‘’ — Porque eu estou grávida, paizinho. —Cherry reuniu toda a coragem que ainda existia dentro de si e pronunciou as palavras que estavam presas dentro de si. Pensou por uma fração de segundo que se existisse alguma sorte no mundo ele iria meter um belo chute no meio de sua barriga, que já começava a salientar. Sorriu um sorriso distorcido e manchado com seu próprio sangue.

‘—Você sabe como você vai ficar se engravidar não sabe? A primeira coisa que vai crescer é esse seu quadril, e por Deus você sabe que ele já não é pequeno! Esses seus peitos... Eles vão crescer como dois melões podres inchados, mas depois vão despencar até o chão, meu bem. Sua barriga vai ficar imensa, como se fosse explodir a qualquer momento, e quando você pedir e clamar tão alto pra que essa coisa saia de dentro de você, ela vai sair. Oh sim claro que vai! Rasgando você no meio. Uma criança, uma criança Cherry deforma você, de dentro para fora. E você sabe minha querida que não foi feita para gostar de nada e nem ninguém. Então seja uma boa menina e beba tudo isso! — A voz de sua mãe ainda ecoava dentro de sua cabeça, ela tinha treze ou quatorze anos quando foi levada pela primeira vez pela mãe até a cabana de Bubba para tomar o chá da lua, como sua avó chamava a bebida espessa que a fazia rolar no chão de dor e sangrar como um porco no abatedouro. Era dolorida, porém eficaz. Fazia com que coisas ruins fossem embora ‘

Cherry afastou a amarga lembrança de sua cabeça, sua mãe e sua avó estavam bem distantes, há milhas e milhas de distancia e junto com elas ele estava morto e enterrado. O padre molestador que era também seu pai, Cherry procurava não pensar muito a respeito, pois sabia que iria acabar perdendo o juízo. Era só fechar os olhos que ele estava lá, parado com seu sorriso presunçoso nos lábios, aquele maldito queixo pontudo e a fitando com seus enormes olhos gelados.

Rey estava em estado catatônico, oh não. Cherry reconhecia aquele olhar, sabia que ele não estava mais ali. Tinha apagado. Ele tinha essas atitudes estranhas de vez em quanto, Cherry considerou a possibilidade de ele estar usando algum tipo de entorpecente, pois era como se ele se desligasse de tudo e não estivesse mais ali presente. Apenas uma concha vazia.

—Você ouviu o que eu disse? —Ela replicou.

Rey estava parado olhando para a tela escura da TV desligada.

—Sim. —Ele ficava monossilábico e irritante. Ela tinha vontade de socá-lo.

—E o que você vai fazer a respeito? Entendeu o que eu disse paizinho?

Rey não piscava.

—Sim. — Ele repetiu novamente.

Cherry sentiu o rosto esquentar.

—Sim o que? Me responda! Responda a porra da minha pergunta! O que vamos fazer? —Cherry sabia o que ela iria fazer. Apenas estava testando Rey para ver se ele esboçava algum tipo de reação ao invés de parecer uma ameba parado á sua frente.

—Vá dormir garota, estou cansado. Não está? —Rey deu as costas e foi até a cama.

Cherry enfureceu-se. Geralmente era uma pessoa calma e centrada, mas aquele homem estava testando sua paciência.

—Puta que pariu! Qual é a merda do seu problema, seu imbecil! Eu estou grávida! Você não quer me bater? Bater na minha barriga? Tirar isso daqui de dentro? —Cherry pôs se á frente de Rey.

Ele a olhou sem realmente á ver. Não demonstrava nenhum tipo de interesse.

—Estou cansado. Amanhã resolvemos isso. —Ele deitou-se no lado contrário da cama.

Cherry estava desacreditada.

—Paizinho! Acorde paizinho! — Ela batia no rosto dele — Não ouse me deixar falando sozinha! Você precisa fazer alguma coisa!

Quando ela tornou bater no rosto dele ele agarrou seu pulso. Torceu até suas costas. Cherry sentiu um lampejo de dor.

—Eu disse que amanhã nós vamos resolver isso. Tiramos isso daí ou compramos a porra de um enxoval. Agora seja uma boa garota e cale sua boca. Deixe o papai dormir. —A voz dele era calma e fria. Cherry sentiu os pêlos da nuca eriçarem.

—Me solta seu bruto! —Ela cuspiu na cara de Rey. Ele a soltou e virou para o lado para voltar a dormir. Aquele não era o Rey abobado de sempre. Era um homem completamente diferente. Cherry não sentia medo há muitos anos, mas tinha uma má impressão daquela pessoa.

Olhou para a penteadeira, ao lado da caixa de vidro á onde sua cobra Eva estava guardada ele estava sentado. Todo de preto com sua batina o Padre McDirt a encarava com aquele maldito sorriso estúpido. Cherry sabia que aquilo não era um fantasma, não acreditava nessas bobagens isso era apenas fruto da sua mente exaurida. Aquilo não era real e NÃO podia ser.

—Eu disse para você minha doce criança. — O Padre tinha um charuto na mão, de agora em diante sempre que ela o via ele estava fumando um grande charuto cubano. Sua mente lhe pregava os piores tipos de alucinação. —Esse homem não é bom para você. —Ele soltou em circulo à fumaça.

—Cala a boca! Você nem é real. É a parte mais podre do meu subconsciente.

—Eu e você somos um só. Uma carne e o mesmo sangue, minha criança. E eu sempre tenho razão. Esse homem não é bom para você. Nenhum homem é bom o suficiente, querida. Pegue isso. — Ele apontou para uma tesoura na penteadeira. —Enfie no meio das suas pernas e termine logo com isso. Você nem sabe de quem é essa coisa, não é mesmo? — Ele sorriu e colocou o charuto na boca.

—Amanhã eu vou dar um jeito nisso. Essa coisa é problema do Rey e ele vai ter que me ajudar a dar um fim nisso. —Cherry não sabia por que estava responde para uma cadeira vazia em que só ela via um homem morto. Estava parecendo a louca da sua mãe.

—Amanhã. Esse amanhã nunca chega. A semente é forte, você sabe de quem é essa criança, quem sempre fecundou você minha doce criança? Aquele velho babaca que você sai às vezes e te enche de jóias? Por favor, você sabe que ele já teve uma filha milhões de anos atrás. Esse idiota caído na cama? Ele nem consegue manter uma ereção e sempre que broxa desconta e quebra esse seu rostinho. A pergunta é: Você quer eliminar a única lembrança minha?— Ele coçou o queixo proeminente.

—Cala essa maldita boca. Essa coisa é do Rey! Você não tocava em mim há muito tempo. Você está morto e eu estou viva! —Cherry levantou-se e foi até o banheiro. Abriu a pia e jogou água gelada nos olhos. Olhou pelo vidro sujo do espelho e seus lábios estavam cortados e inchados. O Padre estava parado atrás dela como uma sombra.

—Mas você se toca pensando em mim, não é verdade criança amada? —Ela sentiu os dedos fantasmagóricos dele tocando sem ombro. Sabia que nada disso era real. Sua mente estava cansada e desequilibrada.

—Eu sei que sente saudade do meu toque. Anseia pensando em mim. Quando esse caipira inútil entra em você, fecha os olhos e pensa que eu estou lá, não é? O primeiro a gente nunca esquece. Fale que você me quer de volta. —Ele encostou os lábios invisíveis no ouvido dela. Ela sentiu o cheiro de charuto com velas.

—Não... Eu não quero! Volte para o inferno! —Cherry bateu a cabeça no espelho. Não uma, mas duas vezes. Até os estilhaços entrarem tão profundamente em sua pele que o sangue começou a escorrer pela face.

Titubeou o rosto para tirar os estilhaços que estavam debaixo da pele. Com a ajuda de uma pinça e muito uísque ela conseguiu tirar todos. Fez um curativo improvisado e saiu do quarto. Largou Rey catatônico roncando na cama e o padre acenando para ela da balaustra do motel. Vestiu uma das camisas fedorentas xadrezadas de Rey por cima da calcinha, não se preocupou em estar sem calças pelas ruas. Se fosse estuprada não seria a primeira vez, e não correria o risco de ficar grávida, pois já estava, rá! Toma essa estupradores de plantão. Ela também tinha uma 38 presa na parte de trás da calcinha. Apenas por precaução.

—Depois não quer ser chamada de puta? É com esse tipo de roupas que você vai sair? Ou devo dizer sem roupas? —Agora o padre caminhava lado á lado na calçada.

—Vá se foder seu velho nojento. Você está morto e não pode me impedir de sair como eu quiser. —Cherry mostrou o dedo do meio para uma vitrine.

Um carro passou buzinando. Ela mostrou o dedo do meio para ele também.

Quando o terceiro carro passou buzinando ela se aproximou e se inclinou na janela. Um homem com o lábio inferior mais grosso que o superior e um cabelo ensebado jogado de lado sorriu.

—Quanto você cobra docinho? —Ele passou a língua pelo lábio inferior. Tinha um forte sotaque europeu.

—Você nunca poderia pagar por mim. Meu preço é imensurável. — Ela deu de ombros.

Ele sorriu.

—Então você gosta de palavras difíceis. Também vai se fazer de difícil, doçura?

Cherry abriu a porta do carro e se sentou no banco do passageiro. O sedan prata tinha cheiro de eucalipto. Olhou pelo retrovisor e o padre estava sentado no banco de trás. Ele sorria em escárnio.

Cherry beijou o estranho de lábios desiguais. Passou a mão por de trás da nuca dele. Ele passou a mão por sua coxa e chegou até seu sexo.

—Qual o gosto da sua boceta? —

—Paraíso. —Ela disse sentando no colo dele. O beijou com mais força, dessa vez pode sentir o volume das calças dele contra sua calcinha. Parecia que o carro estava pegando fogo de tão quente. Sentiu cheiro de velas, eucalipto e cigarro. Abriu os olhos e o padre estava fumando no banco de trás. Certa vez um cliente da Boca do Inferno tinha dito que um conhecido tinha um tumor na cabeça, sempre sentia cheiro de queimado constante. Isso pela primeira vez fazia algum sentido.

O estranho deitou o banco e subiu por cima dela. Apertou seus seios e em seguida sugou um de cada vez. Colocou sua calcinha de lado, o cabelo dele era tão oleoso que quase podia ver-se refletida naquele cinza escuro.

Cherry cravou as unhas no pescoço do estranho, ele murmurou alguma coisa em voz baixa que ela não ouviu e não quis dar atenção. Ele tentou á beijar de novo, mas ela virou o rosto. Ele entendeu o que ela quis dizer e a penetrou. Cherry virou a cabeça se inclinando e no banco traseiro lá estava ele, o padre a encarava. Ela olhou para cima e por um relance o homem que estava suando dentro dela não era mais o estranho charmoso e sim o padre. Tornou a abrir os olhos e era o estranho novamente. Segurou o pescoço dele enquanto entrelaçava as pernas no quadril, o homem continuava a investir nela com força, estocadas cada vez mais rápidas. Cherry tentou acompanhar o ritmo, mas desistiu. Ela podia ouvir McDirt rezando no banco de trás.

‘’O pão nosso de cada dia nos daí hoje’’

Cherry gemeu, mesmo sem estar sentindo nada. O homem grunhia como um porco.

‘’Perdoai as nossas ofensas, assim como perdoamos a quem nos tenham ofendido’’

—Mais força! Me foda com força! —Cherry queria parar de ouvir aquelas preces.

O homem a ignorou terminou antes de dar cinco minutos e sentou no banco do passageiro. Cherry sentiu a semente daquele homem escorrer por entre suas coxas. No fundo ouviu um ‘’amém’’ que ela sabia que só sua cabeça poderia interpretar aquilo.

—Quanto eu te devo, coração? —Ele perguntou.

Cherry arrumou a calcinha. Achou um lenço no porta volumes e limpou as coxas que estavam meladas. Seu cabelo estava pegajoso e grudado em sua testa.

—Não é nada. —Ela disse abrindo a porta.

O homem a interrompeu e colocou o braço contra a trava.

—Como não? Quanto é o programa?

Cherry olhou para aquele braço peludo.

—Eu não sou prostituta.

—Não? Então você entrou em um carro de um completo desconhecido e trepou com ele? Você é da policia ou algo assim?

Ela rolou os olhos. Viu irritação no semblante dele.

—Não. Claro que não. É basicamente isso tudo o que você disse.

—Então eu acabei de comer você de graça? —Ele continuava bloqueando a passagem dela.

—Tire o braço daí que eu quero descer.

—Qual é a pressa? Nós estamos nos divertindo.

—Não. Nós não estamos nos divertindo. Você se divertiu por três minutos, e francamente já vi homens que agüentam muito mais do que isso. —Cherry estava se sentindo tão pegajosa quanto o cabelo dele e tudo o que queria era sair dali e tomar um banho. Sentiu uma leve azia.

—Por que ir embora tão cedo? Eu e você podemos fazer... —Um relâmpago seguido de um estrondo. O cheiro da pólvora rescendeu o carro. O sangue do estranho tinha respingado no volante e o painel do carro estava coberto com massa encefálica. Cherry passou a mão no rosto que também estava vermelho e grudento. O corpo sem vida do homem caiu no banco pendendo o que sobrou da cabeça para o banco de trás.

—Ora, ora. Você acabou de estourar os miolos do seu amigo. Isso não foi muito cristão da sua parte. —McDirt ascendeu outro charuto imaginário.

—Acredito que trepar com um estranho numa rua deserta não seja algo muito religioso também. —Ela respondeu para o encosto inexistente.

—O que coe vai fazer agora minha doce criança?

—Vou jogar esse corpo no meio fio. Pelo menos agora eu tenho carro. Se Rey começar a me irritar pego todo o meu dinheiro.

—Não quer dizer o nosso? Não meu porque eu não existo, sou fruto da sua imaginação. Mas o seu e daquele palerma com calças justas. Qual o nome dele mesmo?

—Rey. E não existe nosso. É apenas meu. Como eu dizia antes do senhor me interromper. Pego todo o meu dinheiro e dou o fora daqui.

—E essa coisa? —Ele apontou com seus dedos fantasmagóricos para o ventre dela.

Cherry desceu do carro e puxou o cadáver pelas pernas.

—Eu vou me livrar disso. Amanhã cedo vou á uma clinica especializada nesse tipo de coisa. Marquei uma consulta. Se Rey estiver disposto a colaborar. —Ela puxou primeiro as pernas e depois a cabeça espatifada caiu no chão. Moveu o corpo até o meio fio. O padre agora estava sentado no capo do carro. — Se ele estiver disposto a colaborar —limpou o suor da têmpora — eu penso se o deixo ir comigo. Por que pergunta isso se você já sabe?

—Ora minha doce criança. Eu não pergunto nada. —Ele disse melodicamente. —Já sei a resposta porque eu faço parte de sua mente. Você apenas esta falando sozinha ao lado de um corpo espatifado. —Cherry olhou ao redor e viu que ele, ela tinha razão. Estava sozinha no meio da noite falando com um sedan cinza manchado de chuva e sangue.

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Cherry estava tomando banho, lavando o resto de sêmen e sangue que tinha preso no cabelo quando ouviu Rey tossindo. Pensou que ele estava se engasgando com o próprio vomito. Antes de pensar em ir dar uma olhada ele entrou no banheiro de pau duro e abriu o Box do chuveiro. Começou a urinar o ralo.

—Ei! —Cherry se esquivou do jato de urina amarela. —Eu estou aqui! Qual é a porra do seu problema?

Ele não respondeu. Fitava a parede do banheiro como um zumbi.

—Você esta me ouvindo? Paizinho? Alo tem alguém em casa? Toc toc? —Cherry jogou água no rosto por barbear de Rey. Ele já estava nu e entrou no chuveiro. Grudou no pescoço de Cherry e a empurrou contra a parede. Ela arregalou os olhos.

—Pare de fazer perguntas menina! Eu não gosto de responder as coisas. —Ele rangia os dentes. —Soltou Cherry e saiu do chuveiro.

Cherry tossiu e passou a mão pelo pescoço. Não conhecia aquele homem e havia alguma coisa obscura nele que fazia os pelos de trás de pescoço de eriçarem. Levou outro susto quando saiu do chuveiro e encontrou o Padre sentado de pernas cruzadas na privada á olhando com reprova. Deu de ombros e saiu do banheiro.

Rey estava só de cuecas em frente á TV tomando uma cerveja. Cherry abriu sua mala procurando um vestido.

—Preciso que você me leve em um lugar hoje, paizinho. — Ela vestiu um vestido vermelho com bolinhas vermelhas. Viu a pequena saliência na barriga.

—Paizinho? —Tornou a perguntar.

—Paizinho. Paizinho. Paizinho. Você não se cansa dessa sua voz enjoativa e patética? A onde quer que eu te leve? Não precisou de mim ontem à noite quando saiu de madrugada para fazer Deus sabe o que. Não espere, não sou Deus, mas sei o que você foi fazer. Foi dar por ai não é mesmo? É só isso que você sabe fazer, foi projetada com uma cavidade tão funda quanto um buraco negro para trepar com a porra de uma população inteira. Eu vi que você tem um carro. Não pense em me enganar porque hoje cedo ele está estacionado bem na frente do nosso quarto, ou é seu ou temos um fantasma morando conosco. —Rey mantinha o tom de voz calmo e distante. Não olhou para Cherry nem por uma fração de segundo.

—Que bicho te mordeu? Por que está agindo tão estranho?

—Essa criança é minha? —Ele perguntou.

—O que?

—Eu perguntei se essa criança que você está esperando é minha.

Cherry sentiu como se levasse um soco na boca do estomago.

Rey levantou-se como um zangão enfurecido e foi com tudo até ela. Cherry deu um passo para trás.

—Sua putinha. Nem sabe de quem é esse seu bastardo, não é mesmo?

Cherry não respondeu. A respiração de Rey estava perigosamente próxima da sua.

—Nem precisa responder. A onde você quer que eu te leve?

—Até uma clinica para fazer um aborto.

Rey pegou as chaves do sedan que estavam em cima da TV.

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—Agora Sra. Furnier assine aqui. Nesta outra folha e nessa de trás também. —Uma enfermeira negra da clinica St. Claire estava dando uma lista de papeis para Cherry assinar antes de entrar na sala de operações. Rey estava cochilando na sala de espera ao lado.

Cherry estava com o pulso doendo de tanto assinar. Outras mulheres também esperavam, algumas estavam em um estado mais avançado da gestação outras não mostravam nenhum sinal.

—Seu esposo está bem, Sra. Furnier? —Cherry tinha usado a identidade de Rey para dar baixa nos papeis então respondia como se fosse sua esposa.

—Sim ele está ótimo, só não dormiu muito bem. Esse procedimento é eficaz?

—Cem por cento eficaz. A senhora será sedada e o médico realizará o procedimento, quando você acordar terá algum sangramento e cólicas intensas, nem sempre isso acontece, mas pode acontecer. A senhora deverá repousar e tomar analgésicos. Voltará ao normal daqui alguns dias.

—Maravilha! Vamos fazer isso. —Cherry olhou para Rey que roncava ruidosamente em uma poltrona. Ao lado dele McDirt estava lendo uma revista times escrito ‘’Deus está morto?’’ piscou e a revista estava a onde deveria estar sozinha na poltrona.

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—Quando eu colocar o tubo de anestesia para você inalar quero que conte até cem de trás para frente, tudo bem Sra. Furnier? —O médico disse levando uma máscara de anestesia até Cherry. Ela olhou o grande tubo e se preparou para inalar.

Ouviu um estrondo e Rey abriu a porta de supetão. A atenção de todos foi desviada até ele

—O que ele está fazendo aqui? Lucy tire esse homem daqui imediatamente! —O médico disse.

—Cherry o que você está fazendo? Não me toque sua cadela! Cherry o que estão fazendo com você? —Rey estava desesperado. Ele parecia confuso e lúcido.

—Sr. Furnier isso é uma clínica de aborto. O senhor deveria esperar na sala de espera, todos os formulários já foram assinados pelo senhor mesmo.

Cherry sentiu a cabeça pesar. Estava enjoada e a visão ficando turva e embaçada. Tentou formular algumas palavras.

—Paizinho, por favor, saia daqui! —Cherry em lamento.

—Não! Eu não autorizei isso! Deus ela é só uma criança! — Rey se aproximou. Cherry viu apenas um borrão com um chapéu de cowboy.

—O senhor precisa sair daqui agora! —O médico gritou.

—Eu não tenho que fazer nada. Cherry! Levante e se vista nós vamos embora daqui.

A voz de Rey estava distante e distorcida como se fosse operado por um programa de computador defeituoso. Viu que ele tinha algo brilhante em uma das mãos. Merda ele tinha pegado uma tesoura cirúrgica.

—Paizinho não! —Cherry tentou dizer. Sangue quente e viscoso jorrou da garganta dilacerada do médico. Enquanto ele colocava ambas as mãos no pescoço para estancar o sangramento, o que era absolutamente inútil, as enfermeiras se aproximavam para ajudá-lo. Cherry sentiu que estava se movendo. Rey tirara a máscara de gás anestésico dela e a pegou no colo.

—Paizinho... O que... Por que... Diabos... Diabo você esta fazendo isso? —Cherry sentiu a visão semicerrando.

—Você não pode fazer isso garota, não pode matar o nosso filho! —Rey corria com ela pelos corredores da clinica.

—Mas não... Não é nosso... Não é... —Cherry sentiu que os olhos estavam cada vez mais pesados e quando deu por si flutuava em um sono profundo. Sem homens de chapéu e muito menos de batinas pretas.

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—Mas Cherry!

—Não me venha com mais nem menos seu patife! Não acredito que você fez isso! —Cherry estava acordada. Estava irada e estava fazendo as malas.

—Você não pode matar uma criança inocente! Matar crianças é errado! —Rey a seguia pelo quarto do hotel como um cachorrinho sem dono.

—Não é uma criança seu imbecil! É uma coisa, é meu corpo e minha decisão! Você não poderia ter me impedido de fazer isso! Tem idéia de quanto dinheiro eu gastei naquele procedimento? E agora o maldito médico está morto! —Cherry recolheu algumas roupas caídas do chão, colocou na mala e se aproximou da caixa de vidro a onde guardava sua cobra Eva.

—Para onde você vai?

—Não te interessa! Deveria ter pensando nisso antes de ir e arruinar tudo seu retardado! Meu Deus qual é a porra do seu problema? Sério, eu realmente quero saber. Fica todo esquisitão e agressivo e depois invade a merda da sala de operação e estraga tudo.

—Eu já disse que não me lembro!

—Não lembra uma ova! Pra mim você é um grande beberrão e um mentiroso maior ainda. Toma um porre faz merda e depois não se lembra do que fez! Não ouse me seguir, está me entendendo?

—Eu realmente não lembro, quando eu acordei você estava naquele lugar horroroso, eu não podia você fazer isso com o nosso...

—Não termine essa frase! NÃO EXISTE NOSSO FILHIO! Isso é uma coisa, uma aberração, um verme e agora graças a você preciso arrumar outro jeito de tirar. Adivinhe só? Não está diminuindo! Essa desgraça é uma bomba relógio prestes a explodir e vai cair em cima da minha cabeça a qualquer momento. Como você poderia saber disso? Não sabe. É um idiota mesmo. —Cherry pegou suas coisas, bateu a porta e entrou no sedan cinza roubado. Dirigiu á mais de 120km por hora na via expressa. Ia para um lugar onde poderia esquecer-se de toda essa sujeira e podridão, queria se ver livre de Rey e sua loucura. Ele era um bom sujeito no final das contas, ela sabia reconhecer uma boa pessoa no meio de outras ruins, era estúpido, porém bom. Inofensivo não faria mal á uma mosca se não fosse pela influencia de dela. E por Deus como morria de medo de voltar para a cadeia. ‘’Não lembro’’ era o que ele dizia quando ela perguntava por que havia sido preso. Um estúpido. Um grande babaca.

Dirigiu por algumas horas até parar em frente aos grandes portões de ferro da mansão de Anton Von-John o milionário com que ela mantinha um relacionamento ocasionalmente. Inclinou-se até o portão e apertou o interfone. Alguns segundos depois os pesados portões abriram-se. Cherry dirigiu até a entrada da mansão, estacionou o carro e desceu.

Anton estava caminhando em volta da piscina falando ao celular.

—Mas que raios! Se fosse para ser tão inútil assim eu deveria suspender os cheques gordos que estou assinando! É a minha segurança e não só a minha, mas a de minha esposa também! Eu não estou brincando, se esse lunático resolver vir atrás de mim... Não eu disse que não! Absolutamente não! Quero que todas as medidas sejam tomadas, eu não ligo para a policia apenas acabem com...

Cherry ser penteou por de trás de Anton. Colocou as mãos sobre os olhos dele.

—Adivinha quem é? — Ela sussurrou aos ouvidos do velho.

—Rick depois eu ligo para você. Mas, o que você está fazendo aqui? — Anton desvencilhou-se de Cherry e virou para encará-la.

—Pensei em fazer uma surpresa, paizinho.

—Não gosto de surpresas. — Ele disse friamente.

—Não está feliz em me ver? —Cherry fez beicinho.

—Não... Claro que não. — Ele deu um beijo de leve nos lábios dela. — Sua companhia é a melhor coisa que existe, é só que minha mulher poderia estar aqui.

—E ela está? — Cherry dedilhou a camisa havaiana de Anton passando os dedos pelos botões.

—Ela não está, mas...

—Então sem mais nem menos paizinho! Eu realmente senti sua falta. — Ela mentiu e o abraçou.

—Eu também senti sua falta querida, desculpe se fui rude. Estou tendo um mal momento.

—Posso te ajudar de alguma forma? — Ela massageava os ombros do velho.

—Bem que eu queria, mas não pode. Na realidade ninguém pode me ajudar ultimamente.

—Problemas de gente grande?

—Grandes problemas. Mas não vamos falar de problemas. Pretende ficar alguns dias aqui comigo?

Cherry pretendia que ele morresse e não a tocasse nunca mais com suas mãos velhas e nojentas, mas guardou o pensamento para si.

—Acho que sim, ainda não sei. Está um calor danado, não é mesmo?

—De fato está. O que está fazendo?

Cherry tirou o vestido e as roupas intimas e se jogou (de barriga) na piscina de Anton. Deu um grande mergulho.

—Os seguranças á estão vendo.

—Eu sei. A água está maravilhosa, não quer entrar paizinho? — Jogou um pouco de água na direção do velho.

O velhote riu.

—Não querida, aproveite por mim. Rick precisamos falar sobre aquele assunto... — Anton voltou ao celular e saiu da vista de Cherry. Ela boiou na água e fechou os olhos.

No jantar foram servidos frutos do mar. Caranguejo assado com molho de manteiga e vegetais, grandes camarões marinados no azeite em uma moranga com creme branco. Peixe cozido na folha de bananeira e ensopado de crustáceos. Quando Cherry repetiu pela terceira vez sentiu um leve enjôo.

—Você realmente está faminta. Nunca a vi comer com tanta veracidade. — Anton observou.

Cherry desabotôo o shorts que apertava sua pelve.

—Eu estava agora estou enjoada. Acho que comi demais.

—Você está diferente. — Ele ascendeu um charuto.

—Diferente como? — Cherry bebericou o vinho branco.

—Mais reluzente, com uma aura diferente. Também ganhou um pouco de hã... Peso.

Cherry franziu o cenho.

—Você acha? Eu não percebi nada. —Cherry sorriu e sentiu uma enorme vontade de enfiar o charuto aceso no rabo do velho.

—Sim eu acho. Você está mais robusta. Não pense em ficar gorda, de gorda já tenho minha mulher. Quando ela era mais jovem era magra, lembrava muito a minha filha... — Anton ficou quieto e parou de falar. Era doloroso demais para ele falar da filha depois de tantos anos.

Cherry resolveu interromper o silencio.

—Sabe o que é bom para queimar calorias?

Ele voltou o olhar para ela.

—Sexo. E eu estou incrivelmente excitada.

Anton sorriu para ela. Levantou-se e caminhou em sua direção. Passou a mão pelo cabelo dela e desceu até o rosto.

—Por que mudou a cor dos seus cabelos? Eu gostava do castanho.

Cherry pensou por um segundo que ele talvez visse algo a mais e doentio refletido nela. Espantou a idéia.

—Às vezes é bom mudar um pouco. — Ele aproximou-se e a beijou. Ela sentiu um pequeno nós no estomago e o gosto da bílis na garganta.

Sentiu o bolso de Anton vibrar.

—Querida se não se importa eu preciso atender essa ligação.

Cherry deu de ombros. Anton saiu todo empertigado da sala de jantar.

—Sim Rick, estou ouvindo. Alguma noticia?

Cherry levantou-se e caminhou pelo cômodo, muito bem decorado com os lustres de cristais. Tinha um armário repleto de pratarias e louças. Coisas estúpidas que gente rica coleciona.

—Você pegou? Mande para o fax que eu vou receber. Sim preciso de todos alerta...

Cherry foi até a sala ao lado. Anton estava de costas olhando para a grande janela, uma sacada que tinha visão da piscina e todo o perímetro dos jardins da enorme mansão. Cherry aproximou-se do telefone fixo, ali tinha uma foto de Anton um pouco mais jovem sem estar com os cabelos grisalhos, junto á ele estava uma mulher corpulenta de cabelo louro que ela julgava ser sua esposa. Tinha uma jovem também de cabelos castanhos cor de burro que fugiu e duas crianças, um menino e uma menina juntos na foto. Todos estavam sorrindo.

—Querida se não se importa, pegue um papel no fax por gentileza? — Anton pediu.

Cherry aproximou-se do fax. A máquina fez um barulho e cuspiu uma foto em preto e branco. Cherry sentiu os pêlos da nuca se eriçar.

—O que é isso? — Ela perguntou á Anton.

—Positivo Rick, recebi. Deixe-me dar uma olhada nisso. O que disse meu bem?

Cherry apontou a foto para ele.

—O que é isso?

—Espere um minuto Rick. Pode me dar essa folha, por favor?

—O que... Que merda é essa? — Cherry sentiu sua voz á traindo.

Anton fechou o cenho. Suas sobrancelhas eram grossas e seu temperamento sombrio.

—Acredito que isso não é de sua conta. Por favor, me de esse papel.

—O QUE É ISSO? — Ela gritou.

Anton segurou o pulso dela e tirou o papel de sua mão.

—Depois eu te ligo Rick, sim é ele. —Desligou o telefone.

—Paizinho... —Cherry tentou se acalmar — O que é isso?

Anton bufou.

—Já te contei da minha filha e dos meus netos? — Ele disse suavemente.

Cherry não entendia.

—Sim... Eu não entendo.

—O que eu te disse?

—Eu queria saber... Disse que eles foram mortos anos atrás.

Anton alisou o papel. Seus olhos cor de âmbar estavam cheios de dor.

—Esse é o desgraçado que fez isso com eles. O filho da mãe com quem minha filha se casou. Que matou a esposa e os próprios filhos á sangue frio. Ele fugiu da prisão alguns meses atrás.

Cherry já não ouviu nada mais que Anton dizia. Sentiu os pés leves e a cabeça enevoada. O papel que ela tirara do fax era uma foto em preto e branco de um homem segurando uma placa de condenado pela polícia, com os dizeres de: Louisiana- James Rey Furnier.