Notas iniciais
Pessoal, desculpa pela demora. Não tive muito tempo ultimamente. Espero me redimir com essa att ;) Obrigada á todos que estão acompanhando e bem vindos aos novos leitores. Bjs e boa leitura.

Era o final da primavera e o verão estava se aproximando lentamente da estação, como uma estudante tímida que tem vergonha de desabotoar a saia, lentamente o sol se aproximava das planícies para aquecer á todos. O inverno tinha sido excruciante e tornando a vida de todos um pouco mais infeliz, principalmente á sua que estava tão fria por dentro como nunca.

Não havia escolha, no dia antes de sua mãe ir embora ela se ajoelhou e disse para ele ‘’Filho estou indo embora dessa casa, e você deveria fazer o mesmo. Não vai suportar viver aqui junto com o seu pai. Ele é do tipo de homem que sempre precisa de um buraco para poder colocar. Quando perceber que eu não vou voltar, não vai se importar de o primeiro buraco quente que encontrar ser o seu. ‘’ Não havia escolha ele precisava traçar sua vida longe dali.

Ele estava cansado de daquela conversa de sempre, das mesmas ações rotineiras. Simplesmente não tinha vocação para isso, e o que todos aqueles anos havia sido ensinado e tinha cansado de ouvir nos longos seminários é de que se nasce com esse dom, que é uma vocação que cada um tem dentro de si, ou pelo menos aqueles que não tem ainda não desabrocharam totalmente o seu chamado divino, mas um dia eventualmente ele iria ceder. Ele sabia que isso era balela e cada vez tinha mais e mais razão que tudo era um monte de mentiras inventadas por pessoas frustradas para justificar o fato de que nunca iriam dar uma boa trepada. É isso ai camarada, o fim da linha. Você está preso nessa prisão (prisão nem era um bom termo para ser utilizado, afinal na prisão os presos podem fazer sexo não é mesmo?) para o resto da sua vida, e não apenas vida mas por toda a eternidade. Ele não tinha nascido com nenhum chamado e não sentia nada desabrochando dentro de si. A única coisa que crescia cada vez mais e mais dentro de si, era um fogo que ardia e o consumia mais por dentro. Ele não tinha como sair dali, não depois de todo esse tempo e dedicação, mas isso não queria dizer que iria seguir todas as regras á risco. Não! Isso nem morto. Ele até podia ter terminado o seminário, mas ainda estava vivo e acima de tudo, ainda era um homem.

Aleister McDirt estava farto da vida no seminário, tão farto que quando finalmente o terminou pensou em ir á um bar comemorar, ou quem sabe até uma daquelas casas onde algumas moças muito convidativas e simpáticas ficariam encantadas com o seu instrumento de fé. Sabia que não podia fazer isso, pelo menos não na luz do dia na velha Louisiana a onde todos sabiam o que cada um fazia e não podia se dar um peido em paz. Ao invés de fazer o que lhe daria muito mais prazer ele foi presenteado por seu comprometimento e assiduidade nos ensinamentos da fé com uma paróquia para administrar. Não que gostasse do que fazia, Cristo como ele odiava tudo aquilo. Odiava ter que organizar a maldita igreja todos os dias, odiava ter que estudar o que falar todos os domingos para aquelas pessoas medíocres, e acima de tudo odiava ficar trancado naquela cabine infernal (talvez o inferno fosse mais agradável) e ouvindo as lamurias de donas de casa entediadas que bateram nos filhos e chutaram o cachorro e se acharam as piores pecadoras do universo. Na realidade ele não ouvia nem metade das baboseiras que falavam, ele geralmente estava tão embriagado com o vinho da santa ceia que ignorava todas as palavras que vomitavam procurando sua absolvição. Era simples, no final que as pessoas terminavam sua tortura verbal de contar seus pecados, ele lhes oferecia um punhado de orações que os livrariam de todo o fardo em suas costas. Ah se tudo fosse tão simples assim. Se as preces realmente ajudassem alguém.

Padre McDirt (agora ele não podia mais ser chamado de Aleister, isso era pessoal demais) era um homem da fé, honrado e respeitado por sua comunidade de caipiras ignorantes. E talvez o mais peculiar de tudo é que a única força maior em que ele acreditava era aquela que ele tinha dentro das calças. Nada é tão corruptível como mentes vazias e simplórias. Nada é mais contagioso que o mal e isso ele aprendeu com muita facilidade. As pessoas por algum motivo que ele desconhecia confiavam em um homem de batina, acreditavam que ele era amigo intimo de Deus e por isso tinha algum tipo de autoridade, e mesmo quando ele dizia as pobres irmãs desamparadas que a única maneira de se livrarem de seus pecados era se abaixando um pouco, e o tocando delicadamente, sim bem ali e sem usar muito os dentes. As pobres criaturas acreditavam e faziam de bom grado, pois afinal de contas quem iria desobedecer a um padre? O vigário de Deus na terra? Ninguém era louco o suficiente de contrariar O Homem.

Ele era um padre que não acreditava em divindade alguma. Até conhecer o circo.

Como dito anteriormente era o final de uma enfadonha primavera, os pássaros estavam cantando e tudo era tão terrivelmente adorável que ele rezava secretamente que um míssil atingisse a maldita Louisiana e cozinhasse todos vivos. Infelizmente como a maioria das orações nada aconteceu. Até o circo chegar à cidade.

Apenas de passagem, por uma curta temporada. Espetacular, grandioso, companhia de algum tipo de família ou irmãos com algum nome europeu que ele não se recordava tão bem hoje em dia, entendam uma coisa os detalhes nesse caso não são importantes em nada. O que é preciso ser capturado é a essência da coisa. E o que diabos o circo tem a ver com a fé de um homem tocado pelas trevas? Oras, absolutamente nada. A única coisa importante com o circo era quem veio com ele.

Palhaços, acrobatas, bailarinas, algumas aberrações (nada que surpreendesse McDirt afinal ele ouvia todo tipo de coisa absurda todos os dias no confessionário) mágicas e uma atiradora de facas. Uma adorável mulher que não estava mais no auge de sua glória, pois um dos motivos do circo ter parado por aquele pântano abandonado por Deus era para dar um pé na bunda da mulher, algo que McDirt só foi descobrir um tempo depois. E o que fazia a tal atiradora de facas destacar-se entre os outros artistas circenses? O que ela tinha de tão especial que restaurou a fé jamais pronunciada daquele homem? Uma filha. Oh sim, uma graciosa filha de cabelos rubros e quadris estreitos. Tentadoramente interessante.

‘’— O senhor precisa sair e se divertir um pouco, padre. Fica o dia todo aqui preso nessa igreja cuidando dos fiéis.

—Sim, eu sei minha filha. Mas o exercício da fé tem que ser praticado todos os dias, não há descanso para o mal.’’ Alguns fiéis ingênuos insistiam que ele precisava de um pouco de diversão, o que ele precisava era de um litro de querosene e um isqueiro naquela igreja.

‘’—Mas o senhor precisa sair padre. E agora tem esse circo que veio para a nossa cidadezinha, o velho Bill, aquele que tem a granja conhece?

—Oh sim minha filha, sei quem é. — Ele não fazia idéia de quem aquela velha estava falando na porta da igreja. O sol estava brilhando forte demais, a voz dela estava ardida demais.

—Velho Bill disse que levou as netas para conhecer o circo, é muito bacana. E não tem nada obsceno, bem... Algumas roupas são curtas demais para ao meu gosto, mas fora isso acho que o senhor vai gostar.

Deveria ser chato para caralho traduzido ao pé da letra.

—Vou estudar essa possibilidade, irmã. Agora tome a sua benção. — E pare de encher meus ouvidos com essas bobagens.

Aquele verão estava mais úmido e quente que os anteriores, talvez fosse um sinal apocalíptico, é claro se Aleister McDirt acreditasse em tal coisa. Pessoas de fé poderiam dizer se tratar de um presságio que algo muito ruim iria ser concebido. Ele preferia não pensar muito a respeito. Pensar demais doía os seus miolos.

Depois de inúmeras insistências ele foi conhecer o tal circo parado em um terreno baldio, perto o suficiente do pântano para que algum aligátor invadisse a tenda e comesse todos vivos, o que não seria uma má idéia. Acabar com todos aqueles caipiras ignorantes e rezadores de bíblias de uma vez só. É claro que Deus nem sempre é justo e as preces do pobre vigário não foram atendidas. Mas ele teve uma surpresa interessante naquela tenta listrada de vermelho e branco.

Logo após o espetáculo ter terminado nada de muito extraordinário havia acontecido. Aparentemente não precisava ser nenhum engenheiro espacial para trabalhar em um circo. Mas se uma mulher velha e na concepção de Aleister velha até demais para estar naquele lugar, engolisse algumas espadas e atirasse algumas facas em um alvo era motivo para espanto e admiração de todos os caipiras ridículos do estado de Louisiana. Caminhando para ir embora de volta á paróquia, próximo a um dos trailers uma jovenzinha de cabelos rubros estava sentada em uma das escadas da casa móvel. Escorada entre a tinta branca enferrujada, ela fitava o chão coberto de pedregulhos e segurava algo nas mãos. Padre McDirt aproximou-se.

—Um espetáculo e tanto, não é mesmo minha jovem? — Na realidade ela não era tão jovem quanto ele, mas como ele era um padre sempre tinha que passar ser mais velho do que realmente era. Um rapaz.

Ela não demonstrou nenhum interesse, continuou a brincar com o objeto que segurava nas mãos. Quando a sombra do padre bloqueou a luz era olhou para cima. Um feixe de luz reluziu na cruz prateada em volta do pescoço de McDirt quase cegando a mulher.

—Não sabia que padres vinham ao circo,e aqui é tão barulhento... E a noite está se aproximando... Eu não deveria — Ela disse baixinho fitando seus sapatos lustrosos, tinha dificuldade em articular uma sentença. Oh uma jovem alma precisando ser salva!

—Não sei de onde você veio, mas aqui em Louisiana os padres são considerados uns sujeitos bem comuns. Quando não estamos distribuindo hóstias gostamos de ter um pouco de diversão.

Ela sorriu. Tinha algumas sardas na bochecha pálida, uma característica das pessoas ruivas. Ele pensou se o tapete combinava com a cortina.

—O senhor realmente é um padre? Quero dizer um de... Oh me desculpe é que eu... E mamãe me disse... O senhor é? —Ela perguntou ressabiada.

Ele pensou em dizer que na realidade vestia a batina para arejar um pouco o pau. Mas reconsiderou que essa não seria uma resposta muito educada. Aparência acima de tudo.

—Nem todos os padres são velhos e carecas. — Ele coçou o queixo pontudo. — Sou o Padre McDirt. E quem é você? Não vi você durante o show.

Ela enrubesceu como uma virgenzinha, talvez fosse. Quem poderia dizer o contrário? Isso sibilou uma pontada de curiosidade dentro de si. Cortar a primeira fatia do queijo, sempre a mais suculenta e tenra.

—Minha mãe trabalha nos palcos. Eu... Eu não presto para isso. Não acho muito decente as roupas que ela hã... Usa para... O senhor sabe o que! — Ela estava embaraçada.

—Então temos aqui uma puritana? Deus gosta de suas ovelhas puras, sabia disso? Eu sou um Padre e tenho uma relação bem próxima com o homem lá de cima. Qual seu nome mesmo?

Os olhos dela brilharam de deslumbre, era como ficar de frente com um super astro. Ela estendeu a mão para cumprimentá-lo exibindo o crucifixo de madeira enrolado entre os dedos.

—Me chamo Ruth Mortenson. —Ela sorriu docemente. Ele descobrira mais tarde que ela tinha apenas quinze anos e era uma jovem flor, algumas semanas depois ela carregava um fruto da fé do Padre em sem pequeno ventre.

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—Por perdoe-me querido pai, pois eu tenho pecado. — Mais uma vez aquela frase de todo pecador arrependido dançando em seus ouvidos pelos buracos do confessionário.

—O que você fez minha filha? Não há pecado nenhum tão grande que não possa ser perdoado aos olhos do pai... —Aleister tinha uma revista sobre carros dentro do confessionário, estava lendo uma matéria sobre pneus remold sem dar muita importância ao que falavam ali atrás.

—Padre... Eu notei uma coisa terrível... Eu deveria ter feito algo a respeito, mas... E ela sempre foi assim... Eu achei que fosse normal... Mas... —Aquela voz que não conseguia envergar uma sentença completa. Aleister revirou os olhos e abriu a cortina do confessionário.

—O que você está fazendo aqui Ruth? Conversamos ontem, ninguém peca tanto assim de um dia para o outro! —Ele sussurrou com um pequeno tom de irritação na voz.

—É que... Eu estava limpando o quarto dela, e achei... Embaixo da cama... Fiquei com tanto medo padre... O senhor acha que ela pode? Oh meu bom Deus...

Ele bufou.

—Termine a frase toda Ruth. Já conversamos sobre isso. Eu não posso adivinhar o que você quer dizer se você não falar direito comigo. Uma palavra por vez, com calma. O que tem ela?

Ela soltou um longo suspiro.

—É a Carmen... —Ela começou.

—Eu sei que é Ruth! Pelo amor de Deus! Fale logo mulher.

—Eu fui limpar debaixo da cama dela... E encontrei uma caixa... Uma caixa com coisas. — Ruth falava como um rato assustado, não tinha mais a mesma juventude de antigamente, a criança tinha consumido toda a sua vitalidade, em compensação a menina ficava cada dia mais atraente...

—Continue Ruth. Você está indo muito bem. O que tinha na caixa? —Ele jurava por Deus que se ela dissesse ‘’coisas’’ iria enfiar uma vela acesa em sua goela.

—Coisas. Coisas pequenas e coisas grandes também. Todas pratas, metálicas e brilhantes. —Ela pronunciava cada palavra como quem conta um segredo sujo.

Ele já sabia do que ela estava falando afinal ele dera falta dos castiçais e taças da igreja, achou que ela iria descobrir antes, mas acabara subestimando a burrice de Ruth. Ela era alienada demais para prestar atenção aos detalhes.

—Sim e?

—Essas coisas não são dela! — Ela segurou um grito.

—Fale baixo, mulher! Você está na casa de Deus. —Ele protestou.

—Perdão padre. O senhor sabe por que ela tem isso? Ela é uma ladra? Deveria me preocupar? O senhor poderia rezar um pouco mais com ela? Daquele jeito que o senhor sabe rezar. Eu tenho medo, ela é nossa...

Ele a interrompeu antes que ela terminasse a frase.

—Isso só se torna real se você disser, lembra disso Ruth? Não existe nossa. Não aqui dentro dessa igreja. Acalme-se mulher. — Ele sabia que tinha muita coisa de errado com Carmen, mas esse era dos males o menor— Eu preciso rezar um pouco mais com ela. Ela tem o que algumas pessoas mais estudadas chamam de um tipo de doença. —Ele ponderou a respeito as palavras que poderia usar com aquela mulher.

—Meu Deus! Que doença padre? É grave?

—Nada muito grave, minha filha. Eu posso rezar com ela para ver se controlamos essa doença. Ela não consegue se controlar pobrezinha. — A criança não era nenhuma ladra, só a mãe que era estúpida demais para notar a cleptomania. Talvez se ela a fizesse se ajoelhar um pouco mais pudesse dar um jeito nesse probleminha.

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Na varanda de Ruth Mortenson um arranjo feito de sinos ficava preso na balaustra da porta de entrada para a casa. O vento quente e úmido de verão os fazia tilintar suavemente. Era uma melodia doce e ao mesmo tempo nauseante. A cada suave tilintar o círculo se fechava um pouco mais. Cherry sentiu dedos fantasmagóricos fechando ao redor de sua garganta. Cinco palavras que ecoaram dentro de sua cabeça e fizeram o chão diminuir diante de seus pés. Sentiu os dedos afrouxarem ao redor da semi-automática. Sua têmpora latejava. Destravou o revolver, aquelas cinco palavras a tinha feito ficar aturdida. ‘’Porque ele é seu pai’’ ecoava na sua cabeça.

—Carmeeen! —A voz de sua mãe era um eco distante, parecia que ela estava embaixo da água — Largue isso... Meu bom Deus! Você não pode... Ele é que... E se você... —A mãe voltara a velha forma inarticulada de não saber projetar as palavras.

Cherry piscou. Voltou-se para o Padre que mantinha uma expressão enigmática. O que ela mais odiava naquele homem era sua feição presunçosa. Ele simplesmente não se abalava com nada. Ele era o homem que a tinha violado desde a idade tenra, que tinha distorcido toda a sua ideologia de certo e errado e a feito pegar gosto por algo que era simplesmente errado. Ele era quem a tinha ensinado tudo o que ela sabia fazer de melhor. E agora sua mãe dizia que ele também era seu progenitor. Isso não poderia ser verdade. Era nojento demais, Cherry sentiu vontade de tossir com o gosto amargo da bílis na garganta.

Ela poderia jurar que tinha visto um sorriso brotar naqueles lábios supostamente sagrados. Sentiu o impulso de puxar o gatilho e acabar logo com aquilo.

—Cale a boca. Vocês dois calem a boca! Cale a porra da sua maldita boca! Deus! Isso não pode ser verdade! —Cherry manteve o contato visual com o homem. Ele a fitava serenamente. O rosto que até o momento ela não tinha notado as mesmas feições. Os olhos gelados que ele tinha, era o mesmo olho gelado que ela tinha. O outro era o verde de sua mãe. O queixo proeminente. Deus ela só poderia estar delirando.

O sabor azedo invadiu sua boca, sua garganta dava pequenos espasmos, era como quando uma vez engolira o sêmen de um homem que não tinha bons hábitos alimentares. O vomito jorrou de sua boca direto para o pé de sua santidade: O padre.

Ele se aproximou e tentou tocar o seu cabelo. Ela empunhou a arma.

—Não toque em mim! Se você me tocar eu juro que eu morro!

—Sua mãe é velha e não sabe o que fala minha criança. Você não deveria dar ouvidos ao que uma mulher desvairada diz. Olhe que sujeira que você está fazendo. — Ele afastou-se por segurança.

Cherry sentiu a face corar. Talvez o mais triste de tudo era que o ódio havia se tornado aceitação e a aceitação por sua vez tornara-se afeto. Ela sabia que bem lá no fundo, na escuridão da masmorra de uma menina chamada Cherry ele era a única pessoa por quem ela poderia nutrir alguma coisa. Sabia que não era empatia pois era incapaz de sentir isso. Talvez fosse desejo. Por mais doentio que fosse o toque dele tinha se tornado agradável ao longo dos anos.

—Não, eu não quero ouvir mais uma palavra que saia da sua boca suja! Seu velho pervertido! Como você teve coragem de fazer isso? Eu quero que você me diga que isso não é verdade. Quero ouvir você jurando que o que ela disse não passa de mais uma loucura. Depois que você falar eu irei estourar os seus miolos. O seu sangue vai grudar no rosto daquela vaca. E logo em seguida eu vou atirar em você. Oh sim eu vou te matar mãe. —Cherry riu em escárnio.

Sua mãe a olhou aterrorizada, ela fez a menção de abrir a boca para gritar.

—E nem pense em gritar sua vaca estúpida! Você mora no meio do nada e ninguém a não ser as galinhas vão te escutar. —Cherry limpou a boca com as costas das mãos.

—E aquele cavalheiro que está esperando por você no caminhão lá fora? Ele sabe o que está acontecendo? —O padre não usava batina, apenas uma calça preta e uma blusa da mesma cor combinando com o colarinho branco. Ele estava destruidoramente charmoso. Cherry se repreendeu mentalmente por isso. Ela tinha que matá-lo. Precisava convencer de isso. Se não o fizesse iria acabar trepando com ele de novo.

—Isso não é da sua conta. Agora responda a minha pergunta! O que ela falou é verdade? Você é o que ela diz ser?

—E o que eu sou? — Ele implicou a pergunta.

Cherry riu baixinho. O desgraçado sabia fazer joguinhos mentais.

—Responda a maldita pergunta! — Ela apontou a arma para o peito dele — Você é ou não é o meu...

Cherry não conseguia pronunciar aquela palavra com três letras. Uma silaba e ela iria sujar o carpete novamente. Restos do almoço reforçado que ela tinha tido estavam espalhado por todo o chão.

—Pai? É isso o que você quer saber, meu bem? E se eu fosse o que isso iria mudar? Eu sou um padre. Padre significa pai. Sou pai de todos os fieis e as almas perdidas dessa cidade. —O maldito sorriso de satisfação continuava exposto naquele rosto. Ele era como um ídolo de pedra esculpido a mão.

—Não brinque comigo! Eu vou atirar em você! Você vai morrer seu filho da puta. Você nunca mais irá tocar um dedo em mim. Eu juro por esse seu Deus! Se isso for verdade se você for... Enfim você irá beijar a bunda do capeta. —Cherry sentiu a cabeça lateja e o suor escorrer pelas sobrancelhas, o local de repente havia se tornando abafado demais. Sua mãe estava ajoelhada em um canto da sala rezando baixinho.

—Isso depende. Você não quer que eu a toque mais? Pois eu acho que isso não é verdade. Eu sei que você anseia pelo meu toque. —Ele aproximou-se.

—Não chegue perto de mim seu canalha!

Ele a ignorou.

—Não seja uma criança chorona, sua mãe e eu ensinamos você que chorar não vai te ajudar. Se quiser ouvir um segredinho. —Ele colocou a mão sob a arma e aproximou-se do ouvido de Cherry. Ela sentiu o hálito quente dele em seu lóbulo. Sua visão estava ficando turva, talvez fosse a coisa ou sua pressão tinha baixado. —Rezar também não ajuda muito. Mas shh não conte para ninguém isso. Não queremos aborrecer a sua mãe, certo?

Cherry sentiu os dedos afrouxarem.

—Eu vou atirar e você vai morrer agora.

—Se tivesse que me matar você teria feito isso quando entrou nessa casa decidida. Mas não vai fazer isso, oh não vai mesmo. Sabe por quê? Porque o que temos é forte demais e você não tem coragem e não consegue fazer isso. Nossos laços são de sangue. —Ele deu um beijo molhado no rosto de Cherry. Ela sentiu suas entranhas revirarem.

Saiu em disparadas para a fora da casa. O caminhão parecia estar á quilômetros de distancia. Os sinos tilintaram alegremente em cima de sua cabeça.

—Mande lembranças para o cavalheiro no caminhão, minha criança! —Ele gritou e acenou pela porta. Cherry sentiu o chão tocando cada vez mais próximo de suas canelas.

Abriu a porta com toda a força que ainda restava dentro de si. Ainda segurando o revolver e se ajoelhou no chão, com as penas na grama e encostando o rosto no banco.

—Jesus Cristo Cherry! O que aconteceu? Você está bem? — Rey perguntou, mas sua voz era um leve sussurro anos luz de distancia. Era como se tivesse sido engolida por uma densa névoa. Uma névoa que cheirava á velas da igreja.

—Oh paizinho... Pai... —Foi tudo o que ela conseguiu balbuciar antes de ser engolida pela escuridão.

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Quando Cherry abriu os olhos estava novamente deitada na cama imunda do motel. Sentiu o cheiro de cigarro e cerveja. Virou a cabeça para o lado e viu Rey sentado na beirada da cama com o cigarro pendurado no lábio.

—Paizinho! — Ela disse baixinho.

—Cherry! Como você está se sentindo? — Ele chegou para mais perto dela.

—Morta. Queria estar morta. —Ela esticou os pés e tocou os joelhos dobrados do Rey.

—Não diga isso. Você é jovem e tem a vida toda pela frente. O que diabos aconteceu naquela casa? Aquele cara acenando na varanda era um padre?

Cherry se lembrou do que tinha acontecido. Sentiu o gosto do gozo do padre dentro da sua boca, lembrou da textura consistente escorrendo por entre as suas coxas e teve vontade de vomitar de novo.

—Ele se diz um padre, se é eu já não posso garantir. Por favor, não faça perguntas paizinhos. Eu não estou me sentindo muito bem.

Ele colocou a mão na testa dela, estava febril.

—Eu até te levaria em um médico, mas... — Ele ponderou o peso daquelas palavras.

—Mas em hospitais sempre tem policias. Que maldita fobia é essa da policia paizinho? Até parece que você é um fugitivo da lei!

O rosto dele se contorceu em uma careta de dor.

—Não seja estúpida! Não brinque com essas coisas garota. É só que depois de tudo aquilo do banco e...

—Eu sei, eu sei. Deus como você é careta. Isso foi a um bom tempo e ninguém mais deve se lembrar das nossas fuças. Jesus como você é irritadinho. Precisa foder alguma coisa para ver se para de ser tão ranzinza. —Ela jogou as pernas no colo dele e brincou de forma leviana com os dedos dos pés. Rey ergueu uma sobrancelha.

—Quando você vai confiar em mim e me contar o que acontece com você? Eu nem ao menos sei o seu nome. —Ele reclamou.

—Você não vai querer saber coisas sobre mim, isso eu posso te garantir paizinho querido. — Ela imaginou qual seria a reação daquele pobre tolo ao descobrir que ela tinha sido montada pelo próprio pai. —Já disse que me chamo Cherry.

—Que diacho de nome feio! —Rey reforçou o sotaque sulista — Ninguém dá essa porra de nome para uma pessoa.

Cherry piscou inocentemente, passou o pé pela braguilha de Rey, delineado a curva em sua pélvis. Ele era lento em muitas coisas, mas não ao toque. Não precisava de muitos rodeios para ficar no ponto de bala.

—Eu digo meu nome se você me contar por que foi preso. —Ela continuou a passar o pé, fazendo o movimento de cima para baixo. Sentiu-enrijecer diante da situação.

Rey segurou o pé dela com força. Cherry arregalou os olhos. Ele puxou sua perna para si e colou os lábios nos dedos de seus pés. Começando lentamente o ultimo para o primeiro. Primeiro passando os lábios e beijando. Depois sugando e chupando os dedos avidamente. Cherry sentiu um calor percorrer sua região sul.

—Eu acho que isso encerra a sua pergunta. —Ela disse e fechou os olhos. A barba por fazer de Rey em contato com sua pele macia levava arrepios do pé até a cabeça. Ele subia os beijos delineado um mapa por sua perna, subindo até a panturrilha. Dando uma ou outra leve mordiscada aqui e ali. Rey apagou o cigarro e jogou a guimba no cinzeiro que estava lotado. Enfiou a mão por debaixo de sua saia tocando sua região pubiana. Cherry soltou um suspiro em forma de gemido. Ele puxou a calcinha e tirou a saia jogando-as pelo chão. Cherry subiu a blusa que vestia e fez o mesmo que ele.

—Me deixe te ajudar. — Ele disse tirando a sua camisa e fazendo o mesmo com a calça e a cueca. Ele estava completamente ereto.

—Eu não preciso ser ajudada. — Ela replicou.

Rey passou a mão pelos cabelos e sorriu torto, da maneira estúpida que os caipiras sabiam sorrir. Se ela fosse uma doce garotinha estaria apaixonada por ele. A diferença é que ela não podia amar ninguém. Pelo menos ainda lhe restava o desejo.

—Então me deixe entrar em você. — Ele disse por fim.

—Você não deveria pedir. —Ela lhe lançou um olhar furtivo.

Rey subitamente mudou de postura, era como se uma alavanca tivesse sido acionada em sua cabeça fazendo as engrenagens finalmente trabalharem. Ele a virou de costas para si. Cherry sentiu suas mãos robustas a empurrando de bruços para a cama. Ela encostou o rosto no travesseiro suado. Rey afastou suas pernas e enfiou o rosto por entre suas nádegas. Primeiro apertando e mordendo, ele já não a beijava mais. Depois delineou seu contorno com a língua, e Cherry sentiu o fulgor subir pela barba dele roçando em sua pele. Ele afastou seu traseiro e segurou seu quadril, como um cavalo que montava uma potranca. Entrou devagar, apenas passando o pênis na entrada da vagina. Colocou a cabeça um pouco para dentro e depois tirou, aquela tortura estava a matando. Não queria implorar. Ela não tinha feito isso para homem nenhum e não seria para ele que iria fazer.

Entre a delonga de tirar e colocar ele pôs tudo para dentro dela, ela sentiu o saco de Rey batendo contra a sua bunda. E o movimento era continuo com força ele gemia em mandava ver dentro dela. Sempre que transava com Rey era como se aquela fosse a ultima trepada de sua vida. Sentia que ele a estava esfolando por fora, e simplesmente não se importava. Não precisou pedir que fosse mais forte. Ele já sabia como fazer empunhando toda a sua força dentro de Cherry.

Rey enrolou os dedos em seu cabelo e puxou para trás, Cherry gemeu e mordeu os lábios.

—Eu quero que você me bata paizinho! Quero que você bata nas minhas costas, quero que bata até que meus rins parem de funcionar e eu urine sangue por dias. Quero que acerte meu pâncreas como um pedaço de carne dura. —Cherry ordenou. Ela não pedia.

Rey obedeceu sem questionar. Ele estava empolgado demais em sua performance. O primeiro soco que ele disparou em seu rim fez Cherry perder o fôlego. Secretamente ela desejou que seu rim não fosse à única coisa interna que parasse de funcionar. A cada estocada ele batia com força. Disparou um murro no meio de suas costas. Cherry perdeu o ar, era como se seu pulmão tivesse fechado e murchado. Rey grunhiu como um animal e Cherry tossiu sufocada. Ele meteu mais fundo e deu outro soco em suas costas, seguido por mais uma seleção de socos. Ele gritava e ela podia sentir que ele estava gostando da situação. Com uma mão puxando seu cabelo e com a outra marcando suas costas. Os punhos cerrados, como blocos de cimentos caindo em cima de si. Rey gozou e Cherry pode sentir ele amolecendo dentro dela, junto com o tênue jorro quente escorrendo por sua coxa. Só então Cherry o acompanhou e gozou também.

Rey jogou-se ao seu lado da cama. Cherry tentou se mover, mas não conseguiu a dor entre suas costelas a atingiu em cheio. Talvez tivesse ficado paraplégica com os socos e murros na espinha. Decidiu por continuar deitada de bruços.

—Paizinho... —Ela disse ofegante.

Ele não respondeu.

—Você gosta de mim? —Ela já sabia resposta, mas precisa testá-lo.

—O que você quer de mim? —Ele perguntou melancólico.

—Seria capaz de fazer uma coisa por mim?

—Qualquer coisa, meu bem. —Ele estava tão ofegante quanto ela.

—Você seria capaz de matar um homem por mim?

Ele suspirou.

—Com minhas próprias mãos. —Ele passou os dedos por suas costas doloridas. Era como jogar sal na ferida e ela gemeu baixinho.

—Mesmo que isso seja... Um sacrilégio? —Ela questionou.

—Eu já vou para o inferno, benzinho.

Ela sorriu vitoriosa, mas não muito, pois suas costas doíam demais.

—Eu acho que eu te amo um pouco demais. —Ele beijou suas costas. Cherry sentiu um calafrio na espinha.

—Eu sei. —Ela não sabia se isso era algo bom ou ruim. —Talvez esse seja seu único pecado.

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Ele tamborilou os dedos pela mesa, percorrendo toda a toalha de linho branco. Em algum lugar á fundo os cânticos eram entoados, a mesma maldita canção há mais de vinte anos. Para algumas pessoas aquilo era lindo, extraordinário. Para ele era enjoativo e entediante. Ele se levantou e saiu da sala com o isqueiro em punho. Não era nada muito sofisticado, apenas um isqueiro vagabundo de plástico vermelho escrito BIC na lateral. Não tinha nenhuma necessidade de comprar algo elaborado feito de prata ou algo reluzente, afinal de contas não queria ter mais um objeto furtado por uma cleptomaníaca.

Per correu o altar e ascendeu as velas, uma a uma. Um rápido clique no isqueiro e voilá estavam acesas, o cheiro da parafina derretendo impregnou o lugar. Mais uma manhã gloriosa, mais um dia para ter que ouvir pessoas se queixando das mesmas coisas medíocres de sempre. Dizem por ai que quem nasceu para a vida do clérigo tem uma vocação, um chamado interior ou alguma besteira do tipo. Ele não tinha nada disso, apenas a urgência para que o dia terminasse logo.

Padre McDirt dirigiu-se até o confessionário, abriu a pequena cortina roxa que selava a grade de madeira, o lado bom disso é que quem estava fora não poderia observar quem estava ali dentro. Sentou-se no banco forrado da mesma cor e deixou a cabeça pender para o lado, estava com sono. Talvez não tivesse sido uma boa idéia ter tomado aquela vodka na noite anterior quando voltou da casa de Ruth, mas Deus do céu como tudo aquilo o tinha irritado profundamente! Tudo o que ele tinha trabalhado tão duro para construir e usufruir, e aquela vaca estúpida não podia manter a maldita boca fechada. Por que ela tinha que complicar tudo? O que ele tinha com Carmen era algo bom e saudável para ambas as partes (principalmente para a dele em questão) e como diz um velho ditado ‘’o que os olhos não vêem o coração não sente’’ então por que diabos ela tinha de ter contado para a garota? Agora só Deus sabia quando ele poderia ‘rezar’ com ela de novo.

Balançou a cabeça afastando tal idéia desagradável, se tivesse sorte nenhum chato iria incomodá-lo essa manhã com uma súbita vontade de se confessar. Às vezes Aleister, Padre McDirt gostava de acreditar que Deus era bom, e iria lhe garantir uma boa manhã.

Mas isso era uma grande falácia, assim que estava passando para o sono ouviu passos de alguém se aproximando, e o barulho o estofado quando esse alguém sentou. Maldição! Só um dia, apenas um dia de folga, era pedir demais?

—Perdoe-me Padre, pois eu tenho pecado. —Uma voz grave e masculina ecoou até seus ouvidos.

Padre McDirt pecava a todo o momento e nem por isso ia importunar os outros.

—Uma das maiores virtudes do caminho da fé é reconhecer o seu erro, meu filho. Reze três ave-marias e cinco pais-nossos e serás perdoado. — Ele disse bocejando.

Um breve momento de silencio. Aquele infeliz iria rezar ali?

—Padre, o senhor não tem que ouvir a minha confissão?

—E o que você acabou de fazer meu filho? —McDirt não estava com muita vontade de ouvir coisa alguma na realidade.

—Não padre. Eu apenas disse que pequei, mas não contei como pequei. —O pertinente replicou.

Ótimo, esse era um dos falantes. Se ele fosse breve o Padre conseguiria tirar um cochilo rápido.

—Então fale meu filho, Deus está sempre de coração aberto para escutar uma ovelha desgarrada. —As frases prontas eram sempre as melhores. Poupava tempo para pensar em assuntos mais interessantes, como tortas de cereja por exemplo.

—Eu fiz coisas de que não me orgulho. E algumas delas eu nem sei como fiz. Um apagão total, mas isso não vem ao caso. Eu tenho mentido, roubado e agredido pessoas. Apesar de que algumas delas gostam desse tipo de coisa.

Aquilo estava começando a ficar interessante.

—Nenhum pecado é grande mais para os olhos do Pai, meu filho.

—Não é só isso Padre. Eu também fiz uma coisa monstruosa, e acho que esse pecado não pode ser perdoado.

McDirt não estava com vontade de brincar de adivinhações, era bom aquele chato falar logo, ser absorvido para ele voltar a dormir.

—E que pecado tão grandioso é esse?

—Eu vou matar um homem. —O estranho falou.

McDirt suspirou. Talvez devesse chamar a policia, pois tinha um lunático interrompendo seu sono sacro para falar de coisas absurdas.

—Perdão? Você disse que vai matar um homem? Quer que eu te aconselhe e não fazer isso?

—Muito pelo contrario padre, não vai adiantar de nada seus conselhos. Eu estou decidido e vou fazer isso.

O Padre bufou. Esse era um cabeça dura.

—Muito bem. Acho que você vai ter que rezar muito mais que cinco pais- nossos. —Ele coçou a cabeça, estava quente como o inferno ali dentro.

—O senhor não gostaria de saber quem eu vou matar? —O homem perguntou.

Padre McDirt prendeu a respiração por um segundo. As confissões deveriam permanecer em sigilo, a não ser que fossem de algo premeditado. Nesse caso ele deveria chamar a policia.

—Você sabe que eu não preciso saber disso, isso me fará seu cúmplice. E eu vou ter que chamar as autoridades, meu filho. —Ele disse sutilmente.

—O senhor não vai fazer isso. —O sujeito respondeu.

—Desculpe? O que disse? —Aquilo estava ficando perigoso — Como você sabe disso?

—Porque os mortos não podem falar. —Antes que Padre McDirt pudesse fazer alguma coisa o homem abriu com um supetão a porta do confessionário arrastando-o pelo colarinho da batina. Ele usava um chapéu de cowboy e cheirava a cereja.

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Estava entardecendo o céu estava com um aspecto alaranjado e a as nuvens cortavam o horizonte.

—Ande logo! Você é tão lento quanto uma tartaruga! — Johnny pegou uma pedra no chão e atirou na direção de Luke. Acertou do lado, mas ele sabia que se quisesse acertar teria feito.

—Não me chame de lento! Você que corre demais. Acho melhor irmos embora Johnny, minha mãe vai ficar uma fera se chegar em casa e não me encontrar. — Luke protestou com receio.

—Relaxa cara. Você se preocupa demais. Eu disse pra você que vai ser rápido, vamos dar umas voltas e caçar vaga-lumes. Trouxe o pote não trouxe?

—Está aqui. —Luke estendeu as mãos.

—E você fez os buracos na tampa?

—Claro que eu fiz! Não sou nenhum retardado, ok? — Luke se apressou para acompanhar o passo do amigo. Passavam por uma enorme cerca com vigas de madeira entalhadas, eram pontiagudas para afastar os ladrões do perímetro daquela propriedade.

—Eu não disse que você era retardado.

—Mas insinuou isso.

—Insi o que? —Johnny perguntou abismado.

—Insinuou, cabeça de bagre! Eu ouvi a mamãe dizendo essa palavra outro dia. — Luke se defendeu.

—Você quer se esquecer da sua mãe por um minuto? Parece um bebê chorão que fica toda hora querendo a mamãe.

—Eu não sou um bebê chorão!

—É sim! Bebezão! —Johnny sempre tinha as sacadas mais maliciosas, as vezes Luke se perguntava porque ainda andava com ele.

—Retire o que disse!

—Eu não vou fazer nada disso que você disse. Bebêzinho, o que vai fazer chorar? Quer que eu troque a sua fraldinha, quer? — Johnny andava de costas zombando de Luke. Luke cerrou o punho e sentiu o vidro do pote. Ele iria quebrar na cabeça de Johnny.

—Eu mandei você parar! Seu... —Luke derrubou o pote no chão. A tampa saiu rolando.

—Hey, o que você vai fazer? Luke? Luke está me ouvindo?

Luke não disse nada, apenas apontou para trás. Johnny virou-se e toda a sua coragem foi esvaziada para fora de suas calças. A urina quente pingava no chão. No final das contas não era Luke o bebê da história.

Estava ali completamente dourado pelo crepúsculo, mas ainda sim era real. Por entre a cerca, em uma das longas vigas de madeira pontuda estava um homem. De cabelo grisalho e completamente nu. A viga de madeira entrava pelo seu rabo e saia pega boca, que estava escancarada. O sangue seco oscilava quase negro contra o pôr do sol. Seus braços estavam estendidos pelas outras vigas, era quase uma crucificação bizarra pelo cu. Os urubus estavam rondando e um deles pousado em sua cabeça cutucava um dos olhos. Os urubus eram sempre os primeiros a disputar a boa carne. Ele usava um colarinho branco como o que os padres usam, e o mais assustador era seus olhos, os que os urubus estavam disputando. Estavam abertos e encaravam os meninos de forma gelada.