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2 CAPÍTULO II — TRASGOS E CABELOS LOIROS
Notas iniciais

Got a hole in my soul growing deeper and deeper,
and I can't take one more moment of this silence.
— DROWN, SEAFRET (BMTH COVER)
Como em todos os outros 1º de setembro, King’s Cross tornava-se mais uma nuvem de fumaça do que uma estação de trem. Mesmo cego pela bruma, Sirius já contava a quarta ou quinta vez que fora quase estapeado por um sufocado James e seus movimentos exagerados. O pequeno e ainda mais gorducho Peter, aliás, seguia-os alguns passos atrás, certamente comendo da rosquinha que Sirius acabara por recusar milagrosamente, já que seu estômago parecia ter sido pisoteado por um trasgo. Efeito das tantas garrafas a mais de firewhiskey consumidas naquela semana, quem sabe. Não, não. Na verdade, o animago desconfiava serem apenas suas entranhas sendo comprimidas, centímetro por centímetro, pelo órgão que explodia a cada batida, o já mencionado trasgo comumente chamado de coração.
Ansiedade era nutrida em seu peito, inflada como os próprios pulmões, muito mais por angústia do que por esperança. Corria em suas veias apenas uma estranha urgência, uma inquietação que botava as palmas de suas mãos encharcadas de suor. Contudo, não sabia se queria fugir ou entrar logo no maldito trem; se queria refúgio ou as zombarias de sua própria desgraça. Nos últimos dias, James fizera de tudo para reanimá-lo, plantando esperanças de que o novo ano em Hogwarts consertaria tudo e Sirius, bem, Sirius queria regar todas aquelas sementes, mas a última semana em Grimmauld Place havia lhe tirado quase que toda a fé.
— Eu não me surpreenderia se o seu fosse o próximo, bastardozinho. — sua mãe dissera, logo após ter queimado o rosto de Andromeda na tão cuidada e preciosa tapeçaria dos Black.
As injúrias de Walburga haviam, desta vez, o ferido muito mais do que ele esperava. Em três meses, Sirius nunca havia chorado tanto por uma resposta de Remus, mas o silêncio já familiar apenas lhe cravou mais uma estaca no peito. As respostas nunca dadas às suas cartas já haviam, há muito tempo, jogado num precipício as promessas de que um dia poderia ter seu amigo de volta, mas nunca a fé em si mesmo que Sirius insistia em carregar. Tal silêncio se tornara enfim o mais insuportável dos barulhos, reproduzindo tantas e tantas vezes as últimas palavras que Moony lhe dissera e, por fim, a Sirius só coube convencer-se de que era, sim, um covarde tão desprezível quanto sua família inteira.
— Mais cedo ou mais tarde, você saberá quem realmente é. — Em sua memória, sua mãe sussurrava, fria, impassível, com asco derramando de seus olhos. Era apenas um menino quando ouvira e lera tais palavras pela primeira vez; um menino recém-colocado na Grifinória recebendo as cartas odiosas e decepcionadas da família. Remus, franzino e solitário, sempre se escondendo no dormitório, o vira chorar naquele dia e, com um silêncio temeroso, o oferecera uma barra inteira de chocolate.
— Vai se sentir melhor. — dissera ele, com um sorriso pequeno nos lábios, quando já havia distância o bastante entre eles.
A gentileza contida em cada traçado da face do pequeno Remus nunca havia escapado às observações de Sirius. Admirara-se naquele mesmo dia, esforçando-se para trazer o tão tímido garoto para mais perto e, ainda que inconscientemente, recebendo-o sempre com um de seus sorrisos mais sinceros, esperançosos e inocentes. Não levara muito tempo para perceber que quem o fazia se sentir melhor era o próprio Remus e não seus chocolates. Ele então se tornara o único com quem Sirius conseguia falar, abrir-se; chorar até. Poderia estar sempre grudado em James, preparando suas traquinagens, mas era mais a Moony a quem ele recorria. Ansiava tanto pela pureza de seus risos, pois era o que lhe convencia enfim de que toda a malícia e corrupção dos Black não corriam em suas veias.
Se Sirius ao menos pudesse ver mais daquela gentileza, notar-se imerso em mais um dos doces abraços com cheirinho de chocolate... esperava que suas memórias fossem embora, sem deixar nem mesmo o gosto de ilusão. Porém, oras, o quão bobo era em acreditar que voltaria àquela pureza, ao conforto de chorar em segredo com alguém? Bobo, tolo em ainda desejar somente a simples confiança de volta, os risos tão melodiosos e sonoros, os abraços amigáveis e as lições emprestadas e acompanhadas de um “por que não faz as suas próprias, Padfoot?”.
Sirius sempre respondia que havia outras atividades que exigiam sua atenção, só não dizia que tais eram desenhar, de longe, cada traço do rosto de Remus. Afinal, nada era mais interessante do que contar todas aquelas quase invisíveis sardas, fingir acariciar a leve cicatriz próxima aos lábios, a qual se talhava ainda mais profundamente quando ele sorria. A lástima era, ora, que Sirius não o veria mais sorrir; ao menos não para ele. Talvez sobrevivesse dali para frente como um parasita, alimentando-se da alegria que ele não poderia dar ou da gentileza ainda guardada em suas lembranças. Teria sorte se ganhasse um mirar de esguelha que, de certo, mostrar-se-ia um simples acidente, pois surpresa cresceria no olhar castanho e este logo seria desviado, jogado para bem longe das contas de prata.
Contudo, bem no momento que seu próprio trasgo mais esperava, Sirius acabou por embolsar um cumprimento tímido, um menear soturno de cabeça que mal podia ser percebido entre os efusivos abraços dados a James e Peter, as risadas que aparentemente o expulsaram e deram, de braços abertos, as boas vindas até a Lily Evans. Era bem provável que aquela ínfima saudação houvesse sido apenas fruto de sua imaginação, mas alegrou-se tanto com ela que avançou alguns passos. Como resposta a seus cumprimentos mais esperançosos, no entanto, Sirius recebeu apenas uma tristeza ferina banhada por âmbar, um virar de costas e um olhar piedoso até de Peter.
Ele até se sentiria humilhado se o maldito trasgo não houvesse deixado um dolorido vazio ali, no lugar de todas as suas entranhas pisoteadas.
— Novo ano, Moony! — James exclamou mais a frente no corredor do vagão, pulando nos ombros de Remus com o entusiasmo costumeiro e inconveniente. Empoleirou-se lá enquanto procuravam uma cabine e Sirius apenas os seguia em silêncio, tomando um cuidado inconsciente para ouvir cada palavra dita, especialmente pelo lobisomem. As frases proferidas, no entanto, não vinham tão claras a ele, já que o entusiasmo dos demais alunos aumentava em umas boas oitavas a voz de cada um e sobrepunha até mesmo as tagarelices naturais de James. — Você precisa me contar sobre Charlotte. Hmm, tem um cabelo dela aqui. — Com cuidado, James pegou um longo fio de cabelo loiro antes pregado às roupas de um Remus envergonhado, ruborizado até o topo de sua testa.
— Prongs, você já sabe o bastante.
— Quem é Charlotte? — Sirius perguntou de súbito, alcançando os amigos na porta de uma cabine vazia, aparentemente a escolhida. Conhecia vagamente o nome, mas nenhum fato lhe ocorreu em especial, apenas o sussurro de uma memória. Recordava-se muito bem do estalo de cada sílaba na voz de Remus, o pouco de francês* ainda escorregando pelas consoantes. O ferino ciúme fizera exatamente o mesmo tanto no passado quanto no presente: deslizou pelo paladar de Sirius como um amargor, respingando nas palavras, nos suspiros, no molde de seus lábios finos.
— Ahn... é... — Remus engoliu em seco, mas a expressão em sua face permaneceu sólida e resoluta, mesmo quando se virou para Prongs e ensaiou, sem sucesso, um sorriso. — Vejo vocês depois.
Apressado e quem sabe trocando os pés, Remus seguiu desbravando um corredor repleto de alunos, mas a Sirius restou enfrentar os resmungos nada humorados de James. Permaneceram lá por alguns longos segundos, encarando um ao outro como se não estivessem atrapalhando a passagem, até que uma Corvinal qualquer, ostentando o broche de monitora, chamou-lhes a atenção.
— Você estraga tudo! — ralhou James, assim que se jogaram nos assentos almofadados, com o dedo em riste e um bufar aborrecido saindo pelas narinas. — Eu até tento fazer Moony ficar conosco, mas você estraga tudo, Sirius!
— Ele é monitor, não ficaria aqui por muito tempo.
— Sirius está certo. — Peter concordou, lambuzando-se calmamente com mais um sapo de chocolate, o qual ainda se debatia contra os dedos gorduchos e ameaçava pular pela janela. — Não é uma tarefa muito fácil acalmar os novatos.
— Obrigado, Peter.
— Mas você ainda estraga tudo.
Não é novidade, pensou, conformado, depositando ali toda a culpa por mais do que afastar Remus pelo resto da viagem. Sua obsessão o condenava, provava verdadeiras todas as injúrias que ouvira por todos os seus anos, assim como fazia o ciúme exagerado que tanto o inflamava, a ponto de impulsionar seus atos mais impensados e desordenados. Atordoado o suficiente, o animago nem pensou em discutir, mas não por estar em desvantagem. Suas falhas, seus atos, o perdão que Remus se recusava a dar; tudo que Sirius carregava em seu ser não deixava espaço para refutar as afirmações de seus amigos. Walburga Black já bem dizia que a especialidade de seu filho mais velho era estragar, arruinar tudo aquilo que tocava, tal como um toque de Midas notoriamente desagradável. Sirius, três dias antes, deixara Grimmauld Place ao som dessas mesmas exatas palavras, ainda que houvesse sido sua prima Andromeda quem enfrentara todos os Black de uma vez só.
Normalmente ele teria rebatido, mas enfim só pode concordar.
— Quem é Charlotte? — questionou novamente, uma melancolia plácida o banhando enquanto vigiava, incansável, o corredor por esvaziar.
— A amiga trouxa do Moony. — James respondeu antes de recostar-se mais no assento, preparando-se para tirar um cochilo com um dar de ombros deveras forçado.
— Mais para quase namorada — completou Peter.
— Quase namorada?
— Só se beijaram uma vez, no ano passado ainda. — como que para tranquilizá-lo, James explicou às pressas, espantando qualquer dúvida com seus trejeitos exagerados.
Sirius nem mesmo sabia por que razão ainda se importava. Com ou sem namorada trouxa, seus desejos ainda guardados não estavam mais ao seu alcance. Mais ainda que seus sentimentos, o jovem Black havia sido capaz de arruinar o próprio Remus e, por conseguinte, a si mesmo. O choro do lobisomem chegou a se tornar o ruído natural de seus pesadelos, reverberando como ecos abandonados desde aquela tarde à beira do lago. Por algum tempo deixou de dormir para não ouvir todas aquelas agonias, mas permanecer desperto o colocava em companhia de seus demônios, além de criar mais tantos outros até que o inferno dos trouxas finalmente se fizesse real.
Você é exatamente igual a eles, Remus repetia, irado, fosse em sonho ou memória.
— Ele não vai me ouvir. — murmurou Sirius, esperando que ninguém em especial o escutasse. O corredor permanecia vazio, mas como, de vez em quando, Evans passava por ali, havia aquela pequena esperança de Remus ser o próximo a aparecer, esforçando-se nas suas obrigações como monitor. Quiçá ele ainda fosse passar um pouquinho da viagem com os três e poderiam voltar aos risos de outrora, aos mirares que lhe imprimiam o que havia de melhor em si.
Tolo. Covarde e tolo.
— Nem eu estou querendo ouvir seus choramingos, cara. — um tanto impaciente, James abriu desinteressadamente um dos olhos, mas não demorou a voltar ao seu sono de mentira. Tornou a abri-los apenas com o susto da porta se fechando atrás de um Sirius atormentado, à beira do choro, disparando a passos largos e pesados em busca de qualquer destino em que ele mesmo pudesse deixar de escutar suas agonias.
• • •
O cigarro já se esvaia entre seus dedos, consumia-se sozinho depois dos poucos tragos que de nada agradaram Remus. Sua inexperiência era clara, ruidosa como seus sucessivos ataques de tosse, mas ao menos as formas que a fumaça assumia no ar o distraiam de qualquer coisa que pudesse lhe tomar a mente. Refugiara-se em um dos últimos vagões desde que suas obrigações mais imediatas como monitor haviam acabado, isolando-se em um compartimento pequenino e vazio, mas bastante ventilado. Uma enorme janela permitia que a fumaça escapasse e a vista magnífica dominasse seus olhos cansados, doídos pelo choro que lutara para segurar.
Ele não estava preparado; jamais estaria.
Dorcas havia o deixado ali há poucos minutos após insistir que se sentasse com ela e seus demais amigos durante a viagem. Não era uma má ideia, afinal, já que sua relação com Lily Evans e os gêmeos Prewett sempre fora mais amistosa, apesar dos estranhos desentendimentos com James e Sirius. A jovem Meadowes também não parecia chateada depois de Remus rejeitá-la no ano passado, atordoado o suficiente com seus crescentes sentimentos por Sirius e, então, pela traição do mesmo. Era uma benção ela ainda considerá-la como um amigo, ele acreditava, visto que era tão comum dele fugir de seus próprios conflitos, refugiar-se nas próprias percepções e nunca mais encarar o que quer o enfrentasse.
A lua cheia já era o bastante, ele dizia.
— Estaremos esperando por você. — Dorcas disse, revelando no olhar que sabia mais da solidão de Remus do que pretendia dizer. A inocência de seus traços servia-lhe mais como um mistério, um feitio que ele com certeza poderia amar, adorar se o destino não lhe tivesse pregado uma peça.
Foi com muito custo que Remus se reprimiu o suficiente para negar o mais apertado dos abraços a Sirius. Poderia ainda fingir que puro ódio o afogava quando o assunto era seu antigo melhor amigo, mas é bem possível que toda aquela aversão estivesse sendo direcionada a si mesmo, à saudade que seu pouco orgulho deixava escapar. A mágoa ainda revirava em suas entranhas, é claro, mas se admirava ainda mais com a falta de amor próprio que o acometia ali, tão perto de Sirius. A distância e os três meses preservando seu silêncio haviam criado uma ilusão tremenda de que toda a sua angústia tinha como único ingrediente a amargura, o rancor, porém, no momento em que o vira esperando seu cumprimento, descobriu o quanto se enganara.
Sirius havia o traído e Remus queria apenas ser forte o bastante para sustentar a própria mágoa.
Um baque na porta do compartimento o despertou de seus devaneios, o assustando o bastante para, por acidente, queimar seu próprio dedo nas brasas ainda acesas do cigarro. Levou-o à boca mais uma vez antes de virar-se, desajeitado, e deparar-se justamente com um Sirius espantado e de olhos avermelhados.
— Oi!* — saudou Sirius, sem lá muito jeito. — Não... não sabia que estava aqui.
— Tudo bem. — sacodiu os ombros aos suspiros, deixando a fumaça de sua última tragada escapar pela boca.
Com passos hesitantes, Sirius se aproximou, escorando-se, assim como ele, no batente da janela. Os cabelos negros ainda mais longos eram tocados sem cerimônia pelo vento, levados para lá e para cá, chicoteando a face pálida e tão bonita quanto ele se recordava. Por minutos a fio ambos ficaram em silêncio, mirando o que quer que passava pela paisagem à beira dos trilhos, mas Remus poderia, sim, dizer que estava sendo observado secretamente, seus movimentos vigiados por tantos olhares de soslaio.
— Isso não é saudável. — Sirius apontou, tirando subitamente o toco de cigarro da mão de Remus, apagando-o logo depois para jogá-lo pela janela. Remus poderia rir da ironia, da advertência que ele tanto dava tomando lar nas palavras do outro, justamente a quem ele mais chamava a atenção. No último ano, ele chegava a se esconder de Remus para fumar em paz, mas o cheiro ainda sempre invadia o dormitório e pregava-se em suas roupas. — Então você gosta de loiras, hah. Um tanto clichê para você, eu diria.
— Bem, dos meus pulmões cuido eu. — As demais colocações Remus fez o favor de ignorar, mas não sem sentir o rubor se apossando de seu semblante. Já chegava a analisar como sairia dali o mais rápido possível e ainda não havia excluído de suas opções a possibilidade de pular da janela. Não havia como sair sem passar por Sirius e, se Lupin bem conhecia a típica teimosia do outro, não sairia dali tão cedo.
— Você nem sabe como tragar. — riu ele, tão tristonho e sem o mínimo de esforço. — As coisas estão difíceis em casa.
— Sinto muito.
— Dromeda se casou com o Ted e queimaram o rosto dela na tapeçaria por causa disso... serei o próximo talvez. Não segundo você, pelo menos.
Mais um minuto ali seria demais. Remus disparou para a saída, mas foi agarrado pelo braço logo que passou por Sirius, sendo trazido de volta para o lugar onde estava. As fortes mãos do outro ainda apertavam seu braço, o imobilizaram ali tanto quanto as sérias contas de prata. O jovem lobisomem nunca havia visto tamanha seriedade em Sirius, nem mesmo quando conversavam sobre a família, as injúrias típicas dos Black. Havia ali também uma melancolia maior, tímida para quem não o conhecia, mas tão sonora, tão gritante e escandalosa na percepção especial de Remus.
— Precisamos conversar.
— Não quero fazer isso agora, Sirius. — disse, quase em tom de súplica, sem coragem o bastante para levantar a voz um pouquinho mais. — Deixe-me ir.
— Por que não respondeu às minhas cartas? — Sirius o ignorou completamente, inclusive aos seus pedidos para ser solto. Pelo tom de sua voz, Lupin pensou que encontraria na face do antigo amigo sua expressão mais severa, mas eram traços agoniados, suplicantes que o desenhavam. Frente ao seu silêncio, Sirius o chacoalhou levemente, intensificou seu aperto até que Remus mesmo se livrou dele.
— Você é esperto o bastante para saber, Sirius — suspirou, conformado em enfrentar tal conversa. — Nada vai mudar o que aconteceu.
Eu queria tanto que mudasse, pensou em dizer, mas permaneceu em sua quietude, aguardando o rebate. Mesmo que pulsasse nele a saudade, a complacência, pânico o acometia sempre que ansiava sentir Sirius entre seus braços novamente, segurando-o por uma alegria ou por uma tristeza. As consequências dos atos de Black poderiam vir a ser catástrofes e, bem, não deixaram de ser, ainda que em grande parte evitadas. Remus pouco compreendia as razões que levaram o outro a revelar seu segredo, seu probleminha peludo, como James o chamava, e justamente para Severus Snape. A perspectiva de um futuro como aquele, abandonado em Azkaban pela irresponsabilidade e traição de um de seus mais queridos amigos doía tanto, ardia, queimava mais do que qualquer ferida feita pelo lobo. Ainda neste dia, perguntava-se o que havia feito de errado, o que lhe condenara para Sirius... por Merlin... odiá-lo tanto assim.
— Você poderia me perdoar, ao menos. — murmurou Sirius, como uma súplica entre os dentes — Por favor.
— Não é tão fácil — Remus tentou, ao menos, exclamar — Eu ainda nem consigo entender por que... por que você achou tão interessante contar a Severus como passar pelo Salgueiro... como... — o jovem lobisomem estava prestes a ceder à confusão, balbuciando nervosamente, gaguejando até. — Você deve me odiar, não é? — Enfim perguntou, mordendo os lábios e retesando os dentes na esperança de mais uma vez segurar o choro e o que deveria na garganta.
Profunda surpresa atingiu em cheio a face do outro, os lábios estremecendo quem sabe por palavras ensaiadas ou reprimidas até que riram descrentes; um ruído desesperado e muito pouco característico de Sirius. As sobrancelhas negras contraíam-se e os olhos... os olhos estavam tão divididos entre a surpresa e o desespero que se deixaram umedecer, acumular lágrimas que não desciam.
— Eu... não... não... nunca te odiei! — bradou ele, a voz embalando e algo semelhante a um choro logo reprimido. — Como pode dizer isso, Moony? Eu nunca... Merlin, eu nunca poderia!
— Por que fez aquilo então? Ao menos sabe o que aconteceria se James não tivesse parado Severus? Eu poderia tê-lo matado! Ou pior! E depois... depois... todos saberiam quem eu sou, que monstro eu sou e eu seria jogado em Azkaban. — suas palavras já se embolavam, confundiam-se entre murmúrios e brados até que foi obrigado a se acalmar antes de prosseguir. — Droga, Sirius! Dumbledore até tentaria me defender, mas eu seria trancado em Azkaban. A porcaria de Azkaban porque meu melhor amigo me traiu por uma merda de brincadeira!
— Eu nunca deixaria isso acontecer, Moony. Nunca. Eu mataria Snivellus antes de ele sequer abrir a boca. — professou ele, um tanto mais calmo, limpando com toques nada gentis as poucas lágrimas raivosas que finalmente cederam. — Eu ainda o mato se ele algum dia tentar dizer algo.
— Você que quase me tornou um assassino! — Remus bradou, finalmente desviando o olhar — Eu te disse tantas vezes, eu te confessei meus maiores medos... Sirius...
— Eu sei, eu sei, eu sei. — A cada palavra, o lobisomem ouvia o ruído surdo da cabeça de Sirius batendo contra o batente da janela. Ele, por sua vez, havia refugiado sua face entre suas mãos, escondendo as lágrimas que não cessavam em cair nem eram enxugadas pelo vento. — Eu não pensei, me desculpe.
— Você nunca pensa, Sirius! — exclamou, tomando força para encará-lo novamente, encontrando-o então escorado na parede, o cabelo tão bagunçado que ocultava seu rosto e suas mãos lhe tapando a boca.
— Eu venho pensado bastante ultimamente... em você... nisso tudo. — disse ele, já recomposto, limpando o semblante da tristeza, raiva ou de qualquer emoção restante.
— Eu queria que fosse suficiente.
Pela segunda vez Sirius o impediu de ir embora, porém era agora uma de suas mãos a tomada pela dele, tão calejada pelos treinos de Quadribol, mas suave o bastante para lhe enviar um arrepio pela espinha. A outra, no entanto, foi parar em seu rosto, seu polegar acariciando brevemente as bochechas úmidas e dando especial atenção à cicatriz que Remus carregava próxima à boca. De repente, Sirius o puxou para um abraço que, ah, ele hesitou tanto em tornar recíproco, mas deixou que o outro afundasse seu rosto em seu pescoço e o apertasse contra si.
— Me diga o que é suficiente e eu faço. — sussurrou ele, ainda contra sua pele e seu calor.
— Por agora, só me deixe ir. — Lupin finalmente repousou as mãos nas costas de Sirius, temeroso que mais significado fosse posto em um tão simples toque.
— Me perdoe — Sirius suplicou mais uma vez, encolhendo-se ao seu toque e apertando ainda mais o lobisomem entre seus braços. — Eu sou o monstro daqui, você sabe bem disso. Eu sou o monstro.
— Deixe-me ir.
A muito contragosto, Sirius o soltou, tornando a limpar a face e retomando a expressão resoluta, séria que se esforçava em formar. Remus, então, estava prestes a torcer a maçaneta, mas então mergulhou a mão nos bolsos do paletó, tirando dali as dezenas de cartas escritas pelo amigo durante as últimas férias de verão. Estavam amontoadas em uma pequena pilha amarrada por um elástico, em sua grande parte intocadas, nem mesmo abertas. Entregou-as todas, assistido pelo olhar novamente decepcionado de Sirius e seus murmúrios silenciados em negação.
— James e Peter vão cuidar de você.
Mais uma vez, havia gritos debatendo-se entre as paredes de sua mente, mas ali não era lugar de libertá-los. Retirou mais um cigarro do maço, contudo, envolvendo-o nos lábios e, com as mãos assaltadas por tremores, o acendeu com muito custo. Pouco se importou quando Lily o repreendeu, nem tão silenciosamente, advertindo que estava dando mau exemplo aos alunos mais novos. Com certeza ela havia visto algo, reconhecido no semblante de Remus o que ele mesmo não haveria de nomear, pois logo se calou e, com um abraço silencioso, o primeiro que ela o dera, deixou que ele chorasse sem questionamento algum.
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