Notas iniciais
A fic não foi abandonada, apenas estava em hiatus, obrigada pela paciência e o carinho de todos. Apertem o play e ouçam a música ;) https://www.youtube.com/watch?v=4zLfCnGVeL4

“No quinto dia os insetos e outros vermes que rastejavam a haviam encontrado. O cheiro era fétido e adocicado. Ele já não sabia mais o que fazer com os sentimentos confusos, repulsa, desejo e tristeza. Precisava dar um basta nisso, sair e encontrar a luz. Fechou os olhos e inspirou profundamente. Foi até a cozinha e pegou o cutelo.”

20 anos atrás

Ela andava na pontinha dos pés, quando ela puxou as cobertas e desceu da cama e os pés quentes tocaram o chão frio, sentiu suas pernas tremerem. Apesar dos pés descalços ela estava completamente vestida a caráter. Uma saia de brim desfiado que combinava com a camisa xadrez e o cinturão dourado que tinha comprado na tarde anterior em um brechó. Não queria levantar muitas suspeitas comprando acessórios em uma loja de grife exorbitante. No momento em que usasse o cartão de crédito ele saberia e tudo estaria acabado...

Olhou para o relógio e era 23h55min e em menos de quinze minutos sua carona iria passar para pegá-la, portanto se quisesse chegar á tempo teria que se apressar. Naquela noite a moça tinha ido dormir cedo lá pelas nove, o seu horário habitual para não levantar nenhum tipo de suspeitas pela casa. Ás 22h30min ela já ouvira os roncos vindos do quarto ao lado, então isso significava que ela estava segura. Acordou silenciosamente se trocou e voltou para a cama, apenas por precaução, se algum deles resolvesse fazer alguma visita noturna para ver se estava tudo bem.

Pegou a bolsa que estava na cadeira ao lado da cama e as botas de cano alto brancas, as vestiria quando estivesse bem longe da casa, e de eventuais ouvidos atentos que pudessem ouvir qualquer toc toc dos saltos. Agora vinha a parte mais difícil: sair do quarto, descer as escadas, atravessar a sala e dar o fora.

Com muito cuidado virou a maçaneta, com a delicadeza de uma criança, exceto que ela não era nenhuma criança. Amélia Von-John já tinha 16 anos e era grande o suficiente para sair sozinha, o pai querendo ou não.

Assim que encostou delicadamente a porta ela se voltou para o corredor, á noite ele parecia estar cada vez mais longo e estreito. Sentia-se uma ladra procurando a saída depois de roubar todas as jóias da família.

“Um passo de cada vez, apenas um passo de cada vez e você está quase lá” ela continuava repetindo esse mantra para si mesma enquanto descia de lado as escadas, se caísse seria o fim. Os pais acordariam e iriam ver o que estava acontecendo, ou algum dos seguranças iriam até lá correndo. Não teria como explicar o que estava fazendo toda vestida para sair estatelada no chão.

“Pessoal eu sonâmbula! Gosto de me arrumar e vagar pela casa a noite! Ok vocês me descobriram” isso com certeza não iria colar muito.

Finalmente chegou a sala, sentiu o suor escorrer pela testa e as pernas tremulas. Era certinha e careta demais para fazer esse tipo de coisa. Não era de seu comportamento, porém estava cansada de ficar trancada em casa como uma boneca de porcelana chinesa que precisava ser protegida a qualquer custo! Queria viver a vida, experimentar novas coisas e experiências e não passar as noites dormindo confortavelmente em sua luxuosa cama, para o diabo seu pai que não a deixava fazer nada!

Quando seus pés tocaram o último degrau ela sentiu-se mais aliviada, Amélia sabia que faltava pouco para sentir a brisa gelada da liberdade. Era apenas uma noite de diversão inocente, que mal poderia haver nisso?

Com passos de bailaria a jovem chegou até a porta, quando colocou a chave na fechadura ouviu um ‘click’. Seu coração pulou uma batida e logo sentiu uma eminente onda de terror subir pela barriga. Virou-se lentamente para trás e a luz do abajur estava acesa. Sentado confortavelmente em uma poltrona de couro estava seu pai com um livro nas mãos. Ele a fitou por cima dos grossos óculos de aros escuros.

—A onde pensa quem vai? —Ele disse calmamente.

Ela estava estarrecida, mil e uma desculpas passaram por sua cabeça, mas tudo o que Amélia conseguia fazer era balbuciar frases desconexas e sem nenhum sentido. Nenhuma resposta poderia a salvar. Droga! Estava tão perto de provar a liberdade.

—E-eu... Bem é que... O senhor sabe... —Ela tentava formular uma frase decente sem sucesso.

—Não quero saber o que você pretendia fazer. Amanhã nós conversaremos sobre isso. Suba agora e volte á dormir. Meu Deus e que roupa é essa? O que é esse pedaço de pano que você está usando? — Ele disse tirando os óculos.

—É uma saia papai... —Estúpida! Ela se sentia estúpida por confrontar o grande poderoso magnata do Petróleo de Louisiana e dar essa resposta boba.

—Ah sim... Obrigado por me esclarecer. Isso é tudo menos uma saia. Tire esses trapos, coloque seu pijama e volte á dormir, amanhã veremos o que irei fazer com você. Deus... Você não se cansa de me perturbar? Agora não é hora de criança estar acordada. —Ele disse se levantando.

O sentimento de vergonha e medo foi sobreposto pelo de ultraje e indignação. Não iria mais ser tratada como uma criança. Ela certamente não era uma criança! Iria dar um basta nisso agora.

—Não! Eu não vou! —A voz saiu como um sussurro.

Ele voltou a atenção para ela.

—O que disse?

—Eu... Eu disse que não vou dormir, na realidade estou te comunicando que eu vou sair agora, então não me espere acordado! —As palavras jorravam como vômito de sua boca. Sentia que iria vomitar a qualquer momento.

Ele franziu o cenho. Guardou o livro na escrivaninha e caminhou lentamente em sua direção. Ela engoliu a seco.

—Amélie! Pare de bobagens. Eu tive um dia cansativo doçura, então faça o favor para o seu velho pai e vá dormir. Você não quer fazer uma cena e acordar sua mãe, certo? — Ele usava sua melhor voz “eu sou o dono da razão, e você é uma imbecil”.

—Francamente eu não ligo se acordar a porra da vizinhança toda. Estou comunicando que vou sair e você não vai me impedir. Velhote! —Meu Deus! Seu coração poderia pular da camisa a qualquer instante. Ela tinha xingado seu pai e falado um palavrão em uma única sentença.

Anton Von-Jon coçou a nuca e apertou o punho.

—Onde foi que você aprendeu esses modos, mocinha? Isso é jeito de falar com o seu pai? Eu disse: SUBA PARA O SEU QUARTO E VÁ DORMIR! Não me faça te dar umas palmadas que faltou você ter levado quando era mais nova.

Amélia deu de ombros e abriu a porta. Sentiu a brisa gelada tocar seu nariz.

—Eu digo: Vá se foder. —E a última coisa que ouviu de seu pai, enquanto ia em direção ao portão para pegar sua carona até o rodeio local foi:

—Se você sair desse portão, nem se importe em voltar. Está me entendendo?

Ela entendia perfeitamente.

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—Você disse o que? —Mary perguntou aproximando os lábios dos ouvidos de Amélia. Elas estavam sentadas na roda gigante do rodeio anual que acontecia em Louisiana. O lugar estava muito barulhento, e ela mal podia ouvir o que a amiga dizia.

A noite estava fresca, uma leve brisa gelada batia nas maçãs do rosto de Amélia deixando-a corada.

—Eu mandei ele se foder. — Amélia riu baixinho.

—Meu bom Deus! Você é louca! Ele não vai deixar você voltar para casa. —Mary tirou uma mecha de cabelo escuro que caiu em seus olhos.

—Sim, eu sei. E eu realmente não me importo. — Amélia deu uma mordida na sua maçã do amor.

—Mas você deveria. A onde vai dormir, e as suas coisas?

—Por que você tem que ser tão chata, Mary? Eu ainda não pensei nisso. Que saco, me dá um tempo. —Amélia fez um beicinho.

—Me desculpe, mas isso foi tão repentino. Você sempre foi tão privilegiada por ter tudo o que sempre quis. — Mary disse colocando a mão no ombro de Amélia. Amélia se esquivou. Mary era uma boa amiga e ouvinte na maioria das vezes, mas tinha a sensação de que sua amizade era por puro interesse. Apenas para poder usufruir de sua casa, sua piscina e da boa comida.

—Eu sempre quis ser livre, poder sair quando eu quisesse, conhecer as pessoas que eu bem entendesse, sem ter dois guarda roupas enormes do meu lado monitorando cada movimento meu. Porque meu pai é um mega bilionário e é muito perigoso sua princesinha ser solta pelo mundo, pois adivinhe só? Eu não preciso ser protegida! Sou bem grandinha e posso cuidar de mim mesma. —Amélia desacelerou a respiração.

A roda parou e as garotas chegaram até o chão.

—O rodeio já vai começar vamos nos aproximar para podermos ter um lugar decente para ver. Você viu quem vai participar? — Mary perguntou puxando Amélia pelo braço.

—Não. Quem?

—Aquele cowboy bonitão. O que todas as garotas se derretem por ele, como é o nome mesmo?

Amélia sentiu o rosto corar.

—O Rey?

—Isso! Esse mesmo, James alguma coisa o nome dele, certo? — Mary andava rápido em direção á arena do rodeio.

—James Rey é o nome dele. Não acho grande coisa nele. —Amélia mentiu.

—Ele um bom sujeito. Dizem que é muito mulherengo, mas quem pode culpá-lo? Bonito daquele jeito. Toda vez que eu vejo ele tenho vontade de descer aquelas calças apertadas e...

Amélia ignorava o que a amiga tagarela falava. Ela ajeitou o cabelo e abriu um botão da blusa, queria causar uma boa impressão no jovem. Isso é se ele a notasse na multidão. Quais seriam as chances?

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As luzes brilhavam no parque, alguns pais tinham levado seus filhos para comprarem algodão doce e pipoca, e as crianças estavam enérgicas pela quantidade de açúcar no sangue. Amélia estava de pé com sua amiga na bancada vendo o rodeio. Rey era o próximo a se apresentar.

—Meu Deus! Ele é tão bonito! — Mary gritou para ser ouvida entre os gritos eloquentes da multidão. Amélia optou por ignorá-la.

—Boa noite! Senhoras e senhores! Estamos prestes a ver algo extraordinário. Segurem-se em seus lugares. Adentrando na arena, pesando incríveis 1.050kg o touro mais temido de toda a Louisiana! Ninguém consegue ficar em pé da fera preta! —O locutor gritava á todos os pulmões — El Diablo! E quem vai montar essa besta? Quem é tão louco a ponto de se arriscar por essa façanha? James Rey Furnier!

Assim que o nome foi pronunciado, Amélia sentiu um arrepio percorrer a espinha, os portões se abriram e El Diablo veio pulando a todo vapor, tentando desvencilhar-se do homem que se segurava em cima do animal.

—Se ele agüentar oito segundos será o campeão. —Mary disse empolgada.

—Eu sei! —Amélia respondeu irritada. Estava aflita, o animal poderia jogar o homem no chão e o pisotear até a morte. Ela não sabia por que tinha tanta empatia por aquele desconhecido.

—Cinco segundos! Esse cara está provando que não veio para brincar! —Dizia o locutor.

Oito segundos. E Rey foi arremessado para longe do touro. O coração de Amélia parou por uma fração de segundos, ou pelo menos ela sentiu isso. O povo foi ao delírio. Os palhaços assistentes correram para conter a fera. Vitorioso Rey levantou-se cambaleando e exibiu os dois polegares para o público que urrava de contentamento.

—Ele é demais. Meu Deus! Ele é tão bonito, precisamos falar com ele! — Mary pulava e aplaudia.

Amélia fitou a amiga com desprezo, não tinha se arriscado saindo de casa contra a vontade do pai tirano, para ser ofuscada por uma exibida. Não mesmo. Se essa vagabunda pensa que tem alguma chance com o cowboy bonitão estão redondamente enganada.

—Preciso ir ao banheiro. —Amélia disse e deu as costas. Andou depressa entre a multidão, não queria que a amiga a seguisse.

Ela ia em direção para a parte traseira do rodeio, onde ficavam os cowboys. Onde Rey estava.

Amélia imaginou que não conseguiria chegar perto do moço, ele estaria cercado de todo tipo de tiete. Ela ajeitou o cabelo e passou as mãos pela saia. Caminhando depressa para a traseira do evento, chutando terra. Olhou ao redor e nenhum sinal de fãs, muito menos do vencedor da noite.

O lugar estava o oposto do que ela imaginava vazio e silencioso, tirando os ruídos esternos das pessoas. Sentiu novamente um arrepio atravessar sua espinha.

—O que a moça está fazendo aqui sozinha? —Uma voz grave disse atrás dela.

Amélia virou-se e lá estava ele. Rey encostado em uma parte com o chapéu na cabeça e um cigarro nos lábios. Ele era uma versão country de James Dean.

—Eu.... Eu estava procurando a saída. — Ela disse desajeitada.

—A moça se embrenhou até aqui achando que era a saída? —Ele saiu das sombras e caminhou lentamente em direção á Amélia.

Ela piscou diversas vezes.

—Sim... Eu...Eu nunca vim aqui antes e bem, eu acabei me perdendo. —Ela recuou um passo para trás, ele era extremamente intimidador assim perto. Tinha olhos azuis tristes, e ao mesmo tempo pareciam capazes de despir-la.

—Sei... —Ele continuou caminhando em sua direção-Eu acho que a moça está me falando um monte de besteiras. Na verdade, tenho certeza que não está perdida. —Ele sorriu maliciosamente.

—Não? Sim... Quero dizer eu não sei como vim parar aqui e... —Antes de terminar a sentença, Rey encostou Amélia na parede.

—Shhh. A moça é muito tagarela. —Ele aproximou-se de seu rosto. Ela fechou os olhos e engoliu á seco. Deu uma cheirada em seu pescoço. —Você cheira muito bem... Bem demais. Cheira a uma moa bem criada.

Amélia não sabia como responder aquilo, abriu a boca e tornou a fechá-la novamente. Antes de poder dizer mais alguma coisa ele estava com a mão tão fundo dentro de sua saia, que parecia estar procurando petróleo.

—Não... Eu não acho que isso seja uma boa ideia. —Ela protestou tentando tirar a mão dele dali. Ele segurou seu pulso contra a parede.

Amélia sentiu o coração acelerar, não gostava do rumo que aquilo estava tomando, parecia precipitado e ao mesmo tempo errado.

—Você está gostando, eu sei que está. Não foi por isso que veio até aqui, moça cheirosa? — Rey abriu com a boca o botão de sua blusa e cheirava entre seus seios. Amélia estava apavorada.

—Não, por favor. Pare! Me solta! —Ela fechou os olhos. O toque dele era assustador e ao mesmo tempo agradável.

—Você diz isso, mas seu corpo responde de outra forma. Eu sempre te quis Amélia! — Ele disse em seu ouvido.

Amélia estava ofegante.

—Espere! Você me conhece?

—Claro que sim, você sempre passa perto do pasto quando eu estou treinando, pensou que eu não vi a maneira como você me olhava? Louisiana pode ser grande, mas eu sei a onde você estuda, a onde mora e quem são seus pais. Você não é a única que sabe observar. — Enquanto falava manso em seu ouvido, Rey metia a mão dentro da calcinha de Amélia.

Meu Deus! Ele a estava perseguindo, e isso era tão assustador e excitante ao mesmo tempo. Amélia não sabia como reagir aquilo, se sentia tão boba e infantil.

—Eu acho melhor esperarmos, nos conhecermos melhor. — Ela disse tentando fechar as pernas. Rey ergueu os olhos e a encarou.

—Eu acho que já esperei muito. E você fala demais. — Ele a virou contra a parede e a encostou em um latão que estava próximo. Amélia engoliu a seco e ouviu o som da fivela de Rey sendo desabotoada.

No mês seguinte quando descobriu que estava grávida e contou para a mãe, Amélia foi expulsa de casa pelo pai. Sem opções de moradia ou perspectiva viu-se obrigada a casar-se com Rey e ir morar em uma casinha humilde com ele.

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Cinco anos depois...

Amélia Furnier se desdobrava com o ensopado no fogo e as crianças chorando. Carollyn de cinco anos estava puxando a barra de sua saia, alegando estar com fome. No seu colo o pequeno James Jr. de seis meses chorava incessantemente devido a fralda suja que estava escorrendo por suas perninhas roliças. Ela tinha certeza que iria explodir a qualquer momento. Se essas malditas crianças pudessem pelo amor do bom Deus, calarem suas bocas, por um minuto. Tudo o que ela pedia era a fração de um segundo de paz e serenidade.

Enquanto ela se matava para cuidar daqueles dois pequenos miseráveis, Rey estava Deus sabe a onde. Provavelmente de bar em bar, procurando algum rabo de saia. E quando ele voltava depois que se cansava, dizia com a maior cara limpa que estava trabalhando. Saia com o maldito caminhão dizendo que fazia entregas de materiais de construção, e ela nunca encontrou um misero parafuso lá.

Ele estava ficando cada vez mais estranho, quando estava junto com ela, parecia não estar presente. Sempre sentado olhando para a TV, mesmo quando ela estava estática. Respondendo de maneira monossilábica suas perguntas, ou perdendo a paciência com as crianças, que na maior parte do tempo ele ignorava.

A pior parte era à noite, quando ele estava em casa era claro. Ela fazia os pequenos dormirem e corria deitar antes dele. Mesmo quando fingia dormir, ele dava um jeito de acordá-la. Às vezes ela nem precisava estava acordada para ele violar seu corpo.

Rey era um péssimo marido, um pai medonho e acima de tudo um ser humano desprezível, mas as vezes tinha seus dias bons. Ele era doce e carinhoso, sabia ser afetuoso com as crianças e falava coisas bonitas aos ouvidos de Amélia. Era como dormir com o Médico e o Monstro. Ele se transformava e ela não sabia com que homem iria acordar na manhã seguinte.

Sentia saudades da vida confortável que seu pai proporcionava desde que fora convidada para se retirar de sua casa e ir morar com Rey e seu filho até então não nascido, ela se arrependia todos os dias de ter desafiado o pai e ter fugido naquela fatídica noite de casa, a procura de novas aventuras... Saiu de uma prisão para outra.

Rey chegou perto das 19hs e sentou-se no sofá com uma cerveja nas mãos. Ele aparentava estar bêbado.

—Rey! Pelo amor de Deus! Segure o seu filho enquanto eu termino o jantar. Seu jantar. — Ela disse colocando James Jr no colo do pai.

Rey nem se deu ao trabalho de olhar para nenhum dos dois. Amélia suspirou.

—O que está acontecendo com você? Por que está assim? Ein? Rey? Pelo amor de Deus Rey, reaja! Faça alguma coisa! Pare de ser um peso morto. Você está me assustando, vagando pela casa como um morto vivo, está assustando as crianças!—Ela cutucou o marido.

—Você adoraria isso, não adoraria? — Ele disse balançando a criança no colo.

—Adoraria o que? — Amélia perguntou confusa, não queria discutir com um bêbado, Rey estava tornando tudo insustentável.

—Você adora fazer com que eu me sinta um inútil, não é mesmo? Fica inventando desculpas, dizendo que eu não sirvo para nada, que eu estou te assustando. Eu já percebi qual é o seu plano, moça! — Ele falava com ela sem tirar os olhos da TV.

—Meu Deus Rey, qual é o seu problema? Que história é essa agora? —Ela virou-se para a cozinha — Eu não disse nada, pare de ser esquisito homem!

—Você adoraria ver-se livre de mim, tudo o que você mais quer é dizer que eu estou louco. Mas eu não estou louco, estou bem lúcido. Você quer trazer ele aqui para dentro sua piranha nojenta.

—O que disse Rey? — Ela gritou por cima do barulho da frigideira que estava chiando. Carollyn estava sentada no chão brincando com uma boneca.

—Eu sei de tudo, sua vaca desgraçada!

Amélia virou-se e Rey estava parado atrás dela com o filho no colo, na outra mão ele tinha uma espingarda.

—PUTA QUE PARIU! Rey o que diabos você pensa que está fazendo? Abaixa isso! —James Jr começou a chorar. Carollyn escondeu-se embaixo da mesa.

—Admita! Admita que tem outro sua puta! — Rey falava com ela, mas sem olhar diretamente em seus olhos, evitando contato visual.

—Outro o que? Você está ficando louco! Eu nem saio dessa maldita casa! Abaixo isso, Rey... Meu bem, você está assustando as crianças. — Ela disse com cuidado, tateando o balcão á procura de uma faca.

Rey começou a chorar.

—Me desculpe... —Ele apertou o gatilho. As crianças gritaram em uníssono, enquanto os miolos da mão decoravam a parede da cozinha.

Rey fechou os olhos e apertou o filho no colo.

—Carollyn... Saia debaixo da mesa. Papai precisa falar com você, benzinho...

Rey sentou-se nos degraus da casa com os braços cobertos de sangue, ascendeu um cigarro e ouviu o som distante das sirenes.

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—James Rey Furnier, você está condenado á pena de morte pelo estado de Louisiana. Pelos crimes de homicídio triplamente qualificado com a intenção de matar, por meio cruel e motivo torpe. Você é responsável pelas mortes de: Amélia Von-John Furnier, Carollyn Ray Furnier e James Ray Furnier Junior. —O juiz bateu o martelo anunciado sua sentença.

Anton Von-John soltou a mão direita que a mulher apertava com tanta força, prendeu um soluço de dor e olhou para os olhos do assassino cruel que tinha dado cabo na vida de sua filha e seus netos. Ray —como era conhecido — estava sentado no banco do réu com seu uniforme laranja. Ele tinha as mãos algemadas e os cabelos que começavam a apresentar sinais grisalhos penteados para trás. Ele virou-se lentamente e encarou Anton nos olhos. Tudo o que o velho conseguiu ver foi escuridão, e um lascivo sorriso perturbador.

—Que Deus tenha piedade da sua alma. Você vai queimar no inferno muito em breve, seu desgraçado desalmado. —Anton praguejou baixo. Passou a mão pelos óculos escuros que estavam presos á gola da camisa.

Os guardas escoltaram Rey para a saída do tribunal, que estava cheio. O caso estava sendo noticiado em toda a TV local de Louisiana, pela condenação do assassinato da filha e dos netinhos do poderoso rei do petróleo Anton Von-John. Qualquer pessoa bem instruída ou informada tinha acesso á essa informação. Menos uma garota caipira que dançava em uma boate de strip-tease conhecida como Boca do Inferno, ela não tinha qualquer interesse por notícias.

Anton levantou-se e segurou a mulher pelos ombros, estava com medo de Judith ter algum colapso nervoso ali no tribunal. Rey era escoltado vagarosamente e quando passou ao lado de Anton abriu seu sorriso, com todos aqueles dentes brancos como o de um tubarão.

—Bom dia chefe! —Ele piscou — Ótimo dia para passear no parque, levar as crianças para dar uma volta, não acha? —Rey disse.

—Que crianças? Você matou as suas junto com a minha filha, seu monstro! —Judith gritou.

Anton apertou o ombro da esposa.

—Seu covarde filho da puta. —Anton disse.

—Eu? A senhora está enganada, eu não poderia fazer mal a uma mosca. Não vejo a hora de sair daqui e reencontrar minha esposinha querida. —Rey sorriu de maneira obscena.

Anton que até então era um homem até então centrado, foi em direção de Rey. Ele iria cumprir a sentença de morte ali mesmo, e que Deus o ajudasse.

Correu em direção de Rey e deu um soco em seu rosto. Rey imediatamente foi lançado ao chão e sorriu, o filho da mãe sorriu com aquele sorriso nojento manchado de sangue. Outros guardas vieram em direção de Anton para contê-lo.

—Calma Sr. Von-John. Pedimos que mantenha a sua calma. — Um guarda disse segurando-o.

—Que inferno! Estou calmo! Tire suas mãos de mim.

Rey seguiu seu caminho até o veículo que o escoltaria de volta para a prisão, onde passaria seus últimos dias até a execução. Quando Anton e Judith sentaram-se no banco de trás do carro blindado que os levaria de volta á sua mansão, Anton passou a mão pela gola da camisa á procura de seus óculos escuros, o sol da manhã irritava suas velhas retinas. Não os encontrou. Anton bufou, pediria que alguém comprasse outros para ele mais tarde.

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Rey virou-se no seu colchão duro de cela, esse tinha sido seu companheiro fedorento nos últimos dez anos. A parceria estava contada, ele sabia disso. Enfiou a mão embaixo do colchão e a perna dos óculos escuros de Anton Von-John estavam ali, mais afiadas e letais do que nunca.

A parede velha e mofada continuava do mesmo jeito que estava há cinco minutos, embolorada e verde. O cheiro continuava o mesmo de algumas horas atrás, fedia a mijo, excremento e bolor. A torneira continuava pingando da mesma maneira que pingava há algumas semanas. O lugar era o mesmo cubículo imundo e deprimente de dez anos atrás, e nada tinha mudado. Nem mesmo o homem que esteve habitando o local.

Exceto o fato que essa era a ultima vez que ele teria que ficar preso nesse lugar esquecido por Deus, ele sabia que logo aquelas celas pesadas de metal enferrujado iriam se abrir e ele estaria alguns passos de ser o que? Liberdade era uma palavra muito vaga, ninguém era livre para fazer o que bem entendesse e ele sabia muito bem disso. Apenas alguns passos de ser mais um rato solto e perdido na grande roda que continuava a girar conhecida como ‘sociedade’.

Há quanto tempo ele estava encarando aquela parede escura, manchada, embolorada, fétida e descascada? Ele não sabia dizer se eram minutos, horas, dias ou semanas. Deus... Se fossem semanas, seus olhos ardiam e coçavam, deveriam ser semanas, pois ele nem se lembrava do que era dormir, do que ter uma boa noite de sono deitado em um colchão decente e não uma porcaria de uma montanha de jornais amassados fedorentos, enrolado em um pano cheio de piolhos que tinham a audácia de chamar ‘cama’. Um pensamento passou por sua cabeça, há quanto tempo ele não sentia o calor de uma mulher? Deitar-se com um corpo quente se aninhando ao seu, o cheiro de estrogênio que só as mulheres tinham a pele macia encostando delicadamente no seu peito, os cabelos macios e cheirosos, ele nem sabia mais que gosto uma mulher tinha. Ele sentia falta de Amélia, como queria ir embora e reencontrar ela. Sua mente tinha momentos de clareza, alguns ele se lembrava dela deitada ao seu lado se esquentando com ele. Outros momentos ele lembrava-se dela caída no chão da cozinha no meio de uma poça de sangue e miolos.

Em breve ele provaria o gosto da doce liberdade, se não fossem conceder para ele, ele iria tomá-la a força. A vida é assim, se não dão á um homem o que ele quer, um homem toma a força.

Ele nem sabia mais como era estar dentro de uma mulher, mas sabia como era ter sido violado inúmeras vezes, teve que ficar recluso em uma cela só dele, pois os outros presos não tinham compaixão para quem mata crianças. Os guardas aparentemente também não nutriam nenhuma empatia por ele.

E a merda do tempo continuava congelada, as horas não passavam, e se passavam ele nem tinha como contar, pois o acesso a um relógio fora negado há anos, aqueles malditos filhos da puta não queriam que você tivesse contato com qualquer resquício do mundo normal, e contar as horas era um privilegio que fora revogado para pessoas como ele. Apenas para se lembrar que dentro deste pedaço de merda você não é um ser humano, você perdeu sua identidade, você não passa de uma estatística, de um páreo. Você é apenas um número.

—405673! Levante a sua bunda preguiçosa daí! Vamos nós não temos o dia todo, ou tá querendo ficar mais um pouco ai?— A voz era forte como um trovão e vinha do outro lado da cela.

Rey virou-se e viu o guarda fitando-o pelas grades.

—É hoje 405673. Seu grande pedaço de merda. Já sabe se vai ser frito na velha cadeira, ou levar uma picada da injeção letal? —O guarda zombou enquanto abria a cela. Tinha um companheiro ao lado para segurar Rey.

—Que dia é hoje?— Rey perguntou.

—Esse cara é uma figura, não é mesmo? É o dia da sua execução, seu filho da puta asqueroso. Minha mulher e minha sogra estão à semana toda comentando o quanto querem ver você morto. Aliás, quem em Louisiana não quer? Vá Steves, entre e algeme-o. 405673 não tente nenhuma gracinha, ou você vai levar umas belas porradas entes de morrer.

O guarda Steves entrou na cela mal cheirosa de Rey. Ele continuou deitado virado para a parede.

—Eu prometi para a Linda que iria tentar tirar uma foto desse desgraçado morto, ela está me cobrando a semana toda. — O guarda riu em escárnio. Rey podia ouvir o barulho dele mexendo em um celular.

—405673 você vai levantar de costas, se ajoelhar com as mãos na cabeça para que eu possa te algemar. Entendeu? —Steves disse, ele era um guarda novo e sua voz ainda era oscilante, não mostrava muita potencia ou autoridade.

—Sim senhor. — Rey concordou.

—Eu pedi para se ajoelhar! Está pensando que a bela adormecida? Levanta logo dessa maldita cama 405673! — Steves disse sem mostrar nenhum sinal de autoridade.

Tudo foi muito rápido, quando Steves inclinou-se para forçar Rey a levantar-se, como uma naja ele deu o bote. Virou-se rapidamente e abriu a garganta e Steves com a perna afiada do que um dia fora um caro óculos escuro. Rey segurou o guarda e o arrastou para o fundo da sela. Ele não teve tempo de emitir um ruído, enquanto se engasgava com seu próprio sangue.

—Juro que eu achava esses joguinhos uma besteira, se minha mulher descobrir que estou jogando poker online, rapaz não quero nem pensar no que ela iria fazer. Steves? Está tudo bem aí cara? —O guarda desatento perguntou.

Não houve resposta, apenas silencio. Rey aguardava nas sombras.

—Mas que droga, vou ter que entrar nessa merda fedorenta? — Ele bufou e entrou.

—Steves? 405673? Puta que pariu, vocês viraram namorados e estão no escu... —Foi tudo o que o pobre guarda conseguiu dizer antes de ser engolido pela escuridão de um óculos de sol muito afiado em sua garganta. Rey sentou-se ofegante no chão. Tudo o que ele pensava é que adoraria um cigarro.

—Bom dia Steves! Uau como você ficou bonito com esses óculos escuros. — Uma moça alegre sentada na secretária da prisão disse animadamente.

Ele não levantou os olhos, apenas seguiu em frente com seus óculos escuros. Passou a mão na farda para tirar o amassado.

—Bom dia docinho. —Ele disse e saiu em direção ao sol. Depois de tantos anos na escuridão era bom sentir a luz tocar as trevas. Ele sentia-se vivo. Rey estava livre.

PLAY

Deitado em sua cama simples de motel, que para quem passou dez anos em um pedaço de pano cheio de jornais aquilo era uma king sized bed, Rey fumava um cigarro e fitava o ventilador de teto. Era bom aproveitar o silencio e deixar a mente desvanecer.

O cowboy gostava de ouvir o som do silencio, ele acompanhava as batidas do seu coração. Soltou a fumaça preguiçosamente. Fazia algumas semanas que ele não via Cherry, não precisava ser nenhum engenheiro espacial para saber a onde ela estava. Na casa daquele velho nojento. Rey iria visitá-los mais cedo o mais tarde. Estava apenas esperando o momento oportuno.

—Olá escuridão, minha velha amiga. —Ele disse segurando a arma semi-automática ao seu lado da cama.