Ela disse “foi ele”.

Silêncio.

Aro me encarou.

— Referindo-se a mim?

— Não sei.

— Você disse que ela estava dirigindo um carro sem freio, apavorada, segundos antes de cair de uma ponte.

A frase me atingiu.

— Eu sei o que ouvi.

— Não estou dizendo que não ouviu.

Ele se levantou.

— Estou dizendo que precisamos descobrir o contexto antes de concluir qualquer coisa.

— Você acha que entendi errado?

— Acho que Sarah merece que descubramos exatamente o que estava tentando dizer.

Aquilo também fazia sentido.

Era isso que Aro fazia.

Nunca negava.

Nunca atacava Sarah.

Nunca me dizia que eu estava errado.

Apenas colocava outra possibilidade ao lado.

Uma possibilidade razoável.

— Vou levantar todos os contratos que passaram pela minha área — disse. — Todos. Se houver um centavo fora do lugar, vamos encontrar.

Olhei para ele.

— Por que faria isso?

Aro pareceu ofendido.

— Porque Sarah desapareceu tentando contar alguma coisa para você.

Aproximou-se.

— E porque, se alguém fez alguma coisa com aquele carro, eu quero essa pessoa destruída tanto quanto você.

Eu acreditei.

Talvez porque quisesse.

Talvez porque naquele momento precisasse desesperadamente acreditar que alguém ainda sabia o que estava fazendo.


No quarto dia, Sarah abriu os olhos.

Eu não sabia.

Estava a quase sessenta quilômetros dali, dormindo sentado numa cadeira ao lado do rio quando aconteceu.

No hospital, uma enfermeira percebeu primeiro.

Chamou o médico.

A mulher não identificada que permanecera quatro dias em coma finalmente despertara.

— Senhora?

Sarah ouviu a voz.

Não respondeu.

— Consegue me ouvir?

Seus olhos se moveram.

— Você está em um hospital.

Sarah tentou falar.

Nenhum som saiu.

— Não tente. Você sofreu um acidente.

Ela fechou os olhos.

— Sabe seu nome?

Nenhuma resposta.

— Consegue me dizer como se chama?

Sarah abriu os olhos novamente.

Confusão.

Dor.

Medo.

Mas nenhuma palavra.

O médico verificou suas pupilas.

— Não se preocupe. Você está segura.

Segura.

Sarah não sabia onde estava.

Não sabia como chegara ali.

Não sabia que havia dezenas de pessoas procurando por ela.

E não sabia que, naquele mesmo instante, eu ainda estava esperando que ela voltasse.


No quinto dia, encontraram um sapato.

Era dela.

Reconheci.

Eu odiava aquele sapato.

Sarah dizia que era confortável.

Alice dizia que deveria ser queimado.

Eu tinha feito piada com ele dezenas de vezes.

Quando colocaram aquele sapato molhado dentro de um saco transparente, não achei graça.

Fiquei olhando.

Paul estava ao meu lado.

— Pode ter saído quando ela nadou.

Assenti.

— Sim.

— Isso é bom.

— É.

Nenhum dos dois acreditou completamente.


No sexto dia, reduziram algumas equipes.

Eu quase bati num dos coordenadores.

— Não.

— Senhor Black, precisamos redistribuir...

— Não.

— Já cobrimos...

— Cubram de novo.

— Jacob — Aro chamou.

Virei.

— Não começa.

Ele se aproximou.

— Não vou pedir que pare.

— Então o quê?

— Vou manter as equipes particulares.

Fiquei em silêncio.

— Quantas?

— Todas que ainda forem úteis.

— Disseram que as chances...

Não consegui terminar.

Aro respondeu:

— Não me importam as chances.

Olhei para ele.

— Enquanto você quiser procurar, nós procuramos.

Minha garganta apertou.

— Obrigado.

Aro me abraçou.

Eu deixei.

Não vi o alívio escondido por trás da preocupação cuidadosamente construída.

Para mim, Aro era o homem que não estava desistindo de Sarah.

O homem que pagava buscas quando outros começavam a falar em recuperação de corpo.

O homem que permanecia ao meu lado.

Sarah dissera seu nome.

Mas, a cada dia, aquela lembrança ficava mais confusa.

Talvez estivesse falando dos desvios.

Talvez Aro fosse responsável administrativamente por alguma empresa.

Talvez ela quisesse me dizer para procurar Aro.

Eu já não sabia.

E Aro nunca precisou me convencer de nenhuma dessas possibilidades.

Bastava continuar me ajudando.


O sétimo dia amanheceu sem chuva.

Eu odiei o céu azul.

Parecia ofensivo.

Como o mundo podia simplesmente continuar?

Pessoas iam trabalhar.

Carros passavam.

Restaurantes abriam.

Alguém ria do outro lado da rua.

Sarah estava desaparecida havia uma semana e o mundo não tinha parado.

Eu estava na casa dela.

Isabella finalmente dormia.

Alice estava no sofá.

Paul e Emmett tinham ido buscar comida.

Eu entrei no quarto de Sarah.

Não deveria.

Mas precisava.

Tudo estava exatamente como ela deixara.

A cama desarrumada.

Um livro aberto.

Roupas sobre uma cadeira.

Os óculos antigos sobre a cômoda.

Uma fotografia nossa presa ao espelho.

Peguei.

Devemos ter uns dezesseis anos.

Sarah estava fazendo uma careta.

Eu tinha um braço ao redor dos ombros dela.

No verso, a letra de Sarah:

Jake + Sarinha. Dupla imbatível.

Sentei na cama.

Durante sete dias, eu tinha repetido que ela estava viva.

Para Isabella.

Para Billy.

Para Paul.

Para mim.

Ela saiu do carro.

Sarah era teimosa.

Sarah lutaria.

Sarah encontraria um jeito.

Mas sete dias eram muito tempo.

Sete dias ferida.

Sete dias depois de uma correnteza daquela força.

Sete dias sem qualquer notícia.

Olhei para a fotografia.

— Onde você está?

Nenhuma resposta.

Passei o polegar sobre o rosto dela.

— Você prometeu.

Minha voz falhou.

— Sete e dez, Sarah.

Fechei os olhos.

— Você prometeu que ia chegar.

Foi a primeira vez que chorei desde o acidente.

Não algumas lágrimas.

Não olhos molhados.

Chorei como não chorava desde a morte da minha mãe.

Curvado sobre a fotografia, tentando respirar.

— Eu devia ter contado.

A frase saiu sozinha.

— Eu devia ter falado naquele restaurante.

Pensei em todas as oportunidades.

Na porta do carro.

No elevador.

Nos almoços.

Nas noites em que a levei para casa.

Nos vinte anos em que acreditei que haveria outra oportunidade.

— Eu amo você.

Tarde demais.

— Eu amo você, Sarah.

Dizer em voz alta não mudou nada.

O quarto continuou vazio.

— Volta.

Apertei a fotografia contra o peito.

— Por favor.

Nada.

Foi naquele momento que alguma coisa dentro de mim finalmente quebrou.

Não deixei de querer encontrá-la.

Nunca deixaria.

Não mandei interromper as buscas.

Não aceitei oficialmente que Sarah estivesse morta.

Mas, pela primeira vez em sete dias, deixei de acreditar de verdade que a encontrariam viva.

E aquela pequena diferença entre esperar e acreditar foi suficiente para destruir o que ainda restava de mim.


Atrás da porta do quarto, havia uma pequena imperfeição na parede.

Nada que chamasse atenção.

Sarah descobrira o vão meses antes, quando tentara pendurar um quadro, errara o lugar do prego e transformara um pequeno buraco numa abertura muito maior.

Isabella rira durante dias.

Sarah escondera o estrago atrás de uma pequena peça decorativa e declarara que resolveria “depois”.

Pouco antes de sair naquela última noite, colocara alguma coisa ali.

Um segundo pendrive.

Uma cópia.

Não estava na bolsa.

Não estava no carro.

Não estava no rio.

Estava a poucos metros de mim.

Enquanto eu chorava sentado na cama de Sarah, as provas que ela tentara me entregar permaneciam escondidas atrás da porta.

Eu não sabia.

Aro também não.


Naquela mesma manhã, a quase sessenta quilômetros dali, uma enfermeira ajudava uma mulher desconhecida a beber alguns goles de água.

— Devagar.

Sarah segurava o copo com dificuldade.

Estava acordada havia três dias, mas ainda passava longos períodos dormindo.

O médico entrou.

— Bom dia.

Sarah olhou para ele.

— Como está se sentindo?

Ela demorou para responder.

A voz saiu rouca.

— Dolorida.

O médico sorriu.

— Isso é esperado. Mas você está melhorando.

Sarah olhou ao redor.

— Onde...

Parou.

— Você está no Hospital Saint Joseph. Foi encontrada perto do rio há uma semana.

Ela fechou os olhos.

Rio.

Uma imagem surgiu.

Água.

Escuridão.

Metal.

Depois desapareceu.

Sarah levou a mão à cabeça.

— Não force.

O médico sentou-se.

— Precisamos tentar novamente uma coisa.

Ela o encarou.

— Seu nome.

Sarah ficou imóvel.

— Encontraram você sem documentos. Não conseguimos identificar sua família.

Família.

Alguma coisa doeu.

Não fisicamente.

— Você lembra como se chama?

Sarah tentou.

Nada.

Havia alguma coisa.

Uma sensação.

Um rosto que não conseguia formar.

Uma voz.

Sarinha.

Seu coração acelerou.

— Está tudo bem?

Sarah levou a mão ao peito.

— Eu...

— Lembrou?

Ela tentou agarrar aquela voz.

Boa noite, Sarinha.

Uma imagem quase apareceu.

Olhos escuros.

Um sorriso.

Depois desapareceu.

Sarah começou a chorar sem saber por quê.

— Eu não sei.

O médico aproximou-se.

— Não precisa se desesperar. O trauma pode causar perda temporária de memória.

— Eu não sei quem eu sou.

— Vai voltar.

Sarah olhou para as próprias mãos.

Havia marcas.

Curativos.

Um acesso intravenoso.

Nenhuma aliança.

Nenhuma pista.

— Alguém está procurando por mim?

O médico hesitou.

— Ainda estamos tentando descobrir sua identidade.

Sarah virou o rosto para a janela.

Uma lágrima desceu.

Ela não sabia seu nome.

Não sabia onde morava.

Não sabia quem a amava.

Mas alguma coisa permanecia.

Uma sensação tão profunda que sobrevivera até mesmo ao esquecimento.

Em algum lugar existia alguém.

Alguém cuja voz ainda conseguia atravessar o vazio.

Sarinha.

Ela fechou os olhos.

E, a sessenta quilômetros dali, eu segurava uma fotografia antiga e começava a acreditar que nunca mais ouviria a voz dela.

Nós dois estávamos errados.

Sarah ainda tinha uma longa estrada antes de voltar para mim.

E eu ainda teria de aprender a viver dezoito meses acreditando que a única mulher que amei estava morta.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.