Notas iniciais
Cap. bem grandinho até :) Boa leitura

MINHA CASA

“Porque tudo o que sei é que dissemos ‘olá’

E os seus olhos têm jeito de quererem voltar para casa” — Everything Has Changed

CANDY ESTALOU A língua para chamar a atenção, me fazendo tirar um dos fones para fita-la.

— Tem um novato.

— E eu com isso? — fiz menção de colocar meu fone de volta. Não acreditava que ela tinha me feito parar de ouvir Coldplay para aquilo.

— Tem um novato gato. Ele é tipo um Wolverine sem garras e sem músculos. E charmoso.

— Amnésico? — perguntei arqueando uma sobrancelha.

— É por isso que eu escolhi você para ser minha amiga, Ana. — Candy assentiu com um sorriso. — Você percebe as coisas rápido.

— Então, o que descobriu do novato?

— Andersen Moura, dezesseis anos, amnésico, sem colega de quarto, entrou ontem e é um gato.

— Já viu o garoto para repetir tantas vezes que é bonito? — perguntei, reconhecendo o nome. Andersen. O menino que me interrompera uns quatro dias antes.

— Isabella me passou a foto do arquivo. — Candy abriu a revista que fingia ler e tirou de uma das páginas uma foto 3x4 ampliada. — Analise nossa vítima, Febe. — disse, me fazendo observar a expressão facial do garoto. Rosto comum, cor comum, olhos grandes e brilhantes, mas comuns. Totalmente comum.

— Cabelo legal. Não é feio, mas não vi essas coisas todas.

— E é por essas e outras que você nunca fica com ninguém. — Candy puxou a foto de volta, me fazendo fazer uma careta.

— Ei, me respeite! — bati de leve em seu cotovelo. — Eu fiquei com Jonas.

— Jonas cachorrinho branco? — Candy começou a gargalhar, virando o pescoço para trás. — O esquizofrênico?

— Só tem um Jonas. — baixei os olhos, envergonhada, à medida que o rosto da garota ao meu lado se tingia de vermelho de tanto rir.

— Tá. — Candy parou de rir. — Ele é razoável, mas como você o convenceu de que não estava perseguindo-o para tirar aquele segredo de Estado que ele diz ter?

— Eu não fiz nada. Só o imprensei na parede e mandei ver. — dei de ombros, fazendo Candy explodir em outro ataque de gargalhadas.

— Essa é minha garota! Ana Febe se faz de santa, mas pega geral!

— Ah, cala a boca.

***

Horário do almoço. Eu dera um jeito de convencer Isabel, minha enfermeira, de que não iria teimar e queria almoçar no refeitório, como qualquer louco normal. Mas Isabel era das boas, tenho que admitir. Não quis me deixar ir nem por nada que há de mais sagrado no mundo.

— Eu só quero ir e me encher de calorias como qualquer outro. — argumentei, batendo o pé e colocando as mãos na cintura, imitando-a.

— Febe, você nunca quer comer e agora está com esse papo de ir pro refeitório? Não vou deixar você me complicar, garota. Você é garota problema nesse hospital, não descansa até enlouquecer todas as enfermeiras.

Dei um sorriso sapeca com aquela frase.

— Me dá uma chance, Isabel. Te prometo de pé junto que não vou fazer merda. Quer dizer, que meu objetivo é exatamente o de fazer merda. Fica lá olhando que nem um sapo pra uma mosca e vê se eu não engulo aquela gororoba gordurosa toda.

— Tá bom, Febe. — a enfermeira revirou os olhos e pegou um walkie talkie no seu bolso do jaleco.

— Valeu, Isabel! — pulei em seu pescoço como se fosse abraça-la. — Você é mó limpeza, chapa. Toca aqui — estendi minha mão em um hi-five não retribuído. — Te amo, Isabel, mas você é má comigo. Eu sei que você não quer sair do armário, mas tente entender que...

— CALA A PORRA DA BOCA, FEBE! — a enfermeira gritou, me fazendo gargalhar.

— Tá, se queria isso, por que não falou? Eu sei que você quer ser o macho alfa.

Isabel revirou os olhos e murmurou algum xingamento.

— Alô, Débora? Isabel falando. A Febe cismou que quer ir almoçar no refeitório, e você sabe que não tem o que faça esse demônio se calar senão fazer o que ela quer.

Enfermeiras. Chatas e grudentas, mas divertidas. Principalmente de irritar.

— Ela pode? Sério? — Perguntou no walkie talkie, surpresa. Até eu fiquei um pouco. — Você sabe que essa garota não... — Isabel foi interrompida pela médica. — Tudo bem. — desligou e guardou o aparelhinho no bolso, me encarando. — Se deu bem, Febe, porque a médica gosta de você.

— Obrigada, Isabel! — abracei-a, sorrindo, enquanto ela me empurrava.

— Céus, Febe. Você é o inferno.

***

O refeitório poderia ser um caos, mas a maioria ali não tinha pressa de nada. Havia várias mesas retangulares, feitas de madeira e pintadas de verde claro, com bancos de plástico azul para umas dez pessoas, cinco de cada lado. No canto, havia uma fila de pacientes, lado a lado com respectivas suas enfermeiras, esperando para pegarem a comida pelo pequeno buraco que dava acesso à cozinha. Me juntei a eles com Isabel em meu encalço, esperando.

Eu normalmente não gostava do refeitório. Quer dizer, a ideia era legal, dava a sensação de normalidade, mas a fila, a espera e todo o contato externo eram cansativos. Muito melhor dar uma corrida diária pelos corredores do instituto, sendo seguida por uma enfermeira que tentava, em vão, me forçar a comer. Não é que gostasse de passar fome. Gostava de irritar e era razoavelmente boa nisso.

Quando chegou a minha vez, pisquei para a atendente da cantina, Martha, que já conhecia das vezes em que ficava jogando conversa fora na cozinha.

— O que está aprontando agora, Ana?

— Nada, Martha, te juro. — Sorri mostrando os dentes.

— Nome, enfermeira e número de protocolo.

Falei tudo o que ela precisava e mostrei Isabel com um aceno.

— Seu prato é a especialidade da casa, Ana. — Martha sorriu ao pegar a bandeja, que colocou em cima do balcão. — Bem do jeitinho que você gosta e nem um pouco saudável. — Comentou com sarcasmo, me fazendo olhar com desprezo para o bolo de carne com macarrão.

— Isso é comida de escola. — reclamei. — É por isso que as pessoas fogem do almoço, Martha.

— Não reclame, você que escolheu isso.

Revirei os olhos enquanto saía da fila, carregando o pacote de gorduras nas mãos e procurando uma mesa vazia. Reconheci um cabelo castanho e arrumado de costas e solitário em uma mesa do canto. Sorri e olhei para Isabel.

— Pode ir, não vou jogar isso no lixo ou vomitar o que tomei no café da manhã. Não sou dessas.

A enfermeira me olhou com suspeita, mas deu as costas e sumiu da minha vista. Caminhei até a mesa onde Andersen estava e me sentei ao seu lado, fazendo o garoto levar um susto.

— Nos reencontramos no horário do almoço novamente, Big Guy. — comentei, sorrindo maliciosamente. — Bem-vindo ao IPJC.

— Você... de novo. — o garoto sussurrou, me analisando. Enfiei uma das mãos no moletom enquanto pegava o garfo com a outra.

— Bem, espero que essa estadia esteja sendo o mais agradável possível. Vou comer um maldito bolo de carne porque queria te ver. — Eu disse, comendo o primeiro pedaço. — A propósito, acho que está em desvantagem, porque eu sei seu nome, Andy Moura, mas você não faz ideia de quem eu sou.

— Hã... Mais ou menos.

— Ana Febe. — estiquei a mão para lhe cumprimentar com deboche. — Prazer. O que eles dizem de você?

— O que quem diz de mim? — interrogou, confuso, e sorri amigavelmente.

— Os médicos. Eles dizem que sou suicida e que tenho problemas com comida. — Dei de ombros, cutucando o macarrão com o garfo e enrolando-o, em seguida enfiando a comida goela abaixo, como que para ilustrar, além de mostrar a faca de plástico. — Mas nem sempre é verdade. E você? Não venha me dizer que eles dizem que você é louco, porque se fizer isso, eu vou jogar meu almoço em você sem pestanejar.

Andy riu um pouco da minha ameaça. Tá certo, uma garota que mais parecia um palito jogando o almoço nele. Eu também riria se não estivesse falando sério.

— Hã, eu sou meio que amnésico, não sei explicar. Minha mente parece um buraco negro, sugando minhas memórias antigas.

— Mas você se lembra de mim. — observei, e ele assentiu. — Isso é um progresso, porque tem uns caras aqui que não se lembram nem que dia da semana é. — Eu comi mais uma garfada e ele riu. — Então, eu tenho uma proposta para você. —Pus os cotovelos na mesa e me virei para olha-lo nos olhos. — Eu te ajudo a superar a barra e, quem sabe, dar o fora daqui cedo. Vai demorar e é melhor quando se começa com um amigo dentro.

— Amigo?

— Acredite, Andy. Eu sou a maior especialista em se manter sã na insanidade que você vai conhecer. Não vai querer se envolver com os loucos errados. Eu diria que o destino nos fez trombar naquele dia. — Pisquei, sorrindo, e Andy arqueou a sobrancelha.

— Andy?

— Seu nome é muito grande. E aí, topa? Prometo que tomei todas as vacinas e não tenho ebola.

Ele hesitou, olhando para meu braço estendido. Depois deu de ombros e apertou minha mão.

— Topo.

— É um prazer fazer acordo com você, Big Guy. — sorri, jogando minha bandeja de lado. — Já comeu o suficiente? — Olhei com desprezo para o prato quase vazio dele. — Vamos fazer um tour.

— Mas é horário do almoço.

Revirei os olhos.

— Jurava que era a hora do chá, Andy. Pode levar um pãozinho escondido, se quiser, mas comigo, nunca passará fome.

Ele pareceu hesitar, olhando ao redor, para o refeitório cheio de loucos comendo. Era um lugar escapável.

— Vamos.

Me levantei, puxando-o comigo. Ele era bem mais alto, mas dava pro gasto. Comecei a apontar as pessoas, chamando a atenção de uma enfermeira.

— Aquela é Candy Bombeira — apontei para minha amiga, que comia em uma mesa cheia de esquisitões. —, sentada ao lado de Janet, a sociopata maluca. Regra número um do refeitório: nunca se sente sozinho. Normalmente, quem faz isso são as pessoas que quase nunca vem aqui, como a adorável Sofia — apontei para a garota de cabelos enrolados que comia escondida debaixo da mesa quase vazia. — e Jonas, esquizofrênico. Você pode também seguir o exemplo de Tod, o psicótico pseudo serial killer que é expulso das mesas todo o dia, ou o meu, que nunca dou o ar de minha graça no refeitório, porque prefiro comer no quarto, mas isso inclui rejeitar comida e, do jeito que você atacou aquele atum, duvido que seja seu objetivo.

— Certo. Não ficar sozinho. — repetiu como se anotasse na mente.

— Regra número dois: faça amizade com as cozinheiras e com as enfermeiras que administram a alimentação — pisquei para Carla, a enfermeira que estava na saída, e para Martha, que continuava na abertura da cantina. — Assim pode burlar o almoço e ainda assim se dar bem, ou simplesmente burlar o almoço. Vamos — puxei seu braço para a saída.

— Pensei que estivesse fugindo de problemas, Febe — a enfermeira disse, medindo Andy de alto a baixo.

— Eu estava, mas resolvi ser amigável e mostrar o lugar para o novato.

— Não me meta em encrencas com Isabel.

— Claro que não. — pisquei para ela e puxei Andy comigo. — Regra número três: construa fama e faça com que eles se lembrem de você, como eu fiz. Regra número quatro: corra quando eu falar.

O corredor verde claro estava vazio, o que era bom. Começamos a passar pelas alas, dobrando na segunda esquina de corredores. A enfermeira-chefe, Amanda, estava sentada no começo dele, como se esperasse por mim.

— O que estão fazendo aqui no horário de almoço? — perguntou, levantando-se, e Andy recuou.

— Sabe como é, minhas refeições são no quarto, então eu não tenho obrigatoriamente que estar no refeitório.

— Duas coisas para você, Febe. Primeiro: esse não é o caminho para a DPA.

— Eu devo ter me perdido — dei de ombros, como se dissesse “é a loucura, sabe?”.

— Segundo: Débora e Isabel informaram que você estaria no refeitório agora.

Dei de ombros novamente.

— Já terminei de almoçar.

Amanda estreitou os olhos, pegando meu pulso direito. Senti uma dor no local pela força da mão da enfermeira. Ela levantou-o à própria vista para verificar se eu tinha o visto de alimentação. Depois me encarou friamente, soltando o pulso, e eu dei um sorriso malicioso.

— Ops. — virei de costas e comecei a correr na direção oposta. — ANDY! — gritei para o garoto, que estava me encarando como se tentasse decidir qual meu tipo de loucura. — Você não vem? A festa é aqui fora!

O garoto me seguiu, desajeitado, enquanto eu ria, correndo pelo labirinto que era o IPJC. Correr era bom, eu sentia minhas pernas voando e a paisagem passar por mim como se fosse nada. Eu sabia que Amanda não estava atrás de mim. Ela era boa demais para isso. Alguns pacientes já foram “deixados para lá” por alguns funcionários, como era meu caso. Ela sabia que eu voltaria e que quanto mais tentasse sair, mais presa continuaria. O problema era que eu não queria sair do hospital. O mundo lá fora era mil vezes pior. Valia a pena fingir ser louco e viver na sociedade utópica em que não tínhamos nenhuma obrigação e métodos de diversão tão eficientes.

— Me esqueci de uma coisa. — eu disse quando paramos perto da saída para o jardim.

— O que é? — Andy perguntou, arfando e colocando as mãos no joelhos.

— Regra número cinco. Divirta-se. — falei suavemente, sorrindo. — E mude essa cara de cansado. Daqui a pouco ela chega e não quero que pareça um sedentário. Corremos muito aqui.

Ela?

— Candy Morais, prazer. — uma voz feminina disse atrás de Andy, que olhou para trás. — E Ana tinha razão, sua bunda é linda. — soltei um riso baixo com o comentário.

— Andersen — estendeu a mão, mas ela o abraçou.

— Bem vindo. — disse, sorrindo abertamente. — Já tem um apelido?

— Andy. — eu respondi. — Combina com ele, aquele garoto de Toy Story. Mas como ele é do IPJC, creio que está mais perto de falar com os brinquedos do que de brincar com eles.

— Huh, você não gosta de brincar, Andy? — Candy perguntou, passando a língua pelos lábios maliciosamente e me fazendo rir.

Andy me fitou um pouco assustado, mas passei o braço pelo seu ombro, sorrindo.

— Não se preocupe. Candy é uma louca das boas, e não posso imaginar ninguém melhor do que ela pra te apresentar o lugar. Além de mim, é claro.

Empurramos Andy pela porta de vidro do jardim, que eu amava. Na verdade, era uma mistura louca de jardim e pomar, com os muros bem longes da vista. Todas as árvores eram “demarcadas” pelos internos como “suas”, inclusive eu e Candy tínhamos a nossa bem perto do centro, uma mangueira enorme e mais velha do que nós duas juntas. Foi para lá que andamos, pisando sem receio na terra úmida. Passávamos a maior parte do dia ali, observando os outros, o pátio cor-de-rosa que ficava de frente para a árvore ou fazendo algo mais comum, como ler ou ouvir música. Nos dias bons, Júlia, uma esquizofrênica, e Sofia, uma sociofóbica, se juntavam a nós. Os “dias bons” eram quando suas crises passavam, em vezes perdidas que duravam talvez três horas, e elas eram liberadas — “liberadas” não é bem a palavra, porque elas que evitavam sair dos quartos — para irem socializar. Candy sentou-se nas folhas secas, batendo no chão ao seu lado e convidando Andy a sentar-se ao seu lado.

— Ah, não. — Eu disse em brincadeira, fazendo cara de criança birrenta. — Você já tá tomando o Big Guy de mim, Candy — protestei me agachando e passando a mão no chão, me certificando de que o lugar estava limpo o suficiente.

— Big Guy? — perguntou, franzindo o cenho. — Você que já pegou o novato como sua propriedade, Ana?

Andy parecia confuso, e eu ri, pondo a mão em seu ombro.

— Não se preocupe, Andy. A gente não vai te fazer mal. Você é tímido, não é?

Ele sorriu sem graça e deu de ombros.

— Acho que introspectivo é melhor. Só não me sinto muito à vontade conversando com pessoas que não conheço muito bem. Ou que acabei de conhecer, como vocês.

— Oh, não fique assim! — eu disse, soltando-o e me encostando à árvore. — Vamos nos conhecer muito bem em breve, Andy. Quando se convive com gente tão limpeza como o pessoal do IPJC, você fica como a gente. Não louco — fiz uma careta. —, só legal.

— Por que você fala as palavras relacionadas à loucura com tanta facilidade?

— Porque, hum... — eu tentei explicar, mas nunca havia pensado naquilo antes.

— Porque Ana não é enrustida, simples — Candy interrompeu, me fazendo sorrir quase tão sem graça quanto Andy. — Ela era terrível quando chegou aqui, você devia ver. Mas, depois de um tempo, a gente aprende a não fingir, Andy. Isso se torna o único traço espesso da nossa personalidade. Você não é aquele primo que pode tocar qualquer instrumento musical ou aquela prima que desenha tão bem que os desenhos dela só faltam falar com você, mas você é alguma coisa diferente. Não é uma das coisas sobre as quais sua mãe pode se orgulhar no final de semana em que visita a casa da sua avó com suas tias, mas é algo. Todo mundo quer ser algo. — ela disse, e eu a encarei por um momento.

— E você aprende a refletir ao ponto de falar coisas filosóficas como essas que Candy acabou de dizer. — Completei com uma piscada. — A isolação faz mais bem para a mente do que imaginamos. Pelo menos com a gente. Porque — eu hesitei, me lembrando de Sofia, que nunca queria sair de seu quarto, ou ver a enfermeira, e comia debaixo de uma mesa, ou de Júlia, cujo choro podia ser ouvido do meu quarto e os gritos dos pesadelos acordavam todo o Instituto. — Se você não aceitar a loucura, ela vai te engolir e você não vai ter mais como voltar.

Andy pareceu nervoso com aquele assunto e eu e Candy nos entreolhamos. Belas boas vindas, garotas. Disseram para o garoto novo que ou ele é louco ou ele fica louco. O desastre do mês.

— Mas não te preocupa não — Candy disse, tentando acabar com a tensão. — Você parece ser dos duros. Ande com a gente e não precisa ter medo dos loucos.

— Quem é mais tolo, o louco ou aquele que o segue? — perguntou Andy, parecendo feliz em sair da situação, e eu sorri de canto.

— Chamou de louca, Candy, olha a ousadia.

— Esse novato... — ela revirou os olhos, fingindo indignação. — Pra ter sucesso, amor, tem que fazer direito.

Eu gargalhei com a frase de Candy.

— A que nível chegamos, hein, Candy?

— Ao pior, pode crer.

— Sinceramente, Febe. — uma sombra cobriu a visão do sol, e levantei o olhar para ver Amanda, com o olhar de fúria que parecia querer me queimar.

— Ei, tira essa careta da cara — eu disse, sorrindo debochada fingindo não me importar com a enfermeira-chefe. — E esse olhar de quem queima tudo? A piromaníaca não sou eu, não. — apontei para Candy, e Andy se encolheu, sem entender o diálogo.

— Não sei porque você ainda foge se sabe que sempre vai ser encontrada.

Sorri maliciosamente.

— Correr queima calorias, meu amor.

Amanda estreitou os olhos, como se dissesse “você não me escapa, Febe”, que eu sabia que era o que ela diria se não tivéssemos companhia.

— Morais, eu nem me surpreendo mais em você viver ao lado de Febe em quase tudo que ela apronta. Mas você... eu nem me lembro de você. — apontou para Andy. — Novato?

Ele assentiu assustado como um gatinho.

— Vai ganhar uma estrelinha no quadro de ocorrências. — eu disse, e Amanda apertou um de meus ombros com uma mão, assim como com Candy e Andy. Enfermeiras. Tinham a incrível capacidade de segurarem mais do que o número de mãos permitia em uma pessoa comum.

Ela nos empurrou de volta até a área interna e chamou alguém pelo walkie talkie. Em pouco tempo, Isabel, Carmem — a enfermeira responsável por Candy — e Larissa apareceram. Isabel tinha uma expressão assassina no rosto ao me olhar.

— Me desculpe, Amanda, eu não imaginei que ela podia correr e ainda puxar outros com ela... — Isabel disse, tentando desculpar-se com a enfermeira chefe. — Sabia que não era pra deixa-la almoçar com os outros.

— Febe está cada dia pior — Larissa, a enfermeira que provavelmente estava responsável por Andy, disse sem me olhar.

— Ela só quer chamar a nossa atenção — Isabel disse. — Você podia colaborar de vez em quando, garota. Só vai passar mais tempo aqui.

— Essa é justamente a intenção.

— Então não vemos solução senão isola-la da companhia externa — Amanda falou cinicamente, sabendo que naquele ponto eu cederia. Candy descascava as unhas pintadas de um tom gasto de rosa, entediada.

— Tá certo, o que vocês querem?

— Vá. Para. O seu. Quarto. Agora. — a enfermeira-chefe sibilou e revirei os olhos, bufando e estendendo meus braços para Isabel, imitando um prisioneiro que se entregava.

— Vamos logo. Até mais, Candy, Andy — acenei com a cabeça e comecei a fazer o caminho para meu quarto, sendo seguida pela enfermeira. Quando eu e ela estávamos a sós no corredor da minha ala, resolvi dialogar para irrita-la um pouco. — Vai trocar de ala, não é?

— E isso te interessa, Febe?

— Oh, desculpa. Só quis acabar com o silêncio.

— Não sei o que você quer com essas “fugas” que dá. Se quer irritar mesmo, por que não foge de verdade? Sei que tem capacidade.

— Fico feliz que acha que eu chego a esse nível, Isabel — me fingi de lisonjeada. —, mas se eu quisesse ir para casa, já estaria lá. Se eu tivesse casa, você nunca mais teria notícias minhas.

A enfermeira me encarou. Isso iria para algum relatório. “Divaga sobre fugas”. Não se preocupe. Eu não iria fugir, de qualquer jeito. Para quê? Para onde? IPJC era minha única casa.