Putrefy
4 O Desajustado
Notas iniciais
Os olhos eram dois riscos negros borrados. Sem uma figura fixa para observar, apenas riscos gigantes como um desenho animado. A boca estava ligeiramente curvada para baixo.
—Você não pode fazer isso comigo! Você precisa ter piedade de mim! — Um resquício de voz podia ser ouvido como um zumbido de uma mosca morta. Parecia que a mosca havia entrado no seu ouvido.
—Não me diga o que eu devo fazer! Cale a sua boca imunda. — Ele tentava dizer com as palavras agarradas à garganta que teimavam para serem pronunciadas.
—Você não pode calar aquilo que está dentro da sua cabeça...
Ele aproximou-se dos lábios pálidos e enfraquecidos para um ultimo beijo. Sentiu os olhos ficarem úmidos e a boca amarga. O ultimo beijo fora há tanto tempo que ele nem se lembrava mais de como era, ou havia sido há pouco alguns minutos atrás? O tempo era um ciclo confuso e sem fim.
O cheiro continuava nauseante e insuportável.
*** ******* ***
Oito horas atrás...
Com as pernas trêmulas ele cambaleou para fora do caminhão com dificuldades. Não conseguia mais governar o seu próprio corpo. Não conseguia conduzir a si próprio, talvez ter tomado a garrafa velha de whisky que tinha encontrado no porta luvas não tenha sido uma boa idéia.
Após anos trancafiado, assim que tornou a sentir o gosto do álcool na língua foi como provar um veneno pela primeira vez, não sabia distinguir a sensação de torpor da realidade, apenas sabia que a cada gole sentia a garganta arranhar e ficar cada vez mais seca, como se seus pulmões arfassem para sentir o liquido quente escorrendo por ambos. Como se seu paladar ficasse apenas mais aguçado com a ajuda do maldito liquido. Ele não se lembrava mais como era beber, mas tudo o que queria era tomar um porre.
Fora um erro ter ajudado aquela mulher. Não fazia nem um mês que tinha voltado a sentir o sol tocar sua pele, que James ‘Rey’ Furnier tinha voltado a se meter em problemas. Era como se tudo fosse um imã gigante para confusão. Aquela garota o estava atraindo para a beirada do precipício e tudo o que ele podia fazer era seguir em frente com um sorriso na cara.
Porque diabos tinha aceitado ajudá-la a... Pelo amor de Deus! Dar cabo no corpo de outro homem? Já tinha passado tempo suficiente preso por um erro cometido no passado e parecia que estava querendo voltar para dentro da prisão de novo. Dançando na boca do perigo, fazendo a escolha errada. E se achassem o maldito corpo eviscerado e inchado, e em algum lugar um minúsculo fio de cabelo seu tivesse caído, ele já tinha visto essas merdas na televisão. Pessoas que cometem o crime quase perfeito e são denunciadas por si próprias, deixando evidencias estúpidas a onde não deveriam estar. Se uma gotícula de saliva ou suor tivesse caído naquele maldito gordo morto ele estaria fodido. Se colhessem impressões digitais encontrariam uma porção sua pelo corpo do cara que ele arrastou para dentro do pântano, se ao menos tivesse usado uma luvas...
Rey já estava visualizando todo o circo armado, os policiais encontrando o corpo boiando no meio do pântano, uma pericia levando a sua digital, que chegaria a alguma merda de banco de dados que os tiras têm e como ele era uma pessoa com um passado fichado não demoraria muito para levar a porra toda até ele. Sentia o coração pulsar só de imaginar sendo algemado e jogado na traseira do carro, tudo de novo... A humilhação, as luzes vermelhas e azuis do carro policial refletindo na sua cara deitada na viatura enquanto o algemavam. Não podia passar por isso de novo.
Isso não era o pior, e se aquela menina, a stripper falasse que ele matou o cara, ninguém nunca iria desconfiar de um belo par de peitos e um rostinho angelical, todos iriam apontar os dedos (e as armas) primeiramente pro sujeito que cheira a bebida barata e cigarros, com um chapéu de cowboy velho e um bigode sem piscar duas vezes. Antes que pudesse abrir a boca para se defender seria jogado de novo no xadrez. E ela sairia ilesa. Fora um erro enorme ter ajudado aquela moça, pelo amor de Deus ele nem a conhecia direito.
Porque confiava cegamente nela? Porque estava disposto a ajudá-la? Porque não parava de vagabundear e assaltar o maldito motelzinho que dormia para enfiar todo o dinheiro naquela mulher ao invés de ir atrás de um emprego e tentar ter uma vida decente pelo menos. Ela era apenas uma boceta, não tinha motivos pra estar fixado nela. Talvez se ele a comesse uma vez acabaria com essa graça e pararia de fazer coisas estúpidas. Dez anos sem dar umazinha é muito tempo...
Mas não, ele não queria sair e procurar um emprego, não queria ser um homem decente. Queria um dinheiro rápido e fácil. Queria passar o dia todo vendo aquela menina dançando para ele e o chamando docemente de ‘paizinho’ com aqueles olhos azuis hipnóticos. E entre o querer e poder, ele tinha sido cúmplice da porra de um assassinato. Se ela fosse uma boa pessoa não tinha matado um homem, pra começo de conversa se ela fosse uma ‘pessoa decente’ não ganharia dinheiro se esfregando em estranhos.
Mas nada disso importava no momento, tudo o que ele queria era possuí-la agora, e ele perdeu a oportunidade. Tinha se oferecido para levá-la até a casa, mas ela continuava escorregando entre os dedos. O que ele tinha que fazer para provar que ela no mínimo digno para trepar com ela? Ele não era nenhum galã, mas também sua aparência não era tão ruim assim. Seu cheiro já havia sido pior, ele tentava tomar banho todos os dias, mas às vezes quando não se dorme com ninguém não se tem muitos motivos para manter-se limpo.
E aqui estava ele trançando as pernas no estacionamento do mesmo motel fuleiro que ele estava chamando de ‘casa’ atualmente. Tentando manter-se em pé, mas assim que a garrafa ficou vazia suas idéias também ficaram. Tentou manter-se em pé mas, antes que se desse conta estava de joelhos no chão, o chão cheirava a urina. Não sabia se era de outra pessoa ou a dele mesmo.
Espalmou o velho caminhão azul desbotado e subiu de novo. Aquilo era uma péssima idéia, mas talvez ele fosse uma péssima pessoa. Ligou o motor ruidoso e pisou no acelerador. Antes que pudesse pensar claramente estava de volta na estrada de terra.
Ele conhecia aquele caminho que estava fazendo. Estava voltando para casa.
O problema é que ele não tinha uma casa, tudo aquilo que ele chamara um dia de lar estava apenas nas ruínas de suas memórias. Encontrou outra garrafa de uísque envelhecido e falsificado que tinha gosto de remédio no chão e voltou a beber. Por alguns momentos sentiu a cabeça ficar leve e o pé pesado, desviou para fora da pista escura diversas vezes. Em um momento quase que colidiu com um carro que teve que fazer uma manobra e desviar buzinando. Ele estava aéreo com a bebida que nem tinha notado o que acabara de fazer. Tudo o que queria era entrar em casa, tirar a roupa e deitar-se na cama. Escutar a respiração das crianças dormindo no quarto ao lado e o leve ronco de sua esposa. O pensamento era tão vivido que até se esqueceu que não tinha mais esposa, que a mulher que ele legalmente ainda continuava casado estava com outro homem, o mesmo homem que criava seus filhos, que eram dois completos estranhos para si mesmo.
Estacionou o carro alguns quarteirões longe da casa, o sol estava começando a nascer no horizonte, não queria fazer barulho e acordar Amélia ou as crianças. Caminhou alguns passos até chegar à velha casa com a cerca branca. A abriu sem dificuldades e rondou o perímetro. Era tudo tão familiar e estranho ao mesmo tempo, que era como se nunca tivesse saído dali. Apenas mais um dia voltando do trabalho para casa. As galinhas ainda dormiam no pequeno galinheiro de madeira. Brinquedos e embalagens vazias adornavam o chão da propriedade. A casa continuava com a mesma pintura verde-musgo de sempre, agora manchada e deteriorada pela ação do tempo. Dando a volta pela casa viu a janela do quarto das crianças, a cortina estava entre aberta, esgueirou-se para espiar. Viu as cabecinhas loiras no beliche onde Carollyn e James Jr dormiam. O sono dos inocentes. Os filhos que ele tinha, mas não conhecia, quando fora preso eles tinham apenas três e um ano respectivamente.
No outro quarto com as cortinas fechadas Amélia provavelmente dormia ao lado do marido novo. Se Rey tivesse uma espingarda entraria na casa e atiraria na cabeça de todos, e logo em seguida na sua dando fim ao tormento. Se Rey tivesse coragem...
No momento tudo o que ele tinha era um nó na garganta e a cabeça pesada de bebidas, com esforço e ainda cambaleando caminhou até o caminhão, onde voltou a ligar o motor. Antes de sair olhou pelo retrovisor. Viu Amélia parada na porta de entrada ainda com a camisola e dormir e o cabelo louro desgrenhado. Deu uma buzinada antes de arrancar em partida. Ela levantou o dedo do meio com um olhar furioso.
Voltou á estaca zero de volta ao motel vagabundo. Desta vez ele entrou novamente no quarto, que tinha uma cama, uma TV velha que pegava apenas um canal de venda de bijuterias, uma mesinha de canto e um banheiro nojento. Sentou-se na beirada da cama segurando a garrafa que ainda tinha uma quantidade considerável de bebida, que aparentemente não tinha fim, quanto mais bebia mais a bebida parecia multiplicar-se. Talvez ele estivesse presenciando o milagre da multiplicação da bebida ruim e nem tivesse se dado conta. Era como achar o rosto de Cristo em uma torrada, mas era mais interessante quando a bebida milagrosamente aumentava dentro da garrafa. Ou era isso, ou estava bêbado o suficiente para ter mais alguma noção de quantidade.
Ele não precisava de mulher, filhos ou casa. Tudo o que precisava era manter o corpo cheio e cabeça vazia. Se não se preocupasse talvez chegasse ao fim da vida adulta sem grandes problemas. Mas chegar ao fim da vida adulta parecia muito torturante. Uma vida vazia e sem sentido. Era desesperador e desanimador pensar em continuar assim. Por uma fração de segundo pensou em se entregar novamente, talvez tivesse se acomodado á vida encarcerado que não sabia mais como seria lidar com a liberdade.
Coçou o bigode loiro e depositou o chapéu na cama. Tirou toda a sua roupa, a bebida tinha esquentado seu corpo. Foi até a pequena trouxa onde guardava suas roupas e encontrou alguns analgésicos antigos. Engoliu quantos pode regrados ao resto da sua bebida não tão infinita assim. Sentou-se no chão na beirada da cama, a vida era muito exaustiva para continuar tentando agarrar-se á ela e dar alguma razão ao vazio. Se fosse verdade o que dizem sobre ver um filme de sua vida passar diante de seus olhos nos momentos finais ele queria pular essa parte, não tinha nada de muito especial para ver no final das contas. Queria apenas alcançar a luz branca no fim do túnel. Sentiu a visão ficar turva e os olhos pesados. Esperou ver imagens em flashes passando diante dos olhos como o dia de seu casamento, o nascimento de seus filhos, ou o dia que ele havia feito a terrível decisão de beber demais e sair de casa antes de ir preso. O grande vazio que ele sentia dentro de si completava-o e tudo o que ele sentia era apenas a exaustiva agonia.
No final das contas tudo que ele viu foi Cherry Pie dançando em um poste de prata enquanto ele a observava desnudar-se.
Oito horas depois...
Acordou assustado com um gosto azedo na boca. Sentia um algo gelado no seu rosto, e quando olhou para baixo viu que estava deitado no próprio vômito velho. Tentou abrir os olhos com dificuldade, mas tudo o que via era um clarão. Não se lembrava do que tinha acontecido ou como tinha parado nessa situação, nem ao menos sabia se estava vivo ou morto.
Sentiu um pequeno beliscão no rosto, forçou a visão para se focar no que estava em sua frente, viu uma mulher com um longo cabelo castanho, que pela luz parecia ser castanho claro, debruçada em cima de si, ela batia no seu rosto com a palma das mãos.
—Paizinho! Acorde paizinho! Paizinho, não me deixe! — Ela falava sem parar e tudo o que ele ouvia era um eco vindo do fundo da garganta dela. Sua boca nem ao menos parecia estar se mexendo.
—Que-quem é você? — Ele questionou com dificuldade.
—Paizinho! Fale comigo paizinho, meu Deus! Será que eu devo ligar para uma ambulância? — Ela perguntou docemente — Paizinho fale alguma coisa, por favor... — Ela sussurrava baixinho.
—Onde eu estou? — Ele perguntou confuso tentando recobrar a consciência. Quando seus velhos olhos cansados se focaram, viu o rosto doce da menina, as bochechas coradas, o nariz fino e perfeito e os lábios rosa carnudos.
—Sou eu paizinho. Cherry, não se lembra de mim?
—Qual é seu nome, de verdade... — Ele perguntou com a boca se curvando para um ligeiro sorriso.
Ela fez um beicinho e bateu de leve no rosto dele.
—Seu tolinho! Isso não tem graça. Mas, mas o que diabos aconteceu com você? — Ela encostou-se no pé da cama.
Rey tentou forçar as memórias, se lembrou de ter tomado um porre com alguns compridos. Talvez ela fosse um anjo enviado para salvá-lo. Talvez ela fosse à recepção que teria ao chegar ao inferno, de toda forma estava satisfeito de abrir os olhos e ter essa bela visão. Lembrou-se do vazio que sentia dentro do peito, ele ainda continuava lá. Ficou desapontado por ter falhado em sua tentativa de por um fim á própria vida. Maldita menina enxerida, o que ela tinha que fazer aqui o virando de seu próprio vomito, que iria matá-lo engasgado em algumas horas, quanto tempo ele passou apagado? Tinha perdido totalmente qualquer noção de tempo ou espaço. Tudo seria tão mais fácil se não tivesse sido despertado.
Mas a vida é cheia de pequenas decepções e ele teria que lidar com o fato de continuar vivo, se acreditasse em sinais esse seria um ótimo sinal de que ela era seu anjo protetor. Só uma coisa o intrigava, o que ela estava fazendo ali...
—Porque você está aqui? — Ele perguntou se levantando devagar, sentiu a cabeça e o quarto girar por ter se erguido rápido demais.
Ela franziu o cenho, estava com as pernas cruzadas no chão.
—Eu acabei de salvar sua vida, você deveria demonstrar um pouco mais de gratidão, não acha meu caro? — Ela tinha ironia em sua doce voz.
—Talvez — Ele disse indo ao banheiro tomar um banho para tirar o vômito do corpo, foi só quando entrou no banheiro que notou que estava completamente nu, da mesma maneira que tinha vindo ao mundo, e não se sentia envergonhado. Já tinha visto ela algumas vezes sem roupa, e ela não parecia impressionada em tê-lo visto da mesma forma. Ambos conheciam o corpo do outro, e nunca tinham se tocado o que tornava tudo tão terrivelmente desolador. — Talvez eu não quisesse ser salvo, já pensou nisso? — Olhou seu reflexo no espelho, as tatuagens adquiridas em sua estádia na prisão espalhadas pelo braço e peito, viu a camada de pêlos loiros que fazia o caminho em sua virilha.
Ouviu a voz dela do lado de fora do banheiro.
—Vou aceitar isso como um ‘muito obrigada’. Sinto muito se minha reação ao chegar aqui e ter visto você tossindo em cima daquela gosma amarela que saia da sua boca, foi virá-lo e tentar te ajudar. Da próxima vez não vou me esquecer de pisar na sua garganta antes de sair, seu babaca arrogante! — Ele a ouviu reclamar.
Merda, ela tinha ficado zangada, saiu do banheiro do mesmo modo que entrou ao ouvir os passos dela se aproximando da porta. Ela estava abrindo a porta quando ela a segurou pelo braço.
—Hey espere! Não foi isso que eu quis dizer. — Ela se esquivou libertando seu braço das mãos dele.
—Não me toque! Nunca me toque sem que eu diga que você pode! — Ela saiu para fora do quarto, e em um ato de impulso ele a seguiu para fora.
Sentiu o ar gelado tocar suas partes.
—Qual o seu problema? Você está nu! — Ela o censurou.
Ele não dava à mínima.
—Qual o problema? Você nunca viu um pau? — Ele disse com voz de deboche.
Ela revirou os olhos.
—Já vi melhores. Mas acho que os ‘hospedes’ não vão gostar da visão. Entre para dentro.
—Me desculpe, eu não quis te ofender ou ser grosso, é que as coisas não tem sido exatamente da maneira como eu planejei e... Eu não deveria ter descontado em você. Cherry, ou seja lá qual for a porra do seu nome...
—É Cherry! — Ela o interrompeu.
—Que seja... Enfim entre, por favor, vamos conversar.
—Eu não tenho nada para falar com você.
—Não é o que você está pensando, eu lhe devo uma satisfação. — Na realidade ele não devia, não sabia por que estava se explicando para uma completa estranha. E o pior de tudo, não entendia porque ela se importava com isso.
—Você não me deve nenhuma explicação, aliás, eu nem deveria me importar com você!
—Eu sei! — Ele concordou — Eu não sei por que eu fiz aquilo, mas você teve um motivo para vir aqui não é? O que você queria comigo?
O vento balançava a barra do vestido azul que ela vestia e jogava o cabelo em sua face pálida.
—Pelo amor de deus, estou ficando incomodada com a visão de você pelado aqui fora, vamos entrar lá dentro. —Ela finalmente disse. Ele sorriu e estendeu o braço apontando a direção da porta como um ato cavalheiresco.
Ela pegou o lençol da cama e jogou para ele.
—Vista alguma coisa, você está desviando a minha atenção. — Ela disse fazendo uma careta.
Ele sorriu e enrolou o lençol na cintura. O quarto fedia a cigarro, bebida e vômito. Mas ninguém parecia estar incomodado com isso.
—O que você queria comigo? — Ele perguntou.
—Vim lhe oferecer uma proposta. — Ela disse pegando o maço de cigarros que ele tinha jogado na cama e ascendendo um.
—Uma proposta? Que tipo de proposta? — Ele tinha mil coisas passando pela mente, e muitas delas envolviam entrar dentro da moça.
—Eu preciso da sua ajuda, e eu sei que você precisa da minha.
—Eu não vou te ajudar a desovar mais nenhum corpo moça... — Ele disse com receio.
—Não! Não é nada disso. Eu estou pensando em algo grande, não me leve a mal, mas paizinho você não é nenhum magnata não é? Não fique ofendido, mas você é um fodido que não tem a onde cair morto.
Ele riu.
—Não estou ofendido. Continue.
—E se eu lhe dissesse que tenho um plano que pode mudar as nossas vidas? Algo que você nunca sonhou ou ousou imaginar como seria. E se eu te falasse que sei como conseguir muito, e com muito eu realmente quero dizer muito dinheiro, de uma maneira fácil, o que você acharia disso? — Ela tinha um brilho soturno no olhar.
—O que você quer dizer com isso? Ganhar dinheiro fácil e muito ainda? Não me leve a mal moça, mas eu acabei de sair da cadeia e realmente não quero voltar para lá.
Ela jogou a cabeça para trás e gargalhou.
Ele não entendeu porque ela estava rindo.
—Qual é a graça? Porque você está rindo? Eu pareço algum palhaço?
Ela se levantou e tocou o rosto dele com os dedos finos, as unhas vermelhas e pontiagudas.
—Não tolinho você não parece um palhaço paizinho! É que às vezes você é tão engraçado. Eu percebi que você saiu da cadeia, isso meio que está escrito na sua cara. Convenhamos que você não tem uma perspectiva de vida muito grande não é mesmo? Olhe ao seu redor você está morando em um motel, pelo amor de Deus. Seu quarto está todo embolorado e fede a mijo e vômito. Há algumas horas atrás você estava tentando dar cabo na própria vida. Veja isso como uma oportunidade. A morte é muito finita, mas a vida... A vida é cheia de oportunidades, paizinho.
Ele não sabia a onde ela queria chegar.
—E que tipo de oportunidade é essa que você tá pensando? Qual é o seu grande plano? — Ele perguntou intrigado.
—Digamos que eu tenho contatos, e conheço pessoas poderosas, que tem mais dinheiro do que poderiam gastar em sete vidas. Eu tenho o conhecimento e a astúcia, e você... — Ela fez uma breve pausa. — Você tem um caminhão, tem a força de um homem, e não se esqueça que um dia disse que estava disposto a me ajudar no que fosse preciso. Tudo o que eu preciso é que você, que nós ajudemos um ao outro. Eu sou apenas uma menina, não posso fazer tudo sozinha. Vamos paizinho? Vai ser divertido, só eu e você, e pense na montanha e dinheiro que podemos ganhar, e tudo o que você precisa fazer é apenas me seguir, dirigir por ai, fazer um trabalhozinho aqui, outro ali e antes que você possa contar todos os dedos das mãos e dos pés, estaremos nadando em um rio de dinheiro. — Ela tocou o lóbulo da orelha dele. Ela realmente sabia como ser muito persuasiva.
Ele não fazia idéia do que ela estava sugerindo, mas não parecia ser uma má idéia.
—Como assim você conhece pessoas? Que tipo de pessoas? Você está falando em assaltar bancos, ou algo assim?
Ela deu um leve sorriso torto enquanto brincava com a orelha dele. Ele fechou os olhos, o toque dela era bom.
—Não seja tão dramático, não é roubar se alguém tem mais do que pode gastar. Eu conheço muita gente do Boca do Inferno que está disposto a dar dinheiro para mim fora daquele lugar. Conheço muita gente que tem toneladas de dinheiro em propriedades e sim, em bancos. Mas não vamos nos prender nos detalhes. É mais simples do que você imagina paizinho. — Ela encostou os lábios no ouvido dele. — Só eu e você. Apenas nós dois. Dirigindo por ai,e fazendo coisas divertidas. O que pode ter de errado nisso?
Ele suspirou, sentia uma pressão localizada nas suas partes baixas, que latejavam de ardor.
—Porque eu deveria confiar em você?
Ela se afastou.
—Você se preocupa demais paizinho. Você faz perguntas demais. Mas uma coisa tem razão, a ultima coisa que você deveria fazer é confiar em mim. Está certíssimo. Mas me responda uma coisinha: que escolha você tem? É apenas uma chance, pegar ou largar. Se arriscar. — Ela sorriu enquanto se afastava.
Ele deixou a idéia pairar no ar por um segundo, e tornou a perguntar.
—Porque você me virou? Porque não me deixou morrer engasgado?
Ela tragou a fumaça do cigarro e soltou na cara dele.
—Oras paizinho, você não entende nada não é mesmo? Eu tenho tanta coisa pra te ensinar. Você sabe, a morte é um... É um dom precioso. Não pode ser dada de forma indiscriminada, ou ele perde o seu valor, e perdemos o grande privilégio de oferecê-lo. Eu não poderia deixar você morrer assim, simplesmente não posso. Não poderia oferecer esse precioso dom para você. Não agora, com tantas coisas a serem aproveitadas e feitas. Por favor, não faça nada estúpido. Se você considerar a minha idéia de se arriscar, encontre-me amanhã a noite. Você sabe onde eu trabalho. — Ela deu um doce beijo na bochecha dele, que o fez sentir arrepios na nuca.
E como uma brisa de verão ela saiu do quarto. Deixando o confuso e patético. Pelo menos a sensação de vazio tinha ido embora. Ele tinha um pequeno motivo para continuar seguindo em frente. Não sabia ao certo o que ela quis dizer com a morte ser um dom precioso. Mas ele tinha o privilégio de poder aprender coisas com uma menina que tinha a idade para ser sua filha, às vezes o conhecimento vem de onde menos se espera. E ele se sentia pela primeira vez em muitos anos afortunado por estar simplesmente vivo.
Tomou um banho gelado, deixou toda a sujeira escorrer de seu corpo diretamente para o ralo do banheiro. A sensação de sujeira não podia ter sido eliminada tão facilmente de seu corpo, ainda assim se sentia sujo. Tinha sido beijado pela morte, e por pouco não foi beijado de volta. Se não fosse a stripper em sua maneira torta tê-lo salvado não saberia dizer que tipo de inferno estaria enfrentando no momento. Nada disso importava muito no momento. Estava cansando de pensar, pensar fazia com que sua cabeça doesse e ele não tinha muita vontade de fritar o cérebro com idéias e teorias infundadas.
Jogou algumas toalhas de papel em cima do vômito no chão, não estava animado para limpar aquela bagunça, alguém iria limpar eventualmente algum dia, mas esse dia não seria hoje. Tudo o que ele queria era deitar na cama e passar o resto da noite e do dia seguinte dormindo, até encontrar Cherry novamente no dia seguinte. Estava ansioso para ouvir os planos dela, estava surpreendentemente animado com as noticias de uma nova alvorada. E como ela havia dito, com as inúmeras possibilidades que a vida poderia provar para ele. Quase imediatamente no momento em que deitou no travesseiro dormiu.
Teve um sono pesado e agitado, lembrava-se de sua mulher e das crianças, sonhava que estava sentando-se à mesa de jantar, as crianças faziam uma oração enquanto Amélia servia o jantar, ele estava parado na mesa estático observando as crianças com as mãos em preces agradecendo ao alimento provido, enquanto a mulher servia algo que parecia ser seu vômito, o mesmo que estava no carpete em seu prato e no das crianças. Ela tinha dois círculos negros no lugar dos olhos, e o cabelo loiro continuava despenteado e desgrenhado. Em cima da mesa tem um poste de strip-tease igual ao do clube. Cherry dança por cima dos pratos, enquanto as crianças rezam. Ela lentamente agacha e vai tirando as pequenas peças de roupa lentamente. Amélia continua a servia a gororoba, agora ela vomita algo negro em cima do prato das crianças que continuam a rezar sem parar. Rey sente falta de ar, quer se levantar, mas está grudado a cadeira e não consegue se mover. Tenta gritar, mas não emite nenhum de sua boca.
—Qual o problema paizinho? Você não gosta que eu dance para você? Vai ser divertido, eu sei que você gosta disso. — Cherry agacha na mesa, e rasteja de quatro até chegar em Rey, quando aproxima os lábios do dele, Rey solta um grito desolador.
Ele está acordado e suado na cama, sente o coração bater pela camisa. O quarto todo para de girar. Rey sentou-se a cama para digerir o que tinha acabado de acontecer. Com certeza ele teve o mais bizarro pesadelo de todos os tempos.
Coçou os olhos por alguns segundo até se familiarizar com o cenário que estava pintado em sua frente. A patética TV parada no mesmo canto, a cadeira com as roupas e pertences jogados por cima. O barulho do chuveiro que pingava o dia todo no quarto ao lado. Lembrou-se que continuava no mesmo motel fuleiro. Deitou-se novamente na cama observando o teto embolorado. Ele tinha uma escolha, a escolha de fazer a coisa errada. Com a pessoa aparentemente certa. O que de mal aquela garota poderia oferecer á ele? Ela era pequena e franzina, não podia representar muito perigo não é mesmo?
Certo?
Rey continuou o resto do dia tentando se convencer que isso seria a atitude correta a ser feita, e antes que pudesse refletir mais a respeito do assunto se encontrava indo diretamente para A Boca do Inferno, a onde ele deveria tomar uma decisão, á respeito de algo que ele desconhecia. Ele simplesmente não fazia idéia do que ela havia insinuado para ele na noite anterior, sinceramente não tinha nem um singelo palpite de quais eram os planos dela, e porque ele estava envolvido nisso. Afinal de contas, ela poderia ter o homem que quisesse na palma da mão para fazer o que bem entendesse porque diante de todos os outros que ela poderia querer, ele justo ele era o escolhido? Por que diabos ela iria querer um fodido como Rey para ajudá-la a fazer alguma coisa? Ele não conseguia ajudar nem a si mesmo.
Entrou no clube quente e abafado, que cheirava a testosterona, suor e dinheiro sujo. Uma música que falava que o amor era como uma bomba tocava de fundo, era de alguma banda de hard rock que Rey não conhecia. Falava algo a respeito do silencio da noite a onde se podia ouvir um lobo uivar á sua porta. Ele não era o único com chapéu de cowboy naquele lugar, as maiorias dos homens usavam um, sendo assim ele não se sentiria tão deslocado pensou consigo mesmo.
Sentou-se á beirada do palco para observar as dançarinas subirem e descerem, enquanto batiam com os saltos no chão e derrubavam o gliter corporal nos clientes. Tentou localizar Cherry, mas não a viu em lugar nenhum.
Pediu ao garçom um copo de cerveja. Bebeu de uma vez só em um só gole. O liquido amarelo fez cócegas em sua garganta enquanto descia direito para o estômago. As luzes roxas continuavam a piscar naquele antro de perdição. De alguma forma todas aquelas mulheres que dançavam seminuas (ou completamente sem nada) se tornavam desinteressantes para Rey. Apesar de não ter uma mulher há anos nenhuma delas levantava o seu pau, nem mesmo a visão dos corpos se balançando na plataforma brilhante. Depois que ele conheceu Cherry todas se tornaram tão iguais e sem graça, eram apenas mulheres comuns...
Um homem velho se aproximou e sentou-se ao lado de Rey, que por sua vez não deu muita bola para o sujeito, era um lugar livre, estamos na porra de um país livre um homem pode sentar a onde quiser para ver quem bem entender e Rey não iria se opuser no caminho de ninguém. Dito isso repetidas vezes para si mesmo mentalmente ele continuou a visualizar o que Cherry poderia estar fazendo nesse momento. Na sala privada talvez dançando no colo de algum asqueroso tarado. Rey fechou os punhos até os nós dos dedos ficarem brancos. Respirou e contou até dez, não poderia ter ciúmes ou tentar clamar para si algo que nunca lhe pertenceu. Esse era o trabalho dela. Fazia parte de quem ela era, e isso sem sombra de duvida a tornava ainda mais interessante por assim dizer.
As luzes se apagaram subitamente, Rey pensou que talvez não tivessem pagado a conta de energia do local, até que a voz nos auto-falantes quebrou o silencio.
—E agora senhores, a Boca do Inferno orgulhosamente apresenta nossa atração principal, ela é tão sexy que vai fazer seus olhos pegarem fogo. — Rey olhou para o lado e viu um sujeito com barba ruiva anunciando no microfone. — Ela tem o poder de fazer um homem crescido chorar. Preparem-se, pois os senhores nunca viram nada desse tipo. Ela é tão doce quanto um limão. Senhores, a mais suja e perversa de todas: Cherry Pie!
Rey sentiu os dedos dos pés se retraírem, um pequeno formigamento dentro da calça e a mulher nem tinha aparecido ainda. Não restava nenhuma dúvida que ela exercia um grande poder sob ele.
As luzes voltaram a piscar e uma música começou a tocar. O som do baixo fez todos prestarem atenção na figura de preto que surgiu no palco. Ela estava envolta em um capuz negro enquanto caminhava pelo palco.
Love is like a bomb, baby, c'mon get it on
Livin' like a lover with a radar phone
Lookin' like a tramp, like a video vamp
Demolition woman, can I be your man?
Ele podia ver os saltos prata se moverem por baixo do palco. Ela se agachou na beirada do palco, perto do sujeito que estava ao lado de Rey. Pela primeira vez ele prestou atenção no velho de terno e gravata com cabelos grisalhos. Ele tinha um relógio grande de ouro no pulso e um anel no dedo mindinho com alguma inicial gravada que Rey não conseguiu identificar. Cherry abriu as pernas e ele colocou uma bola de dinheiro na calcinha dela. Rey tocou os bolsos e não tinham nem um papel de bala.
Hey!
C'mon, take a bottle, shake it up
Break the bubble, break it up
Ela tirou a capa revelando que estava com um conjunto de calcinha e sutiã preto com franjas que pendiam. O que chamou a atenção de Rey é que Cherry não tinha uma adaga na mão desta vez. Agora ela tinha uma espada brilhante.
Pour some sugar on me
Ooh, in the name of love
Pour some sugar on me
C'mon fire me up
Pour your sugar on me
Oh, I can't get enough
Ela se aproximou de Rey e apontou a espada para o pescoço dele, Rey sentiu as veias pulsarem dentro das calças quando jogou a cabeça para trás com o ácido gelado tocando sua pele. Ela o olhou fixamente nos olhos, e tudo o que ele pode ver foram duas bolas escuras no lugar dos globos oculares da mulher. Como no pesadelo que tinha tido na noite passada. Piscou e a encarou novamente para ver se não estava delirando, ela já estava de costas se pendurando no poste de strip entretendo outros clientes. Ele estava cansando e vendo coisas, era apenas isso.
I'm hot, sticky sweet
From my head to my feet yeah
No final do ato ela ajoelhou-se no chão, pouco antes da música terminar e engoliu a espada inteira, deveria ser algum truque como os de circo. Ele não tinha idéia como ela fazia isso, mas era muito boa. Tudo era tão interessante e excitante ao mesmo tempo que era impossível não imaginar como ela deveria ser quente e úmida por dentro. Isso era basicamente tudo o que ele podia imaginar.
A música acabou todos agradeceram, ela recolheu os apetrechos do palco e saiu como se nunca tivesse entrado. Rey olhou para o lado e o homem velho tinha desaparecido também. A música voltou a tocar e uma mulher negra vestida de oncinha começou a dançar uma música country que falava sobre fazer coisas más as pessoas.
O local estava pequeno demais e abafado demais para o gosto do homem, ele se levantou e foi para fora do estabelecimento. Seu velho caminhão continuava parado a onde ele havia deixado uma hora atrás. Encostou-se ao veiculo lembrando-se da ultima vez que estivera ali tinha um defunto na traseira, espera não ter mais nenhuma surpresa desse tipo. Mas aparentemente com aquela mulher tudo era tão imprevisível.
Tirou o cigarro do bolso e o ascendeu, sentiu uma sensação leve ao dar a primeira tragada e soltar à densa fumaça para fora dos pulmões. Olhou para o chão e uma barata correu pelas suas botas, rapidamente a esmagou fazendo um barulho de estouro ao matar o inseto.
Olhou para cima e Cherry estava parada á sua frente. Ela o observava com seu olhar inocente. Usava um shorts desbotado jeans e uma camisa florida o dobro de seu tamanho, ela era transparente ele podia ver os mamilos rígidos dela contra o frio da noite. Ela ainda estava com o outro par de botas de Rey nos pés.
—Pronto paizinho? — Ela perguntou docemente.
—Para o que mesmo? Você não me explicou direito as coisas.
Ela riu ruidosamente. Seu riso era doce como o de uma criança. Mas ela não era nenhuma criança.
—Oras paizinho, você não é muito inteligente não é? Nós vamos embora. Uma aventura. Apenas eu e você por um tempo. — Ela se afastou empurrando uma grande mala marrom que Rey notara apenas agora abriu a porta do caminhão de Rey e subiu no banco carona.
—O que está esperando paizinho? Entre logo. Nós temos muito que fazer. — Ela lhe piscou com seus olhos inanimados.
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