Putrefy
16 A Estrada
Notas iniciais
O som de uma criança chorando o acordou de um sonho estranho. Ele se lembrava dos velhos tempos, da brisa quente do verão no rosto, do sorriso devasso e angelical que tanto encantava, lembrava também, daqueles olhos únicos. O choro fez com que despertasse de uma memória antiga, olhou para o lado e os lábios já não existiam mais, eram apenas dentes sem brilho expostos. Os olhos há muito se foram, o que o fitava era uma escuridão sem fim. A criança devia estar com fome e sentindo a falta da mãe. Era o momento de dar um jeito nisso
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Anton pegou o telefone e discou com os dedos longos, velhos e trêmulos, enquanto ele esperava a pessoa do outro lado da linha, Cherry estava sentada na poltrona ainda fitando a foto de Rey. Anton realmente não entendia qual o interesse dela naquela foto, talvez fosse apenas uma curiosidade mórbida.
—Alô? – A voz de Judith era sonolenta, Anton sabia que era madrugada na Irlanda.
—Ele escapou da prisão. Você não pode voltar para casa sob hipótese alguma. — Anton rodava o anel com suas iniciais no dedo mindinho.
—Meu Deus! – Após um longo suspiro – Você está falando sério?
—Por que eu iria brincar com isso? — Anton estava impaciente, talvez o fato de sua amante muito mais jovem que a esposa estar próxima o deixava tenso.
—Você já falou com nossos advogados? E com as autoridades? Você ainda tem aqueles contatos na polícia, não tem?
—Sim. – O velho rolou os olhos- Você não precisa me ensinar o que fazer, tenho pessoas atrás desse verme, elas estão tomando todas as providencias necessárias para nos proteger e capturar aquele maníaco... Deus sabe o que ele tem em mente, provavelmente esteja vindo me pegar.
—Não brinque com isso! Se ele estivesse em um hospital psiquiátrico, como foi sentenciado nada disso estaria acontecendo, e você sabe muito bem disso! — A voz dela tinha um resquício de mágoa.
—Ele não é louco, Judith! Ele se faz de louco. O lugar dele era e ainda é no corredor da morte. Ele não foi sentenciado á coisa alguma, eu mando nesta cidade e nas autoridades e a minha vontade foi feita. Ele ia esperar no corredor da morte e ser eletrocutado, se minha filha e meus netos não tiveram a chance de viver, por que ele deveria ter?
—Porque você não deu á ela nenhuma chance, Anton! Você sabe muito bem que se não tivesse jogado ela para fora de casa, ela poderia...
Anton bufou na linha.
—Esse não é o motivo da minha ligação, estou apenas comunicando que você está proibida de retornar da Europa. Enquanto esse animal estiver à solta não quero que ninguém se machuque. Não vou esperar mais pelas autoridades, agora meu pessoal está á frente da situação. Eu sabia que não podíamos confiar no sistema judiciário.
—Sistema esse que você enche a boca para dizer que controla? E você, vai continuar ai, esperando ele entrar na mansão e enfiar uma bala na sua cabeça?
—Judith, não se preocupe comigo. Siga minha ordem e continue aí, vivendo como uma rainha e gastando minha fortuna. — Anton desligou o telefone antes que a mulher retrucasse. Ele sabia que esse tipo de conversa com a esposa podia levar à horas no telefone.
Cherry continuava fitando aquele maldito papel.
—Me dê isso aqui querida. — Ele tomou o papel das mãos dela.
—O que você vai fazer agora, paizinho? — Cherry olhava para Anton e ele sentia que ela não o enxergava
—Eu não vou fazer absolutamente nada, querida. Existem pessoas muito bem pagas para fazer o serviço por mim. Sou velho, rico e estou muito cansado para lidar com isso agora. Esse homem não vai ficar muito tempo á solta. Ele é estúpido.
Nisso Cherry tinha que concordar, mas, Anton não sabia que ela conhecia Rey bem até demais.
O velho passou a costa da mão no rosto de Cherry, ela finalmente o enxergou e veio a pergunta que já esperava.
—E quanto á mim? O que vou fazer agora?
Pela primeira vez ela parecia frágil e indefesa, Anton sabia que ela era uma golpista atrás de dinheiro, pela sua experiência, quando as coisas ficam feias elas são as primeiras a caírem fora.
—Você vai fazer o que faz de melhor, pegar meu dinheiro e dar o fora.
Ela arregalou os olhos surpresa.
—Não precisa fazer teatro. As coisas não vão ser mais interessantes para você agora, meu bem. Eu preciso encontrar minha esposa na Irlanda e ficar longe desse pântano, como deveria ter feito muitos anos atrás. Mas, antes disso preciso terminar essa história. Está vendo todas as cabeças de animais que tenho espalhadas pela sala?
Cherry havia prestado muita atenção em todas as cabeças empalhadas, troféus de caça ela imaginava.
—Existe um lugar vazio para o pior animal de todos. Eu tinha um trato com o estado, depois que ele fosse frito, a cabeça seria minha para por na parede, mas, agora eu vou ter que antecipar as coisas e trazer essa cabeça logo para cá.
Cherry coçou a cabeça, ela realmente parecia muito surpresa, para alguém tão alheia á toda a história.
— Você quer que eu vá embora para você e seu pessoal irem atrás desse homem? — Ela levantou-se devagar, Anton desconfiava que ela estivesse grávida. Dele não era ele havia feito uma vasectomia depois que a filha nasceu, não precisava de um herdeiro se já tinha uma filha, só não sabia o arrependimento que teria no futuro, por produzir uma herdeira tão fraca da cabeça.
—Evidentemente. Não há mais espaço para nossa aventura no momento. Não tenho cabeça para distrações. Oh querida, não se preocupe, vou te dar uma boa quantia de dinheiro para você se livrar até o bebê nascer. Você vai ganhar tempo até achar o pai dessa criança, ou um idiota qualquer para te sustentar daqui para frente.
—Eu... — A voz dela tomou um tom sombrio, parecia um misto de frieza e uma pontada de medo. — Eu não acho que seja uma boa idéia ficar sozinha com esse homem á solta.
Anton riu um som rouco e seco.
—Cherry, preste atenção, acho que você se deixou levar pelo calor do momento. Esse homem não te conhece, ele não iria se preocupar com uma aventura minha, na verdade não tem nem como saber o que se passa naquela mente doentia dele, mas de uma coisa tenho certeza, se ele soubesse de você não daria a mínima para a sua existência. O que está acontecendo é um problema familiar e você não é parte da família. — Anton assinou o cheque, era uma quantia boa demais para aquela menina, a raiva o deixava generoso e ele queria se livrar dela logo, para começar a caçada.
—E como você sabe onde encontrar esse homem? — Ela pegou o cheque e guardou dentro do sutiã sem olhar o valor.
—Eu não vou encontrar ninguém, ele é quem vai me encontrar. — Anton sorriu, enquanto um segurança vinha com a mala de Cherry e a escoltava pelos fundos da mansão.
Cherry arrastava os chinelos pela rua, estava cansada demais e grávida demais para usar salto agulha. Segurava a mala que estava praticamente vazia, a sombra na calçada era bem deplorável. Uma menina esfarrapada, grávida e sem lar. Ela podia ir atrás de Rey, seu antigo paizinho e contar o plano de Anton, mas aquilo tudo era uma sujeira que ela não queria se envolver no momento. O plano era sair dessa cidade, desse estado se pudesse. Parir a criança, deixar na porta de uma igreja...
—Não acho que igreja seja um bom lugar, minha doce criança. — A voz que vinha como um sopro cortava como uma navalha. Cherry não sabia se era de dentro da sua cabeça ou se realmente estava escutando.
—Você nunca foi muito fã e igrejas, e devo dizer que por minha culpa, sua confiança nos homens religiosos foi quebrada.
Cherry olhou para o lado e o padre McDirt estava caminhando junto com ela. Ele usava uma batina longa e um chapéu de sol, o que era estranho já que estava noite.
—Você tem razão, vou deixar ele na porta de um supermercado ou algo assim, essa criança não é problema meu. — Ela deu de ombros.
—Muito menos meu você sabe que essa criança não é minha. Minha semente era forte, mas essa daí enraizou de maneira tão profunda que... Bem você deve estar gerando o Anti-Cristo. — O fantasma do padre que morava na cabeça de Cherry riu em escárnio.
—Não sei o que é pior, o filho ser do meu pai estuprador, que era um padre, hoje está morto, porém continua falando comigo. Ou ser de um ex presidiário, que na verdade é um fugitivo sinistro, com dupla personalidade e dez vezes pior que eu.
—Pior que você? Não seja modesta, minha doce criança. Você é o ser mais desprezível que já caminhou na face da terra.
Cherry repetia as palavras, porque na verdade era ela quem as dizia.
—Não! Eu pelo menos tenho consciência dos meus atos. — Ela caminhava vagarosamente, olhando para o lado e conversando com o padre McDirt — Agora o paizi... digo o Rey, ele tinha essa desculpa de blackouts, os apagões. Eu me lembro disso! E em uma dessas acabou ceifando a própria família.
—E me matou! Não se esqueça desse detalhe, Carmen.
—Não bem o suficiente, já que eu continuo te vendo...
—Ah, minha doce criança jovem, inocente e louca. — O padre parou e ficou olhando fixo para frente.
Cherry também parou e colocou a mala no chão.
—O que foi? Qual é o problema? — Cherry piscou e o padre tinha sumido. Ela se deu conta que tinha andado bastante e estava em uma rua deserta, onde o caminho levava para uma estrada de terra batida.
—Padre?
Cherry virou-se para frente, estreitou os olhos para se acostumar com o breu e viu o cano de uma espingarda.
—Carmen? Eu esperava um nome mais interessante para tanto mistério. — A lua delineava o rosto de Rey, um lado brilhava e o outro estava coberto pela escuridão. Cherry sentiu o cheiro de pólvora que saia do cano da espingarda e se perguntou por quanto tempo esteve parada falando sozinha.
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