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1 CAPÍTULO I — CORUJAS PERDIDAS


Notas iniciais
Capítulo curtinho, mas aproveitem! (editado no dia 11/01/2016)

I should have known there was this side of you;
came without a warning, caught me unaware.
— I SHOULD HAVE KNOWN, FOO FIGHTERS

Havia algo invisível o cutucando, perturbadoramente picando suas bochechas enquanto o que apenas queria sentir era a leve brisa de uma noite de verão. Sua pele e membros humanos reluziam pálidos sob a luz da lua, enorme e inteiramente cheia a pairar no majestoso véu noturno. Remus sorriu, ouvindo as vozes de seus amigos ali pertinho, nos jardins do castelo, mas sua própria mão esbofeteou suas bochechas e o ranger da janela explodiu contra seus sentidos agora despertos. A grande e cinzenta coruja acabou por desviar, voando sobre seu rosto, e a dor de suas bicadas ainda ardiam em sua pele agora avermelhada. Estava, afinal, em sua cama, pingando de suor e dor, com um envelope repousado em seu tronco nu e uma coruja piando e rodopiando incessante no pequeno quarto.

— Olá para você também, Circe. — resmungou irritado, jogando a carta para longe e pouco disposto a se levantar do conforto da cama. Tampou-se então com o lençol amarrotado e, impacientemente, bloqueou os ouvidos com o travesseiro, ansiando voltar a dormir apesar do escândalo de mais uma das corujas dos Black. Essa, Remus se lembrava, era especialmente determinada e importuna, arrogante como a própria família que a criava. Sirius e ele costumavam brincar, dizer que com o dito animal vinha sempre o veneno de Walburga Black, tal até comparado com o da verdadeira feiticeira Circe.

Sirius. Merda.

Talvez um estrondo houvesse o levantado, mas foi com um pulo que se colocou de pé, chacoalhando a cabeça para espantar, se pudesse, aquele nome da cabeça. As cartas mandadas todos os dias e noites, aliás, pouco faziam para que o Black caísse de vez no esquecimento. Durante as férias, Remus não pode experimentar o sossego, pois havia sempre uma coruja na janela, com um envelope em seu bico que acabava, em cinco minutos, na pilha de cartas que o lobisomem nunca haveria de ler.

— Está tudo bem, Mitra. — Com todo o barulho do outro pássaro, sua própria coruja acabou por despertar o intenso amarelo de seus olhos. Tais, então, pareciam deliciar-se com a súbita carícia recebida no alto de sua cabeça assim que Remus abriu a gaiola. — Circe ficará aí com você até o amanhecer.

Bastou ouvir suas palavras que a mal-humorada coruja se exaltou no ar e seguiu batendo as asas enervadas, ameaçando saltar na noite, porém somente a isso se limitou. Era uma boa distância de Londres até as imediações de Leicester e, certamente, Circe não voaria um metro sequer se em seu estômago a fome gritasse.

Perante a visão de um bocado de sementes, o pássaro pousou em seu braço e comeu, tranquilamente, na palma da mão de Remus, moldada como uma pequena concha logo marcada por sangue.

— Fique aí, praga. — ralhou ao colocar, não sem debates, a impaciente Circe na gaiola até que espaçosa. Ainda ouvia os pios de ambos os animais quando se virou, chupando o sangue do dedo furtivamente bicado.

Ainda a ranger, a janela batia a cada toque de brisa, como uma velha indefesa ao vento. A soleira já estava lascada, a pintura desgasta e uma nova cortina dançava para lá e para cá, impecável, cheirando a verão e roupa limpa. Peças assim só duravam por volta de um mês, nunca tardavam a serem rasgadas por garras de lobo e tingidas de sangue. A anterior ele havia dilacerado toda na boca, acordara até engolindo pedaços de pano, por mais que o estado de suas feridas estivesse muito mais grave.

Mordidas estavam mais profundas, rasgos mal cicatrizados em sua pele se abriam de novo em sangue e agonia, como sempre haveria de ser em noites de lua cheia. Lembrou-se do sonho, então, que vivenciara brevemente antes de ser acordado. Andar sob a lua cheia sem medo da monstruosidade que era seria uma benção, um milagre pelo qual ficaria eternamente agradecido a Deus ou a qualquer divindade que pudesse ouvi-lo. Escutar as risadas, as piadas, a voz de cada um de seus amigos também seria bom, mas era apenas para isso que sonhos serviam: dar um gosto do impossível, o qual cruelmente se tornava um vício muito mais que eterno.

Remus agora apenas desejava que os três últimos meses não houvessem sido tão difíceis como recordava.

Encalorado, o jovem bruxo sentou-se ao chão, encarando com inexplicável paixão a simplicidade do pequeno quarto em que dormia em sua casa no campo. Seus materiais para o novo ano já estavam lá amontoados num canto, esperando pelo dia em que finalmente seriam levados para Hogwarts. Remus gostaria que fossem sozinhos, que ele ficasse ali, quieto em sua casa, banhando-se de sol todos os dias nos jardins de seus pais ou conversando e passeando com Charlotte, uma amiga trouxa que arrumara ali perto. Ele havia a beijado no ano anterior, mas pegou-se repentinamente pensando em Sirius enquanto a tinha nos braços e quase fugiu em pânico.

Um suspiro saiu por entre seus lábios e o tronco nu estremeceu ao toque mínimo de uma brisa mais fria entrando pela janela. Deu de ombros somente e de seus olhos a carta ainda jogada ao piso foi alvo. A caligrafia ligeiramente inclinada e um tanto inconsistente moldava-se pelas linhas de seu nome. Abaixo, ainda, havia uma pequena frase dizendo “não me ignore, Moony” e até um risinho Remus foi capaz de soltar, sem humor e no mínimo rancoroso. Você já deveria saber, Black. Antes mesmo de pensar, catou o envelope e ousou abrir, apenas para ler nas primeiras linhas “não seja idiota, Moony. Eu já pedi desculpas malditas mil vezes” e selar novamente a carta. Suas mil desculpas ele não queria ouvir nem ler, pois com certeza eram tão vazias como os anos de amizade que tiveram.

Amizade, Remus resmungou, encarando o teto por minutos a fio, sem destino para seus próprios pensamentos. Desejou novamente esquecer, mas martelaram em sua cabeça as vezes que observara Sirius enquanto fingia ler, o modo como seu sorriso e sua risada enchiam-no de algo semelhante a alegria, calor, muito mais que admiração. Vê-lo com garotas então, algo tão comum quanto o sono que sentia nas aulas de História da Magia, o penetrava a garganta como uma lança emantada de veneno. Lupin nunca sabia falar nessas horas, até que finalmente apertava os lábios e deixava-os doloridos, assim como seu coração fez quando Albus Dumbledore não o poupou da verdade. À beira do lago foi sangrar, segurando o choro, tentando ao menos salvar as lágrimas do sacrifício por aquele que abusara de sua confiança, sua afeição e as quebrara inteiras, estraçalhara-as em pedaços.

Como ele bem se lembrava, Sirius estava lá, observando-o com seus olhos de prata a queimarem a pele de Remus enquanto este repudiava a simples possibilidade de mirá-lo a face. Ouvia sua respiração muito mais que seus próprios gritos a se chocarem contra as muralhas de sua mente e, em determinado momento, quiçá cansado de esperar em pé por alguma palavra, finalmente o outro se pronunciou.

— Não estou arrependido.

A resposta em sua língua foi adiada, formada e reformulada o máximo de vezes possíveis em apenas minutos que podem ter sido horas ou horas que podem ter sido minutos. O resultado acabou por ser a segunda de suas maiores mentiras e, ah, mais uma vez lá estava ele desejando que sua fantasia tomasse por completo o lugar de uma realidade tão tenebrosa, pesando em seus ombros e nas feridas recém-abertas.

— Não me importa.

— Snape mereceu. — Embora um odioso timbre se fizesse presente ali, Remus poderia jurar que Sirius dera de ombros, tamanha era a displicência em sua voz. — Ele tem espionado você há dias.

— Não me importa.

— Então não sei por que ‘tá tão nervoso, parceiro.

— Eu não sou seu parceiro. — Pura ira nunca havia o movido, mas ali, perante qualquer deus que existisse, era apenas o que esbanjava de sua voz. Não era seu propósito esbarrar no ombro de Sirius enquanto punha-se a subir para o castelo, mas seu próprio traidor cambaleou dois ou três passos devido ao choque, deixando também cair o cigarro pela metade que fumava.

— Eu fiz aquilo por... qual é, Moony, pense um pouco e verá que foi até engraçado. — Sirius riu nervosamente, quase que sem querer, e então cortou a si mesmo quando viu Remus novamente se aproximar. O jovem lobisomem bufava e, com olhos castanhos regados pelo mais furioso fogaréu, desejou ter forças suficientes para iniciar uma briga, porém o efeito do tônico de Madame Pomfrey já estava passando e não era como se precisasse de mais cicatrizes naquele dia.

— Não me chame de Moony. Nunca mais. — rangeu os dentes, soltando aos poucos cada palavra, pontuando-as com os sussurros guturais de um lobo há pouco adormecido. — Você é igual a eles, exatamente igual.

— Igual a eles quem, Moony? — Como se já soubesse a resposta, sua voz bambeou no mesmo som rouco e, no momento, tão confuso quanto um choro por vir. Sirius havia agarrado seu braço a despeito de seus tantos debates, chacoalhando-o sem o mínimo cuidado devido ao silêncio que recebera. — Igual a quem?

— Sua família, porra! — bradou ele — Você faz jus ao sangue que tem. — A essa altura, seu braço já havia sido solto, gradativamente, e os olhos cinzentos o encaravam surpresos. Uma parte sua, ainda compassiva, implorava por tirar a crueldade de ditas palavras, até que seus lábios mudos ensaiaram uma desculpa sufocada, afogada pelas lágrimas a lavarem seu rosto com o sal de infinitas agonias. Sirius não ousou impedir seus próximos passos, porém apenas quando já estava no topo da colina, Remus ouviu, feito uma lamúria exagerada jogada ao vento, sua estilhaçada e aguda resposta. Eu não sou como eles, esbravejara o amigo, ao longe, mas Lupin permaneceu a dar suas passadas em direção ao castelo, entre a ira e a tristeza.

Havia algo invisível o cutucando, quiçá corujas perdidas bicando seu coração.

• • •

As mais inconvenientes horas eram sempre as escolhidas, Sirius se lembrou enquanto um esguio Regulus aparecia na escuridão. Os olhos pequenos e inquisidores, tão prateados quanto os dele, o observavam com uma curiosidade pouco gentil, despertos demais para uma madrugada como aquela. A varinha na mão do irmão iluminava todo o cômodo bagunçado, repleto de pergaminhos e vidros de tinta derrubados e quebrados, imprimindo na face do jovem Reggie uma expressão de profundo desgosto.

— Por que ainda não dormiu, irmão?

— Cai fora. — grunhiu o mais velho, entre os dentes, canina e singelamente. Levando de tempos em tempos a garrafa de firewhiskey aos lábios, Sirius continuou a contemplar o teto, mas Regulus continuava ali, imóvel, espiando minuciosamente com os olhos que, sim, ele sabia que serviam apenas a Walburga Black. — Eu disse pra cair fora.

Tais palavras, no entanto, aparentemente chegaram aos ouvidos do outro como um convite. Em instantes o colchão já estava sendo afundado à beira da cama e a bebida, pois, roubada de sua mão. Regulus sorveu um pequeno gole, devolvendo-a logo depois com um suspiro nem tão aliviado, mas irônico, ferino.

— Não está muito novo pra isso?

— Diga-me você. Nem completou dezessete ainda. — resmungou com um sorriso amarelo a curvar os lábios. A luz mais intensa na ponta da varinha de Regulus dançava pelo quarto, tímida enquanto permitia que Sirius ainda visse um pouco da face jovem do irmão. Não se lembrava quando as feições tão infantis haviam se afinado, conquistado o natural molde aristocrático dos Black e, para ser sincero, nem mesmo sabia qual a idade do pequeno Reggie e não necessariamente se importava.

— É diferente. — Sirius respondeu ao se erguer o bastante para sentar-se na cama em meio a pergaminhos para todos os lados, alguns já escritos, outros completamente limpos.

Nem em Hogwarts ele usava tantos pergaminhos assim. Eram tantas as cartas que havia escrito para Remus; algumas pedindo perdão, outras replicando o que não tinha resposta e até aquelas em que, como era de costume, contava sobre seus dias, suas queixas sobre a família, suas piadas fora de hora. À janela, Sirius passava dias e noites esperando a resposta para cada uma delas, mas, diferentemente dos outros anos, não eram as em que Moony o consolava pelas quais ele mais esperava.

Diferentemente dos outros anos, também, ele não havia obtido nenhuma resposta sequer.

— Claro que é. — zombou. — Lupin vem te cansando demais, hein?

— Como? — Nas órbitas, Sirius pode sentir seus olhos explodindo, arregalando-se ao encarar, surpresos, as outras contas prateadas a sua frente. Considerando seu absoluto silêncio enquanto na presença da família, não conseguia compreender como seu irmão mais novo havia descoberto um de seus segredos, ainda mais aquele em especial.

— Vi vocês brigando no lago. — Regulus fez uma pausa, bebendo mais um gole de firewhiskey e o esperou descer por sua garganta para enfim voltar a falar. — E ele não estava com vocês no banquete final.

Repentinamente aliviado, Sirius jogou suas costas contra a parede, tomando a bebida das mãos do irmão e sorvendo o último gole. Não lhe importava que Regulus o espionasse, já que esta foi a tarefa que recebera assim que entrara em Hogwarts. Já havia se acostumado com o mais jovem dos Black o seguindo por aí, observando-o com olhos curiosos em demasio, mas não com as causas de suas mágoas sendo adivinhadas, tampouco o motivo por trás de sua rebeldia mais amarga, de suas palavras e olhares mais odiosos.

— Todas as noites. — o mais novo riu, entristecido. — Todas as noites você está acordado, por mais cansado que pareça. E as corujas todas da casa somem, mandadas para seja lá qual buraco onde Lupin se esconda. É, a briga deve ter sido feia.

— Contou pra mãe?

— Não sou seu melhor irmão, Six, mas não quero vê-lo morto. — Regulus sorriu, amassando nos dedos um pergaminho escrito, a última carta que recebera de James. Àquela altura, Sirius não mais se importava, apenas rolou os olhos enquanto descia da cama e chutava para longe um pote vazio de tinta. Empoleirou-se na janela mais uma vez, um tanto mais aliviado ao sentir o vento tocando-lhe a pele suada e invadindo as narinas secas, vitimadas pelo verão quente e um tanto seco daquele ano. — É, foi feia mesmo.

— Cala a boca e vai dormir, pentelho. Por Merlin. — rosnou Sirius, mal-humorado, inundado pela melancolia que se recusava a abandoná-lo já pelos últimos três meses. Lá fora a lua escondia-se em sua fase nova, cercada por estrelas, as mesmas que tanto observava em Hogwarts, ao lado de Remus, renomeando cada uma delas. Em sua boca seus dentes se apertaram, rangeram tanto que só lhe restou desviar seu olhar do céu, esperando que Circe aparecesse de uma vez ou que as estrelas sumissem e a lua, por sua vez, permanecesse para sempre invisível.

— Espero que Circe esteja aqui de manhã. Mamãe quer mandar algo para os Malfoy. — Sustentando uma estranha expressão de pesar, Regulus levantou-se e devolveu-lhe a carta calmamente, tomando um exagerado cuidado ao prensar o pergaminho contra o peito de Sirius. — Não a deixe descobrir, Six.

— Descobrir o quê?

— Que está apaixonado, ora, e por um cara mestiço.

A carta de James caíra ao chão com um tímido farfalhar, tão inaudível quanto os murmúrios ensaiados pelos lábios de Sirius, as negações caladas antes mesmo de chegarem à sua língua. Há muito que não se dava ao trabalho de negar, refutar efusivamente o que em pouco tempo havia se tornado o que saboreava de mais doce todos os dias e, há três meses, o mais doloroso. Que problema havia se seu irmão soubesse, principalmente quando acabara descobrindo por si mesmo? O pior que poderia acontecer era sua face queimada na tapeçaria tradicional da família, o que ainda não havia sido feito apenas por comodismo e, se seu gosto pela transgressão permanecia vivo, não seria tão ruim assim.

Havia, afinal, demônios piores com que era obrigado a conviver.

Em silêncio, Regulus o deixou sozinho, abandonado no silêncio e no negrume de seu quarto até que, vencido pelo cansaço, Sirius finalmente adormeceu. Pela manhã, Circe estava de volta, como esperado, e com carta nenhuma no bico.

Notas finais
Alô! Faz anos que estou planejando escrever PeB e, com muita pressão por parte das minhas amigas, isso finalmente saiu! Provavelmente, este é o primeiro capítulo de 6 e talvez teremos um capítulo extra com smut. Como vocês podem ver, em PeB temos o mesmo sistema de Inc: uma música por capítulo, a qual é indicada com um link. Espero que ouçam e que gostem bastante da trilha sonora que selecionei. Assim que todos os capítulos estiverem prontos, postarei uma playlist no 8tracks pra vocês. Espero que tenham aproveitado e, yeps, estou me divertindo muito escrevendo essa fic (se por "divertir" você entender "chorar até as 5 da manhã"). Até mais! P.S.: me desculpem pela exagerada demora para postar o próximo capítulo. Explicarei mais nas notas do segundo, mas sei que é bem difícil perdoar uma demora de mais de 2 anos, né? Mas, enfim, me desculpem mesmo.