QUANDO O CORAÇÃO RECONHECE
3 CAPÍTULO 2 - Números não mentem
Sarah Swan tinha uma teoria bastante simples sobre números.
Pessoas mentiam.
Pessoas escondiam coisas.
Pessoas diziam “estou chegando” quando ainda estavam no banho, “não estou com ciúmes” enquanto imaginavam maneiras criativas de eliminar alguém e “essa roupa ficou ótima” quando claramente estavam tentando preservar uma amizade.
Números não tinham esse problema.
Dois mais dois continuavam sendo quatro independentemente de sentimentos, interesses ou intenções.
Por isso, às sete e quinze da manhã seguinte, Sarah estava sentada à mesa da cozinha de seu apartamento, olhando para o notebook enquanto uma torrada queimava atrás dela.
O cheiro chegou primeiro.
Ela continuou olhando para a tela.
Depois veio a fumaça.
Sarah franziu a testa.
Alguma coisa estava errada.
Não na planilha.
No apartamento.
Ela levantou os olhos.
— Ah, não.
Pulou da cadeira.
Correu até a torradeira.
— Não, não, não...
A fumaça aumentou.
Sarah puxou a torrada.
Queimou os dedos.
— AI!
Soltou.
A torrada caiu no chão.
Ela tentou pegá-la.
Bateu a cabeça na bancada.
— Droga!
— Eu sabia.
Sarah congelou.
Isabella Swan estava parada na entrada da cozinha, ainda de pijama, observando a irmã.
— Há quanto tempo você está aí?
— Tempo suficiente.
Sarah apontou para a torradeira.
— Houve uma falha técnica.
Isabella caminhou até a janela e abriu.
— Você queimou o café semana passada.
— A cafeteira estava com problema.
— Explodiu um ovo no micro-ondas.
— Aquilo foi ciência.
— E agora tentou incendiar o apartamento fazendo torrada.
Sarah colocou as mãos na cintura.
— Você tem uma visão muito negativa da minha contribuição para esta casa.
Isabella olhou para o notebook.
— Você está trabalhando desde que acordou?
Sarah desviou os olhos.
Erro.
Isabella percebeu.
— Sarah.
— Só estou conferindo uma coisa.
— Que horas você acordou?
— Não sei.
— Sarah.
— Cinco e meia.
Isabella arregalou os olhos.
— Você chegou quase dez e meia ontem!
— Eu dormi.
— Cinco horas!
— Einstein dormia pouco.
— Einstein provavelmente sabia fazer torrada.
Sarah abriu a boca.
Fechou.
— Argumento baixo.
Isabella sorriu e pegou outra fatia de pão.
As duas moravam sozinhas desde a morte dos pais.
Com o passar dos anos, haviam desenvolvido uma dinâmica particular. Sarah, por ser a mais velha, ainda tentava agir como se fosse responsável por tudo.
Isabella, por sua vez, passara a considerar uma obrigação impedir que Sarah morresse em acidentes domésticos absurdos.
— O que tem nessa planilha? — perguntou.
— Trabalho.
— Percebi.
— Então por que perguntou?
— Porque você faz aquela cara quando alguma coisa está errada.
Sarah parou.
— Que cara?
Isabella imitou uma expressão exageradamente séria.
— Essa.
— Eu não faço isso.
— Faz.
— Não faço.
— Jacob diz que faz.
Sarah levantou os olhos.
— Por que você e Jacob conversam sobre minhas caras?
— Porque você tem muitas.
— Traidores.
Isabella colocou uma torrada no prato da irmã.
— Come.
Sarah obedeceu.
Mas seus olhos voltaram para a tela.
Isabella percebeu.
— É sério?
Sarah hesitou.
— Ainda não sei.
— Jacob sabe?
— Não.
— Por quê?
— Porque eu ainda não tenho nada para contar.
— Então descubra.
Sarah olhou para a irmã.
Isabella deu de ombros.
— Você sempre descobre.
Sarah sorriu.
— Às vezes você é surpreendentemente útil.
— E você surpreendentemente irritante.
— Família.
— Infelizmente.
Sarah pegou a torrada.
— Amo você.
— Também amo você.
— Mesmo eu sendo a irmã bonita.
Isabella quase engasgou.
— Você realmente acordou delirando.
Sarah jogou um guardanapo nela.
Às oito e meia, Sarah já estava no financeiro.
Dessa vez, sem café na roupa.
Considerou aquilo uma vitória pessoal.
Abriu os arquivos da noite anterior.
A empresa de consultoria chamava-se VGI Strategic Consulting.
O nome não lhe dizia nada.
Isso, isoladamente, não significava coisa alguma. A Black Corporation tinha dezenas de prestadores externos.
Sarah puxou os pagamentos dos últimos três anos.
Onze transferências.
Depois ampliou para cinco anos.
Dezenove.
Ela franziu a testa.
Os valores não eram iguais.
Isso dificultava perceber o padrão.
Alguns relativamente pequenos.
Outros grandes.
Todos abaixo de determinados limites internos que exigiriam uma segunda autorização.
Sarah sentou-se mais reta.
— Esperto...
— Quem?
Ela deu um pulo.
Paul estava atrás dela.
— CARALHO, PAUL!
Ele colocou a mão no peito.
— Bom dia!
— Você quer morrer?
— Depende. Tem café?
Sarah fechou rapidamente a planilha.
Paul percebeu.
— Pornografia financeira?
— Trabalho.
— Você fechou.
— Porque você estava bisbilhotando.
— Então é pornografia financeira.
Sarah empurrou a cadeira para trás.
A roda passou sobre o pé dele.
— Ai!
— Desculpa.
Paul olhou para ela.
Sarah tentou parecer inocente.
— Foi sem querer.
— Mentira.
— Prove.
Emmett apareceu carregando duas caixas de donuts.
— Quem morreu?
Paul apontou para Sarah.
— Tentativa de homicídio.
Emmett entregou uma caixa para ele.
— Come açúcar.
— Ela passou a cadeira no meu pé!
— Provavelmente mereceu.
Sarah abriu a caixa.
— Gosto de você, Emmett.
— Eu sei.
Ela pegou um donut.
Paul ficou indignado.
— Esse era meu!
— Reparação moral.
— Pelo quê?
— Sua existência.
Emmett gargalhou.
Paul apontou para os dois.
— Um dia eu vou sair desta empresa.
Sarah mordeu o donut.
— Promete?
— Você sentiria minha falta.
— Talvez depois de alguns anos.
— Mentira. Uma semana.
— Dois meses.
— Três dias.
— Paul.
— Você me ama.
Sarah suspirou.
— Infelizmente.
Emmett ergueu a mão.
— Eu também quero declaração.
Sarah olhou para ele.
— Você eu tolero.
— Aceito.
Pouco depois das dez, Sarah encontrou outra coisa.
Um endereço.
A VGI Strategic Consulting estava registrada em Seattle.
Sarah abriu o cadastro interno.
Contrato de consultoria estratégica.
Descrição genérica.
Prestação de serviços de prospecção internacional.
Responsável interno: Aro Volturi.
Sarah começou a procurar relatórios produzidos pela consultoria.
Nada.
Procurou apresentações.
Nada.
Estudos.
Nada.
Pareceres.
Nada.
Dezenove pagamentos em cinco anos.
Nenhum produto claramente registrado.
Ela pegou o telefone.
Parou.
Não.
Ainda era cedo demais.
Abriu o sistema de contratos.
O contrato original tinha sido assinado anos antes.
Por Billy Black.
Sarah sentiu o estômago apertar.
Talvez fosse legítimo.
Billy confiava em Aro.
Aro frequentara a casa dos Black durante anos.
Sarah lembrava dele nos aniversários de Jacob.
Nos churrascos.
Nas reuniões familiares.
Chamava Billy de irmão.
Ela voltou aos números.
Números não mentiam.
Mas precisavam ser interpretados corretamente.
E Sarah não acusaria ninguém antes de ter certeza.
— Você está com aquela cara.
Sarah levantou os olhos.
Jacob estava do outro lado da divisória.
Dessa vez, fisicamente presente.
Ela olhou para o telefone.
Depois para ele.
— Você descobriu que pode andar?
— Tecnologia revolucionária.
Ele entrou.
Sarah minimizou a tela.
Jacob percebeu.
— O que está escondendo?
— Nada.
— Você acabou de esconder.
— Privacidade.
Ele se apoiou na mesa.
— Ontem era uma inconsistência. Hoje virou privacidade.
— Ainda estou verificando.
— Sarah.
— Jacob.
Ele ficou sério.
— Tem alguma coisa errada?
Ela hesitou.
— Talvez.
— Quanto?
Sarah olhou para ele.
Era justamente a pergunta que esperaria de um presidente.
— Ainda não sei.
— Estamos falando de quê?
— Pagamentos recorrentes para um prestador externo.
— Irregulares?
— Não formalmente.
— Então?
Sarah empurrou os óculos.
— É isso que está me incomodando.
Jacob puxou uma cadeira.
— Explique.
Ela respirou fundo.
— Existem pagamentos feitos durante anos para uma consultoria. Valores variáveis, sempre dentro das alçadas de autorização. O contrato existe. As aprovações existem. Tudo parece correto.
— Mas?
— Não encontro entrega correspondente.
Jacob franziu a testa.
— Nenhuma?
— Até agora, não.
— Quem é o fornecedor?
Sarah olhou para ele por alguns segundos.
— VGI Strategic Consulting.
Jacob pensou.
— Não conheço.
— O contrato é antigo.
— Meu pai?
— Assinou.
Jacob relaxou um pouco.
— Então provavelmente existe uma explicação.
Sarah concordou.
— Provavelmente.
— Quem gerenciava?
Ela hesitou novamente.
— Aro.
Jacob ficou em silêncio.
Sarah observou sua reação.
Não houve choque.
Apenas surpresa.
— Aro?
— Sim.
— Ele cuidava de boa parte das operações internacionais naquela época.
— Eu sei.
— Pode ser isso.
— Pode.
Jacob percebeu que ela não estava convencida.
— O que você quer fazer?
— Continuar verificando.
— Faça.
Sarah piscou.
— Só isso?
— O que esperava?
— Que dissesse que Aro é praticamente seu tio e que estou perdendo tempo.
Jacob cruzou os braços.
— Aro é amigo da minha família. Isso não transforma os números em corretos.
Sarah ficou olhando para ele.
— O quê? — Jacob perguntou.
— Nada.
— Você fez aquela cara.
— Que cara?
— A cara de quem acabou de descobrir que eu tenho cérebro.
Sarah sorriu.
— Pequeno, mas funcional.
— Engraçadinha.
Ele se levantou.
— Continue.
— Sem falar com Aro.
Jacob parou.
— Por quê?
— Porque, se não for nada, não quero criar constrangimento. E, se for alguma coisa...
Ela não terminou.
Jacob entendeu.
— Você acha que ele pode estar envolvido?
— Eu não acho nada.
— Sarah.
Ela sustentou seu olhar.
— Ainda.
Jacob ficou sério.
— Certo. Entre nós.
— Obrigada.
Ele começou a sair.
— Jacob?
— Hum?
— Nem Billy.
Jacob pensou por alguns segundos.
— Certo.
Sarah assentiu.
Ele abriu a porta.
— E coma alguma coisa.
— Já comi.
— Donut não é almoço.
Sarah olhou para a caixa.
— Quem te contou?
— Farelo no seu cardigã.
Ela baixou os olhos.
Jacob saiu rindo.
— Eu odeio esse homem.
— Mentira — Paul respondeu de algum lugar.
Sarah olhou ao redor.
— VOCÊ NÃO TRABALHA?
— Eventualmente!
Naquela tarde, Leah Clearwater apareceu no financeiro.
Sarah conhecia Leah havia anos, mas a amizade entre elas tinha uma característica muito diferente daquela que mantinha com Alice.
Alice era emoção.
Leah era precisão.
Talvez por isso Sarah gostasse tanto dela.
— Preciso de um contrato antigo — Sarah disse.
Leah sentou-se.
— Qual?
— VGI Strategic Consulting.
Leah digitou o nome no tablet.
— Antigo mesmo. Cinco anos.
— Consegue puxar os aditivos?
— Consigo.
— E eventuais pareceres jurídicos relacionados?
Leah levantou os olhos.
— Por quê?
Sarah sorriu.
— Curiosidade profissional.
— Eu sou advogada.
— Eu sei.
— Portanto, profissionalmente, não acredito em “curiosidade”.
Sarah suspirou.
— Estou verificando algumas inconsistências.
— Jacob sabe?
— Sabe.
Leah relaxou.
— Aro?
Sarah ficou imóvel.
Leah percebeu.
— Interessante.
— Por que perguntou?
— Porque o contrato está marcado como gestão direta dele.
Sarah aproximou-se.
— Tem alguma coisa estranha?
— Ainda não sei.
Leah passou algumas páginas.
— Houve três aditivos.
— Mudando o quê?
— Escopo.
— Para?
Leah leu.
Sua expressão mudou discretamente.
— Consultoria de expansão, prospecção de ativos e intermediação estratégica.
Sarah franziu a testa.
— Genérico.
— Muito.
As duas se olharam.
Leah fechou o tablet.
— Vou levantar tudo.
— Sem comentar.
— Sarah, sigilo faz parte da minha profissão.
— Você contou para Alice que eu caí no casamento do Emmett.
Leah arqueou uma sobrancelha.
— Aquilo não estava protegido por sigilo profissional.
— Eu estava emocionalmente vulnerável.
— Você caiu dentro do arranjo de flores.
— O salto quebrou.
— Você estava de sapatilha.
Sarah ficou em silêncio.
Leah sorriu.
— Até amanhã.
Naquela noite, Jacob insistiu que Sarah fosse jantar com ele.
Ela recusou três vezes.
Na quarta, descobriu que Paul e Emmett também iriam.
Na quinta, Alice apareceu dizendo que já tinha feito a reserva.
Sarah percebeu que nunca tivera escolha.
O restaurante era elegante demais para a roupa que estava usando.
Alice percebeu isso antes mesmo de Sarah entrar.
— Não.
Sarah parou na calçada.
— Boa noite para você também.
Alice segurou o braço dela.
— Você não vai entrar assim.
— Assim como?
— Com esse cardigã.
— Está frio.
— Eu trouxe um casaco.
— Por que você trouxe roupa para mim?
Alice sorriu.
Sarah recuou.
— Não.
— Sim.
— Alice.
— Sarah.
— Eu não sou sua boneca.
— Infelizmente.
Paul apareceu atrás delas.
— Quanto tempo?
— Cinco minutos — Alice respondeu.
— Aposto dez.
Emmett surgiu.
— Quinze. Ela vai resistir.
Sarah apontou para os dois.
— Vocês apostaram?
Jacob saiu do restaurante naquele momento.
— O que está acontecendo?
Os quatro falaram ao mesmo tempo.
— Nada — Sarah.
— Intervenção — Alice.
— Aposta — Paul.
— Moda — Emmett.
Jacob fechou os olhos.
— Eu não deveria ter perguntado.
Alice puxou Sarah.
— Cinco minutos.
— JACOB!
Ele levantou as mãos.
— Não vou me envolver.
— Covarde!
— Presidente.
— Traidor!
Alice arrastou Sarah até o carro.
Sete minutos depois, ela voltou.
Ainda era Sarah.
Mas sem o cardigã.
Alice havia trocado apenas a peça por um blazer simples que combinava muito melhor com sua roupa e soltado seus cabelos.
Jacob estava conversando com Emmett quando ela se aproximou.
Ele parou.
Sarah percebeu.
— O quê?
— Nada.
— Todo mundo hoje fica me olhando e dizendo “nada”.
Jacob continuou olhando.
Sem o cardigã largo e com os cabelos soltos, alguma coisa nela parecia diferente.
Não era uma transformação.
Nem perto disso.
Era simplesmente Sarah.
Mas talvez um pouco menos escondida.
— Ficou bonita — ele disse.
Ela riu.
Não um sorriso tímido.
Riu.
— Alice ameaçou você?
Jacob franziu a testa.
— Não.
— Então está com febre.
Sarah colocou a mão na testa dele.
Jacob segurou seu pulso.
Por um instante, ficaram próximos demais.
Sarah sentiu.
Ele também.
Mas ela retirou a mão primeiro.
— Temperatura normal.
— Eu só disse que você está bonita.
— Exatamente. Preocupante.
Paul apareceu.
— Eu também achei.
Sarah virou-se.
— Agora tenho certeza de que existe alguma conspiração.
Emmett levantou a mão.
— Eu não achei.
Alice bateu nele.
— Ai!
Sarah sorriu.
— Obrigada, Emmett. Você é o único honesto.
— Eu ia dizer que ficou muito bonita.
— Tarde demais.
Eles entraram rindo.
Rosalie já estava no restaurante.
Sarah parou por um segundo.
Olhou para Jacob.
— Ela vem?
Jacob pareceu tão surpreso quanto ela.
— Não convidei.
Rosalie levantou-se.
— Jacob.
Beijou seu rosto.
Depois cumprimentou os demais.
Quando chegou a Sarah, seu olhar percorreu o blazer.
— Alice?
Sarah sorriu.
— Tão óbvio?
— Bastante.
Alice cruzou os braços.
— Algum problema?
— Nenhum.
Rosalie sorriu.
— Só estava pensando que finalmente alguém conseguiu convencer Sarah a fazer um pequeno esforço.
O sorriso de Sarah diminuiu.
Paul parou de brincar.
Emmett também.
Jacob ouviu.
— Rosalie.
O tom foi suficiente.
Ela olhou para ele.
— O quê?
— Não.
— Eu só fiz um comentário.
— Então faça outro.
Rosalie pareceu irritada.
— Sarah sabe que estou brincando.
Sarah abriu a boca.
Jacob falou antes.
— Eu também sei quando você está brincando. E não estava.
Silêncio.
Sarah olhou para ele.
Rosalie respirou fundo.
— Tudo bem.
Jacob puxou a cadeira para Sarah.
— Senta.
Sarah obedeceu.
Não porque ele mandara.
Porque ainda estava surpresa.
Rosalie sentou-se do outro lado.
A conversa recomeçou aos poucos.
Paul contou uma história absurda.
Emmett piorou.
Alice reclamou dos dois.
Sarah voltou a rir.
Mas, em determinado momento, Rosalie se inclinou discretamente em sua direção.
— Você gosta disso, não é?
Sarah franziu a testa.
— Disso o quê?
— De fazer com que ele cuide de você.
Sarah ficou séria.
— Não faço Jacob fazer nada.
Rosalie sorriu sem humor.
— Claro.
— Se tem algum problema com ele, converse com ele.
— Meu problema nunca foi com Jacob.
Sarah entendeu.
— Então é comigo.
— Você sempre está lá.
A frase saiu baixa.
— Sempre.
Sarah respirou fundo.
— Somos amigos desde crianças.
— Eu sei. Todo mundo sabe.
Rosalie olhou para Jacob do outro lado da mesa.
— Esse é exatamente o problema.
Sarah sentiu algo apertar dentro dela.
— Você está imaginando coisas.
Rosalie tornou a olhar para ela.
— Estou?
Sarah quase riu.
— Jacob não me vê dessa maneira.
— Eu sei.
Duas palavras.
Simples.
Cruéis.
Rosalie olhou para Sarah de cima a baixo.
— Esse nunca foi o meu medo.
E se afastou.
Sarah ficou imóvel.
Não precisava perguntar o que aquilo significava.
Sabia.
Rosalie não tinha medo de perder Jacob romanticamente para Sarah.
Porque, na opinião dela, aquilo seria impossível.
E o pior era que Sarah concordava.
Mais tarde, Jacob a levou para casa.
Sarah estava mais silenciosa do que o normal.
Ele percebeu no terceiro quarteirão.
— O que aconteceu?
— Nada.
— Você está quieta.
— Pessoas ficam quietas.
— Você não.
Sarah virou o rosto.
— Engraçado.
— Rosalie falou alguma coisa?
Ela olhou imediatamente para ele.
Jacob suspirou.
— Então falou.
— Não importa.
— Para mim importa.
— Jake...
— O que ela disse?
Sarah observou as luzes passando pela janela.
— Nada que eu já não soubesse.
— Isso não responde.
— E eu não quero responder.
Jacob apertou o volante.
— Sarah...
— Por favor.
Ele ficou em silêncio.
Alguns segundos depois:
— Você sabe que não precisa aceitar ninguém te tratando mal por minha causa.
Sarah sorriu sem alegria.
— Não foi por sua causa.
Jacob olhou para ela rapidamente.
— Foi exatamente por minha causa.
Sarah não respondeu.
O carro parou diante do prédio.
Ela soltou o cinto.
— Boa noite.
Jacob segurou delicadamente seu braço antes que ela saísse.
— Ei.
Sarah olhou para ele.
— O quê?
— Você está bonita.
Ela riu novamente.
Mas dessa vez havia tristeza.
— Você não precisa compensar nada.
— Não estou compensando.
— Jacob...
— Estou falando sério.
Sarah sustentou seu olhar.
Por um segundo, quis acreditar.
Então pensou em Rosalie.
Em Angela.
Nas outras mulheres.
Pensou em todos os anos em que Jacob fora seu melhor amigo.
Seu protetor.
Quase seu irmão.
Ela sorriu.
— Boa noite, Jake.
Beijou o rosto dele.
E saiu.
Jacob ficou parado observando Sarah entrar no prédio.
Alguma coisa o incomodava.
Não sabia exatamente o quê.
Talvez fosse a forma como ela rira quando ele a chamara de bonita.
Como se a possibilidade fosse tão absurda que só pudesse ser uma piada.
No apartamento, Sarah largou a bolsa no sofá.
Isabella apareceu.
— Jantar bom?
— Foi.
— Jacob?
— Continua vivo.
— Você?
— Infelizmente.
Isabella olhou para ela.
— Rosalie?
Sarah estreitou os olhos.
— Como você sabe?
— Essa sua cara tem nome.
Sarah tirou os sapatos.
— Não quero falar.
— Tudo bem.
Sarah caminhou até o quarto.
Parou.
Voltou.
— Ela disse que nunca teve medo de Jacob se interessar por mim.
Isabella ficou séria.
Sarah deu de ombros.
— E ela está certa.
— Sarah...
— Está tudo bem.
— Não está.
Sarah sorriu.
— Bella, olha para mim.
— Estou olhando.
— Agora pensa nas mulheres com quem Jacob namora.
Isabella cruzou os braços.
— Estou pensando.
— Entendeu?
— Não.
Sarah revirou os olhos.
— Você é minha irmã. Sua opinião não conta.
— A sua também não deveria contar, porque você é uma idiota.
Sarah abriu a boca.
— Boa noite.
— Sarah!
— Boa noite!
Ela entrou no quarto.
Fechou a porta.
Encostou-se nela.
E respirou fundo.
Alguns minutos depois, o celular vibrou.
Mensagem de Jacob.
Chegou inteira até o apartamento?
Sarah sorriu apesar de tudo.
Digitou:
Sim. Nenhuma parede foi ferida.
A resposta veio imediatamente.
Orgulhoso de você.
Sarah:
Idiota.
Jacob:
Desastrada.
Sarah ficou olhando para a tela.
Depois digitou:
Boa noite, Jake.
Ele respondeu:
Boa noite, Sarinha.
Sarah fechou os olhos.
Sarinha.
Era assim desde crianças.
Carinho.
Proteção.
Família.
Era tudo o que ela significava para ele.
Ou pelo menos era nisso que Sarah acreditava.
Na manhã seguinte, Leah deixou uma pasta sobre a mesa de Sarah.
— Encontrei os aditivos.
Sarah abriu.
— E?
Leah puxou a cadeira.
— Temos um problema.
Sarah levantou os olhos.
Leah apontou para uma cláusula.
— O primeiro contrato era legítimo. A VGI realmente prestou serviços para a Black Corporation.
— E depois?
— Depois o escopo foi ampliado.
Sarah virou a página.
— Por Aro.
— Com autorização administrativa.
— De Billy?
Leah balançou a cabeça.
— Não.
Sarah sentiu o estômago apertar.
— De quem?
Leah virou o documento.
Havia uma assinatura.
Sarah conhecia.
Ou acreditava conhecer.
Jacob Black.
Ela ficou imóvel.
— Isso é impossível.
— Por quê?
Sarah levantou os olhos.
— Porque esse aditivo é de quatro anos atrás.
Leah esperou.
— Jacob ainda não tinha poderes para autorizar esse tipo de contrato naquela época.
Silêncio.
As duas olharam novamente para a assinatura.
Sarah sentiu um arrepio.
Aquilo já não parecia erro contábil.
Parecia outra coisa.
— Leah...
— Eu sei.
Sarah fechou a pasta.
— Não fale com ninguém.
— Nem Jacob?
Sarah olhou para a assinatura dele.
— Principalmente até eu falar com Jacob.
Do outro lado do prédio, em uma sala onde Sarah jamais imaginaria que seu nome pudesse estar sendo mencionado, Aro Volturi recebeu uma ligação.
— Sim?
Uma voz falou do outro lado.
A expressão cordial de Aro desapareceu.
— Quem acessou o contrato?
Ele ouviu a resposta.
Ficou em silêncio.
Depois caminhou até a janela.
— Sarah Swan?
Outra pausa.
Aro olhou para o prédio refletido no vidro.
— Entendo.
Desligou.
Durante alguns segundos, permaneceu imóvel.
Então sorriu.
Mas não havia qualquer humor naquele sorriso.
— Curiosa demais, Sarah.
E, pela primeira vez, a investigação deixava de ser conhecida apenas por quem estava tentando descobrir a verdade.
Agora, alguém sabia que Sarah estava procurando.
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